That's When I Love You II Nothing really matters! Escrita por:Mariana Pereira
Eu corria o mais rápido que minhas pernas permitiam. Snow permanecia fiel ao meu lado, como se entendesse que logo a encontraríamos. Não faltava muito. Mais três portões de desembarque e ela estaria ali, linda como sempre foi.
Parei bruscamente, vendo Snow derrapar e logo se posicionar perto de minha perna direita. Ela ficou sobre as duas patas traseira e me pediu atenção. Não a culpava. Era pequena demais para ver entre tantas aquelas pessoas. Logo ela surgiu. Estava diferente, mas ainda assim mantinha o sorriso largo em seus lábios. Os cabelos, agora pretos, caíam em cachos por seus ombros. A maquiagem era mais pesada do que o habitual, mas nada me tirava da cabeça que ela estava linda.
abriu os braços e seus olhos brilharam. Ela tinha me visto. Ela tinha voltado para mim. Um ano depois e a minha pequena voltaria para a minha vida e seria para sempre minha garota. Ela largou a pequena mala de mão no chão e correu. E foi quando eu me preparava para abraçá-la, uma pequena menina loira passou na minha frente e a abraçou. E então eu ouvi a frase que mudaria a minha vida para sempre.
- Senti sua falta, mamãe!
Capítulo 1 – Stop and stare...
- Mate, você tá com uma cara péssima! – disse quando me viu entrar na cozinha.
Estávamos todos na Austrália, gravando os instrumentais de nosso novo CD. Aquela casa já era conhecida e não era difícil se sentir bem com aquele cenário todo. O único problema era o fato de ela não estar ali comigo.
- Tive um pesadelo – respondi pegando um muffin e enfiando quase todo na boca.
- ? – perguntou desconfiado.
- Quem mais poderia ser?
apenas rolou os olhos. Ele ainda achava que devia ter tido um motivo muito bom mesmo para ela ter feito o que fez e não gostava de quando falávamos dela. Especialmente eu, que nunca falava nela de uma forma carinhosa, por assim dizer. Mas ir embora sem nem ao menos se despedir? Nem eu sou tão cafajeste, fala sério!
Não demorou muito para que eu sentisse algo fofo passar por meus pés. Snow tinha sido minha grande companheira ao longo daquele um ano e meio. Ela não era para ser minha, era um presente para , mas depois do fatídico dia em que ela me deixou, acabei ficando com a bichinha. Não tinha como devolver e eu não queria também. Por um momento pensei que ela tinha me visto de dentro do avião e que pegaria o primeiro vôo de volta. E então, eu me desculparia por ter sido um idiota, lhe daria a cachorrinha de presente e tudo ficaria bem. Mas ela não voltou. Poucos minutos após o avião de ter decolado, começou a nevar. Tá aí o motivo da Bichon Frise se chamar Snow! Não foi exatamente criativo, mas foi o que eu consegui, considerando o estado deplorável em que fiquei por uma semana.
Snow se acomodou em meu colo e ficou olhando enquanto discutíamos sobre alguma besteira qualquer. Ela se parecia com . Era observadora, atenta e não deixava nada ameaçador se aproximar. Bastava sentir o perigo para levantar suas orelhas felpudas e rosnar baixo, nos indicando que algo estava errado. dizia que esse era o motivo de eu gostar tanto dela. Talvez fosse, talvez não. Na pressa de ir embora, deixou um de seus casacos favoritos em meu carro. O que não demorou muito para pertencer à pequena cachorrinha. Não que eu tenha dado para Snow, ela simplesmente se apoderou em uma das vezes que entrou no carro para ir ao veterinário e nunca mais largou. Todas as noites ela deita sobre o casaco e dorme, como se aquilo a protegesse e confortasse. Será que ela sabia a quem devia pertencer?
- estamos falando com você! – ouvi a voz impaciente de
- Ahn?
Snow se mecheu desconfortável e deu um rosnado baixo para ele. Apenas acariciei sua cabeça e ela se acalmou.
- Sai dessa vida de drogas, – brincou . – Vamos nessa, cara. Hora de voltar para casa.
Ir para casa. Eu sabia o significado da frase, claro, mas eu não me sentia assim há muito tempo. Como se na minha casa faltasse alguém... faltasse ela! Eu entendia o , de certa forma. Ela podia ser realmente legal quando queria. Mas, quando não estava afim, era bem cruel. Do tipo que vai embora do país, sabe? Tá, acontece. Só comigo, mas isso era um mero detalhe.
Saímos da quente e ensolarada terra australiana e caímos na fria e chuvosa Londres. Muito frio, dude. Depois de tantas semanas surfando, eu até esqueci como era andar na neve. Nossa van já nos aguardava do lado de fora do aeroporto e em poucos minutos eu estaria em casa. Ou não.
- Eu acho que devíamos fazer uma festa para comemorar nosso retorno e ver todo mundo de uma vez – disse . – Assim me poupa o trabalho de ver um por um.
- Tá maluco? Eu vou é...
- Eu acho ótimo! – disse me interrompendo. – Minha casa ou sua, ?
- Ui, gatinho, pode ser na sua – todos riram da cara sexy que fez. Palhaços!
- Ta, eu acho legal, mas não hoje – respondi mal humorado. – Quero ficar na minha casa, dormindo e não fazendo nada.
Os três me encaravam espantados e Snow fungou, deixando claro que concordava comigo. Ela era assim mesmo, eu batia o pé, ela achava certo e pronto.
- Gente, eu sinceramente tenho medo dessa cadelinha – disse olhando para ela de rabo de olho. – Sou só eu que acho que a reencarnou ali?
Trinquei os dentes. A simples menção ao nome dela apertava meu peito e fazia minha cabeça latejar. Aquele nome só podia ser pronunciado por mim e mentalmente. Odiava ter que dizer que ela era o motivo da minha brusca mudança. Por que diabos eu ainda esperava por ela?
- Não fala besteira, ! – ralhou – Ela só reencarnaria se tivesse morrido e eu sei que isso não aconteceu.
Todos nós olhamos para ele. Sabia é? Hum. Nem ligo!
- Que seja – eu disse revirando os olhos. – Festa hoje eu dispenso, galera. Vão vocês encher a cara em algum pub da cidade. Eu vou ficar em casa.
Descemos da van, que sempre parava no meio do caminho, assim todos nós andaríamos a mesma distância. Peguei minhas malas e a pequena cama de Snow. Ela saltitava ao meu lado e corria pela calçada.
- Bem, se mudar de idéia – disse – nos avise, ok?
- Ta, mas não conte com isso! – eu respondi me despedindo. – Vamos Snow, hora de ir para casa.
Abri a porta da frente e, mal dei espaço, a cachorrinha passou correndo e foi direto ao meu quarto. Larguei tudo na metade do caminho e fui tomar um banho. A água quente me relaxava e depois de horas voando, era tudo o que eu mais queria. Mas, desgraça pouca é bobagem e eu sempre ouvi minha avó dizer isso. Ao ligar o chuveiro, constatei que o mesmo estava quebrado e água quente era tudo o que jamais sairia dali. Talvez até uma cascata de cerveja bem gelada, mas água quente nem em sonho!
Enfrentei o banho frio tremendo e resmungando, mas não tinha outra opção. Saí do chuveiro me sentindo a própria estátua de gelo e Snow escondeu o rosto nos travesseiros quando me viu apenas de toalha.
- Deixa de ser boba, Snow! Eu te dou banho sempre, te vejo assim também – falei rindo e me sentindo idiota por dar explicações para uma cachorra.
Coloquei minha pior roupa e deitei ao lado dela. Com o meu laptop no colo, fui dar uma olhada nas notícias, e-mails, recados e, é claro, postar no Twitter. Incrível como a banda toda ficou viciada! Aliás, se você ainda não segue, pode nos seguir: @mcflymusic. Ta, parei! Fiz nada e mais um pouco naquela noite entediante de domingo até que o meu celular soltou um bip e me fez pular da cadeira.
“Reunião amanhã, às 9 horas. NÃO ATRASA!!!”
O Fletch é tão simpático. Algumas meninas dizem que ele é simplesmente um “pitéu”, ou seja lá o que isso signifique. Ouvi dizerem, quando fizemos nosso segundo show no Brasil. Aliás, dude, o que é aquele país? Impossível não gostar de lá, ainda mais com tantas garotas, bem, com peitos enormes e... erm. Enfim. O lugar é realmente bom e eu não vejo a hora de voltar. Pretendemos fazer isso em breve, ou pelo menos assim esperamos.
O fato é que o Fletch se deu bem lá, então quando queremos acalmar a fera, é só cutucar o ombro dele e falar “Relaxa, garotão, logo estaremos de volta ao Brasil” e ele sossega. Sinceramente, eu acho que ele se apaixonou por alguém. Deus me ouça!
Eu não dei muita atenção para a mensagem dele se vocês querem saber. Ah, que se dane! Pouco me importa o que temos que fazer, terei que ir de qualquer jeito e mesmo que eu me atrase alguém vai ligar freneticamente aqui em casa até me tirar da cama. Então que diferença fazia se eu era avisado ou não? Mas não pensem que eu não ligue para o McFLY. Não é isso. Amo o que eu faço e a banda a qual pertenço. Até aqueles babacas eu amo! Mas isso não faz de mim o mais ajuizado de todos... não mais.
Comecei a sentir meus olhos pesarem e ler aquelas mil e tantas mensagens no Twitter já não parecia tão divertido.
- Ei, você está ficando folgada! Vai mais para o canto, você está no meio da cama! – eu resmunguei empurrando Snow. Ela apenas pulou em cima de mim – Eu também te amo! Agora, deita e dorme! Seja uma boa menina e não ronque durante a noite!
Ela se ajeitou ao meu lado e, em poucos minutos, nós dois adormecemos. E não demorou muito para que começasse, novamente, a invadir os meus pensamentos.
Capítulo 2 – Yesterday
Foi uma merda de reunião, falando bem claro. Primeiro, me avisaram em cima da hora que era na casa onde montaríamos nosso novo estúdio e não na sede da Super Records. Segundo, me disseram que a Snow não poderia ir porque ela só iria atrapalhar. E terceiro, o que me fez logo compreender o segundo requisito, não era uma droga de reunião. Era apenas para limparmos a casa. Agora olhem para mim, , membro de uma banda famosa internacionalmente, limpando uma casa? Vocês têm idéia da quantidade de lixo que tivemos que tirar de lá? E eu sou alérgico a poeira cara. Passei mal o dia todo! Alérgico a poeira... assim como ela é. Ou seja, um resumo mesmo de hoje foi eu simplesmente espirrando e pensando na o dia inteiro. Isso foi frustrante. Não, pior, foi broxante!
Eu ainda não sei por que diabos deixamos o escolher de novo onde seria o nosso próximo investimento. Quero dizer, ele já fez uma bela burrada comprando o nosso escritório no fim de Londres. Agora a casa que montamos o nosso estúdio fica... no meio do nada! Só porque tem piscina! Dude, quem precisa de piscina quando se mora em Londres, o centro do universo chuvoso? Mas não, deixa que o resolve. O é PHD em consultoria imobiliária. O entende tudo! O é uma... anta! Como se o ladrão que fosse invadir a nossa nova casa-estúdio fosse nos convidar para uma “nadadinha” antes de nos matar. Me poupe!
O fato é que, além de terem me feito limpar tudo, eu tive que dormir lá. E detalhe: sem a Snow, que por sinal ficou sozinha em casa. E vou te contar, algo me diz que essa casa é mal assombrada. Eu tenho certeza que ouvi barulhos durante a noite. Claro, desconsiderando os roncos do .
Mas isso não era o pior de tudo. Os roncos, eu digo. Fiquei revirando na cama por horas, pensando em tudo o que eu tinha feito em 20 e tantos anos de vida. Muita coisa tinha acontecido. Problemas em casa quando eu era mais novo, soluções que pareciam surgir com o crescimento da banda. Muito trabalho. Mas não era nisso exatamente que eu estava pensando, sabe? Era... no que eu fiz para que ela fosse embora. Eu devo ter dito alguma coisa muito ruim sem perceber. Além daquele dia em que discutimos porque ela não sabia se teria filhos ou não. Tudo bem, já botei na minha cabeça. Eu, ela e a Snow formamos uma família legal.
Durante algum tempo depois que ela se foi, eu fiquei, literalmente, na merda. Os meninos me ajudaram muito, mas não foi o suficiente. Ela ainda está em tudo o que eu vivo. Eu não sou mais o homem que eu costumava ser. Eu tenho agora uma vida dividida em três partes: antes, durante e depois de . E isso era terrivelmente ruim.
Não agüentei mais ficar deitado. Saí do quarto e mergulhei na escuridão que aquela casa imensa se encontrava. Ainda não descobri como encontrei o caminho para a piscina. Pareceu tão fácil. Pela primeira vez eu agradeci o pelo quintal que tínhamos. Ali era um bom lugar para se esconder, já que a casa era no meio do nada, e para pensar, já que exalava tranqüilidade de todos os cantos e partes em que você se sentasse.
O que me chamou a atenção é que uma sombra estava sentada na beirada da piscina. Não uma simples sombra, mas alguém que parecia estar me esperando. Certo, assombração com hora marcada era tudo o que eu mais queria na vida. Andei alguns metros e só então descobri que aquela assombração era apenas . O que não deixa de ser uma assombração!
- Insônia? – perguntou ele visivelmente entediado.
- Digamos que sim – respondi com um suspiro e me sentei ao seu lado. A água estava fria. – Ta fazendo o que aqui a essa hora?
- Pensando na vida. Nas pessoas que eu amo, que eu sinto saudades. E você?
Não contive uma risadinha.
- Pensando na , como sempre.
pareceu se comover com isso. Ele era meu amigo. Meu grande amigo. Se eu precisasse, eu só precisava suspirar e ele estaria ali. Não que os outros dois não fossem assim, mas com ele era diferente. Ele era tipo um anjo protetor de todo mundo da banda. Se você se metesse em apuros, o te salvava. Se você estivesse chorando, ele te daria os dois ombros dele. Se você estivesse caindo, a mão de era a primeira a aparecer. Sempre foi assim. E comigo não era diferente. Com não era diferente.
- Você jamais vai esquecer essa garota, não é ?
- Você também não! – respondi ligeiramente irritado.
- É diferente. A é minha amiga. Quase minha irmã – ele me olhou. – Você ainda a ama.
- Estou tentando fazer tudo diferente, .
- E se ela voltasse?
Prendi a respiração. Por muito tempo eu sonhei com isso, mas quando me pegava pensando e realizando a cena, nunca sabia o que dizer ou o que eu faria.
- Se ela voltasse...
- Você a aceitaria de volta? – ele perguntou.
Olhei para o meu amigo com um ar de derrota. Ele sabia o que eu responderia, sabia que eu era tão dependente dela como um viciado dependia de sua droga.
- Eu sonho tanto com isso, . Tanto. É difícil até te falar o quanto eu queria que ela voltasse.
- Você não é o único, cara – ele respondeu sorrindo. – Eu queria muito a minha pequena de volta.
Ficamos um tempo em silencio. Por que ela teve que ir? Ela jamais me diria. Uma dor foi tomando conta do meu peito e meus olhos novamente se enchendo de lágrimas. Era assim todas as vezes que eu pensava nela. Tudo doía e eu só melhorava depois de chorar e dormir.
Levantei rápido e estava voltando para dentro de casa quando a voz dele me fez parar.
- Não precisa correr, – ele disse. Quando me virei, ele estava em pé. – Pode chorar aqui, eu não vou te julgar muito gay por isso.
Nós dois rimos. E como se eu fosse o filho e ele o pai, abracei e chorei feito uma criança.
- Eu preciso voltar a viver, cara.
- Eu sei, . Isso vai passar, eu sei que vai. Eu sinto que logo tudo isso acabará.
Não perguntei por quê e nem tinha forças para isso. Apenas chorei com ele, depois fomos cada um para o seu quarto e no dia seguinte, voltamos para casa.
Capítulo 3 – Razões para sonhar
Me acordaram antes das 10 da manhã e reclamaram quando eu entrei no carro de péssimo humor. Não mereço isso.
- , você realmente tem que levar a Snow para todos os cantos? – perguntou afagando a cabeça branca da minha cachorrinha – Quero dizer, ela não incomoda, mas você já parou para pensar que talvez ela gostasse de um pouco de sossego? Essa correria é sua, não dela.
Olhei carinhosamente para a pequena bola aninhada no colo do meu amigo. Já pensei sim, mas deixar Snow para trás era reviver o mesmo sentimento de ser deixado para trás por . E eu definitivamente não estava muito afim disso.
Permaneci em silêncio, apenas imaginando onde ela estaria agora. Talvez em um passeio romântico com o canalha do estagiário dela. Claro, porque ninguém me tirava da cabeça que ela tinha ido embora com ele porque eles eram um casal apaixonado e não conseguiam se separar mesmo que eu estivesse no meio para atrapalhar. Para cima de mim? ? Um rapaz muito bem vivido até agora, com uma vasta experiência? Sai dessa, mané. Não mesmo!
- O que estamos fazendo aqui? – perguntei exasperado ao ver exatamente onde eu tinha ido parar. Pô, era o escritório da O2, cara.
- Temos reunião com um novo grupo de direção. Clipe novo, ! Foco! – respondeu Fletch.
deu três tapinhas simpáticas nas minhas costas e todos nós descemos do carro. Certo, eu podia fazer isso. Peguei Snow do colo de e segui o grupo todo. Quanto mais próximo eu chegava, mais forte meu coração batia. Tenho certeza que a cachorra percebeu, pois me olhou desconfiada, como se tivesse medo que eu caísse a qualquer momento. Quando passamos pela imensa porta do escritório onde trabalhava, coloquei Snow no chão. Ela olhou para todos os lados e sentou. Não contive um sorrisinho, mas logo me tirou do meu transe. Conversamos por um tempo até eu perceber que não havia mais nada ao meu lado.
- Ah cacete, Snow! – eu chamei, mas ela não veio. – Snow! Volta aqui, sua peste. Snow !
Saí andando por todo o escritório, mas não a encontrei. Bom, só havia um lugar que eu não tinha passado, mas ela não faria isso comigo... faria?
- Ah, aí está você – eu disse aliviado quando a encontrei. – Não fuja assim! Papai morre sem você.
E então, o grande choque: eu estava parado em frente a porta de vidro da sala de . Senti um arrepio passar por todo o meu corpo quando vi que a luz estava acesa. Ela não podia estar ali. Quero dizer, tá, fazia um ano e alguma coisa que ela tinha ido embora, mas será que ela não me daria um mísero telefonema dizendo que havia voltado? Eu ía me fazer de difícil, mas claro que a perdoaria. Eu a amava! Eu tinha sonhado com o seu retorno por tanto tempo, em como ela se explicaria, em como eu contaria que tinha sofrido muito, mas que estava feliz por ela ter voltado. Eu estava perdido em meus pensamentos quando reparei que uma pequena bola rosa passou pela porta de vidro. Uma risada gostosa ecoou do fundo da sala e eu imediatamente concluí que aquela risada só podia ser de uma única pessoa.
Snow começou a latir freneticamente, de tal forma que eu achei que ela estivesse passando mal. Era um latido estridente, de doer os ouvidos até. Ela começou a se contorcer no meu colo e, assim que a coloquei no chão, ela investiu contra a porta, arranhando-a o mais feroz que podia.
- O que você está fazendo, sua maluca? – perguntei confuso.
E foi aí que, para a minha surpresa, ela surgiu na porta. Linda, sorrindo. Do jeito que eu a encontrei em meu sonho. Cabelos em longos cachos pretos caindo pelos ombros, seus olhos brilhando e seu sorriso perfeito. Quando nossos olhares se encontraram, ela pareceu demonstrar todos os tipos de sentimento ao mesmo tempo. Surpresa, medo, felicidade, raiva... serenidade. Ela continuava bela e serena como sempre fora. Pensei em sair correndo, mas Snow continuou seu show de péssimas maneiras e a atenção de foi atraída para a cachorrinha. Ela sorriu para o pequeno animal e abriu a porta.
- Erm, acho que... seu cachorrinho queria entrar – ela disse sem jeito.
- É cachorrinha! – respondi automaticamente.
- Certo.
Ela não me olhava. Por quê? Eu queria ver de novo os olhos que eu tanto amava, mas ela não me olhava. Uma risada diferente chegou aos meus ouvidos e eu gelei. Era a risada de uma criança. Uma criança não muito grande por sinal. Uma pequena criança.
me olhou e saiu andando em direção ao som que ouvimos. Não consegui me mexer por alguns minutos, mas quando o fiz, me arrependi. estava sentada no chão, rodeada de brinquedos, com Snow ao seu lado e uma linda menina sentada em seu colo. Não devia ter nem um ano ainda. Olhos cor de mel, lábios rosados e um sorriso angelical. A pequena me olhou com curiosidade e atirou a bola rosa, antes nas mãos de , em minha direção. A bolinha caiu aos meus pés e eu nem ao menos me movi. A menina pareceu triste e ameaçou chorar. Snow rosnou para mim.
- É daqui que vem o som dessas risadas gostosas? – ouvi Matt perguntar atrás de mim.
Quando me virei, ele pareceu surpreso. Certamente não esperava que eu aparecesse ali para conhecer sua querida... humpf, não consigo nem falar. Até porque não precisei. A menina falou por mim.
- Papá! – ela disse estendendo as mãos para ele.
- Oi minha gatinha! – Matt se ajoelhou ao lado de e da menina. – Papai veio te buscar para passear no parque! O que você acha?
Meu estômago começou a se contorcer. Papai? Se ele era o pai, então a mãe era...
- Matt, está muito sol para sair com ela agora. Além do mais, você está estragando nossa brincadeira – disse rindo. – Estávamos jogando futebol, não é Liz?
Esqueceram completamente da minha presença ali. Também pudera, a menina realmente era encantadora. Mas eu não conseguia pensar em nada mais. Fazia contas mentalmente, o que é um marco na minha existência, já que eu nunca fui bom em contas. Pelo tempo em que ficamos juntos, que chegou à Londres e que ela esteve fora, em Paris, ela só podia ser a mãe. Então era por isso que ela nunca quis que eu avançasse o sinal. Por isso que nunca transamos! estava grávida esse tempo todo e não queria que outra pessoa além de seu adorável estagiário tocando-a. Mas isso era absurdo! A gente se pegava na frente dele. E ele tinha a Jammie! O que aconteceu com ela? Ela era amiga de . Meu Deus, traiu todo mundo! Filha da...
- Aposto que passear no parque vai ser muito mais legal do que jogar futebol numa sala de escritório! – a voz de Matt voltava lentamente para a minha cabeça. – Não vamos demorar.
Ao dizer isso, ele pegou Liz do colo de , beijou-lhe carinhosamente a testa e saiu fazendo farra com a menina pelos corredores. Snow permanecia fielmente ao lado dela, me olhando como se esperasse alguma reação.
- Eu posso te ajudar em alguma coisa, ? – arrepiei somente com a voz dela dizendo meu nome.
- Não acho que exista mais alguma coisa que você possa fazer por mim – eu respondi seco. – Vamos Snow, temos que encontrar o resto do pessoal.
Eu estava saindo, mas notei que a cachorra não veio comigo. Quando olhei para trás, estava em pé e Snow continuava ao seu lado.
- Snow, eu falei VAMOS!
- Não fale assim com ela – disse em tom maternal. – Vai com ele, pequena. Seja uma boa cachorrinha!
Não pude evitar uma risada irônica. Ela estava muito mãe! Ela estava aconselhando a minha cachorrinha, a cachorra que eu criei, a me obedecer.
- Ela não é sua filha, não adianta falar com esse tom meloso! – eu retruquei bastante rabugento, confesso. Fui até ela, peguei Snow no colo e estava saindo quando alguém passou correndo por mim.
- Ah meu Deus, você voltou! – disse apertando num abraço. – Que saudades que eu senti de você, pequena. Por que não me disse que tinha voltado?
- Porque eu acabei de chegar, – ela respondeu rindo. – Nossa, que saudades de vocês!
e também apareceram e a abraçavam. olhava confuso para todos aqueles brinquedos no chão e notou.
- ...
- Tudo bem, – ele disse levantando a mão, sorrindo em seguida. – Não vamos te julgar por isso. Não se preocupe. Você continua sendo a nossa !
O clima de festa passou a me incomodar totalmente e eu apenas virei as costas e saí andando. Voltaria para casa a pé se fosse preciso, mas não ficaria ali nem mais um minuto. Nunca mais.
Capítulo 4 – Hush, hush...
Ela tinha voltado. E ela tinha uma filha. Cara, uma fi-lha! Como lidar com isso de uma forma humanamente correta, sem querer atirar o namoradinho dela pela janela? Sim, porque eu não sou tão desumano assim a ponto de querer atirar a... Liz. Eu estava saindo do escritório quando ouvi a voz de Fletch ecoando pelos corredores. Ele que não me amole, senão hoje ele apanha!
- Eu só quero saber se você quer que o motorista te leve para casa – perguntou ele sem jeito. What the fuck?
- Ah – respondi – não, tô tranquilo, valeu. Só vou... erm... tomar um café ali na cantina, não se preocupe comigo!
Fletch apenas assentiu com a cabeça e voltou para a sala. É, a sala de . Não sei que diabos estava acontecendo lá, mas eles fecharam a porta e tudo parecia realmente sério. Eu só não conseguia pensar em um bom motivo para estar todo mundo ali, e não aqui, me consolando. Dane-se, fui tomar meu café!
’s POV
Hallo! Sou o , amigo do desmiolado do e da minha pequena ! Ele não acredita até agora quando eu falo, então se recusou a contar a vocês o que de fato aconteceu. Aí eu mesmo vim contar, porque eu sei que vocês estão achando a mesma coisa que esse cabeça de vento. Ou vai me dizer que vocês não pensaram que a é uma sem coração? Jamais. Ela tem um coração enorme. Quer saber por quê? Vou contar. Quando eu entrei na sala dela...
- Ah meu Deus, você voltou! – eu disse apertando num abraço. – Que saudades que eu senti de você, pequena. Por que não me disse que tinha voltado?
- Porque eu acabei de chegar, – ela me respondeu rindo. – Nossa, que saudades de vocês!
Não demorou muito para que e se juntassem à nós e a abraçassem também. A impolgação era tanta que esquecemos do . É po, esquecemos, e daí? Ele ficou bravinho e saiu batendo o pé.
- ... – ela disse quando reparou que eu observava os brinquedos
- Tudo bem, – eu respondi levantando a mão e sorrindo. – Não vamos te julgar por isso. Não se preocupe. Você continua sendo a nossa !
- Eu sei , mas eu preciso contar. Esses brinquedos são da Lizzie, filha do Matt.
- Do Matt? Hum – disse pensativo. – E quem é a mãe dela?
A franziu a testa de um jeito engraçado.
- A Jammie, oras! – ela respondeu como se aquilo fosse óbvio.
Nós três nos encaramos com cara de bunda. Da Jammie?
- Mas , não faz sentido – começou . – Se vocês foram embora juntos e voltaram com uma menina, ela só pode ser sua filha!
Eu, e demos um pedala triplo em . Ele merecia!
- Não , não pode. A Jammie foi para a França também. Ela está lá ainda. Volta no próximo mês.
Continuamos pensando. Se a Jammie foi para a França, o Matt e a também, logo a já não precisa ser necessariamente a mãe da Lizzie, o que nos faz pensar que... que... o que mesmo?
- Tá, eu explico – ela disse ao ver que ainda não tínhamos captado a mensagem. – A Jammie ganhou uma bolsa de estudos em Paris, mas ela iria sozinha. Ao saber disso, nosso chefe ofereceu ao Matt a oportunidade de passar um ano na França. Eu recebi o mesmo convite, mas recusei por causa do... Enfim, eu não ía. A Jammie descobriu, então, que estava grávida, o que não ajudaria nos estudos, já que ela teria que parar para cuidar da Liz. O Matt, ao saber disso, decidiu ir junto. Eles passaram três meses tentando me convencer a ir com eles, mas eu sempre negava, até o dia da premiação.
- O dia em que você foi embora – concluiu . – Mas por quê?
deu um longo suspiro e começou a recolher os brinquedos. Não parecia a vontade para falar do assunto, mas nós estávamos curiosos demais para deixar isso de lado.
- Por que não foi fácil ver o e a namorada dele juntos, felizes, celebrando o prêmio junto com o filho deles – ela fechou os olhos com força. – Ele deve estar grande já, né? É o que? Menino ou menina?
Ficamos olhando atônitos para ela. Só podia ser brincadeira.
- Você não leu nenhuma revista enquanto esteve fora? – perguntei incrédulo.
- Hum, não exatamente. Era demais para mim ver fotos da família feliz.
não conseguiu se segurar e começou a rir. Não foi simpático da parte dele.
- , o filho não era do . Eu mesmo estava no hospital quando ele chegou, eu vi o exame. Era tudo mentira dela!
Não percebemos Fletch entrar na sala, mas ela não deixou isso passar em branco. Se mexeu desconfortável, ainda guardando os brinquedos.
- Ele tentou te dizer, – disse meio aborrecido. – Mas não chegou a tempo no aeroporto.
E então foi como se uma luz fosse acesa diante dos olhos dela. E ela se lembrou de algo. No instante em que ela falaria o que havia pensado, seus pensamentos foram cortados por um empresário chato pra caramba.
- Meninos, vamos embora. Parece que alguém deixou o amigo de vocês novamente naquele estado que vocês bem conhecem!
! Puta que pariu! Nos despedimos rapidamente de e saímos correndo ao encontro do nosso amigo, que precisava saber de muita coisa.
E então? Acreditaram nessa baboseira toda? O sempre defendeu a e não seria diferente agora. Ele gosta bastante dela. Uma vez eu cheguei a pensar que ele fosse apaixonado por ela, mas aí eu escutei, sem querer claro, uma conversa dos dois. estava perguntando quando uma amiga dela chegaria. Acho que ele se apaixonou pela foto da menina ou algo do tipo. Quando eles saíram da cozinha, fui ver as milhões de fotos na porta da geladeira da para descobrir quem era a tal menina. Mas todas as fotos eram com amigos e amigas, então foi impossível descobrir.
Não sei quanto tempo demorou, mas vi o quarteto , , e Fletch entrando na cantina. Snow levantou as orelhas, mas logo abaixou. Deve ter pensado que viria junto.
- Vamos para casa, ? – perguntou Fletch.
- Temos uma reunião, não temos? Vamos ficar, oras! – respondi.
- Para com isso . A Lizzie não é filha da .
- E no que isso muda a minha vida, ? – perguntei irritado – Não apaga o dia que ela me deixou, não me faz esquecer todos os dias em que eu esperei que ela entrasse na minha casa gritando meu nome ou os dias que eu fiquei horas e horas na porta da casa dela. E não venha me dizer que a menina não é filha dela. Não tem como não ser.
- , eu sei que você tem todos os motivos para não acreditar no – explicou . – Mas você pode acreditar em mim. A achava até hoje que o filho da Frankie era seu também!
- Ela diz que achava, . Diz! Como ela também dizia que me amava e foi embora com o estagiário dela. E se querem saber, eu estou cheio disso. Para mim, está mais do que morta!
Na hora eu não entendi o motivo de todo mundo prender a respiração. Até Snow parecia meio em choque. Só depois de alguns minutos que eu olhei para a porta e vi parada lá, com os olhos úmidos e arregalados. O máximo que eu consegui fazer foi suspirar e voltar a olhar meus amigos para, logo em seguida, ouvir o sininho da porta indicando que alguém havia saido. E esse alguém era a mulher que eu estava tentando tirar, sem sucesso algum, da minha vida.
Capítulo 5 – Mouth shut
Tá legal, sem sucesso algum uma ova. Ela ía sair da minha vida nem que para isso eu tivesse que matá-la. Certo, eu não a mataria. Mas vocês entenderam o contexto do problema. Eu estava decidido a tirar da minha vida, como estive tantas e tantas vezes, mas agora seria para sempre. E sabem o que eu fiz para esquecer? Enchi a cara, claro!
Quando a gente termina um relacionamento, ou quando se tem um, coisa que eu não andei tendo ultimamente, é quase que comum, a ordem natural das coisas, que os amigos se reaproximem. Liguei para aquela penca toda de gente que eu conheci ao longo da minha vida. Tudo bem que mais da metade estava namorando, mas ainda sobraram três gatos pingados e foi com eles que eu saí.
Fomos a um pub meio capenga no centro de Londres. Estava lotado e eu fui reconhecido algumas vezes. Isso foi um problema, mas também uma solução. Logo eu estava cercado de garotas loucas por uma boa noite de sexo. Tudo caminhou perfeitamente bem. Eu tinha me esquecido como era ser um cafajeste garanhão, por isso tive alguns problemas no começo. Não era fácil ir e voltar do banheiro, cada hora com uma. Dude, elas eram insaciáveis. Na quinta vez, eu desisti.
- Não aguento mais – eu disse me recostando no balcão do bar enquanto uma ruiva beijava freneticamente o meu pescoço. – Estou fora de forma para essa pegação toda.
- Que isso, ? – perguntou Ben que, pasmem, tinha uma loira sentada em seu colo. Preciso dizer que ele estava comendo ela ali? – Negando fogo? Pensei que tivesse deixado de ser viado!
A menina soltou um gemido e uma risada ao mesmo tempo e fez o som mais bizarro do mundo. Fiquei com nojo!
- Nunca fui viado! – respondi rindo – Só tinha relaxado um pouco. Mas você nem pode falar nada, seu animal. Tá na primeira ainda. Já fui com cinco!
A ruiva soltou um guincho de desaprovação e eu apenas mordi de leve sua orelha. É fácil domesticar essas meninas.
Já eram quase seis e tantas da manhã quando resolvemos ir embora. Ben saiu com três meninas e eu saí com a tal ruiva que eu não lembrava o nome. Ela parecia saber de tudo que eu gostava, porque me tocava nos lugares certos. Isso estava me deixando maluco, então o máximo que eu consegui foi leva-la até o quarto e terminar o serviço todo. Ela iria embora, eu nunca mais a veria e estava tudo bem assim.
Dito e feito. Algumas horas depois, eu acordei com o meu celular berrando do meu lado. Era , dizendo que teríamos reunião na O2 e que dessa vez precisávamos conversar sobre o novo clipe. Dispensei a menina, que disse que ficaria esperando que eu ligasse (doce ilusão!) para nos encontrarmos novamente, e fui me arrumar. Não demorou muito para que o carro chegasse. Como eu sabia que estaria lá, deixei Snow em casa.
Parecia que nenhum dos meus amigos tinha coragem de falar comigo. Eles sabiam que aquele escritório me deixava tenso e sem respirar por tempo indefinido. Mas parece que tudo estava se tornando normal. Quero dizer, o bom, velho e gostoso estava voltando, então tudo estava ficando perfeitamente bem.
- A gente tem que encontrar uma nova equipe para o clipe, certo? – perguntou quase que num sussurro.
- Acho que sim – respondeu desanimado.
- Ah, qual é garotos. Vocês já fizeram isso, não vai ser difícil! – disse Fletch encorajando os outros.
A única voz que eu não ouvi foi a de . Ele estava sentado de frente para mim e eu o encarei.
- Que é? – perguntou ele – Quer que eu proteste para você poder responder e brigar comigo? Não vou te obrigar a continuar com a , apesar de ela ter sido a melhor diretora e com a melhor equipe que já tivemos.
Todos ficaram me olhando depois disso. parecia realmente zangado por ter que trocar de equipe. Não vou dizer que eu não estava chateado. Apesar de tudo, eu reconhecia o talento de toda aquela galera que acompanhou a gente por meses naquele clipe de Falling in Love.
- Olha, gente – falei envergonhado. – Se vocês não quiserem escolher uma nova equipe, tudo bem. Eu agüento e até concordo que foi a melhor turma com quem trabalhamos. Sério, não vou ficar bravo nem nada.
apenas deu uma risada irônica e desceu do carro assim que ele foi estacionado, disparando em direção ao escritório.
- Ta tudo bem, – disse Fletch me dando um abraço. – Nós vamos encontrar uma turma nova.
Todos eles entraram. Fiquei parado na calçada fria por alguns minutos. Eu sabia que eles não estavam felizes com a minha fase “maluco beleza” e pegador de menininhas. Menos ainda por eu voltar tarde e eles terem que me acordar todos os dias. Vamos combinar que depois que ela foi embora, eu desandei totalmente e até deixei de levar a banda muito a sério. Talvez eu pudesse reparar isso de alguma forma, não sei. Respirei fundo. Na verdade, eu sabia sim o que eu podia fazer. E era exatamente isso que eu faria. Daria um jeito de concertar essas burradas que eu fiz nesse último ano e ajudaria os meus amigos.
Não esperei o elevador. Subi ligeiro pelas escadas e anotei mentalmente que eu precisava fazer atividade física. Meu coração quase ficou no meio da escada! A única coisa que me matava além do cansaço era que eu sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Eu não conseguiria ficar de boca fechada por muito tempo. Eu só tinha que me preparar porque, apesar de consertar, eu ía acabar com todo o resto. Mas teria que ser assim.
Me aproximei daquela sala tão conhecida por mim e ouvi vozes. estava lá e falava rápido com ela.
- Eu sei que ele é meu amigo, – ouvi ele dizer. – Mas caralho, outra equipe?
- , por favor, se acalma! – quase implorou. – Olha, eu conheço a galera daqui, eu vou indicar algumas para o Fletch. Eu prometi que não deixaria vocês na mão não importasse o que acontecesse.
Silêncio.
- Tudo podia ter sido diferente – ele disse.
- Desculpa pela milésima vez, mas você sabe que eu não tenho sangue de barata!
- Eu sei , eu sei! Não estou falando de você.
Certo, agora era a minha hora de entrar. Eu acho. Bato? Não, vou entrar de uma vez... um, dois, três, entrei!
- Eu só me sinto morta, da mesma forma que ele desejou que eu estivesse.
Puta que pariu! Isso doeu em mim.
- ? – disse assustado quando me viu.
ficou tão branca e tão espantada que eu jurei que ela fosse desamaiar. E agora? Eu estava dentro da sala, eu tinha interrompido o papo deles, meu amigo me olhava meio desconfiado, minha ex (humpf!) estava quase batendo as botas.
- Eu... quero falar com ela – eu disse. – Pode sair por favor, ?
- , eu não acho...
- Sai, . Ele ta pedindo.
Me arrepiei todinho. Ela estava me ajudando a botar o adorado dela para fora. Uau, isso é um avanço e tanto! não disse nada. Apenas deu um beijo na bochecha dela e saiu, me dando um tapinha carinhoso nas costas. Encarei meus pés por alguns minutos e tudo o que eu podia ouvir era a respiração dela. Certo, agora era a hora de acabar com tudo.
- Não quero ouvir sua voz enquanto eu estiver nessa sala, ok? – eu a olhei. Ela concordou com a cabeça, ainda extremamente aterrozidada. – O que eu vou dizer, , vai acabar com tudo e ao mesmo tempo manter tudo. Não quero saber o que diabos te levou a ir para Paris com o Matt ou por quê cargas d’água você voltou. Só quero que você saiba, primeiro, que você fodeu a minha vida. Eu imaginei que você fosse voltar, mas desse jeito? Com uma filha?
- , ela...
- Eu disse que não quero ouvir sua voz! – gritei. – Cacete, , você acabou comigo! Fiquei semanas sem comer, semanas sem dormir, semanas chorando em casa. Cancelamos shows, cancelamos tudo porque eu não conseguia me mexer. E agora você está acabando com a minha banda também. Mas eu não vou deixar.
Andei impaciente pela sala. Algumas coisas que eu havia levado continuavam lá. Nossa foto no porta-retrato estava da mesma forma. Ao lado da tela do computador. A mesma que eu tinha em casa e no escritório. Nossa melhor foto. Peguei o objeto e ouvi ela prender a respiração.
- Você e sua equipe vão continuar dirigindo nossos clipes – eu disse parando em frente a garota que eu tanto amava. – Vão continuar acompanhando a gente porque não vou negar que você tem um puta talento. Aliás, obrigada pelo prêmio de Falling in Love. Você foi tão covarde fugindo que eu não pude nem agradecer.
Eu apertava o porta-retrato nas minhas mãos. Comecei a achar que ele quebraria a qualquer minuto. Ela fez menção de pegar, mas eu não dexei.
- Isso aqui estava em todos os lugares, sabia? – eu disse apontando para a nossa foto. – No meu quarto, no escritório e provavelmente estaria no nosso estúdio também. Eu queria tanto, tanto ser diferente com você. Eu tentei ser o único. Você dizia que me amava, lembra?
- , por favor... – ela sussurrou e se encolheu com o jeito que eu a olhei.
- Mas agora isso não serve para mais nada, . Nada! – e ao dizer isso, eu fiz algo que provavelmente jamais faria se estivesse consciente. Atirei o objeto contra a parede e, assim como o vidro, a foto e a moldura viraram meros pedaços caídos no chão.
Grossas lágrimas escorreram pelo rosto dela e eu tive que me segurar para não chorar também. Era o fim de tudo e eu não podia fraquejar, então me contive. Quando ela fez menção de se abaixar para pegar os cacos, eu a segurei.
- Não adianta tentar pegar, não adianta tentar colar. Nada daquilo tem volta. Aquilo agora é só um pedaço de lixo. Aquilo, , era o amor que eu tinha por você! E se você ainda tem um pingo qualquer de dignidade dentro de você, esteja naquela? merda de sala de reuniões em meia hora. É o tempo que eu te dou!
Soltei o braço dela, que eu apertava sem perceber e saí da sala. Bati a porta e, quando ouvi o soluço de dentro da sala, fui para o banheiro, me apoiei na pia e chorei, tanto quanto eu sabia que ela estaria chorando. Agora sim, tudo estava acabado.
Capítulo 6 - Point of view
Bom, eu chorei muito e ela também. Quando a vi entrando na sala de reuniões, com os olhos enormes e vermelhos, me senti um pouco vitorioso. Só não me achei tão bom assim quando vi um curativo em sua mão.
- O que foi isso, ? - perguntou .
- Ah, eu derrubei um porta retratos e cortei a mão quando fui pegar - ela respondeu evitando me olhar. - Não foi nada , ta tudo bem.
Fizemos uma reunião e, uau, ela já tinha um projeto de clipe para o McFLY. Mesmo que o nosso CD tivesse saído há algum tempo, mesmo que Falling in Love fosse, possivelmente, o último clipe, não deixou de pensar um segundo se quer em um novo vídeo. Pelo menos foi o que ela disse e o que eu fingi não ouvir, mas que estava de orelhas em pé. Talvez Paris não tenha sido tão interessante, afinal. Falando em Paris, nunca mais vi a tal filha dela com o estagiário. Devem ter arrumado uma babá ou algo assim. Que pena. Apesar dos pais que ela tinha, Lizzie era simpática e muito carinhosa. Palavras de , como sempre!
- Por que POV? - perguntei rabugento. Só queria ver se ela explicaria olhando nos meus olhos.
Merda, ela olhou!
- É uma música bonita, com um ritmo bom e dá para fazer cenas bem interessantes - ela disse e balançou os ombros. - Os fãs certamente não esperam por um clipe dela, o que vai chamar ainda mais a atenção.
Certo, eu não fui o único a ficar de queixo caído. Ela estava sendo extremamente profissional e nem deixou o estrago que eu, tecnicamente, fiz na mão dela interferir. Mas aquilo estava me incomodando. O machucado, eu digo. Não queria ter feito algo de mal além do psicológico, claro. Qual é, eu tinha um plano. Eu ía judiar um pouquinho, mas no final eu ía deixar de ser um menino malvado e ía conversar com ela. Mas as coisas jamais foram fáceis e controladas na minha vida. Quer uma prova? Vamos lá!
Minha mãe quase morreu quando eu tinha quatro anos de idade, depois meu pai ficou desempregado. Descobri que ele traía a minha mãe e uma semana antes de eu entrar para o McFLY, ele abandonou a nossa família. Depois disso, entrei para uma banda, virei um dos caras mais famosos, ricos e desejados (modéstia a parte) da Inglaterra e do mundo (hihihi!). Dei um pé em várias namoradas, comi uma errada que quase tentou me passar a perna com um golpe de gravidez, adotei uma cachorra que age mais como minha mãe do que minha própria mãe e, para finalizar, estou massacrando uma mulher que eu amo. Há, quero ver você ter uma vida mais louca e descontrolada do que a minha.
- O roteiro é o seguinte - disse me tirando do meu momento autobiográfico - eu acho que o seria indicado para fazer esse papel. Não sei, a música parece combinar com ele, num bom sentido !
- Ah, bem, obrigado... eu acho! - ele respondeu rindo.
- Durante a introdução, vamos mostrar um dia amanhecendo, você acordando. Depois, quando a música começa, você senta na cama e começa a pensar em tudo o que você passou com a menina. Vamos mostrar cenas dela chorando, rindo, brincando e indo embora, como se você estivesse lembrando disso. Depois a banda inteira aparece para o refrão e, ao final, a cena volta para você. Na tomada seguinte, você aparece andando na calçada, sem rumo. Olhando tudo, olhando os lugares que você e a menina costumavam ir. Você tira uma foto do bolso e rasga, joga numa lixeira e aparece uma cena de vocês brigando. É outra lembrança sua. Volta a banda para o refrão. No instrumental, você entra em um shopping e está andando, sem perceber que ela está andando na sua direção, mas sem te notar. Quando chega no auge do instrumental, vocês se olham, viram as costas um para o outro e continuam andando. A banda entra pela última vez. No final, você volta para casa, pega todos os porta retratos de vocês, todas as cartas, os presentes, coloca numa caixa e joga tudo no lixo. O clipe termina com o caminhão passando e levando tudo embora.
- , desculpa eu me intrometer - disse Matt. O que ele estava fazendo ali? - mas qual será a luz do ambiente? Preciso começar a pesquisar lugares para fazer as filmagens.
- E quem disse que aceitamos o roteiro para você já procurar o lugar? - perguntei.
- E então, vocês aceitam, tem algumas idéias diferentes?
E como num coro muito bem treinado, os três jegues da minha banda mais o meu empresário babaca disseram que o roteiro era perfeito e que aceitaríamos esse mesmo.
- Bom senhor , acho que posso mesmo procurar o lugar, certo? - perguntou Matt irônico. Otário.
A reunião continuou sem grandes novidades, já que agora tudo dependeria daquele processo extremamente burocrático que era o de levar o projeto, conseguir a grana, o lugar, os figurinos e só depois que nós aparecíamos de novo. Então isso nem me importava na verdade. Eu só queria ir para casa ver a Snow e assistir um pouco de X-Factor. Mas algo mais forte do que eu, com certeza alguma mão divina, me fez tomar a atitude mais ridícula daquele dia. Ou a segunda mais, quem sabe?
Quando o pessoal começou a levantar os traseiros para ir embora, eu nem me mexi. estava organizando todos os papéis e passando as últimas instruções para a equipe que havia acabado de chegar. Foi quando ficamos sozinhos, e ela fingindo que não tinha notado, que eu levantei e me aproximei.
- Sinto muito pela sua mão - eu disse meio baixo.
- Não é como se você se importasse de verdade.
- Eu me importo sim! Não era para ter te machucado.
- Sério mesmo, ? - ela disse me olhando de verdade pela primeira vez desde que nos vimos - Porque se você se importasse o mínimo que fosse, teria parado para me escutar e não teria quebrado algo que eu gostava e muito. Mas você é egoísta demais para qualquer atitude desse tipo.
Ela ía sair quando eu segurei seu braço. Ficamos com o rosto a centímetros de distancia e perigosamente perto um do outro.
- Não fala o que você não sabe, - eu disse entre os dentes. - Eu me importo o suficiente para me sentir culpado por isso!
- Então guarde sua culpa para você, porque você me tirou da sua vida, certo? Eu não faço mais parte de nada que não seja de cunho profissional para você. Então aja desse jeito e não se culpe se você quebrar meu pescoço. Eu ficarei bem no final. Eu sempre fico, !
E então como uma fumaça na frente de um ventilador, ela sumiu, me deixando ali, sozinho, com a maior cara de idiota do mundo. Ela era inteligente mesmo e tinha entendido o recado. Será que só eu, que por acaso havia passado o tal recado, não tinha entendido ainda? Saco!
Quando eu estava indo para casa com os meninos, meu telefone tocou. Uhul, balada de novo, dude.
- Você precisa mesmo ir, ? - perguntou .
- Ih mamãe, prometo voltar cedo, ok?
- Sem ironias, - ralhou . - Tudo está se acertando, daria para você, por favor, voltar ao normal e parar com essa história de eu sou o rei do pedaço e como cinco por noite?
não se conteve e gargalhou. Mas que diabos era isso?
- Então é isso que vocês falam de mim quando eu não estou por perto? - perguntei furioso.
- Não - disse . - Não falamos de você quando você não está por perto. Só que, sei lá mate, sentimos a sua falta também. Você sempre foi nosso irmão e agora parece que ta renegando a família. A família que sempre te ajudou e sempre te amou.
Nós quatro nos olhamos por alguns segundos e começamos a rir. podia ser tão gay às vezes que até me comovia. Por um lado eu sabia que eles estavam certos, mas por outro eu queria sair e esquecer tudo de ruim que acontecia na minha vida. Tudo que se resumia em uma palavra: .
- Prometo que eu vou voltar cedo e vou me comportar - eu disse. - Por você, .
- Ah, cala a boca, moleque! - ele respondeu emburrado e nós rimos mais ainda.
Eles me deixaram em casa e, depois de um banho rápido, um mimo na Snow, deixei minha casa rumo ao pub onde meus amigos combinaram comigo. Naquela noite não foram cinco. Foram sete. To recuperando o fôlego! pegador está na área e chegou para arrasar. Certo, chega. Estou passando tempo demais com o !
E a balada foi uma... merda! Não parei de pensar nela um minuto sequer, além de ter visto em TODOS os rostos femininos daquele pub. Sério mesmo, eu estava cogitando e muito a idéia de me internar numa clínica psiquiátrica e só sair de lá para o Natal, isso se sair. Mas não sei se eles aceitam cachorros e eu não deixo a Snow por nada.
Acho que desde quando eu voltei a farrear noites afora, eu tive uma demanda interessante de mulheres por noite, mas hoje estava demais. Peguei oito, transei com três e... outras quatro fizeram coisas para mim que vocês não precisam saber tanto assim. E o meu nível de satisfação: ZE-RO! Eu tenho certeza absoluta que enquanto eu estou aqui, deitado na minha cama, com a minha cachorra roncando do meu lado, essas quinze criaturas que eu deixei satisfeitas (eu espero!) estão contando vantagem por aí. Se bobear, até escrevendo no Twitter: "Eu peguei o do McFLY" ou "Eu dei para o do McFLY".
Mal sabem elas que eu nem lembro dos nomes, quanto mais da cara de cada uma delas. De algumas eu nem devo ter visto a cara, para ser mais exato! Tudo bem que isso soou muito cafajeste, mas é a mais pura realidade. Até parece que no auge da excitação eu vou parar tudo e falar "meu bem, qual o seu nome mesmo?". Puff, sonha! Já dizia uma frase que eu li em algum lugar, mas que a bebida não me deixa lembrar agora: "Quer um romance? Compra um livro!". Será que tem um com o título ""? Argh, que saco!
Cheguei em casa com uma dor de cabeça que eu não entendia. Eu nem estava de ressaca... ainda! Snow me olhou brava. É sim, depois de um tempo você entende o que o seu cachorro que mais parece alguém da sua família quer dizer. Pode perguntar para qualquer pessoa, eu não sou o único. Que seja também. Apenas a ignorei e ela resmungou, deitando na sala. Acreditam? Minha cachorrinha se negou a subir e dormir comigo! Ficou no sofá, com a maior cara de emburrada do mundo. Vou te falar, às vezes ela me dá medo, apesar de não ter nem meio metro de altura nem mesmo quando ta em pé. Mas foi quando eu estava na metade da escada que ouvi Snow fungar. Na verdade, farejar. Ela procurava alguma coisa e veio na minha direção.
- O que? Veio ver se estou cheirando a bebida? To sim, e daí?
Ela me rodeou umas três vezes, subindo e descendo os degraus da escada insistentemente.
- O que foi, Snow? Você ta me assustando!
Peguei-a no colo, como ela pediu e ela foi me cheirando. Do rosto, ao pescoço (fez cócegas), descendo pelo ombro e parou no meu braço. A manga da minha camiseta tinha alguma coisa que eu não estava vendo, mas que ela estava sentindo. Entrei no meu quarto intrigado e tirei a roupa. E foi então que uma memória me ocorreu.
Ela ía sair quando eu segurei seu braço. Ficamos com o rosto a centímetros de distancia e perigosamente perto um do outro.
- Não fala o que você não sabe, - eu disse entre os dentes. - Eu me importo o suficiente para me sentir culpado por isso!
- Então guarde sua culpa para você, porque você me tirou da sua vida, certo? Eu não faço mais parte de nada que não seja de cunho profissional para você. Então aja desse jeito e não se culpe se você quebrar meu pescoço. Eu ficarei bem no final. Eu sempre fico, !
Eu lembro que, ao segurar e ficarmos tão próximos, ela encostou no meu braço. E no exato momento em que eu cheirei a manga da minha camiseta, eu constatei o que Snow tanto procurava. O perfume dela, nem doce, nem cítrico. O perfume mais delicioso que eu já sentira e que nunca mais encontrei em mulher alguma estava grudado na minha roupa, impregnando meu nariz e me entorpecendo. Joguei a camiseta sobre a cama e me virei para tomar um banho gelado. Cacete, isso tinha que acabar e logo, antes que eu me acabasse novamente. Olhei pelo espelho e vi, no reflexo, Snow deitando a cabeça exatamente onde o perfume se instalara. Deve ter algo muito importante que liga essas duas criaturas. e Snow nunca se esquecem e, por mais que eu saiba que nunca perguntou pela cachorrinha, elas ainda mantinham uma ligação surpreendente. Eu não sabia dizer se isso era bom ou ruim. Snow nunca tinha deixado claro que eu significava menos do que em sua pequena vida, mas também nunca deixou de demonstrar o quanto ela se sentia feliz e segura ao lado de . Talvez... essa fosse a hora de entrega-la.
- Não - eu gritei dando um soco na pia. - Ela me tirou tudo, me tirou a vida, quase me tirou meus amigos. Não a minha cachorra! Desista disso, .
Bati a porta do banheiro para não ver mais aquela cena, mas não antes de escutar um choro baixinho, que eu sei que veio da minha cama, onde Snow estava. Mas hoje, nem mesmo que ela berrasse, eu sentiria pena de e vontade de tê-la de volta. Hoje eu queria, mais do que tudo, que morresse. Ou que eu morresse. Ou os dois... tanto faz.
Capítulo 7 - Don't fail me
Dois meses haviam se passado desde o dia em que eu quase me afoguei na privada. Até hoje não sei dizer se o perfume de realmente estava na minha camiseta ou se eu estava bêbado demais e imaginei tudo. Se ao menos a Snow falasse. Fiz alguns testes e levei minha Bichon Frise comigo para o estúdio. Ela, como eu imaginei, logo grudou no pé da nossa adorável diretora e só saiu quando eu arrastei comigo para casa. parecia de fato se divertir quando a cachorrinha estava por perto. Isso a lembrava de seu Bichon Frise deixado no Brasil. Acho que a fazia se sentir mais em casa ou algo do tipo.
- Você está mudando com ela - disse quando estávamos voltando para casa. Snow tentava insistentemente pegar a mão de , que ele escondeu atrás das costas.
- Claro, ela não é mais um filhote e...
- Não torra, - bufou ele. - To falando da .
Revirei os olhos. Que droga.
- Não mudei. Só achei que devido nossos encontros profissionais, eu devia ser um pouquinho mais simpático. Mas nada que tenha me feito esquecer tudo.
- Aham, , senta lá - disse rindo de sua piada ridícula.
- Sentar lá aonde, animal? - perguntei confuso.
- Ah, nada. Piada que aprendi com as brasileiras pelo Twitter. Esquece.
- Gay! - disse - Mas é sim, , você está mais paciente e até deixou a Snow ficar com ela o dia todo. SAI DE CIMA DE MIM BOLA DE PELOS!
- O segundo animal aqui tem razão, dude - afirmou tirando a cachorrinha de cima de , que por acaso era o animal em questão. - A Snow fica com ela o dia todo e você nem liga. Como se fosse normal.
- Bom, teve que ser, né? - respondi olhando feio para a ela que, no momento, estava de barriga para cima no colo de - Ela sai correndo assim que chega na O2. Snow, olha os modos menina!
A discussão acabou com um coro de risadas e Snow bufando enquanto se enroscava no colo do nosso empresário. Ela tinha se tornado o quinto membro do McFLY e nem mesmo o nosso motorista achava normal passar um dia sequer longe dela. Ela era tão cativante quanto... Lizze. A pequena nunca mais apareceu na O2, menos ainda agora que Jammie havia voltado. Acho que ela e tinham um trat. Provavelmente a menina ficava com a ex-namorada de Matt, que eu pelo menos acho que é ex. Esse povo é todo esquisito, se querem saber. Jammie deixou a amiga viajar e voltar com uma filha do namorado e ainda toma conta da menina. Barbaridade! Ainda bem que eu caí fora desse covil de gente doida.
Nosso clipe estava a todo vapor. No momento, apenas trabalhava feito um condenado, enquanto a gente se entupia de salgadinhos, refrigerante e ficava fazendo absolutamente nada. Nossas cenas eram em estúdio e seriam gravadas todas no mesmo dia, então estávamos de boa na lagoa. E foi em uma dessas gravações que a coisa complicou de vez. E quando eu digo complicou, é porque eu queria dizer que fodeu mesmo, mas usei um termo mais educado, sabe?
Eu e comíamos um pacote de bolachas recheadas que a mãe da tinha mandado do Brasil para ela, mas que ela deixou na nossa mesa (achado não é roubado!) de comidas quando um cara alto, moreno e com um sorriso bobo demais entrou no estúdio. Ficou parado num canto e, a princípio eu não entendi bem quem era a figura. Algum aprendiz novo, talvez.
terminou de gravar suas cenas e deu-lhe alguns minutos de descanso. Fiquei observando de longe, claro, e vi que ela e andavam em direção ao tal cara que estava encostado na porta. Meu amigo o cumprimentou e ele deu um longo e, aparentemente, carinhoso abraço em .
- Calvin Goldspink, cantor - disse ao me ver olhar a cena curioso.
- Hum, legal - respondi colocando três bolachas de uma vez na boca.
- Namorado da - completou e eu engasguei feio.
- Vocês conhecem ele? - perguntei bebendo a água que me deu - De onde surgiu? Ele não me é estranho!
- Conhecemos hoje antes de você chegar. também chegou atrasado, por isso ta conversando com ele agora. É gente boa!
- Gente boa, Tom? Gente boa não é o suficiente para...
- Ela? - completou - É , a fila anda. A sua devia andar também. Mas andar, , e não correr!
Mas que diabos era isso agora? Que raios de namorado era esse que todo mundo sabia, menos eu? Calvin... ele não me era estranho. Deve ter sido ex-namorado de alguma ex-namorada minha ou de alguma ex dos meninos. Ou o vi na TV, em alguma revista, ouvi no rádio, não sei. Isso também não interessava. O que importava mesmo era o fato de que ele estava com ela e que a minha cachorra também estava envolvida no assunto. No colo dele ainda!
Levantei e saí marchando decidido até onde o grupinho mimava Snow. Ela é sem vergonha de tudo, nem para disfarçar. Deu na cara que estava adorando.
- Com licença.
- Oi - disse . Ela parecia feliz... é. - Esse é o Calvin. Calv, esse é o , o último McFLY que faltava você conhecer.
- Opa, prazer dude - ele falou estendendo a mão que não estava segurando Snow para que eu apertasse.
Cumprimentei de má vontade e fiquei com mais raiva ainda pelo fato de não poder dar um soco na fuça dele. Ele era simpático e educadinho. Um pouco pomposo demais na minha opinião. manteve a guarda feito um cão treinado, só esperando a minha reação.
- A me disse que você compôs várias músicas para o McFLY - disse o Calvin-pomposo-Goldspink. - Legal ter as próprias composições, né?
- Ah é - respondi emburrado. - Mas isso é só para profissionais!
Há, toma, mané! Minha banda é foda e eu sou mais ainda!
- Sei bem como é. Compus todas as músicas do meu novo CD. A ouviu todas já e disse que são ótimas.
OUTCH! Eu podia ter ido dormir sem essa, definitivamente!
- Hum, legal.
- Essa cachorrinha é sua? - ele perguntou afagando a cabeça de Snow.
- Por acaso é! - respondi olhando mais do que feio para ela. - Se importa se eu ficar com ela? Claro que não, já que ela é minha!
Não dei tempo para Calvin responder, apenas tirei Snow de seus braços e voltei para perto de e chegou minutos depois, parecendo indiferente a tudo. e Calvin sumiram de vista e eu tentava ao máximo não pensar no que eles poderiam estar fazendo. Quando voltaram, tentei encontrar vestígios de que estavam se amassando, mas eles são extremamente discretos e não deixaram nadinha de nada aparecendo. Nem uma mechinha de cabelo de estava fora do lugar. , e , juntamente com o casal pomposo, sentaram em uma rodinha no chão. Calvin pegou o violão e começou a cantar uma música que eu desconhecia.
- Essa música é minha favorita - disse sorrindo para ele.
- Advinha só para quem eu escrevi! - ele respondeu rindo e fazendo todos rirem. Depois, deu um rápido beijo nela que, confesso, embrulhou meu estômago.
Sentei ao lado de , entre ela e , e fiquei ouvindo as músicas, bastante contrariado. Eu não queria dar na cara que estava puto da vida e querendo amassar o topete daquele almofadinhas, então apenas ocupei minha cabeça com pensamentos inúteis enquanto ficava ali. Tenho que lavar o carro nesse final de semana, depois passar na casa da minha mãe, levar Snow ao veterinário na próxima semana, eles estão se beijando de novo... DE NOVO? Pêra aí... cadê todo mundo? Certo, percebi que só eu estava ali, perdido em meus pensamentos do final de semana. Todo mundo debandou e me deixou segurando a maior vela do mundo, da minha ex ainda! Isso é o que eu posso chamar de amigos! Imaginem só se fossem meus inimigos, huh? Eu certamente dancei Macarena na frente de Jesus quando ele foi crucificado! Não tem outra explicação. É muita desgraça em uma vida só. Tem que ser castigo divino! Oh Senhor, por que fazes isso comigo? Damn!
Capítulo 8 - Complicated
Algumas coisas podem realmente ser complicadas. Mais até do que desejamos. O almofadinhas passou a freqüentar a O2 mais do que eu gostava. E aí, o que fazer numa situação dessas? Rir, claro. Porque era isso que os três idiotas da minha banda + a minha adorável ex-namorada faziam a cada idiotice que aquele sem sal falava. E as minhas piadas? Puff, ninguém nem ligava mais.
Não que eu estivesse carente, mas vejam bem. O cara roubou a garota que sempre terá como destino ser minha. Agora está compondo músicas para o McFLY. Entendeu? Ele está compondo músicas pa-ra-o-Mc-Fly! O que significa que se ele está escrevendo algo como "sou um idiota e sei disso", o idiota aqui vai ter que aceitar e achar lindo.
Minha relação com estava ficando cada vez mais tolerável, apesar de nunca termos propriamente brigado. Fora aquele dia que eu explodi e quebrei o porta retratos, nunca mais trocamos uma frase que não estivesse relacionada ao projeto de POV. Ela e Snow continuavam o grude de sempre e devo agradecer eternamente a minha cachorrinha por isso. Certo dia, quando eu resolvi ir de carro para o estúdio, já que sairia com uma menina depois, o pessoal todo tinha ido embora e eu estava saindo. Eu nunca vi minha Bichon Frise passando mal, então aquilo de fato me assustou. Indo para o carro, notei que Snow parou, se encolheu toda e seu corpo se mexia muito rápido. Ela parecia estar com uma falta de ar tremenda e eu não sabia o que fazer.
- Ei, ei, o que foi? - perguntei inutilmente para ela, tentando não entrar em desespero. - Snow, não brinca. Você não pode me deixar... Snow...
- ? - ouvi a voz de e quase que eu entrei em colapso junto com a cachorrinha. - Meu Deus, o que houve?
Não precisei levantar a cabeça. Em questão de minutos, ajoelhou-se na minha frente e virou Snow de barriga para cima.
- Eu não sei, ela começou a passar mal e...
- Vai buscar o carro - disse enquanto abria a boca de Snow. - Ela está tendo uma convulsão. Vai, !
E eu fui! Corri, corri, corri, peguei o carro, voltei correndo mais ainda e apenas buzinei. veio rápida, com Snow no colo e eu abri a porta para que ela entrasse.
- Posso te pedir uma coisa? - falei sem pensar, atravessando mais um sinal vermelho.
- Pede! - ela respondeu ainda prestando atenção em Snow, tentando não deixar que a língua da cachorra enrolasse e ela morresse sufocada.
- Não deixa ela morrer... por favor.
não falou nada. Apenas me olhou e eu vi que ela faria tudo o que pudesse para que Snow chegasse viva ao veterinário.
- Toma - eu só vi um copo plástico com água bem diante dos meus olhos.
- Obrigado.
A água tinha um gosto ruim. Na verdade, tudo estava ruim. Snow estava na sala do veterinário e não me deixou entrar. Segundo ela, eu estava nervoso demais e não ajudaria. Dessa forma, ela ficou comigo do lado de fora, me passando tamanha força que eu nunca imaginei que ela tivesse.
- Ela vai ficar bem. Prometo - ela disse, fazendo carinho na minha cabeça.
- Não sei o que faço se algo acontecer com ela - falei novamente sem pensar. - Ela é a coisa mais importante da minha vida. A segunda, na verdade.
Eu queria falar que ela era a primeira, sabe? Mas não tive tempo. O veterinário saiu e chamou alguém responsável pela Snow. Algo havia acontecido e eu não saberia o que fazer da minha vida. apenas beijou minha testa e foi para a sala do médico. Eu não conseguia me mexer... a minha Snow...
Os minutos se passavam e eu ficava cada vez mais inquieto. Quando finalmente saiu daquela merda de sala, eu quase voei para cima dela.
- Calma! - ela disse sorrindo - Ela está bem, foi só um susto.
- Graças à Deus - eu sorri.
- O médico só pediu para que ela passasse a noite aqui, assim eles ficam de olho nela.
Droga, estava tudo bem demais. Eu só queria ir para casa com ela, não queria deixa-la aqui. Uma noite sem Snow geralmente era uma tortura imensa.
- Bom, vou ficar aqui então - falei sentando novamente.
- Não senhor! - me puxava pela mão, sem sucesso ao tentar me fazer levantar. - Você vai para casa, tomar banho, dormir e amanhã voltamos para buscar a Snow. Agora seja um bom menino e vai lá dar um beijo nela antes de irmos. Vou assinar alguns papéis da consulta!
- , ela é minha cachorrinha. Pode ir para a sua casa descansar, obrigado novamente. Eu cuido de tudo daqui em diante - falei. Ela me olhou indignada.
- Desista, . Eu gosto da Snow como se ela fosse minha. Então eu vou ajudar e pronto!
Apenas revirei os olhos e fui até a sala. Ao entrar, me deparei com uma cena meio triste. Snow deitada, tomando soro. Ela me olhava como se pedisse desculpas e eu apenas sorri. Acariciei sua cabeça branca e peluda, tentando passar o máximo de segurança que eu podia. Ela abanou levemente o rabo e fechou os olhos. Prendi a respiração.
- Ela está sedada - disse parando ao meu lado. - Precisa descansar, então deram um calmante para ela.
- Hum... entendi.
- Vem - senti a mão dela escorregar pelo meu braço e pegar a minha mão. - Vamos para casa. Ela tem que dormir e você também.
Antes de sair, beijei a cabeça de Snow e sussurrei um "obrigado" em seu ouvido. Tenho certeza que ela me entendeu.
Saí do banho gelado que me fez tomar assim que chegamos na minha casa. Quando entrei no quarto, ele estava vazio. Pensei que ela tivesse me deixado ali, mas um cheiro delicioso de comida veio da cozinha e eu fui direto para lá.
- Omeletes! - disse ela sorrindo e colocando comida em um prato que, logo eu descobri, era para mim.
- Não precisava se incomodar - falei sem jeito.
- Não é incômodo .
Sentamos lado a lado no sofá e, enquanto mais um episódio de The Vampire Diaries começava, comemos nosso pequeno e rápido jantar que ela havia preparado.
- Ah cara, o Damon é demais! Olha só como ele dança - ela dizia toda empolgada.
- Me poupe, - falei entre risadas, já que ela imitava o personagem da série. - A Elena é bem melhor do que ele. Mas olha a Vicki! Dude, ela é muito gostosa!
revirou os olhos e continuou a dançar. A Elena podia ser gostosa, mas nada se comparava àquela brasileira rebolando na minha sala. Em um rápido surto, pensei no que estava acontecendo. Ela estava na minha casa, estávamos nos divertindo. Uma onda de calor percorreu todo o meu corpo.
- Vem dançar - ela disse me puxando. - Vem !
- Nem morto - respondi me segurando no sofá. - Sai, me larga!
Dei um puxão e ela caiu em cima de mim. Eu sentia meu corpo todo doer de tanto que nós estávamos rindo. Quando paramos, notamos que ela estava sentada no meu colo e que estávamos muito, muito próximos. Mas ela era correta demais com os outros e não trairia seu namorado almofadinha. Apesar de saber disso, a abracei pela cintura e deslizei meus dedos por suas costas, causando-lhe arrepios. Nem eu e nem ela estávamos no controle de nada ali. Só sabíamos que se não fizéssemos alguma coisa, no mínimo acabaríamos aos beijos. E ela não quis.
- Desculpa - ela disse se levantando. Seu rosto estava vermelho e ela não me olhava.
- Não, eu que peço desculpas. Sério.
levou os pratos e copos até a cozinha e eu fechei os olhos com força. Droga de vida, droga de amor, droga de menina. Droga, como eu a amo.
Uma luz forte invadiu o quarto e quase me deixou cego.
- Cacete - resmunguei.
- Nossa, já começa o dia assim? - certo, pulei da cama. ainda estava na minha casa.
- Achei que você tivesse ido embora!
- Dormi no sofá - ela disse balançando os ombros, indiferente.
- Por que não me falou que dormiria aqui? Eu dormia lá, você ficava com a cama e...
- Há, não sou uma boneca de gesso, meu bem - ela falou irônica - posso dormir no sofá e acordar super disposta, oh!
tentou fazer alongamento, mas sua coluna fez uma seqüência bizarra de barulhos e nós dois rimos.
- Velha! - brinquei.
- Teu nariz! - ela retrucou. - Vai, se arruma e vamos ver como está a Snow. Ela deve estar com saudades de casa.
Não foi preciso mais do que isso para me fazer sair correndo. Chegamos uma hora depois na clínica, porque me fez tomar café da manhã. Por mim, teria ido direto. Em pouco tempo, eu tinha Snow em meus braços, recuperada e feliz em nos ver. Quando eu estava saindo para encontrar , tive uma surpresa desagradável: Calvin Goldspink!
- Ah, que bom que ela está bem - disse ele brincando com a patinha da cachorra.
- Uhum - respondi dando um passo para trás. - Você vem comigo, ?
Foi estranho, mas o apelido saiu sem querer... eu juro!
- Não , vou com o Calv. Ele veio me buscar - ela respondeu parecendo fria. - Melhoras, pequena.
deu um beijo carinhoso no focinho de Snow e saiu abraçada com o outro, me deixando sozinho e sem reação. Cadê a menina que dormiu na minha casa e cuidou de mim? Que estranho... muito estranho.
Capítulo 9 – Dirty little secret
Eu arranjei uma namorada. Bem, não é assim, uma namorada. Pelo menos eu acho que não. Ela fez questão de anunciar aos quatro cantos do universo que estava namorando o “ do McFLY”, mas, como sempre, não ocorreu um pedido oficial da minha parte. Eu nem gostava dela de verdade. Gostava do jeito que ela fazia sexo, dos jantares que ela preparava e só. Por mais que as minhas saídas com os rapazes por noites afora (e dentro também, se é que me entendem!), tenham diminuído significativamente, eu continuava sendo um belo cafajeste. Da melhor espécie, com pedigree e tudo. Mas ei, esse era eu. Ou o eu que eu havia criado para substituir o eu otário que eu fui por um tempo.
, sabichão como sempre, dizia que eu tinha me enroscado com aquela menina apenas para provocar ciúmes na , que estava, aparentemente, feliz, alegre e muito saciada com seu novo namorado , Calvin “Eu-Sou-Perfeito” Goldspink. Argh, ele era realmente o que ela precisava e isso me embrulhava o estomago. Ele aparecia no meio de uma reunião com um copo de café, depois na hora do almoço, ele sempre tinha alguma coisa fofa para falar, no nosso lanche da tarde ele trazia um pedaço de torta que ela amava e no final do dia, uau, lá estava ele para levar a doce e linda para casa. Só não sei se era a casa dele ou dela. Tentei descobrir, mas jamais me falou. Ele era um tremendo chato. Foi conquistado pelo senhor almofadinha para que não pegasse no pé do casal do ano. Já eu, seu melhor amigo, quase irmão, ele mandava manter distancia e não atrapalhar a felicidade da . Vai ver se eu to na esquina, !
Mas claro que eu, como bom samaritano que não sou, dei um jeito de me vingar. Parei de levar Snow para o escritório. A cachorrinha me pareceu triste por um tempo, mas depois acho que ela se acostumou com a idéia. De certa forma, ela sentia o meu sofrimento. E pensava mais do que eu. Quando levei Lucy, minha namorada, para dormir na minha casa, Snow simplesmente deitou entre nós e não saiu até a menina ir embora. Foi constrangedor, mas quando contei a o que havia acontecido, ele deu uma gargalhada bem alta. , por sua vez, pareceu sentir mais saudade da Snow do que eu previra. Pelo menos foi o que eu pude perceber, já que ela mudou 100% seu jeito comigo. Quero dizer, quando éramos só nós dois num mesmo ambiente, ela ria das minhas graças, brincava e até me abraçava. Mas era só alguém entrar no recinto e pronto, ela ía parar do outro lado e não olhava na minha cara. Com o sumiço repentino de Snow, parou de vez de falar comigo. O grande problema é que quanto mais ela me provocava, mais eu queria que ela provocasse. Era tipo aquela coisa de lei de alguém, da ação e reação. Ta, eu não socava a para ela me socar de volta, mas eu provocava, para que ela me provocasse.
- Uh, sua namorada esqueceu a roupa em casa de novo, ? – perguntou andando pela sala de com uma revista nas mãos. Ela nem se mexeu. – Olha só o rasgo na bunda dela. Fantástico.
- É, - falei sorrindo – alguém precisava mostrar o que tem de bom, né? Quero dizer, não dá para ficar guardando em casa se pode deixar todo mundo ver.
- Sem dúvidas – ouvi dizer e congelei – esse é o primeiro pensamento do corno conformado. Finge que é bom para todo mundo, mas na verdade está tentando não ver o que não é bom para si mesmo. Já volto, não derrubem minha sala.
Ela saiu, carregando vários papéis e foi para o setor financeiro da empresa. , até então em silêncio, começou a rir compulsivamente, seguido de e .
- Ah, calem a boca – resmungei.
- Eu acho bem feito – disse . – Vai provocar a fera e toma toco. Aprende a ficar quieto, .
Minutos depois, alguma mágica ocorreu e todo mundo dispersou. Só ficou o bobão aqui, sentado feito uma criança de castigo naquele sofá. Tantos momentos que passamos ali, rindo, conversando, nos beijando. Bons momentos, por sinal. A porta abriu e voltou, mais sorridente ainda.
- Namoradinho ligou? – perguntei irônico.
- Não – ela respondeu e eu sorri. – Apenas consegui autorização para filmar o seu clipe com a melhor câmera da empresa. Pode me agradecer agora.
Ela me jogava no chão, pisava em cima e eu adorava. Como sou burro!
- E o que tem de diferente nessa câmera? – perguntei ansioso e fui me sentar bem na frente dela.
- O clipe vai ficar com efeito 3D. Vai ficar lindo, .
estava tão feliz que sua felicidade me contagiava. Céus, como ela conseguia tudo isso para nós, mesmo com todas as minhas provocações? Mesmo eu tendo tirado de perto dela sua grande amiga de quatro patas? Instintivamente, peguei sua mão que estava sobre o mouse e a beijei.
- Sei que muitas vezes não mereço, mas obrigado por tudo que você faz pelo McFLY.
Nos encaramos. Um sorriso sapeca brincou nos lábios dela e eu tive vontade de abraça-la.
- Se eu fosse pelo seu merecimento, - ela respondeu tirando a mão – teria feito a banda explodir.
- Caralho – quase gritei me recostando na cadeira – será que não tem um dia que você não vá me dar uma patada?
- Talvez o dia que você não me provocar e me irritar – ela respondeu digitando alguma coisa no computador.
- Eu gosto de te provocar, você sempre fica sexy quando responde.
Ela apenas riu e não ousou responder. Suas bochechas ficaram levemente coradas. Ela ficava linda de todas as formas, essa era a verdade. Estávamos só nós dois ali, agindo naturalmente, como sempre agimos. Quero dizer, como agíamos antes de eu parar de levar Snow ao escritório, claro.
- ...
- Hum?
- Você acha que algum dia vamos voltar a ser o que éramos?
Ela levantou os olhos e me olhou. Seu semblante, antes suave, tornou-se rígido. Acho que eu falei demais.
- Nós nunca fomos nada, – ela respondeu séria.
- Fomos sim – falei indo me ajoelhar ao lado dela. – Fomos sim! Olha, eu... , tem muitas coisas que eu queria te dizer, muitas coisas mesmo, que estão até acima da raiva que eu senti ao te ver indo embora. É demais para mim imaginar quem está dormindo na sua cama, onde eu dormi várias vezes. Isso me mata!
- Por que você insiste nisso, ? – ela perguntou com os olhos úmidos. Uma lágrima escorreu por seu rosto e eu imediatamente a sequei. – Por que não podemos ser simplesmente o artista e a diretora, por que não podemos seguir cada um com sua vida?
- Porque eu não agüento... – segurei seu rosto com minhas duas mãos. Estávamos próximos. Nossos narizes roçando, a respiração dela batendo em meus lábios.
Quando eu tomei impulso para beija-la, seu celular tocou. Nos afastamos com o susto e eu pude ler “Calvin” no visor. Filho da puta!
- Janta comigo hoje? – pedi apressado, colocando a mão sobre o aparelho, impedindo-a de atender. – Fala para ele que você tem muito trabalho, que precisa ficar sozinha. Só hoje. Eu imploro, !
Entreguei-lhe o telefone e ela, tremula, atendeu a ligação. Por um momento eu achei que não fosse dar certo, que eu não tinha conseguido. Mas meu coração deu um pulo ao ouvir...
- ...desculpa, amor, eu tenho muita coisa para fazer hoje. Não vou poder sair. Vou sentir saudades. Também te amo.
E desligou.
Sério, aquilo seria engraçado, se não fosse tão real. Ela realmente foi jantar comigo, na minha casa. Preparei tudo, tudo mesmo. Ta, minto, comprei comida pronta, coloquei em uma travessa legal e botei no microondas. Mas e daí?
Minha namorada estava viajando e não voltaria em um mês. Sei lá o que ela tinha ido fazer e onde. Pouco me importava também. Oito horas em ponto, a campainha tocou. Pensei que eu fosse desmaiar quando abri a porta e vi ali.
- Entra – falei bobo. Ela estava incrível. Vestido tomara que caia preto até os joelhos, levemente rodado na saia. Seus cabelos ainda caíam em cachos e seus lábios tinham um leve tom de rosa.
mal pisou em casa e eu ouvi quatro patas se chocando contra o chão de madeira. Snow veio quase voando e derrapando a cada curva ao sentir o cheiro dela.
- Oi minha linda – logo se abaixou para brincar com a cachorrinha. – Que saudades que eu estava de você.
- Ah é, de mim ninguém sente falta, ninguém dá oi! – brinquei.
Ela se levantou rindo, com Snow no colo e beijou minha bochecha.
- Oi, !
Não era esse tipo de oi que eu queria, mas ta. Um passo de cada vez, certo? Snow logo foi colocada no chão, mas não parou de nos cercar. Privacidade na minha casa era mais difícil do que num show do McFLY, sério mesmo.
Levei até a mesa e jantamos, em meio a piadas, brincadeiras e até alguns momentos românticos. Ela deixou que eu pegasse em sua mão e ficasse brincando com seus dedos. Eu podia ver a minha garota ali novamente. Como tudo fora planejado, depois do jantar fomos até a sala, onde eu acendi a lareira e ficamos sentados no tapete, conversando. Foi fácil esquecer que o mundo existia. Acho que ela esqueceu também, pois suas pernas descansavam em meu colo e eu massageava seus pés. Snow estava deitada ao lado de e parecíamos mesmo com a família que eu havia projetado tantas vezes na minha mente. Conversávamos sobre coisas inúteis quando ela tocou no ponto crucial.
- Você disse que tinha coisas para me falar. Quero saber o que eram.
- Outch – falei rindo. – Pensei que você tivesse esquecido. Eu esqueci grande parte.
- Não brinca com isso – ela respondeu sem rir tanto assim. – Vai, desembucha.
Parei de massagear seus pés e acariciei suas pernas. Se ela não me desse um toco agora, alguma coisa boa aconteceria.
- Eu não agüento mais te ver com aquele sem sal do Calvin, eu não agüento mais chegar naquele escritório e ter que fingir que eu te odeio, apesar de ainda sentir muita raiva de você por ter me deixado aqui, sozinho e voltado com aquele seu estagiário babaca. Eu não acho que você seja totalmente feliz com o seu namorado, assim como eu não sou com a minha, eu odeio os finais de semana, porque são os dias que eu não te vejo, eu odeio o cara idiota que eu fui por causa de um filho que nem era meu e eu te amo. Pronto, era isso que eu tinha para falar.
Tanto Snow quanto me olhavam assustadas. Eu precisava falar tudo rápido, antes que eu perdesse a coragem e desistisse. Nem sei se ela entendeu tudo, na verdade.
- , eu...
- Não fala nada, – falei colocando meu dedo sobre seus lábios. – Sério, se você não me quiser de forma alguma, se quiser me ver morto, então apenas vá embora. Mas não fale nada, porque só vai me machucar mais ainda e eu não sei se...
Ela me calou com um beijo. Eu me senti a maior marica da face da Terra, porque ela me fez parar de falar me beijando. Eu mal havia sentido que ela estava sentada no meu colo, quem dirá o momento em que ela se inclinou para me beijar?
Ficamos nessa por cinco minutos mais ou menos, até que ela me soltou para respirar.
- Vou te contar – falei sem ar – outro desses e você me mata de vez mesmo!
- Ah, fica quieto, – ela disse rindo.
- Mas que mania é essa de todo mundo me mandar ficar quieto? – resmunguei abraçando-a. Ela acariciava minha cabeça de uma forma boa e eu me sentia no céu.
- Você fala demais e fala besteiras demais!
Ri com ela e voltei a beija-la. Senti tantas saudades da boca dela na minha, das nossas línguas brincando uma com a outra e de todas as sensações boas que só ela me dava. Só paramos porque Snow começou a pular entre nós, tentando nos separar.
- Snow, sai daqui, sua chata! – eu falei tentando tira-la de cima de . – Vou te arranjar um namorado, quem sabe assim você me deixa em paz?
- Aw, vem com a mamãe, Snow! – disse e a cachorra se jogou em cima dela.
- Mamãe? – falei em choque, colocando uma mecha do cabelo dela atrás de sua orelha.
- É claro – ela respondeu acariciando a cabeça de Snow. – Acha que aquele seu projeto de namorada é mãe da Snow? Se toca, !
Ela dormiu na minha casa de novo, dude. Eu pareço uma criança quando ganha presente de Natal. Não, pior, parece que eu montei minha árvore de Natal. Aliás, que dia é hoje? Ta na época, não ta? Interessante, vou convidar a para ir comigo comprar uma árvore. A minha parece que foi atropelada e eu não quero esperar até o dia de comprar uma árvore natural. Não tem graça colocar uma árvore só uma ou duas semanas antes, né?
Então, voltando, a dormiu na minha casa. Acordei com ela deitada sobre meu peito, respirando leve. Snow não havia ficado na cama dessa vez, o que eu agradeci imensamente. Ía ser muito chato colocar a coitada para dormir sozinha na cozinha, mas ela não ía estragar esse momento. Não mesmo!
Eu acho que bebi muito vinho ontem à noite, porque não me lembro muito de como viemos parar aqui e nem de como vestiu minha camisa. Êpa. Será que transamos e eu estava bêbado demais para lembrar? Um arrepio percorreu minha nuca e eu comecei a me sentir mal. Não era assim que tinha que ser. Droga.
- Sonhando acordado? – perguntou ela sorrindo e me olhando.
- Bom dia – respondi beijando sua testa. – Sonhando com você!
- Que piegas!
Nós dois rimos e eu beijei levemente seus lábios.
- Não tem como ser romântico com você. Você nunca deixa, – fingi que estava bravo.
- Você não é romântico, ! Nunca foi – suas unhas deslizaram furtivamente em meu peito e eu fechei os olhos. – Snow, vem cá!
Em questão de segundos senti um peso a mais na minha barriga e vi as duas deitadas ali. Virei travesseiro, olha só. Minha nova vocação.
- Quais os planos para hoje? – perguntei brincando com uma mecha de seu cabelo.
- Ir para casa, terminar alguns trabalhos e... ficar lá – ela respondeu parecendo desanimada.
- Calvin – falei revirando os olhos. – O que você vê nele, hein?
sentou e começou a procurar suas roupas.
- Ele é legal, educado, sério.
- Eu também sou!
- Qual é, – disse ela rindo. Sem se importar com a minha frágil situação, ela virou de costas e tirou a camiseta, ficando somente de calcinha.
- Ah , pelo amor de Deus, não faz isso – reclamei me escondendo debaixo das cobertas. Quando olhei, ela já estava vestida e rindo.
Depois de muita coragem, eu perguntei se tínhamos feito algo que eu devia me lembrar. Ela se fingiu de afetada, disse que eu sou um canalha, mas no final, entre gargalhadas, confessou que nada havia acontecido. Ela apenas havia pedido minha camisa porque não queria estragar seu vestido. Agradeci em voz alta e disse que eu me mataria se eu não me lembrasse de alguma coisa importante. pareceu realmente gostar de saber que eu a quero tanto a ponto de me importar com o que, com as outras, não faz diferença.
Demos um jeito para que ela saísse sem ninguém ver e, antes de ir embora, fiz uma proposta bem legal.
- Espera – eu disse pegando a mão dela. – A gente pode fingir que somos só amigos, não pode?
- Por que isso? – ela perguntou desconfiada.
- Não quero que achem que eu te odeio e tudo mais. E eu quero poder sair com você sem levantar suspeitas.
- Aw, que fofo – disse rindo. – Ta, vou pensar.
- A gente podia sair e comprar uma árvore de Natal amanhã. Que tal? A minha parece que foi atropelada por um rolo compressor de tão torta!
- Ai meu Deus, você vai acabar com a minha vida, – ela disse pensando por um momento. – Ta, me liga e a gente combina.
- Certo, mas ...
- , eu preciso ir! – ela disse revirando os olhos – O que foi agora?
- Como a gente fica? Quero dizer, você vai voltar, não vai?
Fiz minha melhor cara de cão sem dono, juro. Acho que funcionou.
- Nós temos compromisso com outras pessoas, . Mas é horrível como eu não confio em você, só que ao mesmo tempo, não consigo te deixar.
- Então volta. Sempre que quiser. Só me avisa antes para eu dar um sumiço na Lucy, mas volta. Eu serei o seu segredo e você será o meu. Promete que volta?
- Volto!
Ela ía saindo, mas não era o suficiente.
- Beleza, mas espera – eu falei novamente, segurando sua mão com mais força. – Não vai me dar um beijo antes de sair?
Ela abriu um sorriso, beijou o canto da minha boca e saiu. Legal, eu era seu amante agora. Ela era minha amante. Vida boa? Qual é, se eu pedir mais, Deus me dá um mundo de s. O que, pensando bem, seria ótimo. Bem ótimo.
Capítulo 10 – Over my head
O plano era eu recusar todas as chamadas para sair dos caras, mas sempre falar para , e que eu ía. Dessa forma, eles não me ligariam. diria ao namorado que estava ocupada e iria para a minha casa. Vez ou outra, eu ía para a dela, mas tinha que levar Snow, o que nem sempre dava certo. Na primeira semana, tudo correu perfeitamente bem. Mas o problema é que nos acostumamos novamente a contar um com o outro e acabávamos esquecendo do Calvin e da Lucy, o que era um perigo daqueles.
Na frente de todo mundo, fingíamos ter conversado e chegado ao consenso de que poderíamos muito bem ser amigos. Ela até opinava em alguns presentes para a minha namorada, mas no final, era sempre ela quem os recebia.
- Meu Deus, isso não era para a sua namorada, não? – perguntou ela perplexa ao ver o colar com um pingente do Mickey que eu segurava bem diante de seu lindo e perfeito narizinho.
- E eu lá vou dar uma coisa legal para a Lucy?
se jogou em cima de mim e me beijou. Estávamos seguros na minha casa, que sempre ficava com as janelas fechadas, assim como portas e tudo que pudesse nos entregar.
- É o seguinte, mocinha – falei colocando-a no chão. – Preciso de uma árvore de Natal e preciso agora, entendeu?
- Puff, e eu com isso? – ela disse irônica enquanto colocava o colar.
- Você – eu a abracei por trás e comecei a beijar sua nuca descoberta – vai comigo.
Olhei nosso reflexo no espelho. Era a típica foto de casal, com direito a sorrisos e carinhos.
- Só vou porque não tenho nada de interessante para fazer.
Era sempre assim. Vivíamos numa troca constante de provocações e ironias. Às vezes eu achava que ela estava falando sério, já que ela era totalmente boa em ser irônica. Perguntei se ela havia feito algum curso, mas ela jurou de pés juntos que não. Que nasceu assim. Imaginei uma miniatura dela e, na mesma hora, me lembrei de Lizzie. O que havia acontecido para que a esquecesse assim? Será que Matt a proibiu de andar com a menina só porque estávamos novamente próximos? Isso seria desumano. Eu até aceitaria passar os finais de semana com a pequena, já que aceitar seria aceitar Lizzie também. E ela de fato parecia ser uma boa menina.
entrou no carro e se manteve abaixada até metade do caminho. Escolhi uma rota diferente, que ligava Hertfordshire até o centro de Londres, mas sem passar por toda a cidade. Esse caminho costuma estar apinhado de fotógrafos ensandecidos, já que grande parte das celebridades britânicas mora no mesmo lugar que eu e sempre passa por aquela avenida para ir até Londres. Fomos conversando sobre tudo durante o trajeto de aproximadamente 20 minutos. Descobri que não falava com seus pais desde que havia se mudado, mas ela não quis me contar o motivo real desse afastamento. Ela era cheia dos segredos sobre seu passado e a única pessoa de quem ela fala claramente e com orgulho era de sua avó materna.
- Como assim seus pais não sentem tanto orgulho assim de você? – perguntei espantado – Qual é, eu morro de orgulho de você, apesar de tudo.
- Um dia eu vou entender o que é esse tudo que você diz, mas isso não vem ao caso – ela respondeu soltando o cinto e saindo do carro. – A única pessoa com quem eu realmente podia contar e que me apoiava, era vovó. Só Deus sabe a falta que ela me faz!
- Eu sei que a saudade é algo irreparável, - falei beliscando suavemente sua mão – mas eu estou aqui e você pode contar comigo.
me olhou com um sorriso carinhoso e eu quase a beijei. Por sorte ela tem mais juízo do que eu e saiu andando na minha frente. Eu não queria nem imaginar o fuá que isso daria. Andamos um pouco até encontrarmos uma loja que não estivesse apinhada de gente. Por que todo mundo resolveu fazer as compras de Natal tão cedo esse ano? Segundo a bela garota que me acompanhava, eu que deixava tudo para a última hora.
- Certo, qual o tamanho de árvore você vai querer? – perguntou ela examinando minuciosamente uma árvore pink. Eca, jamais!
- Tanto faz – respondi rindo de um Papai Noel que tocava sanfona e ria em seguida. – Podemos levar esse?
- , viemos comprar uma árvore de Natal, não um Papai Noel!
- Poxa, ele é legal... – tentei continuar a frase, mas ela me arrastou até as árvores.
- Acho que uma grande ficaria bem legal na sua sala.
- Se você diz – falei meio espantado com a quantidade de cores, tamanhos e formatos que criaram nos últimos anos. – Ela não vai ficar o tempo todo, só até começarem a vender as árvores de verdade. Aquelas sim são legais. Não essas estranhas.
suspirou. Eu tinha muito medo desses suspiros dela. Significava que ela não estava com paciência e que era para eu decidir logo antes que ela me mandasse passear num lugar nada bom.
- Aquelas naturais são uma afronta ao meio ambiente – ela resmungou ao meu lado enquanto pegava uma caixa. – Puro desmatamento!
- Ah, nem vem. Eles plantam aquelas árvores e cuidam delas o ano todo só para usarmos no Natal!
- E jogarmos fora depois. Grande coisa!
Nem vi que ela já tinha pagado a árvore que ela mesma escolheu. Agora eu comecei a reclamar. Como assim ela pagou? Era a minha árvore.
- Vamos em outra loja ver os enfeites – ela disse me entregando a enorme caixa.
- Caramba, você vai colocar esse trambolho onde? – meu, era pesado!
- Onde você quiser que eu coloque, amor. Contanto que não seja em nada meu!
- Graça!
Depois de duas horas andando com aquela caixa, apesar de todas as vezes que me mandou levar até o carro, entramos em uma loja interessante de enfeites coloridos. O bom de sair com a é que eu não preciso escolher nada, só carregar. Afinal, ela não aceitava muitas opiniões. Mal percebi quando ela saiu da loja, já que eu não conseguia ver muito com aquela coisa que eu carregava. Eu nem queria imaginar o tamanho da árvore que tinha dentro, sério. Isso não caberia na minha sala, ao menos que eu jogasse os sofás fora. E aí? Eu ia sentar no galho da árvore para ver TV?
- Nossa senhora, onde você vai colocar tudo isso, ? – perguntei ao ver todas as sacolas que ela carregava – Tem certeza que tem galhos o suficiente nessa árvore para tantos enfeites? Se bem que pelo peso, espero que tenha.
- Credo, . Nunca mais saio para fazer compras de Natal contigo. Você resmunga mais do que velho – ela respondeu rindo. – Fica tranqüilo, não vai sobrar um galho e muito menos enfeite. Agora vamos para casa.
Foi difícil, mas consegui colocar a caixa no bagageiro do carro. Não acho que aquele pacote coubesse no porta-malas nem mesmo de um Audi Q7! Durante o caminho de volta, passamos em um drive tru de uma lanchonete qualquer e enchemos o carro de comida. Se dependesse de todas as tralhas que estávamos levando, a noite seria bem agitada.
- Comprei um presente para você – ela disse sorridente. – Espero que goste!
- Você pagou tudo, . Isso não é certo! Quero todos os recibos para reembolso e agora!
Ela deu uma risada gostosa e eu tive que me lembrar que estava bravo.
- Pena que joguei tudo fora!
- Não jogou, porque se alguma coisa não funcionar nesse monte de sei lá o que, você vai ter que trocar ou pedir o dinheiro de volta – falei estacionando o carro na garagem de casa. – Então trate de me entregar tudo!
me surpreendeu com um beijo e mordeu meu lábio inferior em seguida. Ela sabia como me ganhar e fazia isso com uma facilidade tão grande que eu me irritava às vezes.
- Não estraga a noite, !
Depois disso, ela simplesmente saiu do carro, pegou as sacolas e deixou a caixa para eu carregar. Bati três vezes com a cabeça no volante e a segui.
- Certo – disse ela ao voltar da cozinha, depois de guardar o que compramos. – Coloca a caixa ali no meio, vamos montar a árvore!
Eu estava realmente bravo com essa história de não ter pagado nada. Apenas coloquei a árvore e esperei pela próxima ordem. Com as mãos habilidosas, abriu a caixa e tirou de dentro um enorme emaranhado verde escuro. Um pinheiro de mentira. Era mais ou menos do meu tamanho e realmente bonito. Não tinha enfeite nenhum e seus galhos ficavam perfeitamente intercalados à medida que os deixava assim. Sem nem ao menos pedir ajuda, ela levantou a árvore e encaixou no suporte que a manteria em pé. Depois, ficou ao meu lado admirando seu trabalho que não levou mais de dez minutos.
- Muito bem – disse ela com ar de satisfação. Espalhou todos os enfeites em cima do sofá, exceto por duas caixas que manteve nas sacolas. – Mãos à obra.
Não me mexi. Apesar de sua animação, não me senti a vontade para montar algo que não era meu. percebeu e parou na minha frente. Acariciou meu rosto e me beijou.
- Vai, não fica bravo comigo – ela disse beijando meu pescoço. – Não me importo em pagar uma árvore de Natal e alguns enfeites para o cara que eu...
Que ela...? Apenas suspirei e comecei a colocar os enfeites. Senti o olhar dela em minhas costas e virei calmamente quando ela me chamou. Suas mãos estavam estendidas, segurando uma caixa que, aparentemente, era para mim. Fiquei meio sem graça, mas peguei e abri. Quase caí de costas quando vi.
- O Papai Noel que toca sanfona e ri! – quase gritei.
- Eu vi que você gostou, – ela disse rindo – e como tinha visto mais barato em uma outra loja, achei que você merecia.
Corri pela casa atrás de pilhas, mas só para descobrir que já vinha no pacote. Colocamos a figura em cima da mesa de centro e ficamos observando o som e a risada que saía, junto com a dança ridícula que ele fazia. A cada movimento, nós dois ríamos feito duas crianças.
- É a coisa mais legal que eu ganhei de Natal – falei imitando o boneco. – Snow, vem ver!
A cachorrinha olhava desconfiada, até se ajoelhar e a aninhar em seu colo. Pouco a pouco, Snow começou a farejar o Papai Noel e a me olhar como se tivesse pena por eu estar dançando no meio da sala.
- Eu sei meu amor – ouvi dizer. – Isso tende a piorar com a idade, mas não se preocupe. Eu vou cuidar de você.
- Há, engraçadinhas – falei emburrado. se aproximou e eu a abracei. – Obrigado. De verdade. Você não sabe como esse Natal está sendo especial desde agora.
Continuamos a colocar os enfeites, dessa vez numa atmosfera bem diferente da anterior. Quando estávamos terminando de espalhar coisinhas de Natal pela casa inteira, pediu que eu ligasse a TV em Twilight, que estava passando na TV a cabo, e foi buscar nossa comida. Peguei o colchão do quarto de hóspedes e o joguei no meio da sala, junto com travesseiros, almofadas e cobertas. Jantamos antes de o filme começar e deitamos na nossa cama improvisada, acompanhados de Snow, que deitou encostada nas costas de .
- Eu não sei o que as pessoas tanto vêem no Robert Pattinson – ela disse no meio do filme. – Sinceramente, o Taylor Lautner ta um pitéu em New Moon. Não dá para sentir falta do Edward quando o Jake ta na cena.
- Você poderia me poupar desses comentários? Eu agradeceria imensamente!
- Desculpa.
- Ta desculpada! – falei rindo.
- Mas é verdade.
- !
- Foi mal.
- Essa Kristen não é lá grande coisa, né? – perguntei com medo que ela me socasse e dissesse que ninguém é melhor para o papel, como todas as fãs da série quase fazem quando eu falo qualquer coisa do tipo.
- Também acho – ela disse num tom profissional. – O filme podia ser só o Taylor que para mim estaria ótimo.
- ! Que saco! Vou começar a falar que a Kristen é gostosa!
- Pode falar, já sei que é mentira mesmo!
Revirei os olhos e apoiei meu queixo em sua cabeça. Acho que dormi no meio do filme, porque não me lembro da hora em que a Bella foi até o hotel com a Alice e o Jasper. Acordei com brincando com Snow e vi a segunda caixa que ela havia levado para casa. Será que era para mim?
- Presente para Lizzie – ela disse ao perceber que eu analisava o embrulho. – O Papai Noel igual ao seu. Acho que ela vai gostar.
voltou a se deitar ao meu lado, sempre com Snow fielmente aos seus pés.
- Impossível não gostar de qualquer coisa que você faça – falei beijando-a em seguida.
Rolamos um pouco no colchão, sempre repreendidos por Snow, que resmungava demonstrando não estar satisfeita em nos ver daquela forma. Eu já estava ficando excitado quando me parou.
- Vou levar essas coisas na cozinha – ela disse e antes que eu me mexesse, já havia saído do meu campo de visão. Mas não dessa vez.
- Ta legal, eu fiz o que eu pude, mostrei que eu realmente gosto de você, - falei um pouco nervoso – mas eu quero você, . Caralho, você tem idéia do quanto eu te desejo desde o primeiro dia que eu te vi?
Ela me olhava com uma expressão chocada, mas não falou nada.
- É sempre a mesma história de não posso, não quero, não consigo. Já foi mais de um ano nisso. É algum problema comigo? Porque aparentemente é só comigo que você não faz sexo.
- , para. Não continua com isso, não estraga tudo de novo – ela falou enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.
- Não. Dessa vez eu preciso saber – falei me aproximando. – O problema sou eu? Você tem nojo de mim? É isso? , eu preciso saber!
- Eu... eu...
- Você nem tem palavras! Você tem idéia do quanto eu sofri quando você voltou com o Matt e a sua filha?
- Com quem?
- Eu até pensei que fosse normal, já que você estava grávida. Seria estranho transar com outro cara esperando um bebê do seu estagiário. Isso realmente me matou, mas foi a única forma de eu ver tudo de uma forma mais clara. E agora com o Calvin? Vai dizer que vocês nunca transaram?
- , que filha?
- Ah não, você pode ter enganado os meus amigos, mas não a mim – dei uma pausa e bebi um copo de água. permanecia imóvel na cozinha. – A Lizzie é sua filha, não é?
Pela primeira vez desde que eu fora possuído por uma onda incontrolada de raiva e desejo reprimido, se mexeu. E foi para me dar um tapa certeiro na cara.
- Como você ousa pensar algo assim de mim? A Lizzie não é minha filha, – ela disse e foi até sua bolsa. Pegou uma foto e basicamente esfregou no meu nariz. – Ela é filha da Jammie e do Matt. Minha afilhada.
Quando vi a imagem impressa no papel, Jammie, Matt e Lizzie em frente a Torre Eiffel, tudo pareceu fazer sentido. A menina não se parecia tanto com porque ela era a cara da Jammie. Primeira cagada da noite. Se tinha mais? Esperem só e apreciem, ou não, o espetáculo!
- Nossa, elas são mesmo parecidas!
- São. Parecidíssimas – dizia em meio às lágrimas. Arrancou a foto das minhas mãos e eu percebi que ela tremia.
- , olha... tente entender meu lado. Meu, eu te amo! Sempre te amei! Nunca te esqueci e se você me pedir para terminar com a Lucy agora, eu faço. Mas me deixe entender o que aconteceu, por que você não me quer.
Ela andava decidida até a porta e eu corri na frente. Ela não ía sair dali até eu saber de tudo e tentar ajudar.
- Você precisa confiar em mim – falei começando a ficar desesperado. – , pelo amor de Deus, me fale o que houve. Por que você não fala com seus pais? Por que você tem esses segredos obscuros e não quer compartilhar com ninguém? Poxa, sou eu, não é qualquer um.
Eu não sei que raios aconteceu na cabeça dela, só sei que a vi colocando a bolsa novamente no lugar e parando firme na minha frente.
- Imagine que você está no meu lugar agora – ela disse com a voz tremula pela raiva. – Imagine que você tem um namorado que seu pai não aprova muito, mas que respeita. Agora imagina que você está em casa, com seu namorado, mas seus pais também estão.
Fui imaginando cada cena que ela falava e alguma coisa em mim dizia que não era nada bom. Deixei que ela continuasse.
- Agora imagina que seu namorado está te agarrando e você está gostando, mas quer parar. E quando você pede, ele não te ouve. E então, por mais que você lute, ele continua te agarrando, apertando, tirando sua roupa. Imagine que seu namorado, em quem você confiava, está tentando te estuprar pelo simples fato de não conseguir se controlar.
- ... – falei chocado e toquei seu braço. Ela recuou.
- Imagine agora que você não pode gritar, porque seu pai mataria seu namorado. Mas quando ele te penetra à força, uma dor te invade e você só quer sair dali. E então, quando você pensa que não tem como ficar pior, seu pai abre a porta e vê aquilo tudo acontecendo, te acha uma vagabunda e, depois de socar seu namorado e botar o cara para fora da sua casa, ele vem te insultando, te batendo e te botando também para fora de casa – ela dizia quase gritando. – Imaginou tudo isso, ? Muito prazer, essa sou eu!
Depois, como se todas as suas forças fossem tiradas de seu corpo, ela caiu de joelhos no chão, chorando compulsivamente. No segundo seguinte, eu estava ao seu lado e a abraçava o mais forte que eu podia. Eu não conseguia acreditar. Como que aquela menina tão simples e carinhosa, que distribuía sorrisos logo cedo, tinha um passado assim, um pai assim?
- E a sua mãe? O que ela disse? – perguntei conduzindo-a até o colchão, onde a aninhei em meus braços.
- Ela não confrontou meu pai, apenas jogou minha mala na porta horas depois. E então eu fui morar com a minha avó.
Era horrível, eu me sentia horrível, mas não tinha como eu saber, tinha?
- , alguém mais sabe disso?
- Só o Thiago – ela disse em meio aos soluços.
Claro! Era disso que ele falava quando eles conversavam. Era isso que ela tinha que superar. Nunca gostei tanto dele como passei a gostar. Ele ajudou a minha pequena a segurar toda a barra que ela tinha enfrentado.
- Sua vida ficou como depois disso tudo?
- Morei com a minha avó até ela morrer, quatro anos depois de tudo – ela disse sentando-se no colchão. – Depois disso, meus pais me pagaram a faculdade, mas não me aceitavam tanto na casa deles. Quando consegui o emprego aqui, eles pareceram orgulhosos, mas não se deram ao trabalho de me levar até o aeroporto. Era tudo mentira.
- Por que você não me disse isso antes, ? – perguntei aflito, segurando seu rosto entre minhas mãos.
- Eu não preciso que as pessoas tenham pena de mim, .
Ela se levantou rápido, pegou a bolsa e estava saindo quando eu a segurei.
- Eu não te amo por pena, .
- Não. Me ama pelo mesmo que ele. Por sexo.
- Não é verdade – gritei, enquanto corria atrás dela. – , volta aqui!
Ela corria pela rua, indo em direção a avenida que levava ao metrô. Ela não podia sair da minha casa assim, sem ouvir o quanto eu queria ajudá-la a superar tudo. Não era justo com ela, não era justo comigo. atravessou a avenida em uma brecha entre os carros e eu, no desespero, fui atrás. Nem me dei conta do enorme ônibus que vinha em minha direção. E o que eu sei é que eu estava correndo atrás da pessoa mais importante da minha vida antes de tudo ficar escuro.
Será esse o fim do McFLY? permanece desacordado.
Integrante da banda mais famosa do Reino Unido, ainda está internado na Unidade de Terapia Intensiva do hospital de Londres. Segundo os médicos, não houve alteração em seu quadro desde que passou de grave para fora de perigo. , porém, não está reagindo ao tratamento.
Após uma discussão com sua ex-namorada, foi atropelado por um ônibus quando corria atrás dela pela avenida principal que liga Hertfordshire ao centro da cidade. O amigo disse torcer para que tudo acabe o mais rápido possível. “Estamos ansiosos para receber de volta na banda e mal podemos esperar para tocar novamente para os nossos fãs”. Perguntado sobre um possível recomeço de namoro entre Pereira e , desconversou e disse não saber do que estávamos falando.
Não se sabe o motivo da discussão que culminou no acidente. Fontes que não quiseram se identificar afirmaram terem visto por diversas noites na casa do músico, o que nos leva a crer que não eram apenas bons amigos. Ao ser contatada para falar sobre o caso, a brasileira não foi encontrada.
Capítulo 11 – Addicted
- Eu não te amo por pena, .
- Não. Me ama pelo mesmo que ele. Por sexo.
- Não é verdade – ele gritou, enquanto corria atrás de mim. – , volta aqui!
Corri pela avenida, querendo apenas ir embora dali. Devia passar algum ônibus. Ouvi gritar meu nome mais uma vez e, então, uma buzina ensurdecedora.
- NÃO!
Tentei empurra-lo, mas já era tarde. O ônibus que eu tanto esperava já tinha tirado-o do meu caminho e o jogado para longe.
- ! – acordei gritando. Era a nonagésima quinta noite seguida que eu tinha o mesmo pesadelo. Que eu vivia novamente a mesma cena.
Olhei minha imagem no espelho. Profundas olheiras, cabelo desgrenhado e o suor escorrendo por minha testa. Minhas unhas roídas demonstravam o tamanho desinteresse que eu havia desenvolvido desde aquele maldito dia. Por que nada na minha vida pode ser bom?
Pensei em ligar para , mas vi a hora. Muito cedo, ele provavelmente me mataria, apesar de sempre me falar para ligar quando precisasse, mesmo que fosse de madrugada. Eu não era tão cruel assim. Quero dizer, o que podia ter de crueldade dentro de mim estava preso numa cama de UTI, respirando por aparelhos, inconsciente. Era assim que o descreviam. Nunca me deixaram ver. Não confiam em mim, apesar de falarem que acham que a cena é forte demais para que eu agüentasse.
Por isso eu estava em um quarto de hotel, em Manchester. Matt me obrigou a ir para uma reunião, mas não creio que eu tenha sido muito útil lá. Fiquei quieta a maior parte do tempo, somente pensando numa forma de furar o bloqueio que haviam colocado na porta do quarto do hospital, para garantir que eu não tentasse entrar.
Hoje era o dia do teste. Iam desconectar os aparelhos, tira-lo do coma induzido e ver o que acontecia. Eu queria tanto estar lá. Tudo isso era culpa minha e eu sei que no fundo, ele pensa assim. Todos os enfeites de Natal que havíamos colocado na casa fora retirado. Já se passavam três meses desde quando fora atropelado por aquele ônibus idiota. Se eu pudesse voltar no tempo. Tudo por causa de um trauma ridículo. Por que eu não parei quando ele gritou meu nome?
Senti Snow subir na cama. Não sei como deixaram que eu a levasse comigo. No fundo eu sabia que tinha alguma história que envolvia nós duas, mas nunca me falaram. Ela sentia falta dele, assim como eu. Assim como a família dele, a banda dele... tudo dele. Voltaríamos para Londres no dia seguinte e eu ia exigir que me deixassem entrar no quarto. Não era mais um pedido qualquer, era uma ordem, uma necessidade.
Voltei a fechar os olhos, dessa vez me sentindo protegida com um pedacinho meu e dele enroscado no emaranhado de cobertas sobre a cama. Snow sabia como cuidar de mim, como soube cuidar dele quando eu não fui mulher o suficiente para isso. Pouco a pouco senti meu corpo amolecer e, finalmente, dormi.
O trem deslizava veloz nos trilhos. Não demorou muito para que eu estivesse em Londres novamente. Matt, Jammie e Lizzie me esperavam na estação e me levaram para casa.
- Alguma notícia de , Matt? – perguntei ansiosa.
- Não.
- Matt – repreendeu Jammie.
- Não, Jammie, não temos!
- Tem sim – falei brava colocando a cabeça no meio dos bancos. – O que houve, Jammie? Eu quero saber.
Por maior que fosse meu medo, eu queria mesmo. Senti um nó dolorido se formar em minha garganta ao pensar que ele...
- Os médicos não deram sedativos hoje e, bem, foi um pouco ruim – ela disse calculando as palavras. – Ah, ok, o negócio é que ele sente dores que parecem ser mais fortes do que ele e ele grita o tempo todo.
Encostei no banco. Dores. Gritos. O que seria dele? Eu queria tanto abraça-lo.
- Então conta tudo agora! – ralhou Matt.
- O que tem para contar? – perguntei sentindo um forte enjôo.
Ouvi Jammie suspirar antes de responder.
- Ele não dá gritos normais, tipo AH. Ele... grita seu nome. Ele te chama em meio aos berros e urros de dor.
- Não... – sussurrei.
- É, – disse Matt. – Acho que o já deve estar na sua casa a uma hora dessas. Ele vai te explicar algumas coisas que, talvez, você precise fazer. Não deve ser muito difícil, é só...
Não deixei Matt terminar. Ao ver parado na porta de minha casa, saltei do carro.
- Oi, pequena – disse ele me abraçando. – Como foi a reunião?
- Foda-se a reunião – respondi. – Quero saber o que ele tem, como posso ajudar, quero ver agora, quero saber por que ele sente dores, por que grita meu nome... e não me esconda nada, .
Ele fez cara de derrotado, mas não mentiu dessa vez. E não sei se eu queria saber mesmo a verdade agora.
- sofreu inúmeras fraturas, algumas ainda não foram consertadas. Lugares difíceis de arrumar sabe como é, né? Coisa de médico. O caso é que ele está relativamente acordado e sente dores por isso. Muitas dores. Os médicos estão preocupados em como vai ser quando essas dores todas pararem – ele deu uma pausa e respirou fundo. – Pode ser que alguma coisa esteja errada agora, mas que quando ficar boa interfira em outras e complique o quadro dele. O que mais nos assustou foram os gritos. Estávamos todos no corredor quando começamos a ouvir gritar seu nome. Quando entrei no quarto, ele se contorcia de dor, suava muito. Deram sedativos novamente e nos botaram para fora.
- E agora? – perguntei agoniada.
- Agora o médico que está cuidando dele vai tentar de novo, mas ele acha que só tem uma pessoa que possa acalmar . Sabe, , sempre que falávamos de você perto dele, o coração dele se agitava. Dava para ver naquele monitorzinho ao lado da cama. Então o médico quer que eu te leve até lá para falar com . Talvez se ele ouvir a sua voz, ele consiga se controlar com relação às dores e fazer a recuperação ser mais rápida. É algo do tipo.
- Então vamos – falei já saindo.
- Não – segurou meu braço. – Pequena, são cenas horríveis, eu não quero que você veja. Dói, nós todos choramos muito por causa disso.
- Se você não me levar, , eu vou sozinha. Mas você não vai me impedir. Ele precisa de mim.
- Você não está fazendo isso por se sentir culpada ou achar que estamos bravos, não é?
Fitei incrédula. Eles me culpavam? Estavam bravos?
- Não estou fazendo nada disso por ninguém que não seja . E você devia saber disso.
Coloquei Snow para dentro de casa e migrei firme para o carro de . Ele me levaria lá, querendo ou não.
Milhões de fãs, fotógrafos, jornalistas e tudo mais estavam plantados na porta do hospital. Cantavam All About You quando cheguei. Alguns me deram oi, outros me xingaram, mas a maioria me pedia para ajudar. Todos queriam de volta, assim como eu. Jamais pensei, em toda a minha vida, passar por algo assim. me conduzia em silencio pelo frio corredor, quando avistei os outros. Faltavam poucos passos para que eu abraçasse e então uma voz me chamou.
- – gritava. – !
- ! – me lancei contra a porta, mas os meninos me seguraram. – Me soltem, eu preciso entrar.
E de repente, tudo ficou em silencio.
- Não... – sussurrei enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto. – Não façam isso, não o façam sofrer. Me deixem entrar.
, e me abraçaram ao mesmo tempo, mas por poucos minutos. O médico saiu e me fitou interessado.
- Você que gritou o nome dele? – perguntou se aproximando. Apenas confirmei com a cabeça. – Ele parou na mesma hora. Aplicamos um sedativo fraco agora, não seria o suficiente para conte-lo.
Todos me olharam como se eu fosse uma espécie de bicho estranho. Então ele me ouviu.
- Por favor, doutor, me deixe entrar?
- Claro!
Eu não esperava por isso. Em poucos minutos, uma enfermeira surgiu ao meu lado com avental e touca, que vesti rapidamente. Ouvi me chamar novamente, e o chamado ficar mais alto até virarem gritos. Me cortava o coração. Parei na porta. Os gritos continuavam.
- Chame-o – disse o médico antes de abrir.
- ! – gritei com a voz trêmula.
Os gritos diminuíram. Ele me ouvira pela segunda vez.
- Certo, vamos lá.
Médico e enfermeira entraram e prostraram-se disciplinadamente ao lado da cama. Eu ainda permanecia ali, parada na porta, de onde eu só conseguia ver os pés de , que começavam a se agitar.
No corredor, todas as respirações pararam. E quando eu entrei, senti o ar fugir de meus pulmões como se fossem bexigas sendo esvaziadas. Ali estava ele, pálido, com algumas cicatrizes ainda se formando pelo rosto. Os machucados mais profundos estavam deixando marcas, outros já tinham sumido. Seu rosto angelical continuava incrivelmente lindo e seus lábios sussurravam meu nome.
Me aproximei cautelosa. Não sabia o que podia e não podia fazer. A cara de se contorceu numa careta de dor e ele gritou novamente. Coloquei a mão em seu braço.
- Não grita – falei tentando me controlar. – Eu estou aqui com você. , sou eu. Está tudo bem agora, meu amor. Nada vai te machucar.
E antes de mergulhar em um silêncio profundo, ele falou baixo pela última vez.
- .
Foram dias intermináveis de horror, medo, angústia e muita dor. Os gritos deixaram de ser acalmados com remédios, passando a ser silenciados apenas com a minha voz. Essa, porém, era a pior parte. Fui acordada várias vezes durante incontáveis noites, saí correndo tantas outras do escritório, sempre para que me ouvisse. O médico pedia cada vez mais para que eu conversasse com ele, falasse sobre o meu dia, o que eu ia fazer, o que eu tinha feito. Se eu ia ao banheiro, avisava-o e ele se mantinha bem. Mas se eu não voltasse em uma hora aproximadamente, tudo recomeçava. Era algo inexplicável até mesmo para os mais avançados estudos. era monitorado 24 horas por dia. Não estava mais em coma induzido, mas não abria os olhos. Isso era o mais frustrante para todos nós. Se ele ao menos acordasse, falasse conosco. Mas ele permanecia adormecido.
Certa noite fui acordada por e , que esmurravam minha porta com tal força que assustaram Snow.
- , pelo amor de Deus, acorda! – gritava .
As vozes eram distantes, mas pareciam reais demais para um simples sonho. Foi quando a pequena cachorra começou a latir freneticamente que eu acordei e vi que nada daquilo era fruto da minha imaginação. Quando reconheci as vozes, desci veloz e abri a porta.
- O que houve? – perguntei desesperada e sonolenta.
- Ele está berrando de novo – disse aflito. – Vamos?
Fechei os olhos e respirei por dois segundos. Subi novamente, me troquei e fomos para o hospital. Se eu achava que tinha visto todas as cenas horríveis que havia feito até então, nada se comparava com aquela.
Seus gritos eram tão altos que algumas pessoas acordadas do lado de fora juravam poder ouvir. Eu entrei tão apressada que nem vi quantos ainda tinham e quem estava ali. Quando cheguei ao quarto, um cheiro forte invadiu minhas narinas e me deixou tonta. Ele estava vomitando o que nem havia comido. Era puro ácido que saía de seu estômago vazio.
- , , calma! – gritei tentando segura-lo. Não funcionou.
O médico me olhou perplexo. Isso nunca falhava.
- Tente de novo – ele pediu, limpando o líquido esverdeado que escorria da boca dele.
- Ei, me escuta – falei segurando seu rosto em minhas mãos. – Eu estou aqui, . Sou eu, . Se acalme, por favor.
E num último movimento, ele me empurrou para longe, arrancou o soro que estava eu seu braço e quase caiu da cama. Teve sorte de estar ali tentando ajudar. Tudo parou. Como se tivesse processado a informação e finalmente reconhecido minha voz, se acalmou e o silêncio reinou no quarto. Eu tremia tanto que não consegui andar. Ele voltou a resmungar ao sentir a ausência do meu toque.
- E-eu... estou aqui, – falei com a voz falha.
Me aproximei lentamente, temendo ser lançada outra vez contra a parede. Peguei a toalha que o médico segurava anteriormente e limpei sua boca. A enfermeira fez um curativo em seu braço e recolocou o soro.
Todos os dias e todas as noites eram tensas, sempre ansiosas por um momento como esse. Eu não me concentrava mais em nada, não comia, não dormia, não trabalhava. Não vivia mais. Mas também não reclamava. Era ele, o cara que eu sempre amei, que estava precisando de mim. E era eu quem ele teria ao seu lado sempre. Com o tempo, fui me acostumando a deixar minha vida de lado para acompanhar o tratamento de . Tanto larguei tudo que mandei Snow para a casa de Matt e, apesar de ter sofrido muito, mandei Calvin seguir em frente sem mim. Mesmo assim, ele sempre me ligava e perguntava se podia me ajudar em alguma coisa. Mas eu não queria. Eu tinha que fazer isso. Os aparelhos respiratórios foram retirados duas semanas depois e ele já estava com o rosto praticamente perfeito novamente. Em uma ressonância magnética, o médico constatou que não existiam mais fraturas, mas que um problema na coluna de poderia ser pior do que o esperado.
Não tinha como não concordar que os gritos tinham diminuído. O que era alarmante, de certa forma. Segundo o médico, significava que as dores estavam passando e que o resultado final estava próximo. podia acordar a qualquer momento, se essa fosse sua vontade, e então saberíamos o que de fato aconteceu em seu corpo.
- Você precisa ir para casa, – disse . Era a terceira noite seguida que eu passava no hospital.
- Não – falei antes de um bocejo. – Ele precisa de mim, vou ficar aqui. pode acordar a qualquer minuto e eu quero estar aqui para ajudar.
- Besteira, – resmungou . – Você não dorme direito, não come direito. Vai acabar doente e não vai poder ajudar em nada!
- Não vou ficar doente!
Arrumei minha poltrona ao lado da cama de . Era ali que eu dormia, às vezes encolhida, às vezes com a cabeça perto da mão dele. Eu não me importava mais comigo. Montei minha casa no quarto do hospital. Computador, roupas, produtos pessoais, livros. Tudo o que eu precisava estava ali, bem ao lado dele, de onde eu jamais deveria ter saído um dia. E assim se passou mais uma noite.
Capítulo 12 – Only hope
A maior surpresa ocorreu três semanas depois de eu ter me mudado para o hospital. Eu estava digitando um roteiro que seria enviado para Matt em poucos minutos quando o mesmo abriu a porta do quarto, quase me matando de susto.
- Que história é essa de demissão, ? – perguntou ele furioso, sacudindo um papel na minha frente.
- Shiu – eu o repreendi.
Matt revirou os olhos e me mostrou o e-mail que nosso chefe havia enviado para ele. Em meio às palavras impressas, reconheci partes do meu próprio texto. “Uma demissão temporária, se o senhor assim concordar. Não posso sair daqui do hospital agora e não quero prejudicar a empresa. Então indico, de olhos fechados, Matthew, meu estagiário, para ocupar meu lugar enquanto não estou apta a realizar minhas funções”.
- Matt – falei e respirei fundo antes de continuar. – Eu não sei quando vou sair daqui, não sei como vai ficar minha vida. Eu quero você no meu lugar, entendeu? E você vai usar tudo aquilo que aprendemos juntos e vai fazer clipes cinqüenta vezes melhores do que os meus.
- ...
- Eu quero isso, Matt. Ninguém está me obrigando. Por favor, não negue. É só essa ajuda que eu te peço.
Ele pareceu derrotado. Convenhamos que Matt não era meu estagiário há muito tempo. Éramos a melhor equipe que a O2 tinha, falando honestamente. Nós dois e Josh, que estava em um cruzeiro ao redor do mundo com seu novo namorado e só voltaria no final do ano. Não havia ninguém no mundo que saberia conduzir nossa equipe melhor do que Matt. Sem dizer uma só palavra, ele saiu e me deixou ali, sozinha, com ainda desacordado.
Uma enfermeira trouxe meu almoço, que eu achava horrível, mas comia por exigência dela. Ou eu comia, ou ela me obrigava a ir para casa. Então eu simplesmente engolia aquilo. Poucas vezes saí de perto de . Uma ou duas, para ir até a Starbucks mais próxima comprar algumas guloseimas.
Minhas pernas doíam pelo longo tempo que eu passei sentada. Mandei o último roteiro pelo qual eu era responsável para o e-mail de Matt e fechei o laptop. Abri a janela e senti o ar ligeiramente quente de Londres bater em meu rosto. Um barulho ensurdecedor feito pelas fãs me obrigou a voltar para dentro do quarto na mesma hora. E foi aí que a minha grande surpresa aconteceu. Quando virei de costas, estava de olhos abertos e fitava o teto, como se fosse interessante.
- Meu Deus – sussurrei incrédula. – Você... acordou!
Me aproximei lentamente da cama, mas ele não me olhou. Toquei sua mão. Nada. Acariciei seu rosto e vi a primeira reação vinda dele. Eu estava maravilhada, sem acreditar que ele estava ali, olhando para mim, com seus olhos cansados, mas ao mesmo tempo profundos. Brinquei com seus cabelos, sem conseguir tirar o sorriso de meu rosto.
- – ele disse com dificuldade.
- Oi. Bem vindo de volta!
Algo me fez crer que ele sorria. Talvez os cantos de sua boca, ligeiramente virados para cima, me davam essa impressão.
- Sede.
- Vou chamar o médico e ver se posso te dar água, está bem? – apertei o botão de emergência.
Não deu muito mais de dois minutos para que uma tropa entrasse no quarto. Assim como eu, o doutor ficou encantado em ver que seu paciente mais famoso estava acordado.
- Graças a Deus você voltou, rapaz – disse ele brincalhão. – Pensei que eu perderia meu emprego.
Depois que seus sinais vitais foram rapidamente conferidos, fui autorizada a dar-lhe água e foi levado para alguns exames. O clima no corredor era de comemoração e os meninos me abraçavam entre lágrimas e risadas. Eu não queria ficar muito tempo longe dele. Queria abraça-lo, se possível beija-lo e dizer-lhe o quanto eu o amava. Mas nossa alegria foi interrompida horas depois, quando o médico voltou e não me deixou entrar no quarto.
- As enfermeiras vão dar um banho nele, trocar os curativos. Antes eu preciso falar com vocês – disse ele sério. – Fizemos exames físicos e neurológicos. O resultado é um pouco negativo, como eu temia.
- Certo, - falei apressada – vamos direto para a parte que o senhor fala o problema.
- teve uma contusão medular. O grau não é dos mais graves, então ele pode recuperar os movimentos com o tempo, mas vai precisar de muito apoio, muita fisioterapia e força de vontade.
- Doutor, resumindo... – ouvi dizer baixo ao meu lado.
- Isso quer dizer, meu amigo, que está temporariamente tetraplégico. Ele não move os braços, as pernas, nada. Somente a cabeça.
E, bem, esse foi o baque pelo qual eu não esperava. Aliás, ninguém esperava. Ficamos todos no corredor e ninguém ousou entrar para vê-lo. Todos tinham medo que ele perguntasse alguma coisa e não conseguíssemos responder. Mas, claro, eu tinha que fazer isso. Não demorou muito para que uma enfermeira saísse do quarto e dissesse que ele estava me chamando. Quando entrei, vi parcialmente sentado, de olhos fechados e com o rosto pálido. Sentei ao seu lado na cama e ele me olhou.
- Você está bem? – perguntou ele com a voz fraca.
- Ei, não é você quem tem que fazer essa pergunta – respondi forçando uma risada. – Você tem idéia do susto que me deu?
- Sinto muito.
Ele voltou a fechar os olhos e eu o olhei inteiro. Todo seu corpo, sem nenhum movimento.
- Me perdoa por ter saído correndo daquele jeito e quase te matado? – falei tentando conter as lágrimas teimosas que queriam escapar. – Me perdoa por ser covarde, por ser fraca, por não ser a garota ideal para você.
- Cala a boca, – ele disse baixo e rindo. – Ainda bem que fui eu e não você. Há quanto tempo estou aqui? Três dias?
O olhei espantada.
- Você está aqui há cinco meses, .
Vi seu rosto se transformar em uma expressão de choque. Ele não imaginava que era tanto? Coitado, mal sabia da metade.
- Impossível.
Silêncio. A essa hora todos os fãs e a imprensa sabiam que ele tinha acordado. Várias músicas do McFLY eram entoadas do lado de fora e eu me levantei e espiei pela janela.
- Seus fãs estão fazendo plantão há cinco meses aqui na porta do hospital – falei sorrindo e vi que ele também sorria. – Já cantaram todas as músicas de todos os CDs, incluindo extras, backstages e músicas de bandas que você gosta.
- Posso ver? – ele perguntou e algo mudou em seu rosto – Não consigo levantar. Me deram algum sedativo?
Fiquei paralisada. O que eu deveria dizer? “Amor, você não tem mais movimentos”? Não, rude demais. Encarei seus olhos que ainda esperavam por uma resposta e me aproximei lentamente.
- , vai com calma – falei segurando sua mão. Ele não me olhou. Não sentiu. – A batida do ônibus foi forte, mas não tanto quanto você vai precisar ser agora.
- , o que aconteceu? Fala de uma vez! – ele quase gritou. Lágrimas de desespero escorriam por seu rosto.
- Calma – falei abraçando-o. – Por favor, calma. Eu estou aqui com você e não vou te deixar, eu prometo.
- Eu quero te abraçar. Por que eu não consigo, ? Por quê?
Sentei ao seu lado e sequei suas lágrimas que teimavam em cair. Por mais que eu tentasse, estava difícil não chorar. Uma bola dolorida se formou em minha garganta e eu só queria gritar para ver se a dor diminuía.
- Isso é temporário – falei respirando fundo. – Juro, isso vai passar. Você só... teve um problema na coluna e...
- Eu não tenho mais movimentos? – perguntou se olhando. O choque em seu rosto me partia o coração. – Fala de uma vez, , por favor.
- Você está temporariamente tetraplégico. É isso.
Fechei os olhos deixando que as minhas lágrimas escorressem. Ele não falou nada e eu não tinha coragem de olhá-lo. Aquilo tudo era minha culpa e eu tinha que pagar de uma forma ou de outra.
- Me deixa sozinho – ele disse baixo. – Sai do quarto, por favor.
Não neguei. O que podia fazer? Nada, claro. Nem ao menos me abraçar ele podia. Levantei da cama, beijei-lhe carinhosamente a testa e saí. Quando me viram no corredor, parada em frente à porta já fechada, os meninos vieram me abraçar.
- Ele só pediu para ficar sozinho – falei chorando contra o peito de . – Vai ficar tudo bem. Eu prometo a vocês. Nunca vou abandonar o , nunca.
Horas depois, eu ainda do lado de fora do quarto, o médico apareceu. Sem dar nenhuma palavra, entrou na sala. Entrei logo em seguida. ficou calado e olhando para o teto. Vez ou outra dava um suspiro pesado, mas não se incomodava com nada que estivesse acontecendo ao seu redor.
- Vamos te levar para outros exames, – dizia o médico. Ele apenas ignorava. – Vamos fazer uma análise mais profunda da sua coluna e ver quais serão os tratamentos que você precisará fazer.
Parei ao lado da cabeça de e brinquei com seus cabelos. Ele fechou os olhos ao sentir minhas mãos passearem por seu rosto, o único lugar que ele ainda sentia.
- O médico está falando com você – falei baixinho.
- Eu sei – ele respondeu rude. – Estou tetraplégico, não surdo.
, que estava na porta, repreendeu por sua resposta nada delicada. Eu não o culpava. Ele estava bravo porque seus movimentos eram nulos agora. E tudo isso porque eu o deixei assim. Mas eu não sairia do lado dele, mesmo que ele me tratasse mal, fosse grosso ou me insultasse o suficiente para me magoar. Eu ficaria ali e pronto.
Enquanto os enfermeiros o levavam para outras salas, uma moça ruiva se aproximou. logo se endireitou na cadeira, se achando o tal.
- Oi, eu vim aqui tirar as medidas de... – ela consultou o nome em sua prancheta – . Para fazermos a cadeira de rodas dele.
O ar fugiu de meus pulmões. Ele ali, no hospital, deitado numa maca, era uma coisa. Agora numa cadeira de rodas era algo além do que eu tinha pensado. Mas claro, como ele iria se locomover sem ajuda?
- Ele foi fazer alguns exames – respondeu . ainda me abraçava. – Deve voltar em alguns minutos.
A moça agradeceu e sentou-se o mais distante de nós. Quando voltou, ela rapidamente se levantou e o seguiu.
- Vai com ela – disse . – Ele vai se fazer de durão agora, mas a única pessoa que vai conseguir controlar o humor dele vai ser você, pequena.
Fiz o que me pediu. E, bom, se estava irritado, nada se comparou ao seu comportamento quando ele soube quem era aquela mulher.
- Eu não vou usar cadeira de rodas – ele quase gritava enquanto ela tirava suas medidas. – Sai de perto de mim!
- – falei pacientemente afagando seu rosto. – Amor, por favor. Colabore.
- Eu não quero . Não quero, será que dá para me respeitar? Tira essa garota daqui... AGORA!
Ela se assustou com o grito que ele deu e eu também. Pedi que se retirasse do quarto e me sentei ao lado de .
- Não é difícil só para você – falei olhando em seus olhos. – Eu queria estar no seu lugar, . De verdade!
- Você não sabe o que está falando, .
- Sei. Sei sim. Sei porque é minha culpa, sei porque dói mais em mim do que você possa imaginar. Sei porque eu te amo, , e te ver preso a uma cadeira de rodas é o que eu menos quero.
- Então não me obrigue a isso – ele praticamente implorou. – Por favor.
- Mas não vou deixar você preso em casa, em uma cama, como um inválido!
- Mas é o que eu sou! – gritou novamente.
- Não é – gritei de volta. – Para com isso. Esse pesadelo todo vai passar . Você só precisa acreditar em mim, acreditar na equipe que quer te ajudar. Ninguém quer te colocar numa cadeira horrível dessas por diversão. Só queremos te ajudar.
Quando ele queria, era pior que um bebezinho birrento. Lembrei-me de como eu o ganhava facilmente quando essas manhas aconteciam em nossos momentos na casa dele. Eu só esperava que continuasse a funcionar.
- Não, nem vem... – ele dizia enquanto eu beijava toda a extensão de seu rosto. – Você não vai me convencer, .
- Ah vou sim – falei rindo e mordi seu lábio inferior. – Me ajude a te ajudar. Por favor? Diz que sim? Vai?
Ante que ele pudesse responder, o beijei. Bom, pelo menos ali nada tinha sido afetado. Seu beijo continuava doce, carinhoso e seus lábios continuavam a se encaixar perfeitamente nos meus.
- Argh, odeio quando você faz isso – disse ele tentando não rir.
- Vai ser difícil, mas nós vamos conseguir . Você vai. Eu sei disso!
- Tá, tá – disse ele rabugento. – Chama aquela magrela de volta. Não vai ter jeito mesmo.
- Bom menino! – dei-lhe outro beijo e fui até a porta, chamando a moça que parecia bem assustada.
se desculpou por seu comportamento grosseiro e ela relaxou. Tirou todas as medidas que precisava e saiu, nos deixando sozinhos novamente.
- E seu trabalho? – perguntou ele me analisando enquanto eu arrumava a bagunça que tinha feito mais cedo.
- Não depende mais de mim – respondi tentando encerrar o assunto.
- Por quê?
Respirei fundo. Eu não queria falar sobre isso com ele. Certamente, outro esporro viria.
- Eu me demiti!
- Como assim se demitiu? – ficou tão espantado que por um momento eu jurei que ele fosse sentar na cama.
- Sem mais, . Não ia dar certo. É só por enquanto. Matt está cuidando de tudo.
- Você se demitiu por minha culpa. , isso não é justo! Aquela empresa é a sua vida, você ama o que você faz lá...
- Você é a minha vida, – falei arrumando a coberta que se estendia sobre ele. – Eu não vou te deixar e nem adianta argumentar comigo.
Desistimos da nossa discussão besta. Ele continuava a me olhar enquanto eu arrumava tudo.
- Quanto tempo você ficou aqui comigo? – perguntou curioso.
- Quatro meses e meio – respondi esperando por outra bronca. Mas ela não veio.
- Obrigado por tudo, – disse com a voz cansada.
Aproximei-me sorrindo e ele sorriu também. Nossos sorrisos juntos novamente.
- Obrigada por ter me ouvido, por ter se arriscado por mim, por ter sido incrível todo esse tempo – falei beijando-o em seguida.
- E a Snow? – ele perguntou meio chateado por ter lembrado dela só naquela hora.
- Ficou comigo por um tempo. Depois deixei com o Matt e a Jammie – falei baixo. – Desculpa, eu não tinha com quem deixar.
- Tudo bem. Eu imaginei que ela estivesse com alguém.
- A Lizzie está cuidando dela – falei sorrindo. – As duas quase derrubaram a sala da Jammie domingo.
riu e me pediu para continuar contando sobre sua cachorrinha. Combinamos que assim que ele fosse para casa, Snow iria também e não sairia mais de lá. Apesar de que isso ele não precisava me pedir. Eu fazia questão de deixar os dois seres preciosos da minha vida juntos novamente. Eu mal podia esperar por esse momento.
Capítulo 13 – Long shot
Foram mais duas semanas com no hospital. Nesse meio tempo, tratei de organizar a casa dele e deixa-la pronta para recebê-lo. Algumas modificações foram necessárias, assim como diversas adaptações. Passei mais tempo fora do que dentro do hospital. , e me ajudavam de todas as maneiras. Até mesmo brigando comigo e ameaçando me trancar fora de casa.
- Seu cabelo tá horrível – falou . – Por que não passa um dia em algum salão? Vai fazer coisas que todas as mulheres gostam, .
- Caralho – disse rindo. – Com um amigo como você, a jamais vai precisar de um inimigo!
- Mas ele tem razão – concordou . – A fica em função do o tempo todo e está esquecendo dela mesma. Sai fora, . Nós vamos terminar de arrumar a casa!
E assim, nessa delicadeza toda, me botaram para fora da casa de e trancaram as portas. Eu podia ficar sentada no jardim ou podia apenas fazer o que disseram. E talvez eu estivesse mesmo precisando disso. Minhas unhas estavam em frangalhos, se é que ainda podiam ser chamadas de unhas. Fui até o salão onde Jammie fazia todas essas coisas de mulher e passei a tarde toda lá. Arrumei tudo o que estava torto e só voltei para a casa de no final do dia.
- Ah, agora sim vejo uma menina e não um espantalho – disse .
- Agora que eu estou revigorada, posso falar: vai para o inferno, ! – respondi e todos nós rimos.
Olhei todos os detalhes da casa. Barras de ferro, tapetes com adesivo antiderrapante, o quarto de transferido para o primeiro andar. Ele me mataria por tantas mudanças, mas era preciso. Algumas cadeiras da mesa de jantar foram parar no andar de cima, já que ele precisaria de espaço. O sofá foi mais para o lado, para que ele ficasse na frente da TV. A mesa de centro foi tirada, para que ele passasse. Tudo de uma forma diferente.
- Certo, - disse se jogando no sofá – acho que terminamos. Ele volta amanhã e eu não quero estar aqui para ver a cara dele quando ele perceber a bagunça que ficou!
Continuei olhando tudo. Tentando entender como faríamos com aquele monte de tranqueiras quando ele recuperasse os movimentos. Porque eu só desistiria quando ele voltasse a andar, tocar, correr e a me agarrar. Sorri sozinha.
- – disse coçando a nuca sem jeito. – Olha, obrigado mesmo por tudo que você está fazendo pelo , viu?
- Oun – eu falei abraçando-o. – Não estou fazendo nada de mais, !
- Mas você também precisa se divertir, – continuou . – Então nós pensamos em fazer escalas para ficarmos aqui com o . Você não pode continuar com a sua vida parada por causa dele.
- Não precisa . Eu consigo cuidar de tudo sozinha!
- Você vai tentar se livrar de nós, – completou – mas não vai conseguir!
Eles eram os melhores meninos do mundo e eu não queria mesmo me livrar deles. Nunca.
- Uau, que bom que lembrou que eu existo! – resmungou quando abri a porta do quarto. – Nossa... você ta linda!
- Primeiro, seu babaca, eu não esqueci que você existe – respondi rindo e beijando-lhe os lábios. – Segundo, obrigada!
Coloquei alguns pacotes da Starbucks em cima da mesa e me acomodei ao lado de . Ainda era estranho ficar perto dele sem sentir sua mão procurando pela minha. Mas eu fazia questão de sempre segura-la, mesmo que ele não sentisse.
- Quero ir logo para a minha casa – ele disse fechando os olhos. – Queria tanto ir andando.
Acariciei seu rosto agora perfeito, sem nenhuma cicatriz. Eu tentava de todas as formas fazer piadas para que ele não pensasse no que estava passando. Nem sempre dava certo, mas na maioria das vezes ele ria e me chamava de boba.
- Pensa que romântico será quando eu te carregar no colo à noite – falei rindo, mas ele não achou graça. – Ah, ta. Essa foi chata mesmo!
- Sua boba – ele finalmente falou e riu.
- Daqui a pouco o médico chega para te dar alta e nós vamos sair daqui – falei confiante. – Só preciso te alertar que tivemos que fazer algumas alterações na sua casa.
me olhou desconfiado. Ele devia esperar por isso, não? Como ele pretendia viver naquela casa cheia de degraus, obstáculos e tudo mais? Impossível!
- Tenho tanto medo do que eu posso encontrar – ele respondeu revirando os olhos.
Comecei a organizar o quarto, pegando o que ainda restava das minhas coisas e das dele. Depois, contrariando ordens médicas, dividi com ele meu delicioso muffin de chocolate. parecia animado, na medida do possível, claro. Não era a situação mais confortável você não sentir seu corpo, mas ainda assim ele parecia bem. Apenas mudou seu humor completamente quando a enfermeira entrou empurrando sua cadeira de rodas.
- Isso é horrível, man! – ele quase gritou.
- Dude, vamos nos divertir mesmo assim – respondeu vindo logo atrás da mulher. – Já imaginou como vai ser quando a gente descer ladeira a baixo com isso e...
- – falei séria – cala a boca! Você acha que eu vou deixar você encostar no enquanto ele estiver sentado aí?
Tá, ninguém precisava saber que essa discussão já havia sido planejada. nos olhava curioso, esperando que lhe déssemos atenção.
- Eu gostei da idéia – ele disse finalmente. – Podemos colocar o aí enquanto ele estiver dormindo e soltar.
- Céus, vocês são um perigo – falei me levantando para que fosse colocado na cadeira. – Quero distância de vocês quando estiverem juntos. Ou melhor, vou mandar colocar controle remoto nessa cadeira e eu vou controlar o breque dela!
Todos, até a enfermeira, riram. Dei um jeito de dar uma piscadela rápida para antes de ajudar a acomodar .
- Certo – disse a enfermeira – você talvez se sinta um pouco tonto no começo, mas é normal. Antes de ver o doutor e ele te dar alta, seria interessante se você desse um passeio pelos corredores do hospital, assim vai se acostumando.
- O garotão aqui se sentir mal? – se posicionava atrás da cadeira antes que eu tivesse pensado nisso. – Tá brincando? De nós quatro, ele é o melhor na montanha russa! Pronto, cara?
- Manda ver! – respondeu sorrindo.
Para meu espanto, saiu correndo e empurrando o amigo pelos corredores do hospital. Eles riam feito duas crianças e parece que nenhum mal estar incomodou .
- Acho que ele vai se divertir mais do que imagina – disse parando ao meu lado.
- Eles vão me matar do coração ainda, isso sim!
- Relaxa, pequena – senti os braços dele me envolverem num abraço carinhoso. – Ele precisava disso.
Mas enquanto e eu conversávamos, pareceu se incomodar com algo.
- O que foi, cara? – perguntou preocupado.
- Eu queria ser o cara que tá abraçando a agora – ouvi-o responder.
Virei-me para e seu semblante era triste. Me soltei dos braços de e foi para perto dele.
- Você vai ser o cara que vai me abraçar o tempo todo! – falei acariciando seu rosto.
- Você sabe que não – ele disse fechando os olhos.
Me ajoelhei ao seu lado. Cuidadosamente peguei seus braços e passei por meu pescoço, beijando-o em seguida. abriu os olhos espantado e me fitou.
- Quem é o mané que está me abraçando agora? – brinquei.
- ... – ele parecia assustado – eu estou sentindo que estou te abraçando.
conseguiu nos assustar e muito! Ele não sentia nada até aquele momento.
- Co-como assim, amor? – perguntei com a voz fraca.
- Eu sinto o seu pescoço, sinto seus cabelos fazerem cócegas nas minhas mãos. Eu to te sentindo, – ele estava chorando.
Me desfiz do abraço que eu mesma tinha criado e segurei as mãos dele. acompanhou meu olhar e fitou suas próprias mãos com interesse. Virei a palma de sua mão direita para cima e passei minha unha de seu pulso até metade de seu braço. Ele se arrepiou.
- Ah meu Deus – falei incrédula. – Você... você sentiu?
Ele apenas concordou com a cabeça enquanto diversas lágrimas escorriam por seu rosto. Parei atrás da cadeira e o abracei, enchendo seus ombros, pescoço e rosto de beijos. voltaria ao normal, e agora eu tinha mais certeza do que nunca!
- Vejo que você já está comemorando por me deixar – disse o médico rindo.
- Ele está sentindo os braços, doutor – disse emocionado. Ele era mesmo um grande gay!
- Sentindo os braços?
O sorriso de era maior do que seu próprio rosto.
- Eu estava testando a cadeira de rodas com o meu amigo, , aí a me ajudou a dar um abraço nela e eu senti o meu braço encostado no pescoço dela e o s cabelos dela fazendo cócegas na minha mão. Isso é bom, não é doutor? Porque só pode significar que...
- , respira! – brincou .
- Isso é incrível, mas devo alertar que é possível que tenha sido apenas um lapso – explicou o médico. – Vamos fazer alguns testes físicos antes de você receber alta, tudo bem?
Não houve objeção alguma por parte de ninguém. Ele que fizesse todos os testes que queria e me devolvesse perfeitamente bem! Só não sabíamos que demoraria tanto. Quase três horas depois, todos estávamos morrendo de fome e impacientes, o médico saiu. Uma enfermeira empurrava a cadeira de rodas e cutucou que roncava.
- Não sei qual o seu santo ou se você tem super poderes, – disse o médico me encarando – mas está lentamente recuperando os movimentos das mãos. Ele já tem sensibilidade nos braços, então creio que não falta muito para que ele os mexa novamente.
- , sua bruxinha – disse e levou diversos tapas na cabeça.
- Vou falar com a fisioterapeuta que acompanhará o tratamento dele para se concentrar primeiro nos braços. Já combinamos isso, certo rapazinho?
concordou sorrindo e me olhou.
- Quando eu conseguir te abraçar vou te apertar tanto que você vai implorar para que eu pare!
Nós rimos e eu baguncei seus cabelos. Depois, atendendo aos pedidos do próprio , saímos pela porta da frente. Fletch ficou para resolver com o médico o valor do tratamento e todas as burocracias que estavam pendentes. Matt nos esperava do lado de fora com uma enorme surpresa.
- SNOW! – gritou ao ver sua cachorrinha parada na porta do hospita.
A pequena correu e se jogou em cima dele, lambendo seu rosto até não poder mais.
- Ei, ei – falei tentando segura-la. – Vai com calma, mocinha. Snow, para! SNOW!
Ela me olhou de cara feia e rosnou. Apenas devolvi o olhar e ela se encolheu no colo de .
- As duas, sem briga! – ele disse rindo. – , quero fazer carinho nela.
Conduzi a mão dele pela cabeça peluda da pequena cachorra e ele sorriu. Quando entramos no campo de visão dos fãs, porém, o silêncio e a tranqüilidade presentes dentro do hospital foram quebrados. Gritos, muitos gritos. Aplausos, lágrimas e abraços tomaram conta de todo o tapete humano que estava ali há quase seis meses. Já estávamos na metade de maio e nem o frio, o calor e as chuvas tiraram os fiéis admiradores do McFLY da porta do hospital.
Saí de perto junto com Matt, que desistiu de tirar Snow de perto de . Não era nós que eles queriam ver e sim a banda, toda reunida. , , e posaram juntos para a primeira foto pós-acidente. Ah sim, e a quinta integrante do McFLY também, claro. Os policiais tentavam segurar os fãs, mas eles estavam ensandecidos. Eu mal ouvi me chamando.
- Você sabe o que fazer – ele praticamente gritou para que eu escutasse.
- Tem certeza? Isso vai te cansar muito!
- Por favor?
Apenas assenti e procurei uma forma de calar aquele bando de malucos.
- Shiu, shiu! – eu tentava quase em vão.
Aos poucos todos foram se aquietando e os fãs mais ajuizados ajudavam a conter os mais... emocionados.
- É o seguinte, os policiais vão cercar vocês todos para que ninguém mais entre. Enquanto isso, eu quero que vocês formem uma fila única. Um a um, vocês vão poder passar aqui e dar um beijo e um abraço no , ok? Mas tem que ser rápido! E silêncio, isso aqui é um hospital!
Os outros membros do McFLY me olharam espantados.
- Eu pedi isso a ela – explicou .
Matt prendeu Snow em sua coleira novamente e a arrastou dali. A idéia era um oi rápido, por isso os outros três foram direto para a van. Exceto , que rumou para o carro de , devidamente posicionado perto da porta.
- Quem disse que aquele animal pode dirigir o meu carro?
- Não discute, – falei arrumando a cadeira dele e colocando-o bem de frente para a fila.
- Fica perto de mim, por favor – disse ele respirando fundo.
- Estarei bem aqui atrás, ok? – falei beijando-lhe o rosto.
Individualmente os fãs eram liberados e se aproximavam. Alguns tentavam ganhar tempo me fazendo perguntas sobre o estado de , mas logo eram empurrados por Fletch, que não dava muita moral para ninguém. Os presentes, as cartas e os cartazes eram colocados em sacos plásticos e, a medida que ficavam lotados, eram levados para o carro.
Flashs incansáveis vinham em nossa direção. Depois de um tempo, eu não sabia mais se eram da imprensa ou dos fãs. Quem chegasse depois não teria como entrar. Não seria certo e não sairia dali tão cedo se atendesse a todos. Ainda assim, ele fez questão de cumprimentar um a um dos 520 fãs que estavam na porta do hospital quando ele saiu. Não era permitido entrevista-lo, então milhões de jornalistas corriam atrás dos fãs que já tinham saído da fila para saber mais sobre .
A última fã se aproximou e entregou a Fletch o presente que era para seu ídolo.
- Oi – disse a menina parecendo acanhada. – Que bom te ver de novo!
- Obrigado – respondeu com um sorriso.
- Eu sei que tenho que ser rápida, então só quero que você saiba que eu acompanhei desde o começo o que aconteceu e que rezei demais por você.
- Ei, calma – falei. Ela chorava e tremia.
- Você é meu favorito, sabia?
- Qual o seu nome? – perguntou parecendo desconcertado.
- Katherine.
- Certo, Katherine. Muito obrigado mesmo por seu apoio e por ter rezado por mim.
- Eu... eu também quero agradecer a você, .
- Oi? – ela me pegou de surpresa.
- É. Eu sei que ele só se recuperou porque você ajudou e sei que você largou tudo por ele. Então... obrigada.
E antes que eu pudesse pensar, Katherine se lançou contra mim e me abraçou. Fletch olhava tão espantado quanto eu.
-Tudo bem, querida – falei dando tapinhas leves nas costas dela. – Você também ajudou e sabe disso.
Ela enxugou o rosto e abraçou , dando-lhe um carinhoso beijo na testa.
- Vocês são o meu casal favorito e eu tenho certeza que você é a melhor pessoa para passar o resto da vida com ele.
- Se eu agüentar esse chato – brinquei.
- Se eu agüentar essa chata – retrucou e Katherine riu.
Sem dizer mais nada, ela apenas saiu, parecendo mais leve do que uma pena.
- Suas fãs me assutam – comentei enquanto empurrava a cadeira até o carro.
- Você não imagina o quanto – ele respondeu rindo.
Fletch e o colocaram no banco de trás e eu me sentei ao seu lado. Segurei sua mão com firmeza e deitei minha cabeça em seu ombro, só levantando quando finalmente chegamos em casa.
Capítulo 14 – I’ll stand by you
- Por que eu tenho que entrar pela porta dos fundos? – perguntou meio emburrado.
- Porque colocamos uma rampa lá atrás para você subir – respondeu paciente.
- Então a escada da sala virou uma enorme rampa também?
- Não, seu quarto passou para o andar de baixo – explicou.
- Como meu quarto foi para o andar de baixo?
- , você não pode esperar para ver?
- Espero que não tenham arranhado o piso de madeira! – ele falou e finalmente se calou.
Abri a porta e entrou, empurrando . Logo atrás vieram e , seguidos por Fletch. Matt tinha voltado para sua casa para buscar Jammie e Lizzie. Viria em seguida, trazendo Snow e todas as coisinhas dela. Eu estava com medo. Bastante medo. Ele odiaria a própria casa, mas não havia nada que pudéssemos fazer.
- Quer dar uma volta para ver a casa? – perguntei mexendo em seus cabelos.
- Isso aqui não é minha casa!
Ignorei sua resposta e fui explicando o que tínhamos mudado. Mostrei os tapetes com adesivos, as barras na parede. Ele permaneceu calado e eu o levei para ver seu quarto. Pedi que não nos seguissem.
- Eu trouxe tudo que tinha lá em cima. Dei um jeito para que o quarto ficasse meio parecido, assim você não sentira a diferença – falei e parei a cadeira no meio do ambiente.
- Honestamente? – ele se pronunciou pela primeira vez desde que eu fechei a porta. – Estou me sentindo menos em casa do que no hospital. Talvez eu devesse voltar para lá.
- É isso que você acha? – perguntei triste, sentando na cama de frente para ele.
- Você viu como vai ser? Você viu que teve que conduzir minha mão quando eu quis fazer carinho na Snow? Que tipo de vida vai ser essa? Que tipo de vida vai ser a sua, ?
- A vida que eu escolhi – respondi sentindo um nó se formar em minha garganta. – O que houve, ? Você estava se sentindo bem.
- Eu vou ter que sempre fingir que estou bem para não me tratarem com pena, não é?
Não respondi. Fiquei encarando meus pés por longos minutos enquanto ele me olhava. Eu não fazia tudo isso por pena. Será que ele não percebia? Era amor, todo aquele amor que eu escondi, que eu tentei não pensar enquanto estive em Paris, todo aquele amor que eu sempre senti e que ficou muito mais forte desde que nos reencontramos. Era natural que ele ficasse nervoso, irritado com todos esses cuidados, mas não era nossa culpa. Não nossa... era minha. Mas não era por culpa também que eu continuava ao lado dele. Eu faria tudo que eu pudesse para continuarmos juntos, mesmo que ele tivesse saído bem do hospital, que na realidade era o meu maior sonho. Ele poderia fazer o que quisesse comigo agora, eu não iria embora. E era com isso que nós dois precisávamos nos acostumar.
- Eu não quero que você finja que está bem – falei suspirando em seguida. – Se você acha que precisa fazer isso com os meninos, com o Fletch, tudo bem. Eu não vou mudar sua decisão, . Mas não comigo. Se você não estiver legal, se você quiser conversar, chorar, gritar... bem, seja sincero e faça isso. Fale comigo, desabafe comigo. Você me agüentou tanto antes de eu ir embora, você esteve ao meu lado. Quando você soube da desgraça que é a minha família, do que aconteceu comigo, você ainda me apoiou. Por mais idiota que eu tenha sido ao fugir, você continuou atrás de mim, você ainda tentou me ajudar.
- Você não precisa perder sua vida em troca de um favor, .
- Foi isso? Foi um favor então? Você fez aquilo tudo por uma boa ação?
- Claro que não – respondeu ele rápido. – Por Deus, você sabe que não. Foi por amor.
- Então é por isso que eu estou aqui, . Por amor! Não estou fazendo nada para retribuir, pagar uma dívida, qualquer coisa assim. Eu não vou te deixar, você pode fazer o que quiser, pode me xingar, pode brigar comigo, eu não vou embora – parei para respirar. – Se é de pernas que você precisa, então você tem as minhas. Se é de braços, os meus são seus. É só você me falar o que estiver pensando e eles farão tudo por você.
- ...
- Sabe, as pessoas hoje em dia se apegam muito às futilidades. Eu sei, é fácil falar. Minhas pernas ainda funcionam, minhas mãos também, mas olha só, . Você está vivo. Nós estamos juntos – segurei sua mão e coloquei em meu peito. – Meu coração continua acelerando quando te vê, quando te sente por perto. Eu não sei quanto a você, mas eu continuo te amando como sempre te amei, talvez um pouco mais até.
- Pode ter certeza que se eu voltei, se eu continuo vivo... é por você.
Sorri e sentei em seu colo. pareceu surpreso, mas não disse nada. Apenas riu Passei suas mãos por minha cintura e o abracei. Enterrei meu rosto em seu pescoço, querendo apenas sentir seu cheiro. Não tinha cheiro de perfume, mas dele mesmo. Meu cheiro favorito no mundo todo. Segurei firme em sua nuca e o beijei.
- Coloca minha mão na sua perna – ele falou sem jeito.
Mordi seu lábio inferior e fiz o que ele pediu. Pousei carinhosamente sua mão sobre minha coxa, voltando a beijá-lo. Eu não tinha mais medo de nada, eu não tinha mais receio de ser dele. Por um momento eu cheguei a desejar que eu pudesse sentir sua excitação novamente e que eu pudesse mostrar a ele o quanto eu o amava. Que eu pudesse ser dele por completo. Eu não comentei sobre isso, mas é claro que nada ocorreu. Ele sentia apenas seus braços, mas de sua cintura para baixo, tudo ainda estava adormecido. Não por muito tempo, pensei animada. Ele voltaria ao normal. Não sei como eu tinha tanta certeza disso, mas eu não morreria sem ver o meu andando novamente, correndo com a Snow pelo jardim.
- Vamos fazer um pacto? – sugeri mordendo o queixo perfeito dele.
- Se não for pacto de sangue e que eu vou te acompanhar todos os dias ao shopping, beleza – ele respondeu rindo e me beijou novamente.
- Deixa eu falar – resmunguei me afastando. – Você tem que prometer que não vai ter medo de me pedir nada. Que se você precisar de qualquer coisa vai me avisar e não vai se sentir mal com isso.
- eu...
- E em troca eu prometo não deixar de viver. Prometo que vou sair com a Jammie e a Lizzie às vezes, vou levar Snow para passear todos os dias, vou me cuidar e até volto a trabalhar, mas aqui! Nada de escritório por longas horas!
suspirou.
- Tem como não aceitar as condições se for para ver você feliz?
- Não é por mim – falei séria. – É por nós dois. Fechado?
- Você não vai me deixar em paz se eu não concordar, vai?
- Com certeza não – respondi rindo.
- Então ta! Fechado!
Beijei a ponta do nariz de e ele fez uma careta engraçada. Rimos e eu continuei a explicar as mudanças que fiz na casa e como vai ser fácil colocar tudo de volta. Por mais que ele tenha protestado, Snow não dormiria no quarto com ele.
- Ela não, mas e você? Vai dormir aqui, não vai?
- Não sei, amor – respondi sentindo minhas bochechas corarem. – Eu montei um quarto lá em cima para mim. Em todo caso, eu posso dormir na sala, que é mais perto.
- Se você não dormir comigo, eu faço greve de fome!
- Você não acha que está velho demais para isso?
- Você não acha que está sendo cruel demais indo dormir longe de mim?
fez uma cara de cão abandonado que só ele sabia fazer. Apenas revirei os olhos e concordei com isso. No fundo eu estava comemorando. Só eu sabia o quanto queria ficar perto dele o tempo todo, grudada com ele, fazendo todas as vontades dele.
- Certo, lá fora está cheio de gente e é uma grande falta de educação ficarmos aqui – falei me levantando. – Pronto?
- Pronto!
Nos beijamos pela última vez e eu levei para a sala. Toda a banda ainda estava ali, agora acompanhada de Matt, Jammie e Lizzie, que brincava no tapete com Snow. Ao nos ver, a pequena garot a levantou correndo e foi até sua mãe. Pegou alguma coisa e levou para .
- Erm... oi Lizzie – disse ele.
Me ajoelhei perto da menina e peguei o que ela tinha nas mãos.
- Ela fez um desenho. Olha – mostrei para . – Um menino, uma menina, uma criança e uma cachorrinha. Quem são esses, meu anjo?
- Tia , tio , Lizzie e Snow – ela respondeu ainda enrolando as palavras pela pouca idade.
- E onde nós estamos? – perguntou ele emocionado.
- No parque, brincando com a Snow.
A sala estava em um silêncio profundo. Todos pareciam realmente encantados com Lizzie.
- Obrigado Liz – disse . – O desenho é lindo.
Levantei a pequena garota para que ela desse um beijo no rosto dele. Ela agarrou o pescoço dele e eu a coloquei sentada em seu colo. Eles começaram a conversar e fazia graça para Lizzie, que ria sem parar.
- Como ela fez isso? – perguntei curiosa.
- Não faço a menor idéia – respondeu Jammie. – Ela deve ter visto fotos dele. Só se viram uma vez não foi? Ela simplesmente acordou hoje e disse que queria fazer um desenho para o ‘tio ’. Eu e o Matt ficamos assustados até. Parece que ela andou sonhando com ele. Depois você conversa com ela e vai ver do que estou falando.
Guardei o desenho de Lizzie e chamei Jammie para me acompanhar até a cozinha. Antes disso, ele a chamou, pedindo que Matt também se aproximasse.
- Obrigado por terem cuidado da – disse ele. – Eu fui um idiota esse tempo todo e precisei quase morrer para me dar conta disso. Sério, obrigado mesmo.
- Esquece isso, – disse Jammie beijando sua testa. – É bom te ter de volta.
- Eu continuo não achando você o cara certo para a minha brasileira... AI – resmungou Matt quando a esposa o beliscou. – Mas não acho que ela vá encontrar alguém melhor então... vai você mesmo!
Matt apertou o ombro de e sorriu.
- Eu também acho que ela podia arranjar um estagiário melhor, mas já que não tem outro, né? Vai você mesmo!
- Não mereço vocês – resmunguei e fui para a cozinha.
Apesar das tentativas de Jammie, Lizzie não quis sair do colo de , que agora carregava Snow também. Era um amontoado em cima de uma cadeira de rodas.
- Só espero que não quebrem a cadeira – disse Jammie me ajudando com o jantar.
- É só o que falta a essa altura do campeonato – respondi rindo.
Pouco tempo depois, a mesa de jantar estava abarrotada de gente, que ria e falava alto o tempo todo. Sentei ao lado de , como era de se esperar, e o ajudei.
- Você vai sempre me dar comida na boca? – ele perguntou ficando desanimado.
- Bom, você me disse há um tempo atrás que queria ter filhos o suficiente para formar uma orquestra. Então estou treinando desde já – respondi rindo. – Mas meus filhos não serão teimosos, então trate de comer direito e sem reclamar.
A sala toda riu, até mesmo Lizzie, que estava sentada do outro lado de e sorria cada vez que ele a olhava.
- Não reclama, cara – disse . – Eu queria uma gata como a para me dar comida na boca também.
- Sua sorte é que eu não me mexo, – ele retrucou – senão teu nariz estaria quebrado já.
O falatório continuou. Os rapazes bebiam vinho, com exceção de que ainda estava tomando medicamentos e não podia ingerir nada com álcool. Horas depois, todo mundo foi embora, mas não sem antes ajudar a organizar a casa. Quando fechei a porta, olhava a TV como se estivesse interessado.
- Vamos dormir? – perguntei abraçando-o.
- Você vai conseguir me colocar na cama?
- Claro que vou – falei mordendo o pescoço dele. – Sou forte, mané!
Nós dois rimos. Desliguei a TV e o levei para o quarto. Tirei sua camiseta e apoiei os braços dele em meus ombros.
- , cuidado para não se machucar – ele disse preocupado.
Abracei-o pela cintura e, com todo cuidado do mundo, o puxei para mim. era meio pesado e, no impulso de tirá-lo da cadeira, caímos na cama, ele por cima de mim e eu rindo.
- Você está bem? – perguntei quase engasgando.
- Sua louca – ele também ria. – Além de se matar, quer me levar junto!
- Desculpa, eu me desequilibrei!
Derrubei com cuidado na cama e deitei ao lado dele, beijando seu rosto. Ele fechou os olhos.
- Como eu fiquei cinco meses apagadão, sem sentir esse carinho gostoso que só você sabe fazer? – ele perguntou sorrindo.
- Você é meio lerdo, demorou para sentir! – falei beijando-o.
Ajeitei na cama e tirei sua bermuda. Fui impedida de colocar outra peça de roupa, já que ele sempre dormia de boxers antes do acidente. Peguei um copo com água e levei até ele, junto com sua escova de dente.
- Posso escovar?
- Claro, amor – falei sorrindo.
Segurei a mão de e o ajudei a prender a escova entre os dedos. Ele me olhava carinhoso e eu o encorajava como podia. Terminada a escovação, limpei sua boca e beijei levemente seus lábios.
- Bom garoto!
- Obrigado, mamãe – ele respondeu.
Troquei de roupa e me deitei ao seu lado, sempre tomando cuidado para não ocupar o espaço todo da cama. O dia havia sido puxado demais e eu me sentia sonolenta. Bocejei.
- Vem cá – disse . – Deita perto de mim.
Sorrindo, me enrosquei em seu corpo. Apoiei minha cabeça em seu peito e coloquei minha perna por cima das dele. Passei um de seus braços por baixo de minha cabeça e o outro por minha cintura.
- Obrigado por não me deixar – ouvi a voz dele ficando cada vez mais distante. – Eu te amo.
- Também te amo.
E foi tudo o que eu consegui dizer antes de cair em um sono profundo.
Capítulo 15 – Leave out all the rest
Os dias passavam rápidos, às vezes mais do que eu mesma desejava. iniciara seu tratamento que ía de sessões de análise com um psicólogo até horas de fisioterapia. Eu aproveitava esses intervalos de uma ou duas horas para comprir minha promessa. Passava algum tempo com a minha afilhada, com Jammie e Matt. Andava com Snow, ía ao salão de beleza, ao supermercado, depois voltava para a clínica onde estivesse, o pegava, dávamos uma volta de carro e íamos para casa. Foram poucas as vezes que ele topou descer comigo em algum parque para andar um pouco. Um de nossos tratos era que eu ficaria com seu carro e estava proibida de usar ônibus ou metrô. O verão tinha começado há uma semana e estávamos rumando para o mês de julho.
- Tá um calor infernal hoje – disse ele no carro. – Quase morri na fisioterapia.
- Calor, ? Para mim, isso é o paraíso!
Ah qual é? O verão europeu jamais poderá ser comparado com o verão do Brasil. Claro, a sensação térmica da Inglaterra era igual a de um forno microondas, mas na minha terra, o calor é tipo forno industrial. Se ele achava aquilo calor, ele fritaria feito um bife se pisasse no Brasil no auge do verão.
- E como foi a fisioterapia hoje? – perguntei interessada. Não tive tempo de conversar com a médica antes de sairmos.
- A mesma merda de sempre – respondeu ele desanimado.
- , não fala assim, amor. Nós sabíamos que a recuperação seria lenta. Mas ei, você já está mexendo bem as mãos. Isso é ótimo!
- Que seja – ele se deu por vencido. – Você é otimista demais, coisa que eu não sou. Não vou discutir sobre isso.
O fato é que os movimentos dos braços de já estavam de volta. Ou boa parte deles. Os exercícios que ele estava fazendo eram apenas para fortalecer a musculatura, já que ele não conseguia sustentar muito peso por muito tempo. Mas ele já estava bem mais independente, controlando a cadeira de rodas, brincando com Snow e Lizzie. Mas para quem ainda tem muito a recuperar, os braços parecem nada. Os meninos da banda também estavam ajudando. Queriam a todo custo que voltasse a tocar, mas ele se recusava a subir no palco numa cadeira de rodas. Sugerimos então que fosse colocada uma poltrona, mas a possibilidade de ele entrar carregado quase acabou com a banda inteira.
Ao chegarmos em casa, ajudei-o a se acomodar na cadeira e fui pegar as compras no porta-malas.
- ligou hoje – falei despreocupada.
- Ah é? – pareceu indiferente – O que ele queria?
- Perguntar o que você achava de um ensaio hoje a noite, na casa do .
Ele parou no meio do caminho e eu respirei fundo. Virei e o encarei.
- Eles ainda querem que eu faça um show, não é?
- Ah amor, – falei abrindo a porta dos fundos – eles só te querem de volta com eles o tempo todo.
- E tem que ser assim? – perguntou irritado. – Não pode ser vindo me visitar? Já não é humilhação demais eu não andar? Querem que eu suba num palco nessa situação?
Revirei os olhos. Era sempre a mesma discussão. Se ele soubesse quantas pessoas ficam, em sua atual situação, paraplégicos e continuam suas vidas, ele nem sequer torraria minha paciência.
- Tá, – falei entrando na cozinha. Ele vinha logo atrás. – Não quer tocar, não toca! Ninguém vai te obrigar a fazer um show! Eu só acho que você devia sair um pouco, vai com os seus amigos, faz o que você mais gosta. Você me faz sair e me divertir, por que não pode fazer o mesmo?
- Porque eu não ando! – ele respondeu indo para a sala.
Respirei fundo. Não queria discutir com ele, mas às vezes era algo impossível de não acontecer. Na realidade, ele estava se tornando um velho ranzinza com 20 e poucos anos. Eu evitava pensar em como ele ficaria daqui há uns 30 anos. Guardei as compras no armário e fui tomar um banho. Depois o ajudaria a repetir em casa os exercícios que ele estava fazendo, como sempre. Enquanto isso, várias coisas rodeavam a minha cabeça. O telefonema de Matt mais cedo, o encontro com ele na hora do almoço. Tudo isso tinha mexido muito comigo. Mas eu não poderia, de forma alguma aceitar a proposta que ele me fizera. Recusei. Fora o acidente de , aquele havia sido o pior dia da minha vida. Se eu achei que já tinha sofrido de tudo, nada se comparou com aquela conversa.
Senti a água fria cair em meu rosto e relaxei. Banhos eram sempre tão reconfortantes que eu passava às vezes mais tempo do que deveria ali, apenas respirando e pensando na minha vida. As palavras de Matt continuavam a me torturar. Califórnia. Workshop. Grátis. Promoção. Argh! Por que eu ainda me dava ao trabalho de pensar em algo do tipo? Eu já havia tomado a minha decisão e não voltaria atrás. Prometi ficar ao lado de o tempo que ele precisasse e, só depois que ele estivesse totalmente curado, eu daria a ele a opção de me querer ou não por perto.
Percebi como aquela casa estava me sufocando. Eu precisava sair dali. Terminei meu banho e me vesti correndo. Encontrei no meio do corredor, parado e de olhos fechados.
- Tudo bem? – perguntei preocupada e ele abriu os olhos.
- Estava te esperando. Desculpa, eu sei que você só trouxe um recado do e...
- Esquece isso, ok? Vou sair.
Por mais que eu tentasse, precisava pensar um pouco. Precisava tirar aquela dúvida, aquele peso do meu coração. Se eu ficasse a noite toda ali, direto, acabaria brigando com e ele nem sabia o que estava acontecendo.
- Onde você vai? – ele veio atrás de mim, espantado ao me ver pegar as chaves da minha antiga casa.
- Só quero ver uma coisa, não demoro.
Sem deixar responder, saí correndo pela porta da frente, onde ele não poderia me alcançar por conta da escada. Entrei em seu carro e me afastei dali o mais rápido que pude. Não é tanto tempo assim, meu cérebro não processava outra informação a não ser essa. Ele vai sobreviver, são só dois meses e uma semana. Talvez duas.
- NÃO! – gritei dando um soco no volante, tamanha era a minha frustração. – Tira isso da cabeça, , tira isso da cabeça!
Estacionei em frente ao conjunto de casas iguais. Ao meu conjunto. O jardim da casa do canto estava mal cuidado, as janelas fechadas acumulavam poeira e folhas secas no parapeito. O portão, onde tantas vezes eu olhava meus vizinhos, conversava com ou apenas encostava para pensar, estava intacto. Por um momento tive a impressão de que as marcas das minhas mãos ainda estavam lá, como da última vez que o fechei.
Andei pelo pequeno espaço até a porta preta. A abertura para correspondências tinha uma marquinha da qual eu não me lembrava. Ignorei esse detalhe e olhei o hall externo. Não havia mais o pequeno capacho que eu tinha deixado ali. certamente o tirou, para que não estragasse. Entrei. Todos os móveis ainda estavam exatamente como eu deixei. Nada diferente. Analisei a sala. O sofá de couro preto em frente a lareira continuava com sua aparência séria e confortável. A mesa de jantar ainda reluzia, apesar do pó que se encontrava sobre ela. Suspirei. A casa estava fechada por tanto tempo que seu cheiro denunciava toda e qualquer falta de luz solar ali dentro. Me lembrei de como eu adorava aquele espaço. Meu primeiro lugar em Londres, onde o Matt me levou pela primeira vez. Quando tudo era simples e nenhum outro tipo de problema a não ser como chegar na O2 me afligia. Andei lentamente, ouvindo meus passos serem abafados pelo carpete. Parei na porta da cozinha. Os armários brancos, cheios de enfeites coloridos. Alguns bilhetes de compromissos e outros bobos.
“Nessa casa não tem café não? Fui procurar alguma coisa para comer. T”.
Sorri ao lembrar dos dias da visita de Thiago. De quantas e quantas horas levávamos para preparar uma refeição, já que mudávamos de idéia no meio do caminho ou começávamos a conversar, deixando a comida de lado. A festa de . Thiago me acompanhou naquele dia e me incentivou a buscar os meus sonhos. O que ele faria agora?
- Você tinha que estar aqui, sabia? – falei idiotamente para o papel. – Tinha que vir me ajudar, me incentivar a continuar ou a desistir. Suas decisões sempre foram mais certas do que as minhas.
Guardei o pequeno papel verde em meu bolso e continuei a olhar tudo. Os pratos cheios de desenhos, a geladeira cheia de ímãs. Subi para o segundo andar. O banheiro era pequeno, mas ainda era a minha cara. O vasinho de flor que eu deixava sobre a pia tinha agora apenas folhas secas. Acariciei a planta morta e tentei não pensar em como eu me identificava com ela. A minha toalha do Ursinho Pooh ainda estava pendurada no suporte da parede. Eu tinha vontade de levar tudo para a casa de , mas ao mesmo tempo não queria mudar nada naquela casa. Fui para o escritório. Minha mesa de trabalho estava abarrotada de papéis, mais bilhetes de Thiago e algumas fotos. Dei uma pequena remexida e saí dali, antes que essas lembranças da O2 me matassem mais ainda.
Entrei em meu quarto. A cama estava bagunçada.
Certa noite fui acordada por e , que esmurravam minha porta com tal força que assustaram Snow.
- , pelo amor de Deus, acorda! – gritava .
As vozes eram distantes, mas pareciam reais demais para um simples sonho. Foi quando a pequena cachorra começou a latir freneticamente que eu acordei e vi que nada daquilo era fruto da minha imaginação. Quando reconheci as vozes, desci veloz e abri a porta.
- O que houve? – perguntei desesperada e sonolenta.
- Ele está berrando de novo – disse aflito. – Vamos?
E assim eu saí, deixando a cama sem arrumar. E assim ela ficou. Passei a mão lentamente pela porta de meu antigo armário, agora vazio exceto por uma peça de roupa. O sobretudo roxo. Ri quando o peguei, decidida a levá-lo comigo. Apalpei os bolsos, surpresa ao encontrar mais um bilhete.
“Espero que você goste dessa foto. É a minha favorita. Tem duas cópias, assim você me vê em casa e no trabalho. xx ”
A foto! A foto do porta retratos que ele quebrou na minha sala. Voltei correndo para o escritório e remexi os papéis. Ali estávamos nós, abraçados, sorrindo em uma noite de festa na casa de . me apertava, fazendo uma de suas típicas caretas. Eu não conseguia pensar em nada, a não ser na sorte que eu tinha e na felicidade que eu sentia. Seus braços em meus ombros, meus cabelos caindo e fazendo o contorno de suas mãos. Nossos rostos tão encostados que chegavam a ficar amassados. Estava frio. vestia seu casaco cinza, velho e surrado, mas que ele adorava e que ficava tão perfeitamente bem em seu corpo. Eu amava essa foto como nunca amei nenhuma outra.
- Alô? – respondi com a voz trêmula ao ouvir meu celular tocar.
- Onde você está? – perguntou do outro lado da linha. – , eu tô preocupado. O que foi?
- Não foi nada, amor. Já estou indo para casa, está bem?
- Você tá manhosa. Isso não é bom sinal – ele disse rindo.
- Idiota. Estou indo.
Desliguei o telefone e guardei a foto no bolso do sobretudo. Observei a casa pela última vez, tentando entender por que eu sentia um vazio no peito. Qual parte da minha vida havia mudado tão bruscamente para que eu não tivesse algumas lembranças? Talvez tenha sido a velocidade com que as coisas aconteceram. Antes eu era uma estagiária boba, fui promovida e mandada para Londres. Virei a garota mais vigiada do mundo ao sair com um McFLY, a mais amada e odiada ao mesmo tempo. Fugi para Paris e voltei, com olhares raivosos. E de repente, não mais do que de repente, tudo isso ficou para trás e eu deixei minha vida inteira a disposição de uma única pessoa. Acho que crescer rápido demais não me fez bem. Ou fez de mim um nada.
A casa de se aproximava a medida que eu dirigia. Por mais que eu tentasse não ir tão rápido assim, uma hora o caminho terminaria e eu chegaria ao meu destino. Olhei o casaco roxo no banco do passageiro. Lembranças. Era tudo o que vinha na minha cabeça. Milhões de lembranças do dias que eu saí com ele. Guerras de bolas de neve, passeios em shopping, almoços de domingo, gravação de clipe. Não pensem que eu me arrependi das minhas escolhas. Claro que o amor que eu sentia por superava qualquer uma dessas lembranças. Eu nem sei ao certo por que estava sentindo tudo isso. Acho que tantas brigas, discussões bestas e teimosia de ambas as partes me deixaram melancólica. Estacionei o carro e me olhei no espelho. Meus olhos estavam vermelhos, mas eu podia usar a poeira como desculpa. Eu era alérgica e ele sabia disso.
- Oi amor, fui apenas buscar o meu casaco favorito e olha o que eu achei! Nossa foto! – ensaiei antes de sair do carro. – Meus olhos? Ah, a casa está suja e eu espirrei muito. Foi isso.
Nada convincente. Nada verdadeiro. Mas era o que eu tinha, então teria que ser isso mesmo. Fiz o caminho da garagem até a porta lentamente, apertando o sobretudo em meus braços. me esperava na cozinha quando eu entrei.
- Finalmente! – disse ele vindo na minha direção – O que aconteceu, ?
- Não foi nada, eu só...
- Você foi na sua casa antiga!
- Sim, passei lá porque...
- E estava chorando! – ele suspirou – .
Senti suas mãos me puxando e sentei em seu colo. me abraçou carinhoso e me cobriu de beijos e mordidas. Por mais que eu tentasse me controlar, as lágrimas saíam por meus olhos, correndo teimosas por meu rosto. as secava com seus lábios antes de me puxar para um beijo. Ele não tinha pressa. Seus movimentos eram carinhosos e me relaxavam, sua língua acariciava a minha em uma demonstração clara de amor e apoio. Como, por um momento, eu pude sentir qualquer tipo de dúvida com relação às minhas escolhas? Como eu consegui me sentir um nada? Basta olhar para ele, sentir seus braços, seus beijos, seus carinhos para ter certeza de que nada daquilo passava de uma idiotice da minha cabeça. Uma crise existencial da mais ridícula espécie.
- Eu andei sendo um mala sem alças nos últimos dias, eu sei – ele dizia e eu sentia sua mão deslizar por minhas costas. – Me perdoa? Prometo me esforçar mais e te irritar menos.
Apenas neguei com um movimento de cabeça. Ele não tinha culpa de eu me sentir daquele jeito.
- Agora eu quero saber – continuou – quando você embarca para a Califórnia?
Meu coração acelerou e eu o olhei.
- Como é?
Capítulo 16 – Nothing lasts forever
- Eu vou matar o Matt – eu dizia furiosa procurando pelo telefone.
- , ele não teve culpa – me seguia. – Pare de andar, está me deixando tonto, eu vou passar mal, cair da cadeira, quebrar o pescoço, morrer e te assombrar depois!
Parei. Aquela mesma piada já não tinha graça. Pelo menos não quando eu estava a ponto de explodir. Como assim Matthew contou para sobre a vaga no curso de cinema na Califórnia? Isso era um absurdo. Eu que devia falar. Ou melhor, não devia, porque eu não iria.
- Escute – disse passando a mão pelo rosto – eu não vou deixar você perder essa oportunidade. , eles confiam no seu talento, eles sabem o quão incrível você é. Eu não vou aceitar que você negue a vaga nesse curso. Pelo que o Matt disse, é o melhor workshop de cinema do mundo e a tua empresa nunca ofereceu para ninguém. Você é a primeira que eles querem que faça essas aulas.
- Eu já falei que não vou, não sei por que o Matt insiste nisso! – respondi me jogando no sofá.
- Porque ele, assim como eu, o McFLY todo, a Jammie, a Lizzie e a Snow, além de toda a turma da O2, queremos o melhor para você.
- Não é tão simples assim, .
- Eu não vou porque não vou deixar o agora que ele mais precisa de mim – era uma imitação perfeita da resposta que eu havia dado. – , eu não quero que você fique por minha causa, entendeu? Eu acho bom você começar a fazer suas malas.
- Vai me botar para fora? – falei ficando em pé e encarando as costas de .
- Não. Vou dar uma folga para nós dois.
Pela cara que ele fez, a última parte provavelmente não era para ter saído de sua boca. Prendi a respiração. O que ele queria dizer com uma folga para nós dois?
- Olha, não me entenda errado, – disse ele voltando para perto de mim. – Não estou terminando com você, não te quero longe da minha vida. Eu te amo, amo a cada dia mais por todo o seu tempo, a sua dedicação, a sua paciência. Mas eu tenho medo, tá legal? Eu tenho medo que depois que eu fique bom, se é que isso vai acontecer um dia, você me deixe. Você se canse de mim. Tenho medo que depois de tudo, a gente já tenha brigado tanto, que não dê mais para ficarmos juntos. Eu não estou dando um tempo, só quero que a minha garota vá fazer o que é melhor para ela. Você continua sendo o amor da minha vida, a pessoa mais importante para mim e por quem eu me mataria de novo se fosse preciso. Você não percebe, mas eu to percebendo que estamos mais distantes do que se você estivesse na Califórnia. Eu sinto um buraco entre nós.
Sentei no sofá. Aquilo tinha sido um golpe e tanto. Então era esse o vazio que eu estava sentindo. Era... cansaço?
- A cada bronca que você me dá, a gente se afasta – senti a mão dele deslizando por meu rosto e fechei os olhos. – E mesmo que eu tente fazer algo diferente, sempre encontramos algum obstáculo, esbarramos nele e nos cansamos. Você pode tentar maquiar tudo, , mas eu sei que você está sofrendo com essa vida que eu estou levando agora. E não tente negar. Você sabe há quanto tempo eu não te vejo correndo com a Snow? Você vive em casa, vive cuidando de mim. Isso não está certo com você. Não é bom para você. Então eu estou desistindo de te prender aqui, de fazer de você a minha enfermeira particular e não a minha namorada.
Namorada. Pela segunda vez estávamos juntos e pela segunda vez, não houve um pedido. Não que eu me apegasse a essas coisas, mas era estranho sairmos do estágio “estamos nos conhecendo melhor” sem um aviso prévio.
- – falei com a voz fraca – qual a história da Snow? Você não comprou uma Bichon Frisè por diversão.
Ouvi uma risada fraca sair de seus lábios antes que ele me beijasse carinhosamente. Deitei minha cabeça em seu colo e ele acariciava meus cabelos.
- Ela é sua, – ouvi sua voz doce e rouca em meu ouvido. – Eu comprei a Snow para te dar de presente no dia seguinte à premiação da MTV. No dia que você foi embora achando que o filho da outra era meu. Mas eu não consegui chegar a tempo no aeroporto e não podia devolver a cachorrinha. Ela ficou esse tempo todo te esperando.
- Aquela maldita noite – falei trincando os dentes.
- É. Viu a que ponto nós chegamos por estarmos cansados? Por tantas cobranças, você foi embora, eu te odiei, você voltou, te odiei mais ainda, mas sempre te amando cada vez mais.
- Vai me deixar ir embora de novo?
sorriu, como se eu tivesse dito algo muito lindo.
- Não vou te deixar ir embora, sua bobona – ele disse e me deixou confusa. – Vou te esperar, como você sempre me esperou nas turnês. É a sua turnê agora, . A sua vez de ficar fora de casa a trabalho, a sua vez de brilhar. E quando você voltar, eu vou estar aqui, te esperando, junto com a Snow.
- Eu não quero ir – falei manhosa.
- Aw! Não seja teimosa!
Ele me beijou novamente e assim encerramos a discussão. Ele queria muito que eu fosse, mas deixa-lo novamente era tudo o que eu menos desejava. Era reviver todo aquele dia, apesar das circunstâncias diferentes e de motivos diferentes. Era ir embora, deixar toda a minha vida para trás. Eu teria muito no que pensar antes de dar a resposta ou não. Mas me conhecia. No fundo ele sabia a resposta e estava se preparando para ela.
- Certo – disse ele me cutucando. – Hora de acordar, . Você tem idéia que são oito e meia da manhã? Eu estou com fome!
- Ah – falei enfiando a cabeça debaixo do travesseiro. – Qual foi a parte da promessa que você ía me irritar menos que eu entendi errado, hein? São oito da madrugada, me deixa dormir, vai? Só mais cinco minutinhos.
- Nada de cinco minutos. Acorda, acorda, acorda – ele cantarolava.
- Tá, acordei! Que saco! – resmunguei e fui para o banheiro.
- Eu lembro bem do dia que a Snow passou mal e você reclamou que eu já acordo xingando, viu? – ele riu quando eu fechei a porta – Ei! Sua mal educada. Tô falando com você.
Por mais irritada que eu ficasse de manhã, ou pelo menos na primeira hora quando eu acordo, eu não conseguia manter meu péssimo humor por muito tempo quando estava com . Ele me atormentava tanto que ficava engraçado e eu ria. Lavei meu rosto, fiz minha higiene matinal toda e, em poucos minutos, saí do banheiro me sentindo a pessoa mais preguiçosa do mundo.
- Ah é, agora vem querendo carinho né? – resmungou enquanto eu engatinhava pela cama indo em sua direção.
- Shiu – falei rindo enquanto deitava meu corpo todo em cima do dele.
me abraçou e deu vários beijinhos em minha cabeça. Essa era a hora do dia que eu mais gostava. Nós dois quietos, deitados, trocando carinhos, beijos, abraços, mordidas. Snow logo apareceu com seu focinho gelado e deitou perto de nós.
- Eu ainda estou com fome! – ele reclamou.
- Vou trazer o café aqui, o que acha?
- Acho que você está me enrolando – disse rindo. – Levanta, me ajuda a sair da cama, vamos comer e passear. Tenho muitas coisas para fazer hoje.
- Ah sim, senhor eu sou ocupado – falei olhando-o. – E eu posso saber o que são essas coisas?
- Não! – ele respondeu e mordeu meu lábio – Vai gorda, sai. Você tá me esmagando!
- Só por esse gorda, eu devia te deixar aí, morrendo de fome enquanto eu como um muffin bem recheado da Starbucks!
- Ha, você jamais faria isso com um pobre ser que nem andar pode – ele disse irônico enquanto eu trocava sua roupa. – Ainda mais sendo gostoso como eu!
- , me faz um favor? Fica quieto de uma vez, vai?
- Também te amo, gatinha! To esperando na sala. Vem, Snow!
E ao dizer isso, ele saiu do quarto na maior cara de pau. Eu só podia ser maluca por amar tanto esse cara. Muito maluca!
- Eu não entendo por que tanto você quer ir ao Hyde Park hoje – falei enquanto ultrapassava um carro.
carregava Snow, que tentava convencê-lo a abrir a janela e deixa-la colocar a cabeça para fora.
- Cansei de ficar em casa – ele respondeu – e a Snow precisa correr um pouco, senão vai ficar gorda de verdade.
Eu sabia que era alguma coisa além disso, mas não contestei. Ele era teimoso mesmo, então ía dar a mesma resposta até que eu cansasse de perguntar e ficasse quieta. A única e dispensável vantagem de usar a cadeira de rodas é que vaga em frente ao parque era garantida. Sendo assim, logo tratei de estacionar no lugar reservado e desci para ajuda-lo. Mal saiu do carro e Snow se pôs a correr feito uma louca.
- Isso é que é pique – falei rindo.
sorriu e fomos andando, lado a lado, até o banco mais próximo. A pequena cachorra logo se juntou a nós e foi procurar carinho no colo dele. Tivemos uma manhã diferente naquele dia. Ficamos um tempo conversando e namorando, depois fomos brincar com Snow no jardim. jogou várias vezes a bolinha de borracha, ela corria, pegava e tentava esconder. Sobrava sempre para mim correr atrás dela e pegar a bolinha babada. Mas foi legal. Esses eram os planos que ele tinha em mente antes do acidente.
- Sabe que sempre que você ía embora depois de passar o dia comigo na minha casa – ele disse do nada – eu ficava imaginando como seria se pudéssemos dar uma volta sem ninguém espionando?
- E essa manhã estava de acordo com suas idéias? – perguntei mordendo a bochecha de .
- Não. Essa foi melhor do que eu poderia imaginar!
Trocamos beijos rápidos, com a certeza de que eles estariam na primeira página dos tablóides britânicos no dia seguinte.
- Você ainda não me disse por que quis tanto vir aqui e não no parque perto da sua casa.
- Ê mania besta de falar “sua casa” – resmungou. – Nossa casa, . Repete comigo, nossa casa.
- Para de me enrolar, !
- Eu prometi que ía te irritar menos, só estou cumprindo minha promessa.
Nossos olhares se encontraram e ele sorria.
- Claro – falei rindo. – Até porque, me acordar às oito da manhã não foi para irritar.
- Nossa, você devia fazer essa promessa também, sabe? – disse se fazendo de ofendido.
- Aw! Vou te irritar menos, tá? Prometo!
- Acho bom! – ele respondeu rindo – Ainda temos algumas coisas para fazer hoje e nessa semana. E eu preciso falar com o Matt sobre o seu curso e a sua ida para a Califórnia. Precisamos encontrar um lugar bom para você ficar e...
- – interrompi e fechei os olhos. – Podemos não falar sobre isso? Eu não quero ficar longe de você, não quero ir.
- Não vamos discutir novamente, ok? Snow, vai buscar!
Ele jogou a bolinha novamente e eu me preparei para correr atrás de Snow de novo, mas ela nem sequer se mexeu. Até fiquei preocupada, achando que alguma coisa tinha acontecido, mas ela estava apenas deitada no colo de e me olhando com tristeza. Beijei o topo de sua cabeça branca e fui pegar a bolinha que ela havia ignorado. Foi o sinal definitivo de que o passeio havia acabado.
Capítulo 17 – Sexy bitch
Se eu achava que aquele dia tinha sido diferente, eu realmente não tinha visto era nada. Se não bastasse o passeio no parque, o almoço num restaurante brasileiro e uma visita rápida a casa de cada um dos meninos, continuou me surpreendendo.
- Se troca, vamos sair – disse ele entrando no quarto.
- Mas hein? – falei espantada.
- Liguei para os caras, vamos ao Amika - respondeu simplesmente. – Preciso achar uma roupa boa para vestir. Me ajuda?
- Calma, calma, calma. Que história é essa de Amika?
Ele me olhou por alguns segundos, como se estivesse tentando entender o motivo de toda a minha confusão.
- Você nunca foi nesse bar?
- Acho que passei em frente uma ou duas vezes, mas não, nunca fui – respondi sentando na cama. – A questão nem é essa. É como assim vamos a um bar? Aliás, o que deu em você hoje? Não que eu não esteja adorando passar o dia grudada em você, te apertando e implicando contigo o tempo inteiro, mas esse não é o meu... não é você!
- Tá, tá, uma coisa por vez – ele disse rindo. – O Amika é um bar que fica na Hight Street Kensington, no centro de Londres. Nós passamos lá uma vez, é aquela avenida cheia de lojas caras sabe? E é onde fica a estação de metrô Kensington também. Esse bar é o melhor em Londres. Ou um dos melhores. É todo cheio de frescuras, não pode nem entrar de tênis. Vou ter que ir todo de roupa social, um saco. Mas eu gosto de lá.
olhava distraído o armário enquanto eu quase sentia meu queixo encostar no chão. Lembrei de Matt se referindo ao Amika como o bar mais caro da cidade toda. A reserva de uma mesa não sairia por menos de mil libras, não era permitida a entrada de menores de 21 anos e todo mundo tinha que ir de roupa social.
- E por que você quer ir lá? Além de gostar, é claro! – percebi que minha voz tremia um pouco tamanha era a curiosidade em conhecer o lugar.
- Você tinha que ser jornalista mesmo. Como pergunta – respondeu ele rindo. – O que acha dessa camisa preta?
- E você não respondeu nenhuma das minhas perguntas desde hoje de manhã – falei emburrada. – Prefiro a roxa. Acho que você fica mais bonito com ela.
- Roxo escuro ou roxo claro?
- Escuro. , para de me enrolar.
- Tá! Eu falo – suspirei de alívio. Finalmente. – Mas só se eu ganhar um beijinho antes.
Eu ri, mas não sabia se era para não chorar ou porque ele era engraçadinho mesmo. Paguei o beijo que ele queria, mas continuou a me enrolar, até que eu falei seu nome alto e o encarei. Aí sim ele me contou.
- To tentando retomar um pouco da minha vida, posso? – ele perguntou levemente irritado. – Quero sair, quero fazer alguma coisa. E já que você vai para a Califórnia em breve, quero que você faça isso comigo. Mesmo que tenhamos tempo depois, eu quero curtir um pouco. Pronto!
- Em breve?
- É, antes de ligar para o eu falei com o Matt e ele disse que você embarca em uma semana. Agora chega de falar e me ajuda a trocar de roupa. Depois vamos escolher a sua roupa, mocinha. Namorada minha só sai com roupa que eu aprovar.
- Sonha – falei baixinho, mas ele ouviu e ficou resmungando por longos minutos.
- Nossa senhora, hein? – disse em alto e bom som ao nos ver chegar. – , aluga sua namorada? Maior gata!
- Vou alugar sua bunda também, !
- Céus , já bebeu? – perguntei rindo e cumprimentando todo mundo.
Eles chegaram poucos minutos antes de nós e já estavam nos esperando. estava na porta, anunciando aos responsáveis pela reserva da mesa que havíamos chegado. Várias pessoas passavam por nós e cumprimentavam. Algumas meninas, que eu jurava estarem nuas de tão pequenas que eram suas roupas, me olhavam feio.
- Morram de inveja da minha garota – disse rindo.
Bati levemente em seu ombro. O fato é que... eu estava em um estilo de roupa totalmente diferente do que costumo usar. Quero dizer, não é do meu feitio sair com um vestido de veludo preto até metade das minhas coxas, levemente rodado e com seu contorno todo em prata. Nem mesmo com um cinto preto com uma rosa prateada no meio e sapatos altos de cetim branco. Um autêntico vestido Fause Haten, sapatos Chanel e a pequena bolsa Dolce & Gabanna. Preciso dizer que foram todos presentes de ? Não né? Quando que eu conseguiria comprar tanta coisa cara de uma vez? Jamais.
- Oi – disse uma loira peituda se aproximando dele.
- Oi – ele respondeu simplesmente e continuou a conversar com , que a essa hora já não prestava mais atenção em nada que não fossem os peitos quase expostos da menina.
- Que bom te ver aqui – ela continuou. – Espero ter a chance de curtir a noite com você.
- Ah, vai ser um prazer – ele respondeu e eu prendi a respiração. – Ainda mais se a minha namorada estiver perto. Vou adorar. Não é amor?
Ele falou alto e olhou para mim sorrindo. Quase me escondi atrás de , com medo de apanhar da garota, mas o máximo que eu fiz foi sorrir e acenar. Pinguim de Madagascar mode on! A menina me olhou de cima a baixo com cara de poucos amigos, observando demoradamente no meu vestido.
- Lindo né? – continuou – Fause Haten. Dei de presente para ela. A melhor namorada do mundo merece algo assim, não concorda?
riu baixinho do meu lado e eu não sabia o que fazer. Minutos depois, a menina simplesmente empinou o nariz e saiu andando, se sentindo a própria rainha da Inglaterra em seu vestido minúsculo.
- Céus, quer me ver apanhando hoje? – perguntei beijando os lábios do meu... namorado.
- Não – ele respondeu rindo. – Odeio essas putas de balada. Sério, elas me dão nos nervos.
- É, dão nos nervos agora que a voltou, porque antes elas davam outra coisa – disse e , que acabara de se juntar ao grupo, deu um forte tapa em seu braço.
- O cara disse que podemos entrar e que quando Matt e Jammie chegarem, ele leva os dois até a nossa mesa.
- Matt e Jammie? – perguntei perplexa.
- Convidei, ué – disse e mordeu minha mão.
Entramos no tal Amika e, bem, eu paguei um mico. Olhei tudo de boca aberta até me cutucar e dizer que eu estava quase babando. O primeiro lugar era o Chandelier Bar, que era onde ficava o DJ e a pista de dança. As mesas eram estrategicamente posicionadas em frente ao bar, todas com pufes de couro e pelúcia italiana. Por mim, nem teria visto o resto. Estaria totalmente de boa ali mesmo. O bar ainda estava vazio, pois logo fui informada que conseguimos entrar como convidados. Bem, ninguém nunca negaria um convite desse porte para o McFLY.
A chamada Champagne Room era uma sala somente para membros VIP’s e tínhamos total liberdade de ficar ali. Era incrível, um pouco menor que o primeiro lugar que vimos logo que entramos. Só não me encantou tanto assim por não ter pista de dança. Sou brasileira, cara, preciso de agito! Era nesse lugar que serviam as champagnes mais caras do mundo. Algumas inclusive nunca estiveram à venda no Reino Unido, o que tornava o lugar ainda mais especial.
Fomos levados então para o Cocktails Bar. Um lugar mais calmo, todo branco, levemente iluminado por luzes azuis. Era confortável e relaxante. Um especialista no bar faria os melhores drinks, alguns criados pelos funcionários da casa. E aí veio a dúvida...
- Em qual sala vocês querem ficar? – perguntou a mocinha que nos acompanhou no turismo todo.
- Não sei – disse pensativo. – Qual você prefere, ?
Acordei do meu transe e percebi que todos me olhavam. Eu gostava muito de dançar então só teria um lugar onde eu me sentiria muito a vontade ali dentro.
- Chandelier Bar – respondi firme.
Todos concordaram felizes, talvez até aliviados por eu não ter escolhido ficar na sala branca que parecia um hospital. Fomos encaminhados para uma mesa mais ao fundo, perto de uma saída de emergência. Nunca se sabe quando uma fã louca de McFLY vai aparecer e, considerando a cadeira de rodas de , teríamos que ficar em um local de fácil acesso para a rua ou algum esconderijo secreto. A saída era perfeito para os dois casos, então nos acomodamos ali mesmo. Vários pufes foram retirados, dando a mais espaço e liberdade. Matt e Jammie se juntaram a nós pouco tempo depois de termos sentado.
- Amiga – disse Jammie se jogando em cima de mim. – Que lugar é esse hein? E esse vestido?
- Legal aqui né? – falei rindo da cara de espanto dela – Ganhei do . Saímos correndo para comprar alguma coisa antes de vir. O mais chique que eu tinha era aquele sobretudo roxo.
- Breguíssimo por sinal – respondeu ela revirando os olhos. – E vem cá é um vestido... oh meu Deus!
Sim, ela viu a minúscula etiqueta na minha cintura com as iniciais FH. Por sorte Matt veio me cumprimentar e eu conversei rapidamente com ele sobre a Califórnia.
- Ele quer o mesmo que eu: sua felicidade e realização profissional. Então eu não sei por quê essa afobação toda – Matt disse quando eu ameacei mata-lo.
Jammie continuou a falar na minha orelha sobre meu vestido Fause Haten. Honestamente, em toda a minha vida e inocência da moda, eu nunca tinha ouvido falar desse cara. Quem dirá de suas criações? Mas o vestido era realmente bonito e eu estava apaixonada por ele.
- Lembra quando estávamos em Paris – disse Jammie – e fomos naquele Lido?
- Que ficava na Champs-Elysees? – perguntou Matt rindo.
Estávamos todos sentados, bebendo e rindo das histórias mais idiotas que cada um tinha para contar. O lugar já estava relativamente cheio e a música eletrônica rolava solta. Como era de se esperar, eu estava ao lado de , que acariciava meu joelho esquerdo enquanto eu tinha meu queixo apoiado em seu ombro direito.
- Isso! – continuou ela – A insistiu que queria conhecer aquela droga de lugar, que era muito bonito, claro, mas quando descobriu que o jantar mais barato saía por 140 euros, ela quase engasgou com a água que tinha pedido.
- Que eu aliás achei caríssima! Dez euros uma garrafa de água, me poupe – falei rindo com eles.
- E onde vocês foram parar depois? – perguntou vermelho de tanto rir.
- No Favela Chic, não foi? – disse Matt incerto.
- Temos esse pub em Londres se eu não me engano – completou .
- Tem sim – respondi. – O Favela Chic foi o melhor lugar em Paris que nós encontramos! É tipicamente brasileiro e faz uma caipirinha bem legal. Não como no Brasil, mas era legal.
Continuamos nossa conversa por mais algum tempo até que todo mundo dispersou. foi atrás da loira peituda que tinha abordado quando chegamos, e conversavam sobre o bar onde estávamos, Jammie e Matt riam das besteiras que falavam um no ouvido do outro. e eu apenas trocávamos poucas palavras e muitos beijos.
- Está gostando? – perguntou ele mordendo meu lábio inferior.
- Qualquer lugar com você eu vou adorar. Não precisa nem perguntar! – respondi sorrindo.
- Então memoriza bem esse lugar e as coisas que acontecerem hoje a noite, tá?
- Ih, tá enigmático demais, hein? – falei rindo – O que vai acontecer hoje que eu tenho que memorizar?
- Eu só queria...
- AH MEU DEUS! – ouvi Jammie falar alto e me assustei ao perceber que ela já estava em pé ao meu lado. – Eu adoro essa música! Vem, vamos dançar!
Mal tive tempo de responder e ela já me puxava pela mão.
- Sexy Bitch, Jammie? – falei tentando voltar ao meu lugar. – Não me puxa. Espera. Jammie!
Olhei para pedindo desculpas e ele apenas me incentivou a ir com ela. Droga, o que ele ía falar? Não era justo que logo agora que ele diria alguma coisa que eu sentia que ía gostar, mais do que já estava adorando aquela noite, ela me tirava de perto. Só não matei a mãe da minha linda afilhada porque Lizzie ficaria órfã, eu iria presa e porque disse que queria me ver dançando. Mas posso falar? Puta que pariu! Pronto, falei!
Respirei fundo e encarei Jammie, que sorria feito uma criança. Já que eu estava ali, então aproveitaria e mataria a vontade de . Dancei como sempre gostei, indo até o chão, voltando, virando, sorrindo, cantando, pulando. Senti uma mão me puxando e respirei aliviada ao ver que era apenas .
- Teu namorado mandou eu vir dançar com você, assim aquele ruivo ali para de te olhar – disse ele me girando.
- Deixa olhar, ué – falei despreocupada e dançando. – Não é com ele que eu vou dormir mesmo!
- Espertinha!
Continuei a dançar. Matt se juntou a Jammie e fazia companhia para , que cantava.
- Perguntei para o seu namorado como ele te definiria agora – disse sorrindo.
- E qual foi a resposta? – perguntei ansiosa.
- Ele só cantou “she’s a diva” – ele respondeu rindo.
A música acabou e emendamos com I Gotta Feeling, do Black Eyed Peas. Só dancei porque insistiu muito dizendo que aquela era uma de suas músicas favoritas. Mas eu fiz ele prometer que deixaria eu voltar para a mesa assim que a música acabasse. Eu não queria ficar muito tempo na pista. Tinha medo que pensasse que eu estava feliz sem ele e todas aquelas ladainhas que passam com uma facilidade incrível pela cabeça oca dele. Eu só não conseguia resistir muito a uma pista de dança e a uma boa música. De resto, estava completamente de boa. Não posso dizer que sou a pessoa mais baladeira do mundo, por isso esse tempo em casa, com ele, não me afetou em nada. Mas era inegável que dançar era uma de minhas paixões e fazer isso com seria a maior alegria que eu teria até então. E qual não foi minha surpresa quando o levou até a pista, se juntou a nós e dançamos todos juntos? Apesar de mover apenas os braços, parecia imensamente feliz em estar ali e eu mais ainda em tê-lo por perto. Cantávamos alto, em meio a risadas, abraços, beijos entre os casais e muita animação.
- Ai caramba – falei rindo. – Acho que estou ficando velha. Preciso sentar!
e eu voltamos para a mesa. Os solteirões se mandaram em busca de diversão. Matt e Jammie continuaram a dançar de forma bizarra, mas felizes.
- Você dança demais – disse parando ao meu lado.
- Sou brasileira, meu bem – respondi sentando em um pufe. – Dançar está no sangue!
Pedimos nossos últimos drinks da noite, que passou rápido e nós nem sentimos. O dia estava quase amanhecendo quando deixamos a boate. Estávamos voltando para casa de táxi, da mesma forma que tínhamos ido até o Amika. Chega de acidentes entre a gente. Fomos direto para o jardim para ver o sol nascer. A casa era grande, mas nada se comparava ao gramado nos fundos do terreno. Tirei meus sapatos assim que sentei na cadeira ao lado de . Não demorou para que os raios dourados começassem a banhar o céu ainda escuro.
- Qual a sua música favorita? – perguntou ele segurando minha mão. Seu olhar contemplava o nascer do sol, que banhava seu rosto perfeito com um dourado instigante.
- Tem várias – respondi sorrindo. – Falling in Love é uma delas.
- Uma especial? – insistiu, me olhando – Um sonho com alguma música?
- Bem, tem uma que eu sempre disse que dançaria no meu casamento.
- Qual?
- That’s When I Love You, da Aslyn – falei baixo. – Tocou em um filme que eu vi há alguns anos atrás. Eu sempre disse que dançaria essa música somente com uma pessoa muito especial.
- E já dançou? – perguntou .
- Não. Ainda não.
Ficamos em silêncio, observando o sol surgir em meio aos pinheiros da pequena floresta que havia atrás da casa que eu agora chamava de minha também.
- Me fala desse filme.
Olhei com curiosidade. Não tinha a menor idéia de onde ele queria chegar com essa conversa, mas confesso que eu estava me sentindo bem ali.
- É a história de Halley, uma adolescente que deixou de acreditar no amor. Os pais dela estavam se divorciando por causa de uma mulher que trabalhava com o pai dela, no mesmo dia que ela descobre sobre o casamento do pai com essa tal, a irmã anuncia que está noiva. A melhor amiga dela estava namorando, o cara morre e ela descobre que está grávida. As coisas só melhoraram, mas nem tanto, para Halley quando ela se apaixonou pelo melhor amigo dela. A atriz do filme é a Mandy Moore, a mesma de Um Amor Para Recordar.
ainda me olhava, sorrindo levemente. Me inclinei e o beijei, sentindo falta de ter seus lábios tocando os meus.
- Qual o nome do filme? – ele perguntou.
- Meu Novo Amor.
- Vou lembrar disso!
Voltamos a nos beijar, agora com o sol já no céu, brilhando lindamente sobre nós. Deitei minha cabeça no colo de e ele fazia um carinho gostoso quando ouvi sua doce voz entrar por meu ouvido.
- Namora comigo? – ele perguntou simplesmente, como se fizesse a mesma pergunta todos os dias.
- Como? – falei espantada, levantando minha cabeça.
- Namora comigo? – repetiu – Eu sei que já te chamo de amor e falo de você como minha namorada. Mas quero que seja oficial, sabe? Namora comigo, ?
Se meu rosto fosse maior, certamente meu sorriso ocuparia todo o espaço disponível. Mesmo que eu não me importasse com essas coisas, eu ainda tinha uma pequena dificuldade de falar dele como meu namorado. E isso agora estava com os minutos contados. Só dependia de mim.
- Claro que eu namoro com você, !
Não dependia mais.
Capítulo 18 – Last request
Agora eu era oficialmente a namorada de . Mesmo que eu já me considerasse assim e ele se referisse a mim como sua namorada, o pedido feito naquela noite tornou tudo mais claro. E tornou ainda mais difícil para mim ir para a Califórnia. Na verdade, a parte mais difícil mesmo foi quando todas as fãs foram informadas que eu era a namorada dele. Elas se acostumaram com a idéia de me ter por perto para cuidar de , mas não acho que esperavam por algo mais concreto. Tenho certeza que não! Por mais que eu tivesse implorado, pedido e quse me rastejado para que isso não acontecesse, colocou no twitter a mensagem “agora estou oficialmente amarrado... e feliz!” e, advinhem só... o meu twitter recém descoberto por todas as fãs assíduas de McFLY foi bombardeado com os mais diversos tipos de recados de todas as origens possíveis. Alguns diziam que era legal a gente namorar, já que morávamos juntos e provavelmente não nos largaríamos mais. Outros diziam que ele não devia namorar com uma brasileira e, menos ainda, com a menina que quase o matou. Compreensível, do meu ponto de vista. Asqueroso, do ponto de vista dele.
O fato é que todos os meus esforços para manter o meu querido e fofo microblog longe dos olhares curiosos da imprensa e das fãs foi para o saco! Agora eu precisava ter um cuidado imenso com tudo que eu ía postar, já que toda e qualquer mensagem recebia comentários ou muito ou nada fofos. E então decidimos criar nossa própria forma de comunicação: nada de nomes. me chamava de “Cupcake” quando gravávamos Falling in Love pelo fato de eu ser apaixonada por aqueles bolinhos. E eu o chamava de “Boo”, que quer dizer amor, namorado, meu bem, querido e todas aquelas formas carinhosas de conversar. E assim deixamos pelo twitter também. Mas não digam a ele que eu contei, ok?
- Grant my last request and just let me hold you – cantarolou ele entrando na cozinha. - Don't shrug your shoulders…
- Que alegria toda é essa? – perguntei rindo enquanto temperava a carne que usaríamos no churrasco que ele tanto insistiu em fazer em plena quarta-feira.
- Ah, achei esse CD no meio das suas tralhas – mostrou meu CD autografado de Paolo Nutini. - Per mia . Grazie per avermi mostrato la bellezza della vita. Bacio, Paolo. Folgado esse cara, hein? Para minha ? Minha é o rabo dele!
- Ah, então o seu rabo é dele? – tentei não rir, mas foi impossível.
- Sem comentários – ele respondeu rabugento. – Que beleza da vida você mostrou para esse cara, hein?
Coloquei a carne cuidadosamente em uma bacia, observando minha obra de arte. Lavei as mãos e me aproximei de .
- Mostrei uma foto sua – falei mordendo seu lábio inferior. – Ele disse que era uma beleza, mas eu disse que era só meu. Melhor assim?
- Mesmo eu sabendo que não foi isso que você mostrou, bem melhor!
- Bobo!
- Linda!
- Teimoso!
- Gostosa!
- Quer parar? – reclamei envergonhada.
- Minha garota! – me puxou e eu caí sentada em seu colo. Ouvimos um barulho vindo de sua cadeira e não nos mexemos por alguns minutos. – Posso mudar o gostosa?
- Hã?
- Gorda!
- Ah , cala a boca! – falei rindo e voltei a cuidar da comida.
- Sai correndo mesmo! Se eu cair e...
- ... quebrar o pescoço e morrer, vou te assombrar a noite – terminei a frase tão falada por ele. – Já sei, já sei!
Ele apenas riu e foi mexer em seu computador. Estávamos esperando toda aquela tropa chegar para mais uma noite de bebidas, comida, brincadeiras e muitas risadas. Seria o que chamava de “Até logo Cupcake”, já que nas noites que se seguissem, de quinta, sexta e sábado, eu teria que quebrar a cabeça para organizar minhas malas e passar o máximo de tempo que eu pudesse com . Eu havia desistido de protestar e, pensando bem, apesar de toda a saudade que eu sentiria dele, não tinha como negar que era uma oportunidade e tanto. E, bem, eu sobreviveria por dois meses. Ele eu tinha certeza, mas eu... Daria o meu melhor.
- – gritei ao perceber que alguém passara correndo pela sala – o que você está procurando?
- Poxa, como você sabia que era eu? – ele perguntou rindo e aparecendo pela porta da cozinha.
- Quem mais corre como uma gazela, ?
- Ah, , vai se...
- Wow, chega vocês dois! – ralhou .
A vantagem de morar em Londres, em especial no condomínio de , era a não necessidade de manter as portas e janelas trancadas. Na verdade, nem portão nós tínhamos na nossa casa. A única desvantagem, porém, é a falta de privacidade quando se tem amigos como o McFLY.
- Tô sentindo cheiro de bolo – disse finalmente aparecendo.
- Não é nada para vocês, seus marmanjos folgados – retruquei rindo.
- Lizzie? – perguntou entrando na sala.
Concordei com um aceno de cabeça e ele sorriu. e Lizzie eram um grude só, e ficavam piores quando Snow se juntava a eles. Parecia que o mundo deixava de existir e eles fossem os únicos seres restantes. Brincavam, riam, desenhavam. até permitia que a menina testasse seus kits de maquiagem nele. Fui para a cozinha terminar de confeitar o bolo e, de quebra, comecei a fazer as caipirinhas que eles tanto gostavam. Pensei em cobrar, já que toda semana eles tinham a mesma desculpa para irem até a nossa casa: adoramos comida brasileira. Aquele espaço tinha virado pensão da e do . Eu estava parada em frente à pia quando senti pequenos braços envolverem minhas pernas.
- Oi minha princesa – falei me abaixando e beijando o rosto de Lizzie. Jammie vinha logo atrás.
- Precisando de ajuda? – ela disse também me abraçando.
- Preciso. Vai lá e bota juízo naquelas cabeças ocas!
- , eu ofereci ajuda, não milagre!
- Mas vocês nunca tentaram? – perguntou Jammie aos sussurros.
- Não – respondi também falando baixo. – Ah, é constrangedor né Jammie? Ele assim, eu vou provocando? Não dá.
- O que as duas tanto fofocam aí? – perguntou Matt do outro lado da sala. Nós duas pulamos de susto e Jammie apenas o olhou feio.
- Eu acho que você devia tentar – ela continuou. – Vai ver ele recupera os movimentos assim e pronto!
- Jammie, até onde eu sei, sexo cura dor de cabeça, não paralisia!
Nós duas rimos da minha piada infame e logo fomos interrompidas por Lizzie, que chorava. viu a cena e se aproximou, preocupado.
- O que houve? – perguntou ele.
- Ela só caiu e bateu a testa – respondeu Jammie agradando a filha. Nada, porém, parecia acalmar e diminuir o berreiro.
- Aw – disse – vem cá Liz.
Ele estendeu os braços e ela se jogou em seu colo. Bastaram apenas poucos minutos para que Lizzie parasse de chorar e começasse a rir. Eu e Jammie nos olhamos intrigadas, tentando entender como havia conseguido tal milagre. A pequena saiu do colo dele e correu para o meio dos garotos, que agora riam e brincavam com ela.
- Certo, vai abrindo o bico aí e contando qual a promessa que você fez – disse Jammie quando parou ao meu lado.
- Nenhuma, ué – ele respondeu rindo. – Só falei para ela que isso acontecia, mas que ela podia ficar tranquila que ela não ficaria retardada igual ao .
- EU OUVI ISSO! – gritou .
Depois de um segundo de silêncio, todo mundo caiu na maior gargalhada. Até mesmo Lizzie parece ter esquecido de seu tombo e ria, tirando onda da cara de seu mais novo tio adotivo. Era quase um sonho ver todo mundo junto. Em pensar que Matt não suportava nem chegar perto de e que Jammie foi a grande intermediária disso tudo. Essa idéia agora parecia tão distante.
Os meninos sentaram em uma roda e, depois de muito tempo, pude ver meu namorado envolvido com música novamente. Ele cantava alegre e até arriscava alguma coisinha no violão. As mulheres tiveram o direito de permanecerem distantes do clube do bolinha. Bem, só eu e Jammie tínhamos esse direito. Lizzie e Snow podiam circular a vontade, sem restrições de território. A madrugada chegou rápida e ninguém percebeu. A quarta feira acabou, levando com ela todos os nossos amigos, cada um para sua casa. Meu coração apertava cada vez mais e só não foi pior quando vi Matt entregando minhas passagens a . Meu vôo estava marcado para o domingo à tarde e eu não estava me sentindo nada, nada feliz com isso. Todos haviam prometido que iriam até o aeroporto, mas o clima de despedida era inevitável. , que era como um irmão mais velho, se mantinha distante, me dando mais ainda a certeza de que ele abriria o berreiro no saguão da sala de embarque no domingo. Ao me despedir de todos eles, pude ver que a tristeza brincava em seus olhos e que ninguém estava feliz com a minha ida, mesma que rápida, para a Califórnia.
- Você está fazendo o maior drama – dizia enquanto eu trocava de roupa – e no fim vai se divertir horrores nos Estados Unidos. A Califórnia é legal, .
- Legal ou não, você não vai estar comigo – respondi irritada.
- É uma chance de você conhecer gente nova, mas só mulheres, ok? Nada de novos amigos homens!
Apenas revirei os olhos e me joguei na cama. se aproximou cauteloso e ficou cutucando meu braço.
- O que é?
- Só para dizer que eu te amo – ele disse de uma forma fofa.
- Você é um babaca – falei rindo e o puxando para a cama.
Ele caiu por cima de mim, me beijando em seguida. Meu beijo favorito em todo o mundo e eles queriam me privar disso. Não era justo!
- Amanhã vamos comprar o resto das coisas que você vai precisar, tá? – disse ele carinhoso. – Quero te ajudar, cuidar de você nesses últimos dias.
Revirei os olhos impaciente e ajeitei na cama. Aquele assunto me deixava enjoada e eu estava morta de sono.
Quando acordei naquela quinta feira ensolarada, mas ligeiramente fria, não encontrei na cama. Também não faço a menor idéia de como ele trocou de roupa. Só sei que andei pelo flat todinho e não encontrei meu namorado e muito menos a minha cachorra. Comecei a ficar preocupada, mas nada que um recado na porta da geladeira não explicasse alguma coisa:
“Saí com o . Ele disse que precisava de ajuda em umas coisas lá... enfim, não devo demorar. Snow foi comigo! Te amo. xxx”
precisando de ajuda em umas coisas lá. Isso não me cheirava a coisa boa, mas eu tinha pedido tanto a ele que saísse com os meninos que agora eu não podia nem abrir a boca. Tomei meu café da manhã tentando não prestar atenção no silêncio horrível que estava tomando conta fortemente do ambiente. Não tinha o som da risada dele e nem das patas de Snow se chocando contra o chão. Não tinha a voz de pedindo à cachorra que lhe desse a patinha, da mesma forma que o latido revoltado dela quando ele fingia que ía jogar a bolinha não preenchia o lugar. Era um silêncio estranho, porque ao mesmo tempo em que era bom, era voltar a ser aquela pessoa sozinha que eu era antes de conhecer . Por mais que Matt estivesse comigo sempre logo nos primeiros dias de Londres, eu ainda ficava grande parte do dia em casa, sozinha, olhando pela janela, pensando no que fazer. E nunca encontrava nada de útil. Minha prateleira de livros fora toda devorada em dias e noites de solidão. Nessas horas, o filme de nossas vidas sempre insiste em passar por nossas cabeças, por mais que a gente tente mantê-los longe. E comigo não foi diferente. O dia em que conheci por acaso, durante aquela trombada que resultou numa chuva imensa de papéis veio forte e clara. aparecendo com os outros meninos depois, me encarando. O frio que eu senti na espinha quando ele falou comigo pela primeira vez. Será que ele sabia que acabaríamos assim, juntos? Ou será que ele apenas achava que eu era uma garota desengonçada e engraçada, que ria das piadas idiotas do e sabia fazer uma cena para cada linha de música?
O que eu pensei daquele dia? Nada. Encontrar foi o pior acidente da minha vida, o tropeço mais feio e eu o adorava mesmo assim. Era como topar o dedão numa pedra e ainda guardá-la, com amor e carinho, por ela ter representado um momento especial. E era especial. Por mais que tenhamos brigado, por mais que continuemos a cutucar o outro sempre, ele era a minha pedrinha e eu o queria por perto até os meus últimos dias. Não sabia ao certo a intensidade que isso o atingia, mas para mim era bem claro que eu nunca tinha me apaixonado tanto por uma pessoa e nem esperava me apaixonar assim. Sorri sozinha, boba, ao lembrar de tantas brincadeiras que fizemos no começo, quando ainda escondíamos de todo mundo o que sentíamos um pelo outro. Quando nos encontrou aos beijos na minha sala e ficou tão chocado como uma criança que descobre que Papai Noel não existe. Como não sabia o que dizer enquanto eu morria de rir. Depois e se juntando a nós, ainda sem saber o que tinha acontecido, mas ficando igualmente chocados quando repetiu a cena como forma de “demonstração” do que havia encontrado. Tantas e tantas vezes que uma música do McFLY recebeu uma crítica negativa, tão bem escrita e convincente que os quatro apareciam na minha casa quase chorando, procurando colo ou apenas para me ouvir xingar a pessoa que havia escrito tamanha barbaridade. As vezes em que eu estava concentrada trabalhando, criando clipes novos para a banda da vez, conversando estressada com Matt e Josh sobre os detalhes mais minuciosos das imagens, e eles entravam feito quatro furacões, pedindo uma reunião de emergência. E com papéis e canetas nas mãos, eles anunciavam quando estávamos sozinhos que não era bem uma reunião, mas que era para que eu desse idéias para alguma música nova que eles precisavam entregar para os produtores. A libertação da gravadora antiga, a criação da Super Records. Tudo isso eu peguei desde o começo e agora parecia impossível descrever. Por mais que eu tente contar às pessoas em detalhes, tudo parece ter sido tão rápido, mas foi tanto tempo.
Perdida em pensamentos, não vi que a hora passava ligeira e que ainda não havia chegado. Tentei ficar na minha, não ligar, mas no fundo o que eu precisava era ouvir a voz dele me chamando de manhosa e reclamando que eu pegava no pé dele.
- Oi, amor – ouvi-o dizer do outro lado da linha.
- Cadê você, hein?
- Aw, tá com saudades é?
- Tô – respondi com um bico que, mesmo que ele não estivesse vendo, ele sabia que eu estava fazendo.
- Já vou para casa – disse, afastando o telefone em seguida e dando alguma instrução a . – Escute, não me espere para almoçar, está bem? Vou tentar não demorar, mas você sabe como o é lerdo.
No exato momento que recebi essa pequena notícia, emburrei feito uma criança. O que queria com o meu namorado, afinal? Me despedi de e fui procurar alguma coisa para fazer. Aquele silêncio estava me deixando louca. Era o tipo de situação que você estava acostumada, mas que passou a odiar. Fui correndo até o quarto e troquei de roupa. Até parece que eu faria almoço só para mim. Iria no shopping mais próximo comer um belo sanduíche do Subway. Passei por todas as vitrines coloridas e cheias de brilho até que meu olhar encontrou duas pessoas conhecidas. Na verdade, três. , e Snow saindo de uma loja de jóias. com uma sacolinha. rindo. Snow olhando tudo como se estivesse dando cobertura. Suspeito. Não demorou para que o faro nem sempre agoçado da cachorra sentisse o meu cheiro e indicasse ao seu maior cúmplice minha chegada. me olhou um pouco surpreso e depois veio em minha direção.
- Me vigiando, mocinha? – perguntou ele brincalhão.
- Não, só vim almoçar mesmo – respondi séria. – Estavam fazendo o que ali?
- Ah, o queria ver um relógio novo.
- Oi ! – disse o outro comparsa de .
- Hey ! – falei sem desviar os olhos de meu namorado. – Um relógio para o e você carregando? Amor, eu sei que você tem um coração enorme, mas a esse ponto?
imediatamente olhou para o pacote em seu colo e jogou-o em cima de .
- Não sou seu burro de carga – disse ele. – Leve esta porcaria, .
A confusão que eles estavam criando me divertia, mas ao mesmo tempo intrigava. Por Deus, como eu queria saber o que eles estavam aprontando. Convidei-os para almoçar comigo, mas se recusaram alegando que precisavam levar Snow para casa. ainda disse que tinha um encontro com uma garota que tinha conhecido.
- Você precisa ver a namoradinha do , – comentou . – Ela é brasileira, acredita? Ele é tão invejoso que nem para escolher outra nacionalidade, queria uma igual a minha!
Revirei os olhos e me despedi dos três. Andei calmamente pelo shopping pensando em gastar o que restara dos meus últimos salários em alguma coisa interessante para mim. Um livro, talvez. Entrei na primeira livraria que encontrei e fui direto para a área das comédias românticas e tudo o que fosse engraçadinho e meloso ao mesmo tempo. Olhei, olhei e topei com uma imensa estante de livros de Sophie Kinsella.
- Já li, já li – eu falava sozinha enquanto olhava um por um. – OH!
Uma senhora que estava por perto se assustou com minha nada discreta exclamação de surpresa. Pedi desculpas e peguei o livro de capa branca que estava bem debaixo do meu nariz. Twenties Girl. O novo livro da autora que eu tanto adoro. Fantástico, era tudo o que eu queria.
- Você é a namorada do do McFLY! – ouvi uma garota falar em bom tom atrás de mim.
Virei um pouco desconfiada. Ela era relativamente mais alta do que eu, a considerar por seus super saltos, não devia ser assim tão grande. Seus cabelos exageradamente laranjas fizeram com que meus olhos se incomodassem por alguns segundos. Seus olhos azuis contrastavam com os lábios bem vermelhos, com um piercing no canto esquerdo.
- É, é você mesma! – ela continuou. – A garota por quem ele quase morreu e com quem ele ainda namora.
- Você poderia falar um pouquinho mais baixo, por favor? – pedi educadamente e sem jeito. Ela porém franziu a cara numa careta nada feliz.
- Você é arrogante – a tal menina insistia. – Não devia mandar uma fã calar a boa.
Mas hein?
- Desculpa, eu não pedi para você calar a boca, apenas falar um pouco mais baixo.
- Que seja – ela disse e empinou seu nariz naturalmente arrebitado. – Como ele está?
- Está bem, obrigada – respondi e esbocei um sorriso. – Acabou de sair do shopping. Ele, e Snow estavam passeando por aqui.
O rosto da menina se iluminou e ela saiu correndo, provavelmente tentando encontrar metade do McFLY. Paguei por meu livro e saí de lá o mais depressa possível, ainda com algumas pessoas me olhando. Que situação! Não que eu tivesse ficado com medo da menina. Ser fã de McFLY no Brasil sem saber armar um barraco não é ser fã. Quero dizer, em meio ao caos dos shows e às disputas ridículas entre os estados quando os meninos estão lá, se você não souber dar uns socos e pontapés para garantir seu espaço na multidão, você é pisoteada sem dó nem piedade, além de ver o show lá da porta do banheiro do prédio atrás do lugar onde é o show. A coisa é tensa e perigosa! Fã brasileira de McFLY ensina a fazer um barraco tão bem feito que não é difícil montar uma tropa e botar ordem no Haiti.
Almocei ainda um pouco traumatizada com o encontro na livraria. Não tive mais notícias de e e, quando cheguei em casa, Snow estava emburrada. Provavelmente foi abandonada pelos outros dois e se sentia um tanto quanto traída, já que ela estava dando total cobertura no plano deles. Dei uma olhada pela casa inteira, mas é claro que se aquele pacote fosse ficar na nossa casa, não o deixaria agora que eu estou sozinha e fuçaria até a morte naquilo. Deve ter levado com ele para onde quer que ele tenha ido.
Passei o resto do dia lendo meu livro e nem me dei conta do horário. Emburrada até a alma, jurei que não ligaria atrás de ninguém e que se voltasse para casa, não daria a mínima. Mentira, eu faria de tudo e mais um pouco, mas com um bico enorme. Para minha surpresa, até o momento em que eu fui dormir, ele não havia chegado. Eu estava começando a ficar preocupada. E assim a quinta feira acabou.
Não posso dizer que a sexta foi o dia mais agradável de todos. Quando acordei, dormia tranquilamente ao meu lado, mas ainda assim nada de pacotinho de loja de jóias. Perdeu, . Aquilo era mesmo um relógio para o . Ao concluir o fato, lembrei-me da tal garota que eles disseram. Uma brasileira. Será que eu conhecia? Afastei a possibilidade, já que o Brasil não se resumia apenas nas pessoas que eu tinha na minha lista de amigos. Claro que poderia ser qualquer brasileira no mundo inteiro. Talvez a menina tenha apenas nascido no Brasil, mas nunca de fato vivido lá. Paciência. que se virasse com ela e com o humor que só as brasileiras tem. Isso pode ser bom ou ruim, depende do ponto de vista.
A pedidos de meu namorado, passamos o dia inteiro com sua família, que apesar de ainda ter um certo preconceito com minhas raízes, especialmente minha adorável sogra, me tratavam super bem. A mãe de não era má. Ela só esperava que o filho se casasse com uma inglesa, ou ao menos com alguém que não tenha chegado perto de matá-lo, como eu fiz. No fundo, talvez mais no fundo do que eu queria, ela era uma boa e adorável pessoa. Em minha homenagem, fizeram um churrasco com hambúrguer e eu senti saudades do Brasil de uma forma arrebatadora. Se eles chamam aquilo de churrasco, as carnes assadas que eu como na minha terra são um banquete dos Deuses.
Foram horas engraçadas e aconchegantes, com todos os tios e primos rodeando. Aproveitei o clima família e me acabei jogando Wii com a irmã de . A noite chegou, voltamos para casa e demos adeus à sexta feira.
Para o meu grande, imenso e infinito desespero, estávamos há um pouco mais de trinta horas da minha viagem. pareceu ter murchado um pouco com a proximidade e nem sequer falou muito no café da manhã que ele mesmo preparou. Digamos que ele fez o café e não que ele tenha encomendado!
Conversamos pouco sobre coisas banais e, quando anunciei que começaria a arrumar minhas malas, vi seus olhos se encherem ligeriamente de lágrimas. Snow levatou as orelhas, mas logo se escondeu debaixo da mesa, não sendo mais vista por nós dois por horas. evitou entrar no quarto e somente quando eu saí e anunciei que estava quase tudo pronto, ele resolveu falar alguma coisa.
- Vou sentir saudades, sabia? – disse manhoso.
- Eu também vou, amor – respondi abraçando-o. – Muita por sinal.
E foi o nosso diálogo da vez. O clima em casa era de perda, mesmo que eu não estivesse indo definitivamente. Era o mesmo que deixar seu animal de estimação em um hotel especializado e viajar com sua família. Era deixar uma parte de você para trás. Eu estava deixando oito! Tom, Dougie, Danny, Harry, Snow, Matt, Jammie e Lizzie ficariam cada um com um pedacinho do meu coração. Acho que só chegaria a unha do meu dedinho na Califórnia!
Não preguei os olhos a noite toda e sei que também não o fez. Ele apenas se dava ao trabalho de disfarçar, coisa que eu não fui capaz. Sentei no parapeito da janela do quarto e fiquei olhando o sol nascer, brincando entre as árvores da pequena floresta que tínhamos nos fundos do condomínio.
- Você promete que volta? – disse Matt no dia seguinte, me apertando em um abraço.
- Claro que volto! – respondi tentando não chorar. – O mais rápido que eu puder.
- Eu queria tanto te levar até o aeroporto – Jammie me arrancou dos braços do marido, quase me sufocando. – Mas temos que cuidar dessas duas pestinhas!
Ela se referia a Lizzie e Snow, que não iriam até o movimentadíssimo aeroporto de Londres.
- Tá tudo bem, Jammie – falei tentando me soltar. – De verdade, não tem problema.
A casa estava apinhada de gente que tinha ido até lá com o intuito de se despedir. Vizinhos, parentes dos meninos, Jammie, Lizzie e Matt. Isso tudo porque eu ficaria fora por dois meses. Vejam bem, DOIS MESES. Imaginem se eu fosse ficar, sei lá, uma turnê inteira do McFLY fora. Desespero desnecessário, honestamente.
- Você promete que vai trazer presente para mim, madrinha? – disse Lizzie se jogando em meu colo, sendo repreendida por sua mãe ao fazer o pedido.
- Vou trazer milhões de presentes para você – falei enchendo-a de beijos. – E para você também, Snow. Mamãe vai trazer uma mala só de presentes, prometo!
Devolvi Lizzie para Jammie e ajudei a levar todas as malas para o carro de . Eu teria uma mini comitiva para me levar até o aeroporto. e iriam comigo no carro do meu namorado, enquanto e nos seguiriam no carro de um deles. Fomos o caminho todo em silêncio, ouvindo os sons dos carros que nos ultrapassavam. Quando estávamos quase chegando, fui informada que os meninos haviam conseguido uma sala VIP para esperarmos o meu vôo. Tente ser um membro do McFLY e andar livremente por Londres. Não é como no Brasil, mas acredite: as fãs perseguem mesmo! Se quiser um pouco de paz e privacidade, apele para essas salinhas.
Estranhei quando somente eu e entramos no lugar. deu uma desculpa tão esfarrapada que apenas disse que precisávamos conversar e nos empurrou para dentro. Olhei todo o ambiente, que me pareceu escuro e triste. acendeu a luz e ficou parado, com as mãos sobre seu colo. Demorei um pouco para me virar e ele protestou com um suspiro.
- Precisamos conversar? – indaguei curiosa. – O que o quis dizer com isso?
- Ele quis dizer que – começou, parecendo desconfortável e nervoso – eu preciso ser homem e fazer o que eu planejei a semana inteira.
Olhei-o ainda mais curiosa. Um pouco assustada, confesso. Tínhamos três projetos de adultos parados do lado de fora, talvez tentando ouvir nossa conversa. Só nós dois ali, agindo estranho e eu sem forças. Cansada pela noite mal dormida, ainda relutante em ir para a Califórnia, mesmo sabendo que eu teria que ir e pronto.
- Você tá me assustando – falei sentindo o ar faltar. Ele terminaria comigo, eu sabia. jamais aceitaria mandar a namorada assim para algum lugar se não tivesse a intenção de compensar a distância com algo como um rompimento.
- Não – ele disse me olhando rápido e vindo até mim. – Não é para se assustar. Quero dizer, um pouco talvez. , olha, eu pensei na melhor maneira de fazer isso. Só que parece que todas as maneiras eram erradas, porque eram para você e não achei nada que fosse bom o suficiente. Nada que fosse do seu nível, sabe?
- ...
- Vou confessar, eu procurei na internet se tinha alguma coisa super, hiper, incrível e especial, mas não achei – ele parou e pensou por alguns segundos. – Tá, achei, mas não gostei. Então...
- Atenção senhores passageiros do vôo com destino à Califórnia. Embarque pelo portão 12.
Nos olhamos apreensivos. Era o meu vôo. Tínhamos pouco tempo juntos agora. Eu ainda precisava me despedir dos outros três meninos que estavam do lado de fora.
- – disse se aproximando ainda mais – eu vou morrer de saudades de você. Eu não quero que você ache que eu sou inseguro ou qualquer coisa do tipo, mas eu preciso fazer isso. Eu confio em você, mas eu quero que você saiba o tamanho do amor que eu sinto e o tanto que eu te quero de volta.
- E aí, dude, já? – perguntou colocando a cabeça dentro da sala. Nós o encaramos e ele pareceu sem graça. – Ah, desculpa. Vai logo, seu gay!
Quando ele fechou a porta, voltei meu olhar novamente para . Um sorriso medroso brincava em seus lábios e eu pensei que fosse desmaiar ao ver o que ele tinha em mãos.
- Cara, não falou ainda? – foi a vez de interromper, mas quase não prestávamos atenção. – Vocês dois, venham ver!
De relance vi as cabeças de e aparecerem na porta. Eles deveriam nos dar privacidade. Pelo menos esse era o combinado entre os quatro, mas acredito que a curiosidade deles foi maior do que qualquer outra coisa.
- , você aceita se casar comigo assim que você voltar da Califórnia? – perguntou em sua melhor voz séria, mordendo o lábio inferior em seguida, demonstrando claramente todo seu nervosismo.
O anel que ele segurava reluzia, sua pequena pedrinha brilhava e eu sentia meu coração em chamas. Casar. Meu namorado que eu tanto amava e que ía me fazer a maior falta do mundo queria casar comigo. E eu não conseguia me mexer para gritar que sim, que eu queria, que era o que eu mais queria no mundo. Que ser sua mulher era o maior presente que eu podia esperar. E o que eu fiz?
- E-eu... – gaguejei. – Sim.
Foi a resposta mais mole que eu já dei na minha vida. Eu não gritei nem nada do tipo. Torci imensamente para que não ficasse decepcionado comigo. Mas pelo tamanho de seu sorriso, que tomava toda a extensão de seu rosto perfeito, a última coisa que ele conseguia sentir era decepção. Assim como eu.
colocou delicadamente o anel em meu dedo anelar direito e me entregou o dele, para que eu colocasse. Tremendo, consegui colocar o anel, abraçando-o em seguida e beijando-o carinhosamente. Os meninos agora sorriam e aplaudiam, juntando-se a nós em seguida em um enorme abraço.
- Nossa mascotinha – brincou . – Esse foi o namoro mais curto da história. De namorada a noiva em o que? Uma semana?
- Benvinda oficialmente à família McFLY – disse se sentindo importante.
- Agora você não escapa mais de nós, – completou beijando minha testa.
- Ei, será que vocês podem me devolver a minha noiva? – resmungou .
- Aw – dissemos todos juntos antes de eu voltar para perto do meu... noivo.
A última chamada para o meu vôo foi anunciada e eu não tinha mais como escapar, apesar de querer e muito. Agora, mais do que nunca, eu queria ficar perto de . Me despedi de , e em meio a lágrimas, sorrisos e abraços apertados. Quando olhei para o último e mais doloroso adeus, ele estava firme e não demonstrava emoção alguma.
- Eu vou sentir saudades – falei em seu ouvido. – Se cuida, por favor? Faz sua fisioterapia direitinho, tá?
- And now you’ve left me – ele cantou baixinho – I can’t get you off my mind.
- That’s when I realized – continuei – you had me hypnotised.
- Se cuida lá, ok? – a voz mansa e rouca de era como música. Eu adorava ouvir e nunca me cansava.
Apenas concordei com a cabeça enquanto grossas lágrimas banhavam meu rosto. O abracei fortemente, querendo guardar um pouquinho da sensação dos braços dele me protegendo para quando eu estivesse fora. Evitei prolongar a despedida, peguei minha pequena mala que não havia sido despachada e caminhei firme para a área de embarque e desembarque. Olhei para trás e os quatro choravam feito crianças. Acenei e recebi três acenos de volta. Somente um permanecia imóvel. O que mais doía em mim. Desenhei um coração no ar e ele, porém, foi o único que repetiu o meu gesto. E foi essa a minha última imagem antes de embarcar para a Califórnia. Eu, o calorzinho no meu coração, o meu anel de noivado e a certeza de que era com que eu queria passar o resto de toda a minha vida.
FIM!
N/a (25/01/2010):Fazer a última nota de autora é sempre mais complicado. É ela que vai ficar para sempre na história, apagando todas as outras que foram feitas. E terminar uma história nunca foi tão difícil como dessa vez. Fiz o capítulo 18 mais de duas vezes, apaguei e nada de ficar como eu queria. Não sei se ficou mesmo. Tive que correr com o tempo senão vocês leriam uma bíblia inteira ao invés de uma fiction.
Não me matem! Você foi embora de novo, mas como devia ter sido da primeira vez. Ele te ajudando, apoiando e esperando por você. Até porque, agora você terá que voltar. Vai rolar casório, hein? ;)
Quero agradecer a todos os comentários que vocês tinham deixado pelo Haloscan, agora pelo Echofon (no fundo é a mesma coisa, mas os outros eu perdi!). Obrigada por todos os recados no twitter, alguns e-mails que eu recebi também. De verdade... ver que tinha uma pessoa lendo me fazia feliz, mas ver que vááárias pessoas leram e se identificaram com a história me deixou mais alegre ainda. Obrigada por todos os elogios. Que bom que muitas vezes vocês se surpreenderam, choraram, riram e pularam da cadeira, rs. Isso é sinal que a história tá mesmo convincente. Sou suspeita a falar, já que eu choro horrores quando escrevo.
Quero colocar outras idéias em prática, então não sei quando vou começar a parte III. Mas esperem por muitas risadas na continuação, porque, no meu caso, o Dougie vai dar um show a parte de palhaçadas!
Beijos enormes e nos vemos por aí! :D.