That's When I Love You
Escrita por: Mariana Pereira
PRÓLOGO
Então era isso! Eu tinha chegado ao meu destino de uma forma surpreendentemente rápida. Meus pais estão chocados até agora, o que não é diferente do resto da minha família de caipiras que mora numa cidadezinha no interior. Do Brasil, é claro. Entrei na universidade e foi aquela festa. Todo mundo comemorando que, finalmente, alguém desse “bando” tinha se dado ao trabalho de estudar depois do meu pai. Uhul, palmas para mim.
Mas a coisa toda não parou por aí. Alguns anos depois dessa fabulosa conquista, comecei a espalhar meu currículo por aí. Não que meu pai fosse deixar de pagar meus estudos, me botar para fora de casa e me obrigar a comer comida congelada todos os dias. Mas ele queria que eu trabalhasse. Fui fazer a vontade do meu velho. Depois de um ano trabalhando no que eu não gostava, eis que finalmente consigo um emprego na minha área. Em outra cidade. Mas ah, quem se importava? Eu era a mais nova estagiária do diretor Fernando Meirelles. Queria mais o quê? Tá, não via o cara; quando via, ele passava correndo e eu só ajudava aqui ou ali, em alguns vídeos medíocres de comercial de extrato de tomate. Mas eu estava ali, tinha um salário legal, trabalhava no que eu queria. Por que não abrir um sorrisão?
Achou que minha vida tinha sido resolvida, né? Há, senta e espera, colega. A aventura começa agora. A propósito, meu nome é ! Bom, vamos lá. Deixa eu te contar o que aconteceu mesmo...
Aquela segunda feira prometia. Eu tinha caído da cama às quatro e meia da manhã, estava no ônibus fretado que me levaria ao estúdio. Não era uma gravação de extrato de tomate, mas de uma marca de leite qualquer. As donas de casa ficariam felizes em saber que vai ter mais uma opção para distraí-las enquanto seus filhos correm destruindo os supermercados. Enfim, que seja.
Quando eu entrei no estúdio, pensei que estivesse vendo uma miragem. Meu chefe. Meu todo poderoso chefão estava ali, observando o trabalho. Rapaz, me arrepiei todinha, sabe? E se ele estivesse me esperando pra me demitir? Mas os comerciais não estão tão ruins e eu não posso ser responsabilizada. Qual é, sou apenas estagiária, mal encosto em qualquer papelzinho a não ser que ele esteja indo para o lixo e minha maquiavélica supervisora esteja com preguiça de levá-lo até a lixeira. Além do que, ele não demite ninguém. É aquele povo estressadinho de RH, onde trabalha aquela guria da voz nasal que fala até pelos cotovelos.
Fui discretamente me arrumando no meu cantinho onde eu juro que ninguém me vê. De canto de olho, pude ver o meu chefe conversando pelo telefone com alguém. Ele não parecia nada, nada feliz. E eu quase descobri o que era, mas a minha adorável (não mesmo!) supervisora me chamou (olha que fofa!) para me dizer que iríamos começar. Ela nunca me chamou, dude. NUNCA! Devia estar, a todo custo, tentando se aparecer, certeza. Fui lá, sentei-me ao seu lado, como uma boa menina que sou, e começamos a rodar. Sério, o pior comercial que eu já vi na vida. Discretamente, dei uns palpites, imediatamente ignorados. Não por todos.
- Você devia começar a prestar mais atenção na sua estagiária, Elizabeth! – disse o meu adorável chefe atrás de nós. – Seu comercial está fraco e ela está dando ótimas idéias.
CHOQUEI! Ele estava prestando atenção nas minhas idéias! Colega, quase pulei no pescoço dele.
- Mas, senhor, ela é apenas estagiária.
- Não significa que ela seja burra. Ouça o que ela diz e mude isso.
Beth ficou passada e eu também. Ele virou as costas e saiu andando. Ela me olhou torto, mas acatou minhas idéias e, voilá, o nosso comercial ficou até que simpático. Modéstia a parte, claro. Quando apresentamos ao chefe, ele me olhou e, eu juro, deu um discreto sorriso. Dispensou-nos, a mulher quase me matou e eu fui para casa.
Uma semana depois, porém, o resultado das minhas idéias apareceu. Uma diretora mais antiga do grupo passou mal na noite anterior, ganhou folga e não tinham substitutos para continuar a rodar o filme que estava sendo gravado. Um dia de atraso geraria um prejuízo daqueles e o povo lá estava arrancando os cabelos. Fingi que não era comigo, sentei na minha mesa, fui ver meus recados (nunca tinha, mas não custava checar), até que vi a sombra de alguém cobrindo meu caderninho de anotações. Bom dia, chefinho!
- , como você deve ter percebido, estamos com uma diretora a menos. Não podemos tomar o prejuízo que está por vir, portanto você fica responsável pelas cenas de hoje. – Ao dizer isso, meu querido chefe deixou sobre minha mesa uma pasta com o roteiro do filme, as cenas do dia e os atores que estarão presentes. – Boa sorte e não me decepcione, garota!
E ele me deixou lá, sozinha, com aquele mundo de papéis! Dá para acreditar? Ele queria que eu dirigisse um filme por um dia. O que esse cara tem na cabeça, afinal?
Capítulo 1 – All the small things...
Ah é, eu consegui! Gravamos o dia todo e a equipe toda foi bem legal. Deram-me a maior força e a gente conseguiu evitar um enorme prejuízo. Eu estava me sentindo a tal, claro. Ah, eu merecia, vai. Não é sempre que uma estagiária qualquer ganha uma missão dessas e consegue cumprir. Foi bem interessante e eu me diverti pacas.
Mas a maior missão da minha vida não tinha nem começado. Eu sabia que esse grupo tinha filial pelo mundo todo, com equipes fortíssimas pelo mundo todo. Não era difícil imaginar, os caras no Brasil eram muito bons. Lá fora, então, deviam ser incríveis! Eu estava passando com minha humilde pastinha laranja, analisando os pedidos de comercial para levar para Elizabeth quando meu nome foi dito em voz alta. Quando olhei para trás, vi Caio, um simpático estagiário do senhor Fernando, me chamando. Ele corria em minha direção, todo sorridente. Cara, que sorriso!
- , o chefe pediu pra eu te chamar. Ele precisa muito falar contigo.
- Ah tá, só vou levar isso pra Eliza--
- Sem essa! – disse ele. Mal educadinho, me interrompeu. – Vem comigo, agora!
Ele me pegou pelo braço e saiu me arrastando para a sala que ficava no final do corredor. Qual é, só por que é gato pensa que pode me puxar assim? Quase dei uns sopapos nele, falo mesmo! Ele me fez sentar numa cadeira bem confortável e, quando eu olhei para frente, estava meu chefe, com a minha pasta nas mãos, analisando meu currículo.
- Morou dois meses no exterior, tá na metade do curso de jornalismo, mora na cidade vizinha, pontual, nunca deu trabalho e tem boas idéias. – Era de mim que ele estava falando? – Muito bem, me conte do seu primeiro emprego!
Brincadeira, sério que ele ia me fazer contar de quando eu tinha que fazer coisas que eu odiava? Bom, falei, né?
- E você gostava de lá?
- Na verdade... eu detestava! – eu fui sincera, e ele riu. Contei alguma piada?
- Certo, . Obrigada pela sinceridade. Bom, vamos ao que interessa. Você deve saber que temos uma filial em Londres, certo? – Fiz que sim com a cabeça. – Nossa melhor diretora de lá se aposentou e nossa equipe ficou pequena. Precisamos urgentemente de alguém para ocupar a cadeira vazia e assumir o trabalho do último que entrou. Todos serão promovidos e ficará uma vaga em aberto, mas eu não queria contratar nenhum inglês. Eles são ótimos, mas eu preciso de um clima mais brasileiro lá dentro.
Não tô entendendo nada. E eu com isso? Olhei para o lado e vi que o Caio sorria para mim. Qual o problema dele, afinal?
- E no que eu posso ajudar, senhor? – perguntei desconfiada.
- Eu preciso saber se você está disposta a mudar de país e assumir essa vaga. Cuidaremos da sua transferência para uma universidade de lá, não quero que você pare de estudar. Vamos arrumar uma casa pra você morar e, nos seis primeiros meses, as despesas são por nossa conta. Se você se adaptar, pode ficar por lá mesmo.
E cá estou eu, caro leitor. Até parece que eu ia deixar essa passar, né? Claro, quase tive um treco, meus pais quase tiveram um ataque cardíaco, mas era a melhor oportunidade da minha pacata vidinha. Eu precisava pegar essa.
Fui recepcionada por um estagiário (já falei que abusam desses pobres jovens?) muito simpático e que me chamou de “chefe”. Eu tinha um aprendiz, cara. Teria uma sombra me seguindo para cima e para baixo e me achando o máximo. Ai, que emocionante.
O nome dele era Matt, como eu disse, bem simpático, educado e fez questão de carregar minhas malas. Ele me acompanhou até a casa que tinha sido alugada para mim. Bem legal, não era grande e nem pequena, mas com espaço suficiente para uma pessoa só. Uma casa de tijolos bege, com telhado preto, que era bem grudadinha com outras iguais. A escada da porta da frente já saía direto na calçada e tinha um pequeno jardinzinho do lado da escada. Achei um charme, se querem saber a minha opinião.
No andar de baixo, uma sala legal, e uma cozinha simpática, toda branquinha. No andar de cima, um quarto, um banheiro e um escritório. Ela já estava equipada com tudo que eu precisaria.
- Na cozinha, tem os utensílios básicos, louças, panelas e talheres. Lá em cima, no escritório, o seu chefe do Brasil mandou colocar um computador bem legal para você poder trabalhar em casa quando quiser ou quando estiver nevando muito. – Matt ia me mostrando tudo, sempre sorridente. – Josephine, uma menina que trabalha com a gente, ficou encarregada de comprar alguns casacos pra você, estão no seu armário. Se você não gostar, ainda pode trocar. Ela é meio... fashion demais, se é que você me entende.
Nós rimos. Eu estava começando a gostar dele, de qualquer forma.
- Ahn, Matt, como eu faço para ir para o escritório? Ainda não sei ao certo onde é e tudo mais.
- Ah, sim, claro. Como serei seu estagiário, vou passar aqui para te pegar todos os dias às nove horas. Vou te mostrar as rotas alternativas, os atalhos e quais os ônibus e trens certos para chegar lá.
Ele me mostrou mais algumas coisas, como o funcionamento do aquecedor. Deu-me algumas dicas, contou-me sobre sua vida. Jantamos juntos na minha mais nova casa até ele se dar conta de que estava um pouco tarde. Nós nos despedimos e ele se foi, deixando-me lá, encarando as minhas imensas malas, que eu ainda tinha que desarrumar e botar tudo dentro do armário.
Cheguei numa sexta feira, o que me deu um final de semana bem legal para me adaptar. Descobri que tinha alguns vizinhos bem simpáticos, como o senhor e a senhora Wayne, um casal de velhinhos que adoram bater papo. Convidaram-me para um chá na tarde de domingo, que eu aceitei e, bem, foi legal. A senhora Meg Wayne me mostrou as fotos de todos os seus netos, bisnetos e de sua nova tataraneta. O senhor Robert Wayne tocou as músicas mais antigas da face da Terra em seu pequeno piano preto. Foi uma tarde agradável até. Podia ter sido pior.
Descobri também que, no mesmo conjunto de quatro casas iguais, mora uma família bem animada. O senhor McPhee é um engenheiro bem conceituado, casado com uma dentista bem bonita. John e Sarah têm uma filha, Marie, de cinco aninhos. Ao me ver, a menina veio correndo na minha direção e parou a mais ou menos um metro de distância de mim. Abriu um sorriso tão grande que eu achei que caberia um trem dentro daquela boca. Logo de cara, me contou que estaria fazendo seis aninhos no próximo mês, que reuniria todos os seus inúmeros priminhos em sua casa para brincar e queria que eu fosse. Criança adorável, não é? Também achei.
Sarah me contou que, na última casa, morava um homem divorciado, que tentava a todo custo manter seus filhos na linha. Não era muito comunicativo e nunca conversava com os vizinhos. Preferi não perguntar muito, até porque não pretendo ter muito tempo livre para bater papo. Não com gente chata, pelo menos.
Começou a chover e achamos melhor cada um ir para sua casa. Já era domingo e eu tinha que acabar de arrumar minhas coisas, além de ver os e-mails e responder a todos os recados que me mandaram freneticamente, como se eu estivesse morrendo ao invés de me mudar. Povo doido.
Capítulo 2 – Welcome to my life!
O despertador começou a tocar por volta das sete e meia. Levantei num pulo, lembrando que, naquele dia, minha tortura ou meu paraíso começaria. Tomei um banho, me vesti, desci, tomei café e fiquei um tempo olhando pela janela da sala. Resolvi sair um pouquinho e dar bom dia para Londres.
Quando pisei na calçada, vi a senhora Wayne levando seu pequeno chihuahua para passear. O bichinho estava tão animado que pulava ao invés de andar. Ela me deu um aceno e um sorriso, que eu prontamente retribuí. Poucos minutos depois, Marie saiu agarrada à sua boneca de pano. Estava indo para a escolinha, acompanhada de sua mãe. Depois de um caloroso bom dia, vi o carro se afastar. Resolvi voltar para dentro de casa; fazia um pouco de frio naquela manhã.
Subi para o quarto, peguei o casaco roxo que Josephine comprara para mim e terminei de me arrumar. Não demorou para que a campainha tocasse e eu visse Matt lá embaixo, me esperando. Peguei minhas coisas, desci correndo e me juntei a ele.
- Como foi seu primeiro final de semana em Londres? – perguntou-me animado.
- Interessante. Nada que um chá com os vizinhos ou um convite de aniversário de criança não tenham me animado – eu respondi rindo.
- Vai tirando o sarro, vai. Quando a vida começar mesmo, você vai sair correndo pra tomar chá e brincar com os pirralhos.
Matt me mostrou todo o caminho para o escritório, apresentando-me a uma bela Starbucks que tinha a algumas quadras do meu trabalho. Agradeci-o várias vezes por me dar esse presente. Continuamos nosso caminho até entrarmos em um prédio fenomenal. Por fora, era velho. Uma construção antiga, mas muito bem conservada. Mas por dentro, era de cair o queixo. Um moderno conjunto comercial, onde a O2 ocupava todo o vigésimo andar. Ganhei minha carteirinha de acesso ao prédio, conheci alguns porteiros e seguranças e, sempre com Matt me orientando, cheguei ao estúdio. Babei quando vi minha sala. Um computador novinho em folha, laptop de última geração, estava sobre a imensa mesa de vidro. Um sofá branco num canto, um armário no outro. Fantástico.
- Sua sala ainda não está decorada, preferimos deixar que você faça isso. Achamos que, quanto mais parecido com o dono for a sala, melhor será o trabalho.
- Nossa, Matt. Isso tudo é meu mesmo? – perguntei, arrancando uma risada do meu estagiário.
- Minha sala é logo aqui ao lado. Se precisar de mim, meu ramal está na sua agenda de telefones, na primeira gaveta. – Ele parou na minha frente e bateu continência, como se estivéssemos em um quartel general. – Bem vinda à guerra, senhora!
Pois é, descobri que a pessoa que ocupava o meu lugar era responsável por dirigir alguns clipes musicais. Fala sério, isso é o paraíso. Simon, o promovido-ex-ocupante-da-minha-sala veio me dar as boas vindas e me apresentou um pouco do trabalho. Não demorou muito para que alguns projetos surgissem. Pedi para ficar com os menos catastróficos, caso eu falhasse, bandas iniciantes que queriam fazer algum clipe para aparecer na MTV.
Minha semana foi assim até que eu me arrisquei a pegar algo maior. Paolo Nutini, aquele cantor bonitinho, apareceu na minha sala. Acompanhado de seus empresários, foi encaminhado para mim e eu aceitei. Ele queria um clipe ousado para sua música “Jenny Don’t be Hasty”. A música era legal, de qualquer forma, fizemos um trabalho bacana e eu fui bem elogiada. Consegui montar uma equipe interessante que incluía três câmeras, alguns técnicos de som e luz e um maquiador muito mais animado do que qualquer equipe junta. Josh era o nome dele. Criatura mais bizarra que eu já vi na minha vida. Assim que me viu conversando com ele, Matt fez questão de não deixar que eu me desiludisse mais tarde.
- Devo avisar a minha supervisora que o seu maquiador é... gay! – disse ele, enquanto anotava alguma coisa em sua inseparável prancheta.
Minha cara deve ter sido a coisa mais patética, já que Matt não se conteve e riu.
- Não brinca. Que desperdício!
- Todas as mulheres dizem isso. Mas ele é um cara legal e faz a melhor maquiagem da O2. Não o perca de vista!
Encarei o perfeito rosto de Matt por alguns minutos. Ele era um rapaz inteligente e muito prestativo.
- Sabe, Matt, às vezes, eu acho que eu sou sua estagiária – eu disse rindo. – Você entende tanto desse mundo e desse grupo... Eu tenho certeza de que eu estaria perdida sem você! Obrigada pelo apoio.
Percebi seu rosto corando e não pude deixar de sorrir. Ele era um cara bem bonito e eu tinha certeza de que tinha umas cinqüenta namoradas espalhadas por toda a cidade. Josh nos interrompeu, enchendo-me de perguntas sobre a roupa que seria usada pela modelo do filme. Matt só podia estar brincando, ele não parecia nada gay. Muito pelo contrário. Mas isso não era problema meu, então resolvi engolir a história. Não podia reclamar. Eu estava ladeada por um moreno de olhos verdes (Matt) e um ruivo de olhos azuis (Josh). Vai dizer que isso aqui não é o paraíso?
Depois de um dia intenso de gravações, com os dois deuses me ajudando em tudo, finalmente fui deixada em casa por Matt. Entrei correndo em casa, tomei aquele banho e sentei na sala para ver um pouco de televisão e relaxar. Passando os canais, vi os caras do McFly apresentando seu novo single, Do Ya. Tom, Danny, Dougie e Harry, os quatro meninos que eu gostava bastante estavam ali, na minha televisão. Eu não precisava mais esperar pelos vídeos do YouTube para vê-los. Agora sim eu me sentia em casa. Agora eu me sentia feliz!
Aproveitei que o programa acabou para dar notícias ao povo. Liguei para meus pais e contei como havia sido meu dia, aquelas coisas todas que as mães nos fazem dizer todas as vezes que viajamos. Enquanto conversava com meu pai, pude ver pequenos flocos de neve caindo do lado de fora da janela. Impossível não sorrir com a cena.
Desliguei o telefone e fui conferir meus e-mails naquela super-máquina que me deram de presente. Uma caixa de mensagens lotada. Entre os tantos e-mails de amigos, achei um do meu chefe. Bad, news, bad news!
De: Fernando Meirelles
Para:
Olá, .
Como você deve imaginar, eu não lhe deixaria abandonada em um país diferente, portanto já sei que está tudo bem. Quanto à sua faculdade, tivemos alguns contratempos. Não será possível o seu ingresso às aulas nesse ano, você terá de esperar até o ano seguinte. Sendo assim, adiaremos a sua transferência.
Vi alguns de seus trabalhos aí e devo acrescentar que estou satisfeito com seus resultados. Seu estagiário está encarregado de lhe proporcionar todo o conforto e ajuda que você necessitar.
Nos falamos em breve.
Fernando.
Uou! Bom, eu não me incomodo em começar as aulas no próximo ano, isso significa umas feriazinhas prolongadas. Mas a parte do meu estagiário me proporcionar todo o conforto do mundo... eu bem que gostei! De qualquer forma, chefinho, obrigada por avisar e por se preocupar comigo. Ah, é, obrigada também por colocar um certo estagiário bem bonitinho na minha cola. Já disse que eu adoro o senhor?
Respondi ao e-mail dele da forma mais formal e sem aparentar meu ânimo pelas duas novidades (sem aulas e um estagiário de olho em mim). Pulei todos os e-mails dos meus amigos, respondi alguns das minhas primas e desliguei o computador. Estava morta de sono e algo me dizia que a terça-feira seria bem mais agitada.
Capítulo 3 – Beautiful Disaster.
E foi! Uma agitação só, por sinal. Como na segunda-feira, o Matt passou cedo para me pegar, tomamos café da manhã na Starbucks e, segundo ele, um cliente importante estava para passar na companhia. Ele só não me disse quem era... ou quem ERAM esses clientes.
Anotei no meu caderno que eu devo dar um beliscão no meu estagiário quando ele me esconder de novo que o McFly era o tal cliente importante. Não é por nada, mas foi muito estranho eu trombar, literalmente, com o enquanto eu passava com uma penca de papéis.
Eu havia acabado de sair de uma reunião com a minha linda e adorável equipe, estava carregando vários papéis em uma mão enquanto lia o que estava na minha outra mão. Ele, ao que percebi, mexia no celular, totalmente alheio ao que acontecia bem de baixo do nariz dele. E não é que a certa altura do corredor... BUM! A gente trombou. Falei todas as palavras feias que eu conheço em português, mas me calei na hora quando vi aqueles olhos me encarando, à beira de um ataque de risos. Nem eu agüentei. Ri também.
Quando abaixei para pegar a papelada toda no chão, ele abaixou e me ajudou a pegar.
- Desculpa, eu estava lendo uns papéis e não vi que você estava vindo – eu disse totalmente sem jeito.
- Não, eu que peço desculpas. Estava mexendo no celular, não prestei atenção – ele se explicou, devolvendo-me meus papéis.
Nós nos encaramos e rimos. Cena patética, fala sério.
- Bom, espero que você esteja bem.
- Estou, sim! – Ele sorriu – Muito prazer, . .
Ele estendeu a mão, mas a recuou ao ver que eu não teria como apertá-la. Tinha um sorriso encantador.
- O prazer é todo meu, senhor . Eu sou .
- Senhor não. , só . Deixa eu te ajudar com isso.
Não deu tempo de recusar. Quando eu vi, ele havia tirado todos os papéis das minhas mãos e estava carregando tudo com a maior facilidade do mundo. Indiquei o caminho da minha sala, tentando parecer o mais natural possível. Pedi para que ele colocasse os papéis em cima da mesa e ele o fez.
- Muito obrigada, . Eu certamente teria deixado metade disso cair.
Nós rimos. Ele tinha um bom humor matinal invejável.
- Por nada. Você é nova aqui, não é? Quero dizer, há meses que a gente freqüenta esse escritório e eu sempre converso com todo mundo, mas nunca te vi.
Contei a ele a história da minha chegada repentina à Londres. Incrível como eu estava me sentindo totalmente à vontade ali com ele. Eu sentada na minha cadeira, ele na cadeira que ficava em frente a minha mesa.
- E foi assim que eu saí do Brasil e aterrissei aqui.
- Uau. Uma mudança repentina, diga-se de passagem – disse ele, bebendo um gole do café que eu lhe oferecera.
- É, mas eu não me arrependo, sabe? Faria tudo de novo, sem mudar nada. Foi difícil convencer minha família, claro, mas agora todos estão felizes por mim.
- Eu imagino. Você é motivo de orgulho para eles, .
- . Me chame de – eu pedi sorrindo.
sorriu de volta, mas seu sorriso se desmanchou quando seu celular tocou.
- Hey, . Já? Ah, tá, tô indo! – ele falou. Em seguida, desligou. – Tenho que ir. Os três patetas da minha banda estão indo embora com o meu empresário estressado.
- Eu te acompanho até a porta – eu disse rindo.
Abri a porta para e, para minha enorme surpresa, me deparei com os outros membros da banda passando acompanhados do empresário e de um rapaz do escritório. , e me olharam de tal forma que fiquei até com medo.
- Bom, , foi um prazer te conhecer e desculpa outra vez pela trombada no corredor. – riu. Depois, me deu um beijo na bochecha. – Adorei conversar com você. A gente se vê!
Ele saiu animado, enquanto os outros ainda me olhavam desconfiados. Meu olhar encontrou o de e eu senti um arrepio na espinha. Ele deu um pequeno sorriso e seguiu com os outros.
Voltei para minha sala e, minutos depois, Matt apareceu.
- Conheceu nossos maiores clientes, é? – disse ele, com um sorrisinho desdenhoso nos lábios.
- Sim, e anotei aqui pra te bater por não ter me avisado que eles eram os nossos clientes! E por não ter me avisado que eles viriam hoje. Matt, eu trombei com o no corredor, com aquele mundo de papel nas mãos. Você tem idéia da chuva de folhas que foi quando nós nos encontramos?
- Um bonito desastre! – Ele riu.
- Babaca!
Não pude deixar de rir. O Matt fez isso de sacanagem, deve ter percebido que eu curto o som do McFly. Ele me viu olhando a capa de uma revista e lendo a chamada sobre os quatro ingleses mais famosos da terra da Rainha. Ele vai me pagar por isso ainda.
- De qualquer forma, eles vão voltar ainda essa semana. Estão querendo fazer o novo clipe aqui com a gente de novo, mas querem algo diferente dessa vez. Com um toque de humor misturado com romantismo. Ainda não foi definido o produtor ou produtora e, não é porque eu sou seu estagiário, mas eu acho que você tem total capacidade pra comandar esse vídeo.
Fitei Matt por alguns minutos. Ele realmente acreditava na minha capacidade de fazer qualquer coisa. Ele me via como uma pessoa totalmente capaz de encarar os olhos dos meninos do McFly e fazer o vídeo do ano.
- Não sei, Matt. É um pouco demais pra mim, eu nem tenho tanta experiência para tanto.
- Experiência se consegue com a prática. Se candidate. Aposto que vai adorar.
Ao dizer isso, Matt saiu da minha sala rindo. Ele era mesmo um babaca, mas eu estava até que gostando do jeito que ele acreditava em mim. Era um jeito reconfortante e legal. Ao menos, alguém sabia que eu era capaz, mesmo quando eu dizia a mim mesma que não.
Ele estava certo sobre o McFly voltar. Na quinta-feira, enquanto eu conferia alguns e-mails no escritório, ouvi uma batida de leve na porta.
- Entra! – eu disse, sem desgrudar os olhos da tela.
- Bom dia, senhorita!
apareceu na minha ilustre sala sem decoração, exceto por um vaso de flor que Josh tinha deixado na quarta-feira, alegando que aquele espaço mais parecia um hospital. Porém, o senhor não se encontrava sozinho. estava com ele e isso acabou comigo.
- Bom dia, ! – eu disse sorrindo, enquanto me levantava para cumprimentá-lo. – .
- Olha, sabe meu nome já! – ele falou, dando-me um beijo na bochecha e deixando-me vermelha.
- Todo mundo sabe – eu respondi, tentando contornar a situação. – A que devo a honra da visita dos senhores?
Eles se acomodaram nas cadeiras que eu indiquei e eu voltei ao meu lugar. Como simplesmente lembrou da minha sala e que eu existia?
- Viemos para uma reunião com alguma das equipes que vai cuidar do nosso vídeo – disse ele, girando uma caneta entre seus dedos.
- Fiquei sabendo que vocês vão lançar um clipe novo. Qual a música?
me olhava como se me analisasse. Não me senti muito a vontade com isso. Ele, por fim, se pronunciou.
- Falling In Love.
- Bela música! – eu completei.
- Conhece? – perguntou , encarando-me mais ainda.
- Na minha atual posição, tenho que ouvir de tudo um pouco, certo? – eu perguntei como se o desafiasse. Ele mudou a direção de seus olhos.
No mesmo instante, Matt entrou afobado na minha sala.
- Desculpa interromper, mas, , você tem uma reunião em cinco minutos.
- Reunião, Matt? Com quem? Não tinha nada anotado pra mim hoje.
- Sim, eu sei, mas surgiu agora. Vamos?
Os outros dois o olhavam sem entender.
- Meninos, desculpa, pelo visto é algo importante. – Lancei um olhar furioso ao Matt. Eu estava ali, com dois caras da minha banda favorita, e ele interrompe?
- Tudo bem, . Também temos que ir, senão o arranca nossas cabeças – respondeu sorrindo.
Matt os acompanhou até a porta enquanto eu pegava meu “kit reunião”, que incluía um caderno e uma caneta.
- Que história de reunião é essa, Matt?
- Sem perguntas! Vamos.
O louco do meu estagiário saiu me puxando pela mão até a sala que seria a tal reunião. Quando cheguei lá, vários outros produtores, com seus estagiários anotando freneticamente tudo o que os “mestres” faziam bem atrás de suas cadeiras, aguardavam o início da reunião. Matt me fez sentar em uma cadeira na ponta da mesa, o oposto onde seis cadeiras vazias se encontravam. Por que cargas d’água não me deram um estagiário normal, hein?
Meus pensamentos fugiram de minha mente quando vi os quatro meninos do McFly entrando na sala, acompanhados de um empresário e do coordenador da nossa filial. Era isso. Matt havia me levado para a reunião onde escolheriam a equipe que comandaria o clipe da banda. Filho duma boa mãe!
- Bom dia a todos, sejam bem vindos a esta reunião. Quero apresentar aos senhores a banda McFly e o empresário dos mesmos, Matthew Fletcher. – Um “bom dia” em coro foi emitido. – Está aberta a sessão da qual será escolhida a equipe que filmará o vídeo da música Falling In Love, novo single de trabalho desses brilhantes rapazes.
já estava entediado dessa conversa. Resolveu tomar as rédeas da situação.
- Muito obrigado, senhor Hansard, mas eu gostaria de falar pessoalmente com eles. – Sem esperar que o homem respondesse, continuou. – Bom dia. Eu sou o , como vocês devem saber. Estamos lançando nosso novo single e queremos um clipe divertido e com um pouco de romance. Gostamos muito da equipe que filmamos Lies e One For The Radio, mas queremos mais idéias. Não dá pra colocar os zumbis e o carro preto de novo, por isso queríamos saber o que vocês acham e o que vocês conseguem pensar.
Ao dizer isso, apertou o play de um pequeno rádio e os primeiros ecos de Falling In Love ecoaram na sala. Eu conhecia aquela música. Era uma das minhas favoritas e eu estava fazendo uma tremenda força para não cantar.
Involuntariamente, comecei a pensar. correndo em um parque, uma garota sentada em um banco. jogando bola, uma garota assistindo. surfando, uma garota assistindo sentada na areia. em uma academia, uma menina malhando ao seu lado. Eu não percebi, mas anotava tudo em meu caderno, observada pelos olhares atentos de Matt. Ele tinha certeza que eu sabia o que estava fazendo. E isso era o que mais me assustava, mas enfim. Continuei.
A cena mudava. prestando atenção na menina, tropeçava e caía. É, ele poderia se apaixonar. jogando bola, pisa na mesma, cai sentado ao ver a menina olhando para ele. Ele também poderia se apaixonar. vê a menina levantando, só de biquíni, perde o equilíbrio e cai da prancha. Ele certamente poderia se apaixonar. deixa cair toda a estante de pesinhos ao ver que a menina observava seus braços. Ele também se apaixonaria.
Matt abriu um pequeno sorriso e continuou a xeretar no meu caderno. Sick of waiting, I can’t take it, gotta tell ya. Eles decidem ir falar cada um com sua garota. Um rapaz passa por caído no chão, senta ao lado da menina e a beija. acha que a menina entrou no campo por sua causa, mas ela está correndo para comemorar o gol com o namorado. volta à superfície e vê um surfista abraçando a menina. vê um rapaz carregando um peso muito maior que os que ele ia pegar, indo de encontro com sua menina.
- Muito bem, quem tem alguma idéia para o clipe? – perguntou ansioso quando a música acabou.
- Ai! – eu praticamente gritei após ser beliscada por Matt. Vai ficar uma bela marca roxa na minha cintura. Viado!
- ! Eu sabia que você teria alguma idéia. No que você pensou? – me perguntou animado.
- Eu? Não eu... quero dizer... – Vi o dedo de Matt bater no meu caderno. Resolvi fazer a alegria da criança. – Eu pensei no seguinte...
Todo mundo ficou me encarando enquanto eu lia. Qual é, a história nem era tudo isso. Era uma coisa boba, razoavelmente bem humorada. Quando eu terminei, os quatro meninos pararam para cochichar. Bando de mulherzinhas. Devo admitir que levei um puta susto quando eles viraram ao mesmo tempo.
- Perfeito! – disse Harry.
- Adoramos! – completou Danny.
- Ficou ótimo! – disse Dougie.
- Achamos nossa equipe! – finalizou Tom.
Todos os outros produtores, estagiários e o coordenador me encaravam de boca aberta. Matt me cutucava com um pequeno sorriso nos lábios.
- Bom, pelo visto, a reunião está encerrada. , reúna sua equipe, discuta os assuntos e entre em contato com os nossos clientes assim que possível. – disse o senhor Hansard.
Isso aê, eu era a nova diretora do novo clipe do McFly! Minha nossa senhora da bicicletinha, dai-me equilíbrio!
Capítulo 4 – Things I’ll never say…
Parabéns, Matt, se você queria me deixar maluca de pedra, você conseguiu. Nunca fiz tantas planinhas, tantos cálculos, tantas reuniões como nos últimos cinco dias. Eu tinha até a quinta-feira, uma semana exatamente depois da reunião que arruinou a minha vida.
Qualquer uma estaria pulando muros de felicidade. Eu até fiquei, até abracei o infeliz do meu estagiário, mas quando a coisa pegou mesmo, eu quase saí correndo.
Agüentei o Josh buzinando na minha orelha por uma semana que teríamos que caprichar no visual das modelos. Os câmeras me procuravam de cinco em cinco minutos para saber quais os locais que gravaríamos, enquanto eu ligava desesperada para o Matt e via se ele tinha algum lugar confirmado. Acabou que, na quarta-feira à noite, eu mal falava. Não tinha voz e nem forças. Eu precisava dormir e sabia que isso, nos próximos três meses, era a última coisa que eu faria.
Repassei os detalhes que seriam expostos na reunião junto ao Matt. A essa altura, ele não era mais um simples estagiário, mas um membro da minha equipe. Nada mais justo, já que ele simplesmente me ajudou em tudo. Tínhamos combinado que daríamos espaço para os meninos decidirem também alguns pontos do vídeo, já que era um produto de interesse de todos.
Ainda como em todos os dias da última semana, Matt passou na minha casa. Não porque ele ainda tinha a obrigação, mas porque havíamos nos tornado grandes amigos e confidentes. Ele simplesmente passava lá por passar, para irmos juntos para o trabalho, conversando sobre os projetos do dia e sobre a vida também. Já conhecíamos toda a equipe da Starbucks, pois tomávamos café da manhã todos os dias lá e, mesmo que não tomássemos, passávamos lá para comprar um belo copo de chocolate quente. Eu já estava familiarizada com o frio de Londres e conseguia sobreviver sem luvas. Matt dizia que eu abusava, que meus dedos iam congelar, cair e não seria mais escolhida para clipe algum. No fundo, eu sabia que era exagero e que ele só queria que eu estivesse bem.
Estávamos tagarelando sobre qualquer coisa quando entramos no enorme e antigo prédio da O2. Despedimos-nos no corredor, seguindo cada um para sua sala. Eram nove horas em ponto e eu tinha algum tempo antes que a reunião com a banda começasse. Dei uma geral nos meus e-mails, respondendo aos escandalosos recados de minha mãe, mandando algumas fotos e perguntando sobre meu cachorro. Mal percebi Matt entrando na sala.
- Bom, sua hora chegou, senhorita. Daqui a dez minutos, os quatro chegam com o empresário nariz empinado e você tem que estar com a sala de reunião pronta! – ele disse em tom divertido.
Dei um leve soco em seu braço e fui, com ele em meu encalço, para a enorme sala de reuniões. Ajeitamos tudo, colocamos os folhetos com as idéias sobre a mesa e ligamos meu laptop. Conectamos o projetor e testamos as imagens que lançaríamos no telão. Matt havia conseguido belas imagens do parque que usaríamos para as cenas de e o campo de futebol onde jogaria futebol. Seria um espetáculo a parte, com certeza!
Com a pontualidade britânica, ouvimos vozes animadas e passos se aproximando. Matt abriu a porta e recepcionou os meninos, que vieram um a um me cumprimentar. Já falei que eles são uns amores?
- Mal posso esperar para ver correndo pelo parque! – disse rindo.
- Quero só ver você pisando na bola, mané! – retrucou .
Os outros só riam. Começamos a reunião distribuindo os panfletos com as idéias. Eu podia sentir um par de olhos me observando mais do que os outros, mas pensei ser impressão minha. Eu andava tão cansada que se um passarinho sentasse na janela e me observasse, eu acharia o máximo.
Apresentamos as imagens. Começamos com algumas fotos do parque, fazendo a alegria de .
- Uau, Hyde Park! – exclamou , olhando-me com curiosidade.
- Sim. É um parque famoso, é grande, o que vai nos proporcionar bastante espaço para as câmeras. Não quero privar minha equipe de bons ângulos. – Fiz a piadinha e todo mundo riu. Bingo! – Além do que, temos a opção de usar o lado do Kensington Gardens, que é um belo ponto turístico de Londres.
- E quantos metros eu vou ter que correr? – perguntou , parecendo desesperado.
Gargalhada geral. Nem mesmo Matt, que estava mordendo a língua para não rir, se soltou e deixou a risada rolar solta.
- Não muitos, – eu disse animada. – E as suas cenas, , serão gravadas no campo do Chelsea, se você não se incomodar.
me olhou com cara de criança que ganha o tão desejado presente de Natal. Senti-me a própria Mamãe Noel.
- Você vai fazer o pequeno bem feliz, Mari. – riu.
- Bom saber disso! – respondi, dando uma discreta piscada para Matt.
Nosso clipe estava dando certo, os locais agradando e... Bom, faltava só um ponto.
- Eu vou gravar onde? – perguntou curioso.
- Bom, – eu comecei – as suas cenas são internas, , o que vai nos facilitar muito. Podemos fechar uma academia por alguns dias ou montar uma nossa mesmo, só para filmar. Caso a opção escolhida seja a segunda, vamos contratar algumas pessoas para fingir que estão se exercitando e tudo mais.
- Espera aí! E eu? – perguntou .
Eu e Matt nos entreolhamos. Era agora.
- Bom, senhor , suas cenas são mais complexas e nós teremos que conversar bastante sobre elas – disse Matt.
continuava a nos encarar, sem entender nada.
- Bom, , o caso é que não temos praias em Londres para gravar cenas de surf. Então temos duas opções, além de outras que você mesmo pode nos dar. – Olhei para Matt e ele me incentivou a continuar. – Podemos gravar na Austrália, que vocês já conhecem, ou então no Brasil, que eu conheço e que tem uma filial da O2. De certa forma, ter uma filial por perto é vantagem para nós por termos os equipamentos e não termos que transportar nada. Mas as cenas são suas, portanto você escolhe.
Ele me encarava chocado e eu não sabia se isso era bom ou ruim. Instintivamente, segurei firme a mão de Matt por debaixo da mesa e ele apertou a minha.
- Dude! – disse , com um enorme sorriso. – Esse vai ser o melhor clipe que o McFly já fez. E ainda vamos para o Brasil!
- Vamos? – perguntamos todos juntos.
- Ah, qual é! Se o optar pela Austrália, ele vai sozinho. Eu tô é indo pro Brasil!
Mais uma sessão de gargalhadas geral. Estava decidido. Hyde Park para , campo do Chelsea para , uma academia para e o Brasil para . Seriam os três meses mais longos da minha vida, mas seriam os mais engraçados, com certeza.
Terminamos a reunião falando mais sobre mim do que sobre o clipe. Já havíamos decidido tudo, feito a planilha de custo e teríamos agora que encaminhar tudo para a tesouraria da empresa. Eles teriam que liberar a grana e estaríamos plantados no Hyde Park alguns dias depois.
- Você foi um tremendo sucesso nessa reunião, – disse Matt, abrindo a porta para que eu entrasse em minha própria sala.
- Nossa, nem fala. Eu pensei que eu não fosse conseguir e, no entanto, parece que foi tão fácil... Eu não consigo me imaginar ainda dirigindo um clipe desses quatro. Parece um sonho, Matt. E eu tô com medo de acordar.
E foi então que ele me abraçou. E eu descobri que ele tinha braços enormes e um peito bem confortável. E descobri também que eu tenho um irmão.
- Fico feliz em ver seu sucesso. Sabe, , desde quando me falaram que você viria, eu fiquei curioso para ver como eu me sairia sendo estagiário de uma brasileira. Achei que você fosse cheia de manias e esquisita, mas você é incrível.
Eu sorri. Isso não soava como uma declaração de amor, e eu me sentia aliviada. Seria complicado ter um subordinado meu babando nos meus pés pelo corredor da empresa. Fala sério, não tô pronta pra isso, não.
- Ah, Matt, obrigada. Eu fiquei com medo que você fosse um inglês bobo e que não levasse o trabalho a sério, mas você tem me ajudado tanto que eu não te vejo mais como um estagiário. Você é da equipe já, sabe disso!
Agora foi a vez de ele sorrir. Ouviu o telefone em sua sala e, antes de sair, me deu um beijo na testa. Ele estava quase fechando a porta quando colocou a cabeça dentro da minha sala.
- Você é a irmã que eu queria ter, brasileirinha! – disse ele sorrindo e sumindo para sua sala.
Confesso que fiquei encantada com o jeito que ele me chamou. Achei a coisa mais fofa da parte dele. Éramos uma dupla e tanto e ninguém podia negar. Acomodei-me em minha cadeira, ainda pensando no que Matt dissera. Meu expediente acabou e eu resolvi passar na sala dele antes de ir embora. Espiei e vi que ele falava com cara de bobo ao telefone e que ficou bem vermelho quando reparou que eu estava ali. Fiz sinal para que ele continuasse conversando, peguei uma caneta e escrevi em um papel:
“You’re also like a brother to me, little British!” (Você também é como um irmão para mim, inglesinho!)
Saí a tempo de ver um enorme sorriso brotando nos lábios dele ao ler o pequeno papel que eu deixei em cima da mesa. Fui para casa tão feliz naquele dia que mal me lembrava que haveria dias intensos de trabalho.
Capítulo 5 – Feelings show
Depois de muita insistência, a tesouraria finalmente aprovou a planilha de custos e estávamos indo rumo ao Hyde Park. Matt havia emprestado um carro da O2 e estava me levando até o local onde gravaria suas cenas. Apesar da minha insistência de que apenas ele precisaria comparecer, os outros três alegaram que não perderiam essa gravação porque seria extremamente ridículo ver o amigo correndo tanto. O que eu podia fazer? Eu disse ao que tentei de tudo, até mesmo cercar a região, mas nada adiantou.
- Vamos lá, meninos, silêncio, deixem o se concentrar. – Eu tentava parar de rir, mas também não conseguia.
- Ih, tem gente que também não pára de rir – disse , aproximando-se de mim. O que ele estava pensando? – Vamos dar mais motivos, então!
E depois disso, aquele maníaco se atirou em cima de mim e começou a fazer cócegas. CÓCEGAS, dude, tem idéia disso? perdeu a noção do perigo ou não pretendia ter filhos! Matt me olhava e balançava a cabeça, enquanto eu era injustamente esmagada por três brutamontes que atendiam pelos nomes de , e , enquanto me olhava com cara de “há, bem feito, riu de mim!”. Depois de muito implorar, finalmente eles me deixaram respirar e voltar às gravações.
Levamos três dias para terminar, porque no segundo, uma chuva inexplicável caiu, fazendo todo mundo ficar preso dentro da van da equipe.
- Tá vendo, , se você corresse mais vezes, não teria chovido! – Claro que jamais perderia a chance de zoar com a cara do coitado.
- , – eu disse. – Não atormente o menino. Quando você for gravar e chover, vão falar que você é tão ruim que São Pedro tentou te impedir de surfar mais.
E eu me pergunto: para que eu abro minha boca? Aquilo foi risada para todo lado e um bem emburrado.
Acabamos todos na minha casa, ensopados, com direito a lareira e chocolate quente para todo mundo. Matt me ajudou na cozinha com as canecas, enquanto , , e se secavam com as minhas toalhas fofinhas e branquinhas. Viva a lavanderia que a O2 paga, com certeza! Não que eu me incomodasse de lavar as toalhas dos quatro homens mais desejados do Reino Unido, mas convenhamos que eles fizeram uma bela bagunça e eu não estava disposta a passar o dia com a barriga na máquina de lavar.
Uma atmosfera familiar se instalava no recinto e eu estava começando a gostar daquilo. Mesmo que eles ameaçassem derrubar minha linda casa bege, com os mais modernos equipamentos, eu me sentia feliz com aquela bagunça toda ao meu redor. Os dias passavam mais rápido e eu me sentia cada vez mais em casa.
As cenas de chegaram e passamos dois dias no campo do Chelsea. Nem preciso dizer que ele se sentiu o grande astro do futebol quando fez um gol, não é? Pois é, o goleiro inglês deixou, ele conseguiu e comemorou. se divertia, imitando as líderes de torcida, enquanto me seguia de um lado ao outro e comia cachorro-quente na arquibancada. Pois é, deixa eu explicar. Desde o evento na minha casa, dos chocolates e tudo mais, passou a puxar papo comigo.
- Ei, , pega um copo de água pra ? Ela está a horas andando no sol, sabe como é, né? – disse Matt. Ele é muito sacana.
Bastou sair de perto para ele chegar.
- Você não presta, Matt.
- Ah, qual é, brasileirinha? Já que ele vai ficar te seguindo, que cuide de você, pelo menos.
- Ele não está me seguindo, inglesinho – eu falei, anotando algumas coisas em meu roteiro. – Só estava acompanhando as gravações.
Matt riu. Sério, quem eu queria enganar? estava mesmo me seguindo, mas manter essa idéia afastada faria com que eu afastasse também as coisas absurdas que andaram rondando minha mente e que eu tinha certeza que era apenas besteiras.
- Tá bom, . Você finge que mente, eu finjo que acredito, fingimos juntos que ele não está dando em cima de você e todo mundo fica feliz, certo? – ele disse, dando-me um beijo na bochecha, e saiu gritando pelo estádio: – Muito bem, , vamos gravar!
Ele tinha essa mania de chamar os meninos pelo sobrenome, talvez para indicar que não queria tanta intimidade assim. Ou talvez para mostrar que ele que mandava ali, apesar de que eu que mandava, mas enfim, que seja.
- ? – chamou. – Oh, sua água.
Ele me entregou o copo sorrindo. Fiquei sem jeito. Matt era terrível!
- Obrigada, . Não precisava mesmo.
- Sem problemas. Você precisa se hidratar já que vai ficar andando no sol – ele respondeu de forma amável.
- Ei, , pára de babar na menina e vem aqui assistir fingir que joga bola! – gritou lá da arquibancada.
Nem preciso mencionar a cor que ficaram as minhas bochechas, né? Só me conforta o fato de que as dele não ficaram menos vermelhas. Ele saiu todo envergonhado e eu fui para o meu lugar atrás dos monitores das câmeras.
até que era bom ator. Tá, na verdade, ele bem que gostou da loirinha que sorriu para ele durante a cena e, de fato, ele caiu. Foi um tombo interessante e engraçado, digamos assim. Arrancou risada de todo mundo, inclusive minha e do Matt. Com certeza, foi a cena mais rápida que eu já gravei e evitamos refazer para não correr o risco de perder a cara do quando ele viu a menina. Hilário.
Acabamos, de novo, na minha casa. Pizzas, cervejas para eles, refrigerante para mim, mas dessa vez sem Matt. Ele disse que tinha um compromisso e ficou me devendo uma explicação sobre isso – que eu vou cobrar, óbvio! A farra foi até altas horas e eles acabaram dormindo amontoados na minha sala. Não me importei, apenas fechei a porta do meu quarto e me entreguei ao meu lindo travesseiro fofo.
- Minha nossa senhora! – eu disse, quase caindo da cama.
Eram dez horas da manhã e as cenas de seriam gravadas às dez e meia. Legal, eu tinha perdido hora e, uau, o ator principal da vez também. Arrumei-me super rápido e desci voando, gritando feito uma louca.
- ACORDEM, ACORDEM! – eu dizia, enquanto ia abrindo as cortinas.
- Ai, o que foi? – resmungou .
- Só mais cinco minutinhos – disse .
- , apaga a luz – pediu .
Tom apenas continuou roncando.
- Nada de mais minutinhos, nada de apagar a luz. – Eu fui cutucando todo mundo. – , acorda!
- Ahn, o quê? – perguntou sonolento.
- São dez horas, temos meia hora pra chegar na academia. E você está atrasado, .
- Ei! – protestou ele. – Você também!
Eu dei uma risadinha.
- Mas eu já estou pronta, ma cherie!
Saí correndo para a cozinha beber um copo de suco, esperando com todas as minhas forças que eles estivessem prontos quando eu chegasse à sala. Bingo, eles estavam! Com as maiores caras de sono do mundo, mas a tempo de entrarmos na van sem o Matt ter um ataque e me matar por isso. Eu era a diretora mais irresponsável, com certeza. Ele me arrancaria a cabeça, apesar de ser meu estagiário. E, então, fomos para as cenas que eu queria tanto gravar, mas não sabia mesmo se queria. Teria que dedicar atenção total ao cara que, segundo Matt, estava dando em cima de mim. Céus, o que eu faço agora?
Chegamos à tal academia que o Matt escolheu por ter equipamentos novos e tudo mais. estava bem ansioso, e seu nervosismo estava passando para mim. Os outros três desistiram e foram para suas casas dormir.
- Tudo bem por aqui? – eu perguntei, sentando ao lado de .
- Você vai me desculpar se esse pedaço do clipe ficar ruim, né?
Eu o encarei. Como assim desculpar?
- Ei, que história é essa? Esse clipe vai ficar inteiro bom, e essa parte da academia vai ficar tão legal quanto as outras! – eu disse, passando a mão na cabeça dele. Sim, eu sou abusadinha, e daí?
- Não sei. Não sou um bom ator e estou nervoso demais para não estragar tudo.
deu um suspiro e eu me vi, pela primeira vez, com muita dó dele. Ficamos conversando sobre coisas aleatórias quando Matt avisou que o cenário estava pronto.
- Vamos lá, eu sei que você consegue! – eu o motivei, pegando sua mão.
Ele me olhou e apenas sorriu. Correu para o seu lugar e, por um momento, eu rezei para que ele mandasse bem. Eu não suportaria ver a decepção naqueles olhos.
- Caindo nas graças do roqueiro, é? – perguntou Matt, parando ao meu lado.
- Não me amola, Matt – eu disse rindo. – , olha pra câmera atrás de você e sorria!
Ele olhou e sorriu. A imagem apareceu no monitor à minha frente e eu sorri junto. Inconscientemente, devo acrescentar!
- Belo sorriso, hein? – Matt me provocou, enquanto ria e ia em direção ao , que tinha acabado, com sucesso, sua primeira cena.
Capítulo 6 – Not alone
- Tem certeza de que a cena ficou boa?
Juro, essa era a quinta vez que ele perguntava. Matt suspirou impaciente ao meu lado.
Tentei amenizar a situação, lançando um olhar significativo para meu adorável estagiário. Com o tempo de convivência, Matt acabou me pedindo para lhe ensinar algumas coisas em português. Ele murmurou um audível “puta que pariu” que só eu entendi.
- Claro que ficou, – eu respondi, tentando esconder um pouco a minha impaciência também.
Facilitaria muito se ele acreditasse em mim ao menos uma vez. Eu estava cansada, Josh já tinha torrado todos os grãozinhos de paciência que eu tinha e eu estava a ponto de gritar com alguém. Matt parece ter notado, porque, no exato momento em que eu assinei a planilha confirmando que aquela cena havia sido gravada, ele desapareceu.
- Eu sou chato, né? – ele perguntou meio sem jeito. Fiquei com pena. – Mas é que...
- É quê? – eu perguntei, depois de alguns segundos intermináveis de silêncio.
corou violentamente e confesso que fiquei com medo que ele estivesse à beira de ter um treco ali, na minha frente. Nós nos olhamos. Parecia que ambos tínhamos esquecido de como se respirava e só voltamos à realidade quando ouvimos o celular dele tocar.
- Desculpe – ele disse sincero.
- Imagina, pode atender. Fique à vontade – eu falei. Fiquei desapontada, não nego.
- Hey, – disse , ao atender o aparelho. Filha duma boa mãe!
Achei que essa era a melhor opção para me mandar. Tá, minto, essa foi a deixa do tipo “minha filha, cai fora dessa barca furada”. Não que eu tenha pensado em entrar nela de qualquer forma.
Afastei-me do local com a sensação de que estava sendo observada. E estava. Por dois pares de olhos, pertencentes à Matt e Josh. Eles não cansam, não?
- Tá indo onde tão apressada? – disse Josh, me alcançando.
- Terminei as cenas aqui, estou indo para casa, como toda boa diretora que termina seu turno!
- Outch, podia ter ido dormir sem essa, Josh! – zombou Matt, alcançando-me pelo outro lado.
Parei bruscamente e continuei a ser observada por dois marmanjos desocupados.
- Tá legal, o que foi? – perguntei um pouco grossa. – Tão me seguindo por quê?
Os meninos apenas se olharam. Matt fez sinal com a cabeça e os dois saíram andando, deixando-me ali parada com a maior cara de bolinho e um peso enorme na consciência. Eu estava errada de todo jeito e eles não tinham me feito nada. Aliás, o que eu estava pensando? Eu estava brava por quê?
Eles continuaram a andar e conversar entre si, sem se importar em ter me deixado para trás. Ótimo, era tudo o que eu precisava. Sossego! Mas alegria de pobre dura pouco, então em questão de minutos, enquanto eu pegava minhas coisas para ir para casa, Matt apareceu.
- Eu e o Josh vamos sair hoje à noite. Tem um pub novo na cidade e vamos lá conferir. Se quiser vir junto – ele disse meio forçado.
- Obrigada, Matt, de verdade, mas eu vou pra casa. – Ele suspirou. – Olha, desculpa ter falado com vocês daquele jeito. Eu nem sei por que estou irritada. E mesmo que tivesse motivo, vocês não têm culpa.
Matt deu uma risada debochada e eu não entendi.
- Tudo bem, . A gente entende. Ciúmes é algo chato mesmo – disse ele, me abraçando.
- Ciúmes? De quem, mané? Sai fora, hein? – eu falei rindo e me desvencilhando do abraço confortável do meu estagiário.
- Qual é, mané? Nós sabemos bem que depois que o roqueirinho ali atendeu ao telefone, você saiu bufando e com uma cara nada amigável.
- Vai nessa, Matt – eu respondi andando, enquanto ia pegar o metrô para ir para casa.
- Certo, se não for, nós passamos às oito horas na sua casa para você ir ao pub com a gente.
- Ei, isso não vale. Se eu não for, vou confessar um crime que não é meu! Isso é chantagem, Matthew Walker!
- Ih, dude, ela te chamou pelo nome completo. Corre que vem tempestade! – disse Josh, juntando-se à nós.
- Babacas!
- ? Posso falar com você um minuto? – perguntou , aproximando-se de nós.
Não sei por que, mas Matt passou a mão por minha cintura e me puxou para perto dele.
Dougie percebeu alguma coisa, porque imediatamente recuou um passo.
- Pode falar, meu caro. De qualquer forma, o bonitão aqui vai saber e eu também – disse Josh de um jeito irônico.
- JOSH! – eu gritei.
- Ele não falou nenhuma mentira, –Matt falou, apertando minha cintura. Mas que diabos estava acontecendo ali?
- Bom eu... – começou , visivelmente constrangido – só queria saber se você vai fazer alguma coisa hoje à noite.
- Nós vamos sair – respondeu Matt antes que eu pudesse abrir a boca.
não disse nada. Apenas deu um sorriso amarelo e se afastou, entrando em seu carro e indo embora. Tirei a mão de Matt bruscamente da minha cintura e me virei furiosa para ele.
- Qual o problema, afinal? – perguntei.
- Não vou deixar esse panaca te machucar, . Nem tente.
Matt saiu andando e Josh me olhou. Deu um longo suspiro e me abraçou.
- Olha, eu sei que você não tá entendendo nada, mas acredite, é a melhor coisa que você pode fazer. Se afasta dele e pronto. Não precisa deixar de ser amiga do , nunca. Mas não seja mais do que isso.
- Quero um motivo plausível! – eu disse sem me render.
- Ele é um imbecil e machuca todas as garotas que ele consegue. Ele só brinca com elas e joga fora. Eu sei com quem ele estava falando, eu o ouvi dizer o nome dela. . Você também ouviu, vamos lá, confesse. Por isso você saiu batendo o pé.
- Josh, eu...
- , eu não nasci ontem. Pelo contrário, nasci há vinte e cinco anos, sou mais velho que esse cara, não é o primeiro clipe dele que eu participo e você não é a primeira garota que eu vejo sorrindo como boba pra ele. – Soltei-me dos braços de Josh. O que ele queria dizer, afinal? – Pode fazer bico, não tenho medo. Você já está crescidinha e sabe que eu estou falando a verdade. , quantas namoradas ele já teve? Muitas. Com quantas ele ainda fala? Nenhuma! Isso não é normal. Ele machucou todas as outras, por isso elas não querem nem ouvir o nome dele.
- Josh, eu não sou namorada dele e nem vou ser. Vocês estão exagerando. – Eu tentava, mas ele estava irredutível. – Que seja, eu vou para casa tomar um banho e me arrumar. Espero vocês lá.
Dei um beijo na bochecha de Josh e saí. Encontrei com Matt no corredor do set e o parei. Dei um beijo em sua bochecha, murmurei um “obrigada por se preocupar” e saí. Matt pareceu bem mais aliviado depois do meu ato de caridade. Mas convenhamos, eles estavam preocupados à toa, eu não tinha nada com e nem pretendia ter. Só porque eu era uma fã de McFly e ele era meu favorito, não significava que eu fosse ter algo com ele.
Fui para casa pensando em tudo que Josh me dissera. Eu sempre soube dessa fama de , todo mundo sabe, afinal. O que ele faz, a mídia conta para Deus e o mundo. Muitas mentiras não escondem as verdades dos vários encontros dele com fãs em hotel ou com alguma famosinha em uma festinha qualquer. O jeito carinhoso que ele estava me tratando era só uma isca, como Josh tinha tentado dar a entender, mas que eu entendi perfeitamente. E eles estavam preocupados comigo. Achei bonito da parte dos meninos se importarem com uma garota que eles conhecem há pouco tempo. Quando fui mandada para Londres, ninguém me avisou que eu teria dois fiéis escudeiros que me protegeriam de tudo. Era um carinho familiar que me deixava, de certa forma, bem confortável, assim como os enormes braços de Matt.
Cheguei em casa, tomei um banho quente e me arrumei. Não sabia exatamente o lugar que iríamos, então coloquei algo básico. Calça jeans, botas pretas, uma blusa branca e um colar comprido com uma estrela na ponta, presente de um amigo do Brasil. Tudo era coberto pelo longo sobretudo que Josephine havia deixado em meu armário. Matt dizia que ela exagerava nas roupas, mas nas minhas ela foi bem básica e eu adorei a maioria dos casacos que ela colocou em meu armário.
Pouco mais das oito horas, ouvi a campainha e me assustei ao ver parado no meu portão. Como eu sabia que os outros dois estavam quase chegando, já peguei minhas coisas e tranquei a casa. Desci as escadas em dúvida e abri o portão.
- ? Aconteceu alguma coisa?
- Eu só queria te ver. Desculpe, esqueci que você ia sair com os seus amigos hoje – ele disse, visivelmente afetado com isso.
Claro, nunca levou um fora depois que sua banda fez sucesso. Eu seria a primeira e não conseguiria se não fosse o carro de Josh virando a esquina. Matt amarrou a cara, desceu do carro e me deu um beijo na testa. Encarou por alguns segundos.
- Podemos ajudar em alguma coisa, senhor ? – perguntou ele.
- Não, Matt, eu só passei para ver a mesmo – respondeu, me olhando. O quê? Eu não tinha nada a ver com isso!
- Bom, então se for só isso, estamos indo, não é, ?
Não respondi. Apenas olhei nos olhos de e segui para o carro. Josh apenas me deu um sorriso carinhoso e, ao ver que Matt havia fechado a porta, acelerou rumo ao pub.
- Matthew, você não acha que está pegando muito pesado com ele? – perguntei, encarando a escuridão lá fora.
- Primeiro, eu agradeceria se você parasse de me chamar de Matthew. Segundo, não acho que eu esteja exagerando quando eu quero proteger minha brasileirinha. Qual o problema nisso?
- Matt, talvez ela tenha razão – disse Josh, se pronunciando pela primeira vez. – Pega mais leve com o cara, ele é apenas um marmanjo com os hormônios aflorados.
Sério, deve ter algo errado com o Josh. Ele esqueceu que é gay? Cadê as crises que ele supostamente deveria ter dizendo “ai, bicha, não fala assim daquele bofe” ou algo parecido? A diferença entre ele e Matt é que Josh é muito mais calmo e tem a cabeça no lugar, quando o meu estagiário acaba explodindo em algumas ocasiões.
- Que seja! É só ele não tentar graça com a .
Bufei lindamente no banco de trás. Ele parecia um irmão extremamente super protetor e eu nem tinha pedido um ainda. Mas de qualquer forma, esse era o jeito que eu amava aqueles meninos. Eles eram grudentos, babões, chatos, mas eram meus amigos. E não me largavam por nada.
Capítulo 7 – Too close for comfort
- O que eu não entendo – eu comecei, enquanto bebia meu refrigerante – é o motivo dessa implicância repentina do Matt com o . Digo, até outro dia, vocês estavam na minha casa, rindo de tudo e fazendo a maior bagunça na minha sala.
Estávamos no tal pub novo. Era bem gostoso, um lugar tranqüilo, que tocava música num volume que não nos impedia de conversar. Josh tinha bom gosto no quesito escolher um lugar para um momento relaxante entre amigos.
- Vamos lá, Matt, ela tem o direito de saber, dude. Fale de uma vez.
Meus olhos viraram imediatamente em direção ao lindo rapaz moreno, com seus olhos verdes que brilhavam com o reflexo da luz. Ele respirou fundo e começou a falar:
- Em um dos dias que nós ficamos na sua casa, enquanto eu voltava da cozinha e você estava no banho, eu ouvi o dizer aos amigos dele que tinha te achado bem legal e até gostado de você. Como você sabe, tem namorada e foi essa a pergunta que os amigos dele fizeram. O que ele ia fazer com a menina? Ele disse que ela não importava e que nenhuma namorada nunca ficaria entre ele e as meninas que ele quisesse. – Josh teve que fechar minha boca. – Ele disse também que faria o que fosse preciso para ficar com você, nem que fosse só enquanto eles não terminassem o clipe.
- Você deve ter ouvido errado, Matt. Não acredito que o fosse querer uma garota como eu! – eu respondi, tentando me convencer de que aquele cara tão doce não era o mesmo idiota que Matt descrevia.
- , você tem problemas? – perguntou Josh – Olhe para você, linda, independente, alegre. Que cara não iria querer algo com você? Até eu, poxa!
Corei ao ouvir isso de Josh. Será que ele sabia que eu sabia que ele é gay? Precisava perguntar ao Matt depois.
- Desde então, – continuou Matt – ele vem te cercando, tentando chamar sua atenção. Eu me lembro de ter ouvido o amigo dele, , pedindo para ele não fazer isso. disse também que se ele te machucasse, as coisas ficariam complicadas entre eles, porque de alguma forma, gostou de você. Disse que você não é como essas garotinhas mimadas que o está acostumado a levar para cama e fingir que não lembra no dia seguinte. O resto eu não ouvi porque vi você descendo as escadas e achei melhor quebrar a conversa na sala.
Eu estava em choque! Lembro-me de ter visto Matt parado na porta da cozinha e que ele tentou disfarçar quando me viu. Levou suco para todos na sala e não abriu mais a boca.
- Foi por isso que você foi embora naquele dia? – perguntei, tentando encaixar as peças desse enorme quebra-cabeça.
- Não exatamente. – As bochechas de Matt ficaram levemente coradas. – Eu tinha um encontro com uma garota que eu conheço há algum tempo.
- Nosso garotão tá namorando! – disse Josh, cutucando o braço de Matt.
Comecei a rir e a encher o meu “irmão” de perguntas. Consegui, ao menos por algum tempo, esquecer tudo o que Matt tinha me falado a respeito de e suas tramóias. Não queria pensar, na verdade. Ele não parecia ser do tipo de pessoa que faz isso, mas ele de fato já tinha ficado com muitas garotas e eu não consegui encontrar motivos para duvidar dos meus melhores amigos ingleses. Ficamos até altas horas rindo, bebendo e conversando. Falamos das roupas horríveis que Josephine queria colocar nos clipes e Josh demonstrou todo o seu descontentamento em trabalhar com ela. Pobre coitada, pensa que faz um trabalho fabuloso, mas não faz nada. Os meninos me levaram para casa, mas não me liberaram antes daquele papo de irmão mais velho.
- , você sabe que eu só quero o seu bem. Desde o dia em que eu te peguei naquele aeroporto, eu vi que você é especial demais para ser magoada por qualquer um.
Matt estava preocupado mesmo em me chatear. Estávamos os três na calçada da minha casa.
- Matt, não se preocupe. Eu não estava pensando em fazer nada, de qualquer forma. Tenho muito a fazer, muitos clipes para dirigir, além de ficar de olho num certo inglês que está saindo com uma garota. E ficar de olho também num certo maquiador! – eu disse, cutucando a cintura de Josh.
- Sabe, , as pessoas são maldosas e vão te machucar. Eu e o Matt aprendemos isso. Digo, nós somos muito amigos, mas por causa da opção que eu escolhi pra mim, eles falam do Matt também e eu não acho isso justo. Por isso, nem sempre nos falamos muito. Mas assim como ele pode contar comigo, você também pode. Ele me falou que tinha uma chefa bem legal e, na hora, eu lembro de não ter acreditado. Mas preciso admitir que errei e, como o Matt é meu irmão de coração, você é minha irmã. Nossa irmãzinha caçula, que nós adoramos muito.
- Nós somos sozinhos aqui, assim como você – disse Matt. – Por isso, nos viramos como podemos, sempre contando com o apoio um do outro. Você trouxe um pouco da alegria que faltava nas nossas vidas, .
Desisti de segurar as lágrimas diante de tanta demonstração de carinho vindo de dois jovens aprendizes. Eles não perderam a oportunidade de fazer piadinhas com isso e me abraçaram ao mesmo tempo. Vimos um carro passar devagar por nós e alguém nos observar através do vidro escuro. Um arrepio percorreu toda a minha espinha e Matt pareceu ter percebido.
- Melhor você entrar! – ele disse, ainda acompanhando o carro com os olhos. – E não saia mais hoje. Só amanhã quando eu passar aqui, entendeu, mocinha?
Eu ri. Josh me deu um abraço apertado e um beijo na testa. Matt beijou minha bochecha e ficaram me observando entrar em casa. Pude ver o carro de Josh sumir na escuridão pela janela da sala. Subi exausta para o meu quarto e dormi com a roupa que estava. Não tinha forças para me trocar. Todas aquelas informações sobre tinham me tirado o ânimo daquele dia.
Sexta-feira, com a graça do bom Deus, havia chegado. Eu mal acreditava. Mesmo estando em Londres, sexta-feira significava sair mais cedo da O2, ir para casa e sair mais tarde com os amigos. Matt passou cedo na minha casa, fomos andando até o metrô. Ele falava sem parar da nova namorada dele e eu estava feliz com toda essa animação. Era bom vê-lo sorrindo como antes. Não teríamos gravação com o McFly, o que me deixou bem aliviada. Agora só faltavam as cenas de surf, que seriam gravadas no final do mês, quando embarcaríamos para o Brasil. Estava tudo acertado, agora era só aguardar o dia da viagem. Com isso, eu, Matt e Josh tínhamos o dia razoavelmente livre.
- Amores da vida do Josh – falou o maquiador, entrando na minha sala sem nem ao menos bater na porta. – Nem tente me repreender por não ter batido, , eu tenho boas notícias.
Matt me olhou desconfiado. Boas notícias de Josh só podiam significar uma coisa.
- Desembucha, Josh – disse meu estagiário.
- O querido de vocês aqui conseguiu quatro convites para a festa que James Bourne vai dar em sua casa hoje.
Broxei. Festa de James era o mesmo que sair para um encontro com , o que, depois de tudo, eu não queria, muito obrigada.
- Ih, Josh – Matt falou. – Você sabe bem quem vai estar nessa festa. Acho que nossa pequena aqui não gostou.
- Imagina, Matt! – eu disse, tentando contornar a situação. – Só não estou animada para sair. Só isso. Mas vão vocês. Divirtam-se.
Virei para a tela do meu computador e comecei a checar os e-mails do dia. Senti dois pares de olhos me observando, ansiosos por alguma reação.
- .
- Tá, Josh, eu confesso. Não quero encontrar o depois de saber que eu seria mais um brinquedinho, então nem vou.
Eles riram. Qual a graça?
- Você vai estar com a gente, – disse meu maquiador.
- E além do mais... – Matt completou meio sem graça – a minha namorada vai estar lá comigo e eu queria te apresentar pra ela e tal.
O que eu podia fazer? Depois dessa informação extra pela qual eu não estava esperando, tive que aceitar o convite. Não poderia decepcionar o Matt assim e não ir para a festa e conhecer a namorada dele. Seria crueldade com o rapaz e ele nem tinha culpa do grande otário que é.
Fiz um gesto engraçado e exagerado com as mãos, arrancando risos dos outros dois patetas que estavam em minha sala. Passamos mais algumas boas horas rindo e conversando, até que o nosso horário terminou e fomos cada um para suas respectivas casas. Josh pegaria o carro novamente com o pai e iríamos os três juntos, como sempre, para a tal casa do James.
Eu não sabia que roupa usar, então apelei e liguei para Josephine. Expliquei que estava indo a uma festa, que era de um cara famoso, com milhões de pessoas famosas e precisava arrasar ao menos um pouquinho. Ela me sugeriu o vestido dourado que estava em meu armário há meses e eu nunca havia reparado. E lá fui eu, com o vestido dourado, que, apesar da cor, não era chamativo, coberto por meu sobretudo preto. Era um belo vestido rodado, com um decote em V e era de alças finas. Uma sandália, um colar, brincos e voilá, eu estava ótima, modéstia a parte.
Prendi o cabelo de um jeito que nem eu entendi, só sei que ele ficou meio preso, meio solto e eu gostei. Ouvi a buzina do carro do lado de fora e saí, animada, com a minha bolsa dourada e minha maquiagem leve de última hora. Matt desceu do banco de trás, acompanhado de uma menina morena de olhos azuis e um sorriso assustador. Muito bonito, mas muito grande. Jammie era o nome da figura. A namorada de Matt. Fui apresentada como a “irmã bastarda” daquele retardado e a menina riu do nosso modo carinhoso de conversar. Ou nada carinhoso.
Eles foram no banco de trás e eu fui na frente com o Josh. Fiquei responsável pelos convites, já que ele tinha certeza de que Matt os perderia. Quando chegamos à enorme casa de Bourne, milhões de motoristas, empregados e o que quer que sejam vieram abrir a porta e me dar a mão para que eu saísse. Logo de cara, fui fotografada e, quando recuperei minha visão, pude ver que, do outro lado daquela multidão, me encarava, enquanto conversava ao seu lado com alguma amiga. Mantive meus olhos fixos nos dele até sentir a mão de Jammie me puxando. Pelo visto, Matt havia dito a ela o grande problema da noite e ela estava sendo uma companhia bem agradável e útil. Não me deixou sozinha um minuto, a não ser que Josh estivesse disponível para me vigiar.
Resolvi aproveitar. Essa poderia ser a primeira porta aberta para o meu trabalho. Quero dizer, metade das muitas pessoas ali eram músicos e precisariam de um clipe. O próprio James é músico, iria precisar também, então nada melhor do que ser simpática e fazer um social. Mesmo que esse social incluísse alguns... contratempos. Andei com Matt, Jammie e Josh pela casa toda. Cumprimentamos alguns conhecidos, paramos para conversar com outros, até chegar a um ponto que eu não queria.
- Ah, nem acredito que você veio! – disse , me abraçando. – Eu estava com saudades até!
- Nem fala, dude. Ela some assim, do nada, deixa a gente uma semana quase sem notícias, não chama mais pra comer pizza na casa dela... Tá ficando metida, hein? brincou, cutucando minha cintura e rindo.
- Ah, quanto drama! – falei. – Também senti falta das piadas infames de vocês, mas vamos passar quase um mês no Brasil, teremos tempo pra conversar muito!
se aproximou e fez o mesmo escândalo que os outros dois. Eu ainda não achava que tinha descansado tempo suficiente deles, mas eles parecem ter sentido a minha falta mesmo assim. Conversamos por horas, sendo sempre vigiados por Josh, Matt e Jammie, que vez ou outra se juntava com a gente para rir das piadas de . Demorou um certo tempo para eu me tocar que alguém ali não estava junto com o restante da banda.
- , será que eu posso falar com você? – disse Matt, fazendo todos nós fecharmos a boca.
- Claro, Matt.
Os dois saíram e foram para um canto do grande jardim onde estávamos. Eu e Jammie nos olhamos. A cena era um tanto quanto estranha e eu podia ver que eles conversavam algo bem sério. Só rezei para não ser o que eu estava pensando. Não percebi quando se aproximou do grupo.
- Não fala mais com os pobres, não? – perguntou ele em tom divertido, sendo seguido fielmente por .
- Oi, . Desculpa, eu não tinha te visto – eu disse, cumprimentando-o.
A menina ficou me encarando feio e tentou, de todos os jeitos, agarrar o namorado na minha frente, coisa que estava impedindo com a maior facilidade.
Jammie, fazendo o seu melhor papel de amiga protetora, parou ao meu lado com cara de poucos amigos para .
- Então, será que eu poderia falar com você? Eu tentei outro dia, mas seus amigos não deixaram. – Ele soltou a mão de . – É um assunto profissional, sobre as minhas cenas e tudo mais.
Ele disse isso mais para a namorada de Matt do que para mim, já que seus olhos não me encaravam mais. Fiz um sinal para Jammie não se preocupar e ignorei os chamados de Josh. Matt, ao perceber que eu saía do recinto sem e Jammie nos seguindo, fez questão de vir de encontro, seguido por .
- Está tudo bem, Matt, não se preocupa – eu disse, sorrindo amigavelmente para ele. – Vai lá com a Jammie, ela merece um pouco mais de atenção da sua parte, mocinho!
Matt apenas suspirou e foi de encontro a namorada, que lhe pedia desculpas por, aparentemente, ter falhado em sua missão “não deixe se aproximar do canalha do ”. Matt apenas sorriu para ela e a beijou. , por sua vez, permaneceu encarando como se conversasse com ele por telepatia.
- Tá, , não me olha assim. Só quero conversar com ela, juro! – disse . dando-se por vencido.
bufou e saiu de perto de nós. me encaminhou para o segundo andar da casa, onde muitos quartos preenchiam o espaço da casa e muitos casais preenchiam os quartos.
- Está me levando pra onde, ?
Ele franziu a testa ao me ouvir falando desse jeito, mas fez um sinal para que eu me calasse. Continuei o seguindo e fomos parar num quarto aos fundos, com uma enorme varanda. me puxou até o espaço ao lado de fora do cômodo.
- Pronto, aqui ninguém vai nos incomodar! – disse ele sorrindo e se sentando no chão. Puxou minha mão para que eu me sentasse.
- Tudo isso pra falar das tuas cenas? – eu perguntei, me sentando ao seu lado.
Arrumei meu vestido ao perceber que encarava minhas pernas. Estava começando a fazer frio e meu casaco estava no andar de baixo, um tanto quanto longe de mim. Ele percebeu que eu estava com frio e passou o braço por meus ombros, me puxando para perto. Tentei resistir, mas era forte.
- Não quero falar sobre trabalho. – Ele sorriu e me encarou. Passou a mão levemente por meu rosto e foi aproximando nossos lábios. – Quero passar um tempo com você.
Então era isso. Ele queria brincar com mais uma garota. Será que ele se lembrava da namorada dele que estava esperando por ele? Virei meu rosto no exato momento em que ele me beijaria, fazendo com que os lábios – bem macios, por sinal – de encontrassem apenas minha bochecha.
- Eles estavam certos – eu disse, olhando para ele. – Você realmente quer brincar, não é, ?
Ele pareceu surpreso.
- Quem estava certo, ? Brincar com o quê?
- Sabe de uma coisa? – eu disse, me levantando. Eu tava bem brava, sabe? – Me esquece, garoto!
Saí correndo antes que ele pudesse se levantar. Cheguei ao jardim ofegante, depois de rodar a casa toda atrás da porta que dava para o lado de fora. Por que esse povo rico tem que ter uma casa com tantas passagens secretas? Quando me viu, Matt se aproximou, com Jammie e Josh o seguindo. se assustou ao ver minha cara nada amigável e se aproximou também.
- O que aconteceu? – perguntou ele. – fez alguma coisa com você?
- Não, gente, não fez, fiquem calmos. – Olhei para mais afastada. Ela me encarava como se esperasse que eu voasse no pescoço dela ou algo assim. – Ei, você, seu namorado está te procurando.
Fiz de sacanagem mesmo! Ele que se entendesse com ela agora.
- , o que ele queria? – Matt parecia bem nervoso. Jammie acariciava seu braço na tentativa de acalmá-lo.
- Ele só queria conversar. Estou indo pra casa. Chega de festas por hoje!
Quando eu estava saindo, pude ver me encarando da escada com uma cara confusa. Os meus três fiéis escudeiros me seguiam, acompanhados de , que não estava satisfeito com a situação. Foi difícil, mas eu consegui convencer os quatro que eu poderia muito bem ir para casa sozinha. Na verdade, pedi para ir sozinha. Não queria me explicar para ninguém, queria mesmo era um tempo para mim. E foi o que eu fiz.
Escondi-me o final de semana todo. Não atendi a nenhuma ligação e não respondi a nenhum e-mail. E isso me rendeu boas broncas na segunda-feira.
Capítulo 8 – Don’t know why
Eu vou jogar na mega-sena assim que colocar os pés no Brasil. Tô falando sério, não ria. Fui da minha casa até o trabalho, o que leva em torno de trinta e cinco minutos, ouvindo o Matt falar sem parar. Fora os outros vinte e cinco que eu tive que ouvir o Josh. Ao todo, foi uma hora de sermão, dude. UMA HORA. Juro, se eles tentarem mais uma vez, eu fico um ano sem aparecer.
Tivemos que transferir nossas passagens para uma semana depois do combinado, o que me dava quase um mês ainda de tempo para me programar. Fiquei quietinha aqueles dias todos na minha sala, dirigindo clipes pequenos para cá, cuidando de detalhes da viagem para lá, entre uma ou outra saída com Josh, Matt e Jammie, que agora era minha querida cunhada oficialmente. Ela e Matt não se desgrudavam mais e diversas vezes, quando ela passava na O2 para falar com ele, sempre dava uma espiada na minha sala.
- Bom dia! – disse ela alegremente, entrando na minha sala.
Jammie fechou a porta e se sentou na cadeira à minha frente. Tinha algo de diferente nela e eu não sabia identificar o que era.
- Bom dia, cunhada! – respondi rindo. – Que felicidade toda é essa?
Ela fez um suspensezinho antes de me contar a fofoca da vez. Eu estava pensando em contratá-la para algum clipe, já que Jammie era perfeitamente capaz de fazer caras e bocas.
- Lembra que eu te falei de um curso de francês que eu sempre quis fazer em Paris? – Concordei com a cabeça. Eu lembrava de alguma coisa do tipo. – Bom, hoje saiu o resultado da bolsa e... eu consegui!
Soltei um gritinho ridículo de felicidade. Eu estava realmente feliz. Jammie queria demais esse curso e eu torcia por ela, mesmo sabendo que ela ficaria algum tempo longe de nós e que Matt ficaria insuportável por isso. Mas ela merecia. Era uma boa menina, de qualquer forma, e eu queria que ela fosse feliz. Ela e o Matt: meu casal espelho. Era incrível como eles davam certo em tudo. Se ela estava triste, Matt movia o mundo para deixá-la feliz. Se ele estava com problemas, ela tirava o dia para ajudá-lo. Era lindo de ver o amor que eles sentiam.
- Puxa, Jammie, que bom. Fico realmente feliz por isso e você sabe, não é? – perguntei, dando-lhe um abraço.
- Eu sei, , obrigada – ela respondeu sorrindo. – Você sabe se o Matt está na sala dele?
- Está, sim, deixei um copo de chocolate quente da Starbucks agora a pouco pra ele.
Jammie riu. Sabia do vício do namorado por chocolate quente.
- Certo, mas antes de ir lá, eu quero conversar com você.
Ela estava me encarando séria agora. Senti medo. Jammie não era o tipo de pessoa que se prendia a assuntos sérios, apesar de eu ter certeza de que ela será a mãe perfeita para os filhos de Matt. Ela consegue ser maternal na maioria das vezes e cuidava de nós três com a maior facilidade.
- Bom, diga.
- Você não falou com o no final de semana, falou? – Ela me pegou de surpresa. Neguei com a cabeça. – Bom, , Matt não vai gostar de saber disso, mas eu não posso deixar de te contar. Naquele dia, na festa do James, depois que você foi embora, algumas coisas aconteceram. E, bem, estou surpresa que não tenha te ligado ainda.
- Onde você quer chegar com isso, Jammie? – perguntei meio impaciente.
- O amigo dele, , ficou um tempo conversando com Matt e Josh, e sumiu com a namorada. Eu até imaginei por um momento o que eles estavam fazendo, mas me espantei quando o vi sozinho, sentando ao meu lado. Ele perguntou como você estava e eu disse que estava ótima, mesmo eu não tendo certeza disso.
Minha adorável cunhada de consideração ficou me encarando por alguns segundos. Ela estava me deixando incomodada com esse papo todo e eu não estava gostando muito, sabe? Não sou adepta a romances mexicanos ou suspenses americanos, então gosto tudo na lata, de uma vez, pá pum, saca?
- Jammie, resume, você tá me matando de curiosidade! – resmunguei.
- Calma – disse ela rindo. – Como eu disse, estranhei que ele foi se sentar bem ao meu lado e começamos a conversar. Ele disse que não sabia o que estava acontecendo com ele, mas de um dia para o outro, parecia que a vida dele não fazia mais sentido. Para meu espanto maior, ele disse que tinha terminado com a tal menina que estava com ele e que tinha feito uma burrada muito grande com alguém que não merecia. Não consegui entender bem, mas talvez você possa me esclarecer. O que aconteceu naquela noite, na varanda?
OUTCH! Ela tinha que tocar nesse assunto? Bad Jammie!
- Bom... – eu comecei, respirando fundo. – Ele tentou me beijar mesmo com a namorada no andar de baixo, esperando por ele, eu falei que os meninos tinham razão, pedi pra ele me esquecer, levantei, saí andando, encontrei vocês, me despedi, fingi que não o vi parado na escada, fui embora e não respondi as mensagens dele no final de semana. Basicamente isso.
- Faz sentido – respondeu ela pensativa.
- O que faz sentido, Jammie? Nada disso faz sentido pra mim. Quero dizer, ele terminou com a namorada, mas o que isso tem a ver comigo?
A essa altura, eu estava em pé e andando em círculos na minha sala. Eu acho que tinha começado a entender, mas não queria assumir. Orgulho besta!
- Faz sentido ele ter terminado com ela depois de ter te tratado como mais uma. Essa, no caso, foi a burrada dele. Ele não queria te tratar desse jeito, mas acabou fazendo porque é um mimado que sempre teve tudo o que ele quis, inclusive garotas. Quando ele se deparou com você, viu que você é diferente e não soube como agir. Você é páreo duro para ele, digamos assim.
Os poderes psíquicos dessa garota, às vezes, me assustavam. Como ela conseguiu pensar nisso tudo? Será que o namorado dela sabia dessas idéias?
- Definitivamente, Jammie, isso não faz sentido – eu disse, sentindo minha cabeça latejar. Era muita informação de uma vez.
- Faz sim e a senhorita sabe disso! – ela falou, se levantando. – Pense em tudo o que eu falei, junte as peças e ouça o seu coração. Eu não acho que o seja um cara realmente mau, de qualquer forma. Acho que ele é bem legal e que vocês até que formariam um casal bonitinho. Mas não conte ao Matt, o instinto protetor dele anda muito aflorado ultimamente e ele vai me proibir de te ver.
Ao dizer isso, Jammie saiu da minha sala rindo e foi visitar o namorado na sala ao lado. Certo, o que quer que seja que essa maluca tenha falado, não importava. Tinha muita coisa para fazer e uma viagem no final do mês.
Duas semanas se passaram desde o dia da maior bronca que eu já levara na minha vida, o que significava que eu viajaria na semana seguinte. Eu estava fazendo minhas anotações em minha agenda quando vi uma sombra cobrindo a luz. O que Matt queria agora?
- Já marquei tudo o que vamos precisar, vou te mandar por e-mail e... – Espera, esse não é o Matt. – ?
- Desculpa ter aparecido assim, sem avisar. Mas você não retornou nenhuma das minhas ligações, nem minhas mensagens.
Ele parecia realmente sem jeito. Não esperava vê-lo ali, muito menos envergonhado. Pude ver Matt vindo em direção a minha sala, como se fosse me socorrer. E não consegui segurar o riso ao ver Jammie pulando em cima dele e os dois caindo no sofá. Dougie acompanhou o meu olhar e riu também.
- Bom, em que posso ajudá-lo, senhor ? – perguntei, ainda rindo.
- Por favor, não me chame de senhor e muito menos de . Não me traz boas lembranças. – Ele torceu o nariz de um jeito fofo, e eu sorri abobada.
- Certo, em que eu posso ajudar, ?
Ele se aproximou e, no exato momento em que ia dizer algo, a porta da sala foi aberta por um Matt descabelado.
- Muito bem, eu cuido dele, . Posso ajudá-lo?
- Matthew Walker, volte já aqui! – disse Jammie, entrando na sala.
foi se aproximando até me abraçar pela cintura. Já que a bagunça estava feita, deixei um pouco e até segurei a mão dele. Romântico, eu sei. Talvez faça algum sentido aquelas baboseiras todas que a Jammie disse.
- Na verdade, Matt – falou – você pode ajudar, sim. Será que você me autorizaria a levar a para jantar? Isso é, se ela quiser, é claro.
Ele me olhou sorrindo e eu sorri junto. Já falei que ele tem belos olhos?
- Não acho que seja uma boa idéia, – respondeu Matt, levando em seguida um tapa em seu braço, dado por sua adorável namorada.
- Não se preocupe, será só como amigos! – disse , piscando para mim.
Todos ficaram me encarando. Bom, o veredicto final estava em minhas mãos e a resposta era totalmente minha. Até porque, se Matt se intrometesse, ele perderia um braço, porque eu tenho certeza que a Jammie o arrancaria aos beliscões.
- Eu acho... – eu comecei, fazendo aquele suspensezinho que aprendi com a cunhada – que hoje à noite está ótimo!
me abraçou, Matt resmungou e Jammie comemorou. É, alguma coisa ali parecia estar dando certo. Só não sabíamos até quando.
Saí do escritório mais cedo, com Matt bufando de um lado e Jammie saltitante do outro. Ela disse que uma ocasião assim pedia roupas novas, mas isso foi só desculpa para ela mesma poder comprar alguma coisinha. Depois de muito insistir, ela finalmente me convenceu que um vestido tomara-que-caia rosa claro, com uma fita de cetim na cintura que formava um laço nas costas, seria uma boa opção. Um par de sandálias da mesma cor do vestido, com algumas pedrinhas por cima, fizeram a alegria de Jammie, que também comprou sapatos novos.
Matt foi encarregado de levar nossas sacolas. Nada desmanchava a cara emburrada dele e eu sabia que teria que fazer muito mais do que mostrar que eu estava bem. Aproveitei que Jammie entrou em mais uma loja de roupas para experimentar uma calça e fiquei do lado de fora com ele.
- Ei, vamos mudar essa cara de bravo?
- Não estou bravo – ele respondeu seco.
- Ah, qual é, Matt? Precisa de muito mais pra me convencer. Olha pra mim.
Demorou, mas ele olhou. Não consegui entender a expressão séria no rosto dele.
- Você tem certeza que vai sair com ele? – perguntou Matt com cara de nojo.
- Ô, irmãozinho ciumento, ele mesmo disse, como amigos – eu disse, abraçando-o. – Matt, eu não vou deixar fazer o que ele quiser comigo, só quero entender o que ele pretende. Não vai acontecer nada e eu vou voltar inteira, cheia de coisas pra te contar. Confie em mim!
- Em você eu confio, não confio é nele! – retrucou Matt.
Eu só dei uma risada baixa e beijei a bochecha dele. Parece que o clima ficou mais leve e ele até sorriu. Um grande alívio ver aquele sorriso novamente.
Dito e feito, como eu prometi ao Matt. me levou para jantar em um restaurante meio caro demais para o meu orçamento, mas ele pagou tudo. Não me deixou pagar nem pelo guardanapo que eu usei. Ponto pra ele! Depois de passarmos algum tempo conversando sentados lá naquele lugar chique, saímos para dar uma volta em um parque que tinha lá perto.
- Então, sua mãe não se conforma que você só sinta saudades do seu cachorro? – perguntou ele rindo.
- Pra você ver. Eu não sei o que ela esperava. Meu cachorro é meu melhor amigo, mais até do que Matt. – Ao ouvir o nome, torceu o nariz. – Ei, qual é a da careta?
- Seu estagiário me odeia, pelo que eu percebi.
Não contive uma risada. Esses dois certamente me deixariam mais maluca do que já deixaram até então.
- Ele só tem um instinto protetor muito forte e quer o bem das pessoas que ele ama. Matt é como um irmão pra mim, assim como Josh. Somos uma família, é natural que ele tente me proteger.
não respondeu. Continuou a andar ao meu lado em silêncio, vez ou outra tentando pegar na minha mão, coisa que eu não estava deixando.
- Qual a raça do teu cachorro? – ele perguntou de repente.
- Bichon Frise – eu respondi.
Eu acho que ele não entendeu muito bem, porque fez uma cara engraçada. Andamos mais um pouco naquele parque até eu começar a sentir que o meu casaco já não era mais o suficiente para me aquecer. percebeu e, antes que eu pudesse pensar, passou o braço por meu ombro, me levando para perto dele. Quente, aconchegante e... bem... gostoso! Ah, qual é, não me julguem. Estamos falando do . Quando ele quer, ele bem que sabe ser cavalheiro.
Ele me apertava contra o peito, achando que eu fosse escapar a qualquer momento. Pobre criança, mal sabe ele que eu estava muito bem ali, obrigada! Estava, assim mesmo, no passado, porque nesse exato momento meu celular tocou.
- Alô? O que houve? Tá, já estou indo. Juro que não vou te bater muito! – E desliguei.
- Aconteceu alguma coisa, ? – perguntou visivelmente preocupado.
- Não sei, Matt me pediu para ir para casa agora mesmo porque ele precisava falar comigo.
Eu e demos um longo suspiro ao mesmo tempo, que logo virou uma risada.
- Bem, deve ser o toque de recolher. Vamos, então? – Ele pegou minha mão e foi me guiando até o carro.
Eu já estava com vários métodos de tortura em mente. Não seria piedosa com Matthew dessa vez. pareceu não se abalar, ou estava disfarçando muito bem. Dirigia tranquilamente sem desviar seus olhos da estrada, enquanto eu me movia inquieta ao seu lado.
- Chegamos! – disse ele em tom carinhoso.
- Bem, desculpa por isso e obrigada pela noite! – eu falei, enquanto ele abria a porta do carro para mim.
estendeu a mão para me ajudar a sair e me acompanhou até o portão.
- Não se desculpe, teremos tempo – ele respondeu, sorrindo. – Boa noite, .
Ele tinha, de fato, entendido que seria só como amigos, porque ao invés de tentar me beijar, ele me deu um carinhoso beijo na bochecha e saiu sorrindo. Esperei o belo carro se afastar e entrei em casa pisando firme. A luz da sala já estava acesa, o que me deu a idéia exata de que Matt estava me esperando.
- Muito bem, Matthew, o que aconteceu para você interromper minha tão animada noite? – Eu entrei resmungando.
Parei ao ver Matt com os olhos perdidos e cara de quem estava um pouco... desesperado.
Capítulo 9 – How dos it feel?
Quando as pessoas dizem que depois da tempestade, vem a calmaria, é porque nunca pararam para pensar em como isso também faz sentido se dito ao contrário. Principalmente na minha vida. Depois da calmaria, sempre vem a tempestade.
Precisei me apoiar na bancada da cozinha enquanto a água fervia. Eram muitas novidades de uma vez e para uma só cabeça. Para a minha cabeça. Quando entrei em casa, resmungando e xingando Matt mentalmente, me assustei ao ver que ele estava bem acabado. Pensei até mesmo em lhe dar umas bofetadas por beber tanto, mas não me movi quando ele proferiu as três palavras que fizeram minhas pernas amolecerem.
- Jammie está grávida! – disse ele com os olhos vazios.
Fiquei parada, em choque. Grávida? Jammie? Como assim? Tá, eu sei como, mas logo Matt? Ele nem me contou que estava transando com ela, não que eu me interessasse em saber da vida sexual do meu estagiário, mas somos melhores amigos. Ele sabe todos os meus passos, eu deveria ao menos imaginar os dele. Mas isso não vem ao caso em um momento como esse.
A única coisa que consegui fazer foi andar até o sofá e sentar ao lado dele, certamente para não pagar o mico de cair sentada na soleira da minha própria casa.
- Tem certeza, Matt? Ela já fez todos os exames e tal? – perguntei, enquanto ele deitava a cabeça no meu colo e eu fazia cafuné em seus cabelos.
- Tenho, . Ela me mostrou o exame, estava tudo ali, escrito, gritando que minha namorada vai ter um filho meu. – Pude ver uma risadinha saindo da boca dele.
Matt tinha um grande instinto paterno e seria um paizão daqueles, não tenho dúvidas. Mas sabendo bem os planos do casal, eu sei que uma criança agora não ajudaria em nada.
- Céus, Matt, eu não sei nem o que te dizer.
- E eu não sei o que pensar. Nunca vão admitir a Jammie na escola em Paris se souberem que ela está grávida – ele disse, fechando os olhos com força.
- Ninguém vai saber por enquanto, Matt. – Como a boa “irmã” que sou, dei um beijo na testa daquela criança de quase dois metros que estava deitado no meu sofá. – Eu sei que agora não é uma boa hora, mas a criança tá ali e precisa de vocês. E vocês vão poder contar comigo também, sem dúvida.
Matt deu um pequeno sorriso. Seu celular tocou e ele me olhou ao ler “Jammie” no visor. Incentivei-o a atender. Enquanto eles conversavam, levantei para preparar um chá para nós dois. Quando voltei para a sala segurando as duas canecas, pude ver meu estagiário mais calmo.
- Ela está vindo pra cá, se você não se importa – disse Matt, antes de dar um gole na bebida quente em suas mãos.
- Claro que não. Jammie é como minha cunhada! – eu respondi rindo.
Poucos minutos depois, a campainha tocou. Sabendo quem era, eu nem me dei ao trabalho de levantar e obriguei o Matt a atender a porta. Jammie veio em minha direção, com um pouco de receio e me abraçou. Chorou baixinho no meu ombro, como se fosse encontrar as respostas ali. Coitada, se soubesse a negação que eu sou nessas horas, teria ficado em casa.
- Como você está, Jammie? – perguntei, secando o rosto dela.
- Eu tô bem – respondeu ela sem jeito.
- Muito bem, casal irresponsável. Quero saber dos planos da nova família daqui pra frente. Digo, você não vai recusar a bolsa de estudos nem nada, não é, Jammie?
- Não sei, . Vai ser meio complicado agora. Matt tem a vida dele aqui e eu não conseguirei levar tudo adiante sem a ajuda dele.
- E nem que quisesse! Eu não vou te deixar sozinha perdida em Paris e ainda mais com o meu filho!
- Bom, a gente pode dar um jeito em tudo. Tem filial da O2 por lá, Matt pode ser transferido ou algo assim.
Passamos um tempo conversando sobre o futuro deles. Quando eram quase duas da manhã, Jammie anunciou que ia embora. Matt, claro, a acompanharia.
- , antes de ir, eu quero te fazer uma pergunta – disse Jammie sorrindo. Matt a encarou em dúvida.
- Diga, Jammie – respondi curiosa.
- Bom, eu sei que o Matt vai concordar de qualquer forma, então eu quero saber se você aceita ser madrinha do nosso filho.
- Ei! Eu que ia convidar, você passou na minha frente! – reclamou Matt, mordendo Jammie.
Não me contive diante da cena e abri um largo sorriso.
- Mas é claro que eu aceito, Jammie. Poxa, vai ser um prazer imenso ser madrinha do filho de vocês – eu falei, abraçando os dois.
Um encontro com , um choque ao ver Matt acabado, outro choque ao saber da gravidez e um terceiro choque ao ser convidada para ser a madrinha do bebê. Eu precisava de uma boa noite de sono!
Acordei no dia seguinte ouvindo a chuva bater em minha janela. Um ótimo sábado preguiçoso para quem viajaria no dia seguinte. Levantei, vesti um robe por cima do meu pijama de ursinhos, minha pantufa de cachorro e desci para a cozinha. Enquanto bebia uma generosa caneca de chocolate quente e lia meu jornal, ouvi a campainha tocar. Quem será o infeliz que ousa me interromper assim, no meu precioso café da manhã?
Fiquei meio sem jeito ao ver que era apenas Marie, minha vizinha pirralha. Ela estava toda contente e tinha um pequeno papel em suas mãos miúdas. Abri a porta e destravei o portão. Abaixei e fiquei na altura da menina.
- Oi, minha linda! – falei, dando um beijo na bochecha rosada dela.
- Oi, , vim trazer o convite do meu aniversário– disse ela tímida. – Mamãe falou que estava muito em cima da hora, mas eu não te encontrei em casa e queria te dar eu mesma o convite.
Pude ver Sarah esperando pela filha no portão de sua casa. Ela acenou e eu retribuí. Olhei o pequeno convite com a imagem das princesas da Disney estampado. A festa seria naquele sábado à tarde.
- Não tem problema, meu anjo – eu disse, ainda lendo o convite. – Eu estarei lá, pode contar comigo!
Marie abriu um enorme sorriso e saiu saltitante. Dei um último aceno para Sarah e entrei, pensando no que eu poderia comprar de presente para aquela criatura tão... feliz!
Voltei para a cozinha e, antes que eu pudesse acomodar meu traseiro na cadeira, o telefone tocou.
- Alô?
- ? Te acordei? – Reconheci imediatamente a voz de do outro lado da linha.
- Oi, ! Não me acordou, não – eu respondi sorrindo. Bem boba, para falar a verdade.
Concentre-se, , ele não presta.
- Que bom! – ele respondeu. Parecia estar sorrindo. – Então, hoje à noite, eu vou sair com os caras da banda e eles vão estar todos acompanhados das namoradas e tal. Queria saber se você aceitaria me acompanhar.
Certo, primeiro choque: uma criança no meu portão com um convite de aniversário. Segundo choque: querendo que eu saia com ele e toda a tropa do McFly. Vou morrer eletrocutada!
- Ah, , eu adoraria, mas já tenho compromisso pra hoje.
- Ah, sim. Bom, que pena. A gente se vê então, certo? – respondeu ele meio desapontado.
Despedi-me e desliguei o telefone, sentindo uma pontada de culpa. Foi aí que tudo começou a passar em minha cabeça como um filme. Lembrei da cena de Marie pedindo de presente para a mãe o novo CD do McFly. Era isso! Marie era fã do McFly e eu tecnicamente tinha um à minha disposição. Fantástico, achei meu presente. Não que eu fosse dar o para a menina, mas a presença dele certamente a deixaria feliz. E eu podia checar com Sarah se ela tinha comprado o CD para a filha. certamente pediria aos outros para autografar e eu daria o melhor presente da festa! Sem perder mais nenhum minuto, liguei de volta para .
- Alô? – atendeu ele, ainda com aquela voz de tristeza. Partiu meu coração.
- Oi, , é a .
- Oi, ! – Ele pareceu mais animado.
- Então, olha, eu não posso sair hoje porque prometi à minha vizinha que iria na festa de aniversário dela. Ela é pequena e tudo mais. Você não quer ir comigo? Ela é fã de McFly e, sem querer abusar muito, sua presença seria um presente e tanto pra baixinha!
Ele parecia processar a informação por alguns minutos, até que enfim respondeu.
- Por mim, tudo bem. Mas será um presente só pra ela? – Filho da mãe, por que não ficou quieto?
- Claro que não – respondi rindo. – Vai ser bom ter alguém com mais de seis anos me fazendo companhia.
soltou uma gostosa gargalhada. Combinamos de nos encontrar na loja de CDs que tinha perto da minha casa, onde eu compraria a segunda parte do presente e ele levaria para os meninos autografarem.
Corri até a casa de Marie e dei sorte de Sarah ter atendido a porta. Mais sorte ainda ao saber que ela ainda não tinha comprado o presente para a filha. Quando contei minha idéia, Sarah ficou emocionada e me abraçou. Seria a melhor festa de aniversário que a Marie já tivera.
Meu encontro com na loja de CDs foi bem rápido. Só o tempo de comprar e ele levar. Sem muito papo, já que conversaríamos a noite. Liguei para Jammie para saber como ela estava e ela parecia bem mais calma. Juramos segredo absoluto sobre a gravidez e ela comemorou até demais o fato de me acompanhar na festinha à noite.
Eram quase oito horas da noite quando a campainha tocou. Vi com o pequeno pacote vermelho nas mãos. Terminei de me arrumar, desci e fui até ele. Nós nos olhamos e sorrimos juntos. Ainda não tinha rolado o tão esperado beijo, tanto de Jammie quanto de , e . Bando de bobos!
- Assinadinho, como a senhorita pediu! – disse ele, estendendo o pacote.
- Muito obrigada, . Você salvou minha vida! – respondi sorrindo.
Quando eu ameacei sair andando, ele pegou minha mão e me acompanhou. Eu imaginei a quantidade de fotógrafos que estavam fazendo a festa nesse momento. “ em festa de vizinho”, uma bela manchete! Sarah abriu o portão para nós e me deu um abraço tão forte que pude sentir meus ossos sendo moídos. Depois, ela abraçou e agradeceu inúmeras vezes pela presença. Combinei com ela que primeiro eu falaria com Marie e apareceria depois.
Parei estrategicamente na porta, que foi fechada por Sarah, deixando plantado do lado de fora. Marie me viu e veio correndo ao meu encontro.
- Feliz aniversário, baixinha! – eu disse, abraçando-a.
Marie abriu o pacote na minha frente e eu pude ver seus pequenos olhos se arregalarem ao ver as quatro assinaturas.
- Mãe, mãe, mãe, olha. É o CD do McFly! E assinado, mãe! – Ela pulava enquanto suas amiguinhas começavam a se aproximar para ver o presente. – Poxa, , obrigada! – disse ela, me agarrando.
- Gostou mesmo? – perguntei, e ela confirmou com um aceno de cabeça. – Então vai ali, abre a porta e vê o outro presente que eu trouxe pra você.
Marie me olhou desconfiada, mas fez o que eu disse. Deixou o CD com a mãe e abriu a porta. Um sorridente a esperava, fazendo Marie colocar a mãozinha sobre a boca.
- Olá, Marie! – disse ele, se abaixando. – Posso te dar um abraço de aniversário?
Ela nem respondeu, apenas se lançou contra , que a esperava de braços abertos. Ele me olhou por cima do pequeno ombro da menina e piscou. Levantou com Marie em seu colo e entrou. Colocou-a no chão e logo foi cercado por todas as crianças da festa.
estendeu a mão para mim e eu a peguei. Ele andava pela casa com Marie de um lado e eu do outro. Sentamos em um sofá colocado no canto da sala e a atração da festa passou a ser , não mais Marie. Durante um bom tempo, todas as crianças se concentravam ali, apesar dos pedidos de toda a família da aniversariante de nos deixarem em paz e irem brincar.
Aos poucos, a novidade foi se tornando normal e fomos deixados em paz. A família de Marie toda veio falar com a gente e agradecer. Ela era a única menina em uma família que tinha cinco meninos, então era mimada por todos.
- Obrigada mesmo por ter vindo, – eu disse, ainda segurando sua mão.
- Não precisa agradecer, . – Ele beijou a minha. – É sempre bom ficar perto de você, mesmo que isso me traga de brinde algumas crianças.
Rimos do comentário que ele fizera. Ele sabia exatamente como me deixar sem graça e se aproveitava visivelmente disso.
A festa não acabou tarde, mas fomos embora logo após Marie cortar o bolo. Viajaríamos logo cedo para o Brasil e precisávamos descansar. Ela abraçou com tanto carinho que eu cogitei a idéia de deixá-lo por ali mesmo. Pude ver que ele se sentiu à vontade com as crianças. seria um ótimo pai. Ele me acompanhou até em casa e ficamos conversando no portão até que eu, educada como sempre, acabei bocejando na frente dele.
- Melhor você entrar. Está morrendo de sono! – disse ele, acariciando minha bochecha, que a essa hora estava pegando fogo.
- Já preparou suas malas? – perguntei quase num sussurro.
Ele se aproximou e me abraçou, apoiando minha cabeça em seu peito enquanto fazia carinho na minha cabeça.
- Já, está tudo pronto para ver se matar no mar! – Ele riu.
tinha um abraço bem confortável e eu esquecia de tudo quando estava ali. Era fácil esquecer até que ele era um cachorro. Ao perceber que eu estava quase dormindo em pé, ele me empurrou até a porta de casa e esperou eu abrir.
- Quando sair, só bate o portão, tá? – perguntei sonolenta.
- , você pode acordar só por alguns minutos? – perguntou ele nervoso.
Olhei-o curiosa.
- O que foi, ?
- Bom, eu quero fazer uma coisa, mas com você quase dormindo, não tem graça. Você vem vai se lembrar no dia seguinte!
- Estou acordada! – Eu sorri.
Ele sorriu mais ainda e colocou a mão em minha nuca. Olhando em meus olhos, se aproximou até que nossos lábios se tocassem. Agradeci mentalmente por ele ter passado o outro braço por minha cintura, me apertando contra ele. Caso contrário, eu teria caído ali mesmo. Não de sono, mas por sentir nossas bocas se encaixando perfeitamente. Tudo havia sumido e eu estava protegida. Era assim que eu me sentia e era por isso que eu gostava dele apesar de tudo. Ele me passava segurança mais do que qualquer outro.
Pode parecer piegas, mas foi o típico beijo de conto de fadas. Longo, calmo, bom. Quando separamos nossas bocas, ele encostou a testa na minha e sorriu. Abri os olhos e pude ver que ele me encarava. Dei um sorriso tímido e ele beijou minha bochecha.
- Agora vai dormir, você está cansada! – disse ele, me dando um selinho.
Eu nem contestei, porque de fato estava cansada. Entrei e, antes de fechar a porta, dei outro selinho nele. Pela janela da sala, pude ver sair, fechar o portão e manter um enorme sorriso em seu rosto. Um sorriso que estava me cativando. O sorriso do meu .
Capítulo 10 – Makes me wonder
Acordar cedo naquele domingo não foi a coisa mais terrível do mundo. Na verdade, eu mal pregara os olhos. Não é sempre que eu tenho a chance de ir para o Brasil. E é a primeira vez que eu vou ser responsável por quatro irresponsáveis! Tá, cinco, o Matt se faz de durão, mas tá doido pra entrar na farra de Tom, Danny, Dougie e Harry.
Marcamos de nos encontrar no aeroporto às 10 horas para o check-in. Todas as passagens estavam comigo e eu estava rezando para que ninguém esquecesse o passaporte. Chequei minhas malas, conferi se tinha pegado todos os documentos e a minha parafernalha de trabalho. Planilhas, contratos, agenda de telefones, essas coisas. Chamei um táxi e comecei a arrastar tudo para a calçada.
Assim que o carro chegou, o motorista me ajudou a colocar as malas no porta-malas e seguimos para o aeroporto. Por causa da minha noite mal dormida, eu estava meio dopada, mas bem animada. Até me lembrar do que havia acontecido na noite anterior: o beijo! É, caro leitor, o que fazer no dia seguinte ao memorável beijo com ? Correr, claro. Juro, se eu não fosse perder meu emprego, tinha me mandado dali há muito tempo. Eu ia fazer o quê? Chegar no meio de todo mundo e dizer “oi amor, dormiu bem? Eu já estava com saudades!”? Sem chance! Matt teria que me salvar dessa. Eu ia grudar nele e não soltaria nem que a Jammie implorasse, alegando que meu afilhado precisava do pai.
Quando o carro parou no aeroporto, o motorista colocou minhas malas no carrinho. Paguei e comecei a empurrar aquela montanha de coisas que estava levando até o guichê da companhia aérea British Airlines. Logo de cara encontrei Matt e Jammie, que devorava um saquinho de confeitos de chocolate com tanta vontade que fiquei com medo até de dar oi e ela me morder. Essa coisa de gravidez assusta!
- Aleluia, brasileirinha! – disse Matt me recebendo com um abraço.
- Hei, Matt! – eu respondi sorrindo. – Jammie?
- Hum? – respondeu ela, levantando o rosto do saquinho. – Ah, oi !
Nem cheguei perto, até porque não deu tempo. Ela voltou a comer feito uma doida e Matt apenas rolou os olhos. Dava pra ver que essa história de desejos estava deixando-o irritado. Mas eu sei que ele babava em cima da barriga da namorada. Ela me contava tudo!
Cerca de 10 minutos depois pude ouvir quatro vozes se aproximando. Eles vinham andando lado a lado, rindo e tirando o sarro de , o único que ainda não gravara.
- Vamos lá que o Brasil tá me esperando! – disse , rindo enquanto me dava um beijo no rosto.
- Bom dia, meninos!
- Bom dia, ! – foi bonitinho os quatro respondendo ao mesmo tempo e depois dando gostosas gargalhadas.
Eu apenas ri com eles e fui até o guichê fazer o check-in. Eles me acompanharam, mostrando seus passaportes e pegando os bilhetes de embarque.
- Er... qual o nome dessa cidade? – Perguntou , tentando ler o nome no papel em suas mãos.
- Vamos sair da fila e eu já explico! – Respondi, despachando minhas malas.
Fomos até uma cafeteria que tinha na nossa sala de embarque enquanto aguardávamos a chamada para o nosso vôo. Matt precisou de dez minutos para se despedir de Jammie. Na verdade, ele levou dez minutos fazendo recomendações que eu tenho certeza que ele faz todos os dias. Como se a mãe do filho dele não soubesse dos cuidados que ela tem que tomar. O Matt consegue ser tão besta às vezes!
Andei em meio à enorme banca que havia ali. Escolhi alguns jornais, revistas e um livro. Mesmo com tanto trabalho, eu não largaria meus bons e velhos hábitos de me afogar na leitura. É, eu sei, você está se perguntando “cadê aquele cara do McFly que te beijou na noite anterior?” e tudo mais. Eu também estava me perguntando, que coisa não? Mas a resposta não tardou a chegar.
- Queen of Babble? – Perguntou , me abraçando pro trás e apoiando o queixo no meu ombro. – Um título sugestivo para uma mulher!
Ele deu uma risadinha irônica e baixa na minha orelha que me deixou mole. Queen of Babble* era o nome do livro que eu havia acabado de pegar.
- Se está insinuando que eu sou essa rainha, corre antes que eu te pegue! – Falei, tentando ficar séria.
me deu um beijo no ombro antes de se afastar e se juntar aos meninos. Continuei por mais algum tempo parada em frente àquele monte de revistas e livros, respirando e tentando controlar meu coração.
- Não tem medo que alguém veja? – Perguntou Matt, me fazendo dar um pulo. E lá vai meu coração de novo.
- Não fizemos nada demais! – Respondi, indiferente.
- Você me prometeu que seria só como amigos e que o não tinha chance com você!
Encarei Matt por alguns segundos. Mas que saco, agora era a hora de acabar com a minha alegria? Eu estava indo passar um tempo no Brasil, num lugar incrível, com pessoas que eu gosto e curtindo a pontinha de felicidade que estava aparecendo no meu coração. Matt mau, muito mau!
- Matthew, não fizemos nada. Além do mais, qual o problema? Ele não é de todo mau, sabia? – Eu disse enquanto ia pisando fundo até o caixa.
- Ah, qual é, ? Até um macaco com um saco de papel na cabeça é um namorado melhor pra você do que o , não me faça repetir toda a história de novo, porque eu...
- Matt, chega, tá? – Falei entre os dentes enquanto pagava o livro. – Aprecio sua preocupação, mas sei me cuidar também. E ele terminou com a namorada por minha causa, tá se esforçando pra ser um cara legal. Dá um voto de confiança pra ele, poxa!
Ele apenas bufou e foi sentar-se na poltrona onde nossas malas de mão estavam. Sentei-me ao lado dele, enquanto me acompanhava com um olhar preocupado. Ele sabia da implicância de Matt e sabia que o fato de eu estar com um tremendo bico era porque meu lindo estagiário tinha vindo me alertar novamente e toda aquela história que todo mundo, inclusive eu, tá de saco cheio de saber.
Mal cheguei na quinta página da revista que estava lendo e a voz no auto-falante anunciou nosso embarque. Levantei-me e, enquanto tentava ajustar minha mala de mão no meio do monte de coisas que comprei, senti alguém puxar minha bagagem. Não precisei olhar para saber que já havia colocado sua enorme mochila nas costas e agora levava minha mala, deixando apenas o livro e as revistas comigo. Murmurei um “obrigada” baixo, mas sei que ele ouviu, porque me deu um beijo carinhoso no rosto. Não contive um sorrisinho sem jeito e fui andando em direção ao portão de embarque. Com Matt de um lado, do outro e mais três atrás. Eu estava bem. Ia sobreviver. Eram só alguns dias, certo? Errado, eram duas semanas, no mínimo! Onde eu fui amarrar meu burro?
e brigavam pra ver quem ia sentar na janelinha, Matt já havia se acomodado na outra ponta, ficando bem longe de todo mundo. Ele estava bravo e eu percebi que a cara amarrada significava “não quero papo com a até chegarmos ao Brasil” e respeitei. sentou ao seu lado, o que me deixou aliviada. Sei que ele distrairia Matt de qualquer forma, porque não agüentaria ficar quieto por muito tempo.
As malas já haviam sido colocadas no compartimento acima de nossas cabeças e só estávamos esperando os bonitinhos se decidirem. A disputa pelo espaço continuou até que alguém de fora se pronunciasse.
- Certo, nenhum dos dois vai na janelinha! – Disse . – Saiam daí agora. A vai sentar na janela porque ela é a única mulher aqui e merece o melhor lugar!
Olhei assustada para ele. Não que eu tenha medo ou algo assim, mas eu não tinha a intenção de tirar as duas crianças dali. Me acomodaria bem ao lado de , mesmo o Matt não querendo falar comigo.
- Puxa saco! – Resmungou , se sentando no lugar que eu tinha pensado em ocupar.
também fez cara feia e se acomodou ao lado de , deixando duas poltronas vazias. fez sinal para que eu passasse e eu o fiz. Sentei na poltrona ao lado da janela, com ele ao meu lado, e comecei a arrumar o cinto.
acabou complicando minha vida, de certa forma, porque eu queria ficar no meio do grupo pra explicar sobre o lugar onde iríamos gravar, mas achei tão fofa a atitude dele que nem consegui reclamar. Nosso avião já estava ganhando velocidade na pista quando senti a mão de segurando a minha. Desviei os olhos da janela e o encarei. Ele tinha um pequeno sorriso nos lábios e, ao ver que eu o olhava, beijou minha mão.
- Não se importa em ir na janela, não é? – Perguntou ele, de forma carinhosa.
- Claro que não, aliás, obrigada. É o melhor lugar do avião! – Respondi, sorrindo.
- Por isso quis que você sentasse aí!
Ao dizer isso, me surpreendeu com um selinho. Bom, estamos evoluindo, certo? Evoluindo no que, afinal? Que droga!
Depois de muitas horas de viagem, quando vi que estávamos quase chegando, pedi ao para me deixar passar e sentei no braço da poltrona dele, no meio do corredor. Chamei a atenção dos meninos e comecei a falar.
- Bom, nós vamos descer em São Paulo, como vocês sabem e vamos direto fazer o check-in para o próximo vôo. Nós vamos gravar na cidade de Fernando de Noronha, por ter as paisagens mais bonitas e ondas boas para o ! Vamos ficar em um hotel bem legal e enquanto a gente trabalha vocês três podem aproveitar o lugar. Se tudo der certo, vamos terminar em uma semana e meia e aí teremos alguns dias de folga pra descansar.
- O Josh chega quando? – Perguntou Matt, ainda emburrado.
- Ele chega amanhã de manhã, mas só vai maquiar a modelo à tarde. Ela não vai gravar logo cedo. – Respondi.
- Não vai dar certo, a luz vai estar errada. Você sabe disso! – Ele retrucou. – Ele grava pela manhã, ela grava à tarde, o sol se pondo? Qual o nexo? Todo mundo vai perceber!
Fiquei encarando Matt por algum tempo. Eu de fato não havia pensado nisso, mas ele também não precisava falar comigo daquele jeito.
- Você tem razão, Matthew.
Voltei para o meu lugar, pois a aeromoça já anunciava o nosso pouso. Pouco tempo depois pude sentir as rodas do avião tocando o solo e demorei um pouco para me levantar. Meu melhor amigo estava agindo como um idiota por causa de um namorico bobo. Eu definitivamente não merecia.
- Ei pequena, vamos? – chamou minha atenção. Ele já tinha as nossas malas em mãos e demorei para reparar que o avião estava quase vazio.
Levantei e saí na frente dele, encontrando com os outros um pouco antes da porta de embarque. Achei engraçado ver que eles estavam olhando assustados para a saída. E me assustei junto ao ver cerca de 250 fãs ali, recepcionando os garotos, como da outra vez que visitaram o Brasil.
- Minha nossa senhora! – Falei, ficando com a mesma cara de boba que eles.
- E agora, como vamos passar? – Perguntou , chocado.
estava feliz, cantando Do Ya junto com os fãs, enquanto acenava e mandava beijos. Matt revirou os olhos e saiu na frente. Já falei que ele estava começando a me irritar? Olhei para os meninos e fiz sinal com a cabeça. Passamos pelo meio da multidão e pude ver várias mãos tentando alcança-los. Quando vi que seria impossível passar, deitei minha pequena mala no chão e subi nela.
- Galera, um minuto aqui, por favor! – Gritei e todo mundo me olhou. Sacou o poder? – É o seguinte, eu sei que vocês querem muito encostar, agarrar, beijar, dar, fazer tudo com eles, mas nós estamos atrasados e ainda temos que pegar outro vôo. Eu agradeceria muito, mas muito mesmo, se vocês pudessem liberar os quatro pra seguirmos nossa viagem. Estamos indo gravar a última parte do clipe de Falling in Love e estamos ansiosos para mostrar a todos. Mas vai ser impossível se vocês não nos deixarem passar.
- Pra onde vocês estão indo? – Ouvi uma menina gritar.
- Vocês verão no clipe. É surpresa. Agora por favor, uma salva de palmas pro McFly!
Eu estava me sentindo o máximo ali. Enquanto todo mundo aplaudia, joguei o toque de retirada e saímos quase correndo dali, antes que os fãs mudassem de idéia.
Capítulo 11 – You and I both
- Falta muito pra gente chegar? – Resmungou , no fundo da van.
- , se você perguntar isso de novo, eu vou fazer você ir correndo atrás do carro! – Respondeu mal humorado.
Até eu estava me segurando pra não mandar o rapaz ir correndo. O hotel não ficava perto do aeroporto, mas ele havia feito a mesma pergunta há cinco minutos. E pela terceira vez! estava ao meu lado, olhando distraidamente pela janela. Não trocamos uma só palavra desde o incidente no aeroporto, com aquelas fãs malucas e tudo mais. Matt sem comentários. Estava sentado de frente pra mim, bufando feito um boi. estava ao lado de Matt e batucava na perna o ritmo da música brasileira que tocava no rádio. Porém, só ele parecia interessado na música. Lembrei-me da letra. Ela fez parte da minha infância e não me contive. Em um ritmo animado, comecei a dançar ao lado de e a cantar animada.
- Você é boi garantido, puxa o rabo dela. – Matt, e me olharam espantados. – Está correndo perigo, vai segurar vela. Ah, o que foi? Não posso cantar, não?
Eu juro que não entendi o motivo de todo mundo, incluindo o motorista e o empresário do McFly, ter caído na gargalhada. Qual é minha gente? Eu estava no Brasil, estava entrando no ritmo animado do meu povo. Não gostei. Cruzei os braços e fiz uma cara emburrada, só não fiquei mais porque Matt parecia estar voltando ao normal. Mas não muito. Ele parou de rir no exato momento em que me abraçou e beijou o topo da minha cabeça. Esses meus homens me dão tanto trabalho!
- Chegamos! – Disse o motorista pouco tempo depois da minha cantoria.
- Aleluia! – Gritou , levando um pedala de .
Enquanto nos esticávamos e alongávamos nossos braços e pernas em frente ao hotel, Fletch e o motorista da van descarregavam as malas. Fizemos o check in e fomos conduzidos para nossos apartamentos. Tom e Dougie ficaram com os quartos com vista para o mar, enquanto Danny e Harry ocuparam os com vista para as montanhas, nos quartos em frente aos dos outros dois. Ao lado do quarto de Dougie ficava o de Matt e o meu em frente, ao lado do quarto do Harry. Fletch optou por um chalé, alegando que seria impossível dormir muito perto da banda, que sempre fazia um barulho estrondoso quando viajava.
- Dude, vem dar uma olhada nisso! – Gritou , ao ver passar por seu quarto.
- O que é? – perguntou entrando. – Uau!
Eles estavam encantados com a vista que observavam. Bati levemente na porta e fui recebida com olhares curiosos vindos dos dois.
- Ei, , entra! – Disse sorrindo.
- Ih, sobrei hein? – Brincou .
- Nada disso, senhor – Eu respondi segurando pelo braço antes que ele pudesse sair do quarto. – Quero falar com os dois.
Ouvi resmungar e ri balançando a cabeça. Sentaram na cama e ele me puxou, fazendo com que eu ficasse em pé no meio de suas pernas. Não era uma situação muito confortável, de qualquer forma. Não que eu não gostasse daquilo, mas ainda tinha algo no meu coração que dava razão à Matt e me fazia ficar com um pé atrás, mesmo se esforçando de todas as formas para me ter ali com ele. Mas quem me garantia que ele não faria a mesma coisa que fez com a ex namorada, afinal? Ele podia muito bem sair com qualquer uma quando estivesse em turnê, pagar uma boa grana para o jornalista que o pegasse e eu nunca ficaria sabendo. Senti um frio na espinha só de pensar nisso.
- Respeito aí, . Estou de olho em você com a minha pequena! – Disse fingindo estar bravo.
- Sua pequena? Sai fora, . Ela não é pro teu bico não! – Respondeu rindo.
- Se não é pro meu, imagine pro teu, mané!
- Posso falar, por favor? – perguntei rindo.
- Claro que pode! – Respondeu acariciando minha perna.
- Bom, eu vim aqui passar os horários de gravação, então isso se aplica na verdade à você, . Você terá esses dois primeiros dias livres, porque o Josh só chega amanhã, então não começaremos a gravar. Temos quatro pranchas de surf alugadas no quiosque perto da praia, então qualquer um de vocês pode aproveitar o quanto quiser.
- Espera – Disse me interrompendo. – Ele tem o dia livre? E você?
- Eu vou gravar algumas imagens da praia – Respondi, fazendo carinho na cabeça dele. – Não sei se vamos usar, mas preciso ter, não é?
Olhamos-nos nos olhos enquanto eu falava. Não sei como, mas eu me senti aquecida enquanto o encarava.
- ? Podemos ir? – Matt nos interrompeu.
- Claro Matt – Despedi-me dos meninos com um beijo na testa de cada e saí atrás do meu estagiário, que carregava a câmera em uma mão e sua camiseta em outra.
Andamos em silencio até sairmos do hotel e pisarmos na areia quente e branca de Fernando de Noronha. Pude reparar que ele olhava tudo atentamente e sorri, mesmo estando mal por dentro. Ele preparou a câmera e me entregou. Coloquei-a cuidadosamente sobre meu ombro direito e comecei a filmar a praia.
Mudei o ângulo. Segurei-a com cuidado na altura dos joelhos e filmei o mar. Surpreendi-me ao ver alguns golfinhos nadando ali perto. Olhei Matt, que encarava a cena como sendo um milagre da natureza. Eu sabia que isso era comum naquele lugar, mas eu nunca tinha visto nada tão perto de mim. Só pela televisão ou em filmes.
- É lindo, não é? – Perguntei a ele, que registrava tudo com sua máquina fotográfica.
- Bastante! – Ele disse, quase que num sussurro. – Eu queria que a Jammie estivesse aqui para ver. Ela ficaria maluca, com certeza.
Não pude deixar de sorrir. Ele gostava demais da namorada e eu também adorava aquela maluca que agora carregava meu afilhado.
- Já ligou pra ela?
- Já. Ela disse que devorou um pacote de cookies quando saí. – Ele disse, rindo. – , olha, desculpa por hoje. Eu estava meio mal humorado por causa da Jammie. Eu queria que ela tivesse vindo comigo, mas ela não quis. E também porque me incomoda ver você e o juntos.
- Eu entendo sua preocupação, Matt, mas eu... – Respirei fundo. Aquela frase, sendo dita por mim, em alto e bom, som era assustadora. – ...realmente gosto dele.
Matt me abraçou em um gesto fraternal e beijou minha cabeça. Ele entendia, eu senti isso. Ele gostava muito da namorada dele, eu gostava um tiquinho só do , então ele tinha uma leve noção de quão bem eu me sentia ao lado do cara que ele disse ser pior que um macaco com um saco de papel na cabeça.
- Eu sei que gosta, mas eu não quero que ele te machuque. Quando eu vi a cena no quarto dele agora a pouco, você sendo abraçada por ele, chegou a passar pela minha cabeça que talvez eu devesse relaxar um pouco. Mas não pense que eu não estou de olho em vocês, ouviu?
Abri um enorme sorriso e fiquei com ele um bom tempo no rosto. Pude sentir minhas bochechas começarem a doer. Abracei Matt com tanta força que ele resmungou.
- Eu fico tão mais tranqüila agora! É tão bom poder falar com você de novo e ver que você aprova o meu caso com o .
- Não abusa . Não aprovei porcaria nenhuma, estou apenas relaxando um pouco. Mas não vou hesitar em partir a cara dele caso alguma coisa te aconteça. – Ele respondeu.
A noite começou a cair e estávamos voltando para o hotel. Matt parou na recepção para reclamar do chuveiro do seu apartamento, que não estava esquentando a água e ele odiava banho gelado, enquanto eu me dirigia para o meu quarto. Acabei me distraindo com um quadro que havia no corredor e não vi que também havia uma poltrona ali. Já te disseram que topar com o dedinho do pé em alguma coisa dói? Não? Experimenta então. Quem foi o babaca que colocou aquela poltrona no meio do corredor? Eu juro que senti minha alma sair pelo meu pé quando enfiei meu dedinho no pé da droga da poltrona que estava ali. E ela nem era tão bonita assim, porque não jogavam aquilo fora? A dor foi tamanha que senti meus olhos se encherem de lágrimas e minha voz simplesmente sumiu.
apareceu nesse exato momento, indo sabe Deus aonde, mas me encontrando ali, apoiada nos joelhos, com os olhos marejados e sem conseguir falar.
- ? , o que foi? – Perguntou ele, um pouco desesperado, enquanto me sentava na infeliz da filha duma boa mãe da poltrona.
- Eu só... – Eu tentava responder, mas ainda tava doendo, cara. – ...preciso ir pro meu quarto.
Uma lágrima caiu do meu olho e eu achei engraçado. Ela simplesmente caiu. Deixei em choque no corredor e corri para o meu quarto, pulando em um pé só, claro, enquanto caçava gelo dentro do raio do frigobar. Ouvi uma batida leve na porta e pedi para que a pessoa entrasse.
- , você está bem? – Perguntou , colocando a cabeça dentro do meu quarto.
- Oi, , entra. Estou bem sim! – Respondi, com uma garrafinha de água bem gelada em cima do meu dedinho.
- Tem certeza? – Ele foi entrando e sentou ao meu lado. – O passou no meu quarto, pediu para eu vir te ver. Disse que você voltou chorando do passeio com o Matt e que ia falar com ele. Acho que ele vai quebrar a cara do Matt ou algo assim.
- O QUÊ? – Perguntei, levantando instantaneamente. A dor no meu dedinho me fez sentar novamente.
- Ah, , nem é nada, vai. Você devia ficar feliz, garotas adoram quando os homens brigam por sua causa.
- , me faz um favor? – Eu massageava meu dedo. – Cala a boca!
Ele me olhou assustado. Desculpei-me e contei que não aconteceu nada no passeio e sim no corredor. Depois disso, ficou tão preocupado quanto eu!
Versão de Matt Walker
A fala pra caramba, né? Ela pediu para eu mesmo contar a vocês o que aconteceu, porque toda vez que ela tenta, ela tem uma crise de riso e o fica emburrado. Então, quando eu e a voltamos para o hotel, eu parei na recepção para reclamar do chuveiro do meu quarto. O negócio não esquentava aí eu fui lá pedir para alguém arrumar. A foi para o quarto porque queria descansar antes do jantar. Quando eu virei para ir para o corredor do nosso quarto, vi o vindo na minha direção, pisando fundo, bufando, parecendo macho e tal.
- O que você fez com ela dessa vez? Qual o teu problema? – Perguntou ele, bem bravo.
- O meu problema não existe, mas vai existir um para nós se você não parar de gritar e formos expulsos do hotel! – Respondi, arrastando ele pra fora do lugar. – Tá maluco? O que foi que te deu, hein?
Saí andando em direção à praia e ele veio atrás de mim.
- Qual o teu problema comigo, cara? Por que eu simplesmente não posso namorar com ela? Você vai ficar urubuzando até quando?
Ele era, realmente, anormal! Parei de andar e o encarei. Criatura estranha da porra.
- , eu não acho que você seja bom o suficiente para a , só isso. E eu te digo mais, se você fizer a minha irmãzinha sofrer, eu quebro a tua cara, entendeu? – Perguntei em tom ameaçador. Ele tava merecendo!
- Quem vai quebrar a sua cara sou eu. Você pensa que é quem para magoar a a ponto de ela estar chorando no corredor do hotel? Você acha que...
- Chorando? – Perguntei, espantado. Se eu bem me lembro, ela estava sorrindo! – , bebeu? Eu e a conversamos, fizemos as pases, estamos de boa, amigos para sempre é o que nós iremos ser! – Respondi, irônico.
- Não foi o que pareceu, Walker!
- Mas foi o que aconteceu, infeliz!
Continuamos a andar na praia em silêncio. Percebi que alguns surfistas australianos estavam sentados na areia, comentando alguma coisa em voz alta, mas não prestei atenção.
- Espera! – Disse , me segurando pelo braço. – Ouve só.
Paramos a poucos metros dos surfistas, que não paravam de falar.
- Eu vou pegar aquela menina. Ela é muito gostosa.
- Nem fala. Eu vi agora à tarde ela com um inútil filmando a praia. – disse o outro surfista idiota que me chamou de inútil.
- Espera pra ver o que vamos fazer com aquela câmera no meu quarto! Só não te chamo pra filmar porque não curto muito que fiquem olhando, mas eu mesmo filmo. Ela na minha cama, gemendo meu nome.
Era nojento imaginar a minha amiga, minha irmã, com aqueles caras. Acabei rindo, porque é o que ela faria. Do que ela não ri, na verdade? Continuei andando e também. Para o lado oposto. Alguém me explica o que esse cara tem na cabeça?
- , aonde você vai? – eu perguntei ao ver que ele estava se aproximando dos surfistas.
- Ei, vai filmar quem no seu quarto? – Ele fechou as mãos em punho. – Não sabia que é perigoso ter esse tipo de pensamento com a namorada dos outros?
Os surfistas estavam levantando, quando eu resolvi sair correndo. , filho da mãe, quer morrer?
- É mesmo? – O surfista-que-queria-pegar-a- já em pé. – E o que você vai fazer se eu tiver esses pensamentos? Melhor, e se ela for para o meu quarto? Vai fazer o que, hein?
- Não sei. - Respondeu , irônico – Pergunta pra sua mãe!
E foi armado o circo, minha gente. O surfista de dois metros de altura acertou em cheio no olho esquerdo de . Certo, eu seria demitido. A ia me matar quando soubesse disso.
- ! – Gritei, me aproximando mais rápido, tentando impedir que ele investisse contra o cara. Tarde demais!
levantou rápido e avançou contra o surfista, enchendo a cara bronzeada dele de socos. O outro apenas olhava e ria, enquanto os dois se matavam no chão. Tentei puxar o meu não querido músico, mas o surfista que estava em pé me impediu e eu me irritei. Dei-lhe um soco no meio da fuça, mais por ele ter me chamado de inútil do que por ter me impedido na verdade. Inútil é a bunda dele!
Socamos-nos por alguns minutos até que ele se rendeu e eu pulei em cima dos outros dois. Separei a briga, mas não antes de dar o troco.
- Isso é por ter batido no meu amigo! – Eu disse, dando um chute na barriga dele, seguido de outro. – E isso, por ter falado aquelas coisas da minha irmã!
estava arfando e cambaleando. Ele bateu legal no cara, mas levou uns tabefes lindos também. Eu estava dolorido, mas ele estava pior. Passei o braço dele pelo meu pescoço e apoiei o peso dele no meu. Fomos assim até metade do caminho.
- Tô legal, Matt, já pode me soltar. – Disse ele.
- Tá certo! – Eu o soltei e fomos caminhando pela areia.
- Obrigado por me ajudar.
- Sem problemas. Fiz isso pela , não por você.
Nós dois rimos, mas não muito. Doía o rosto dar risada. Infelizmente, a estava no deck do hotel quando nos aproximamos. estava com ela e, assim que fomos atingidos pela luz, o rosto dela com expressão preocupada se tornou assustado e desesperado.
- Meu Deus, o que aconteceu? – Ela correu em direção ao . – Matthew, o que você fez com ele? , o que você tinha que ir atrás dele, o Matt não fez nada comigo.
não falou nada, apenas apoiou no ombro, como eu estava fazendo, resmungou alguma coisa e o levou para dentro do hotel.
- , calma. Não é nada do que você ta imaginando! – Eu disse. – Ai! Tá maluca? – Ela me bateu, acreditam?
- Você disse que não faria nada com ele, Matthew!
- E eu não fiz, ! Dá pra parar de me bater, me ajudar e ouvir? – Perguntei, irritado.
Ela apenas bufou e me levou para dentro do hotel. Legal, para o quarto do , onde o amigo dele me olhava torto e ela cuidava de mim sem um pingo de delicadeza. Mas com o ela era delicada. Viu a injustiça, né?
- Pequena, não briga com ele. A culpa foi minha, sério. – Disse . – Conta pra ela, Matt.
Eu contei. Tudo. Tudinho, tudinho. Até a parte que eu era o herói da história, o que fez ela me abraçar e pedir desculpas.
- , não era para brigar por minha causa! – Ela disse em um tom maternal que me deixou enjoado. – Ele jamais vai conseguir fazer com que eu vá para o quarto dele. Nunca!
- Eu sei, , mas eu precisava provar para o seu amigo aí. E eu fiquei louco de ciúmes também!
Assustei-me. Provar o que? Agora a culpa era minha de novo? Legal, continue assim e eu mesmo termino de te quebrar!
- Provar o que pra ele, ? – perguntou ela.
- Que eu te amo!
Ah tá, chega com essa cena de novela mexicana!
Capítulo 12 – Enquanto eu viver
Quem é que nunca cometeu uma gafe assim com o melhor amigo, hein? O que vocês queriam que eu pensasse? sai com o Matt e os dois voltam arrebentados. Qualquer idiota teria pensado que eles se pegaram e no pior sentido da palavra. O bom é que o excelente humor dos meninos não foi embora e nos divertimos horrores.
Acordei na terça feira com o telefone do quarto tocando.
- Alô?
- Bom dia, – Ouvi a voz de . Já beberam? – Acorda pequena. Quero falar com você!
- Agora, ? Assim, você não podia esperar até dar... – Levantei a cabeça do travesseiro e olhei o relógio no criado mudo. – você me acordou às 7:30 para quê exatamente? Sério, eu espero que seja algo muito, muito importante, porque se não for, eu vou terminar de te bater!
Ele apenas ria do outro lado da linha. Palhaço!
- Amor, levanta vai. Eu sei que é um pouquinho cedo, mas eu quero sair com você, ir pra praia, conversar.
- Pouquinho? , eu tenho mais três horas de sono e você me fala que é um pouquinho cedo? – Resmunguei, enfiando a cara no travesseiro.
- Cinco minutos e eu apareço aí. E escove os dentes! – E desligou.
Desligou... DES-LI-GOU! Ele me acordou de madrugada, me mandou escovar os dentes e desligou. Agora é a hora que vocês falam: a tem um puta carma na vida dela! Eu sabia que ele realmente iria aparecer ali, então me arrastei até o banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes e enquanto penteava o cabelo, escutei alguém bater na porta.
- Uou, cuidado com isso aí! – Disse , ao me ver com a escova de cabelos pronta pra dar na cabeça dele. – Você não vai querer que eu me machuque mais, não é?
Eu resmunguei, mas ele não entendeu, apenas riu. Deu-me um selinho e entrou no meu quarto.
- Eu vou acabar é te matando se você criar o hábito de me acordar a essa hora! – Eu dizia enquanto pegava a caixa de primeiros-socorros.
Comecei a tirar o curativo da sobrancelha esquerda de , que tinha um pequeno corte graças ao soco que ele tomou na noite anterior.
- Ai, amor! – Reclamou ele, quando eu passei remédio no ferimento – Delicada como um hipopótamo!
Dei um tapa em seu ombro e ele revidou, me dando outro tapa na perna.
- Ai ,! Doeu! – Eu disse, dando outro tapa no ombro dele. – Depois eu que sou delicada como um hipopótamo!
- Mas você é mesmo! – Ele retrucou, me dando mais um tapa. Mas que diabos?
Continuamos nos socando até que ele cansou e me jogou na cama. Eu ainda tinha em mãos o algodão com remédio e aproveitei que ele ficou por cima de mim para passar em sua sobrancelha. Ele tirou o algodão da minha mão e jogou sei lá aonde, me beijando em seguida. Senti a mão dele acariciando minha cintura enquanto eu bagunçava seu cabelo. Qualquer um que passasse ali, ainda mais se fosse o Matt, diria que estávamos fazendo coisas impróprias para o horário. Mas, para nós, estávamos apenas nos curtindo, trocando carinhos. E ele estava salvando a própria vida, porque pelo horário, eu realmente queria matá-lo!
Nosso beijo foi parando com vários selinhos e nos olhamos nos olhos. Ele encostou a testa na minha e passou a mão delicadamente pelo meu rosto. Sorrimos. Estávamos criando um laço forte entre nós, decifrável apenas com um olhar. Eu podia ver naqueles pequenos olhos que ele estava feliz, assim como ele certamente poderia ver nos meus a felicidade escancarada. Nada mais justo, claro. Depois de tanto tempo, namoros que não deram certo, eu finalmente havia encontrado minha outra metade. Idiota, porém minha metade.
- Vamos para a praia! – Ele me deu um selinho e saiu de cima de mim.
Terminei de cuidar do corte dele e peguei meu biquíni na minha mala. Troquei-me no banheiro e saí pronta, com o cabelo preso e saída de praia por cima da minha roupa de banho preta com detalhes em prata. Calcei meus chinelos e coloquei itens básicos em uma bolsa de praia: protetor solar, celular, óculos e um livro. Saímos de mãos dadas. Dougie jogou sua carteira, celular e chave do quarto na minha bolsa e fomos para o restaurante.
- Olha, meu bem, lembra de quando tínhamos a idade desses jovens? – Ouvi uma senhora comentar com seu marido.
- Sempre formamos um belo casal, não é querida? – Ele disse.
Traduzi para o que eles haviam dito e ele acenou para os velhinhos. Depois me abraçou pela cintura e beijou minha cabeça.
- Nossa, adoro a comida do Brasil. Fala sério, vocês comem muito bem aqui! – Ele falou, pegando tudo o que via e colocando em seu prato, que agora tinha uma pirâmide de comida.
- Você vai passar mal de tanto comer! – Comentei, enquanto pegava um copo de suco.
Tomamos nosso café e, por volta de 9 horas, fomos à praia. Nossos quartos tinham cadeiras marcadas e prontas para serem usadas. Passei protetor solar nas costas de Dougie, ele passou nas minhas e eu deitei para tomar sol.
- Tem formiga aí na sua cadeira? – Perguntei, rindo quando se virou pela décima vez.
- Acho que tem. Vou ter que deitar na sua! – Ele respondeu, irônico. – Você vai mesmo ficar aí, queimando como uma panqueca na frigideira?
Nem gostei. Tudo bem, eu estava branca, mas não a ponto de parecer uma panqueca!
- Muito engraçado, senhor eu sou bom em piadas! – Respondi e voltei a tomar sol.
sentou na cadeira e ficou mexendo na areia.
- ... – Disse ele, meio baixinho.
- Hum?
- Você acredita em mim, não é?
Tirei os óculos de sol e encarei as costas de . Nem forte, nem fraco. Nem gordo, nem magro. Sentei ao seu lado e o encarei.
- Do que você está falando, ?
- Você acredita que eu te amo, não acredita? – Ele perguntou, me olhando nos olhos.
- Você fala com tanta naturalidade para alguém que me conhece há apenas alguns meses. É estranho ouvir isso... – Eu disse, acariciando seu rosto já rosado pelo sol. – ...mas eu acredito em você sim.
Ele abriu um enorme sorriso e se ajoelhou na minha frente, ficando entre as minhas pernas.
- Eu sei que é estranho, mas a culpa é sua! – Ele riu ao ver minha cara de indignada. – Isso nunca aconteceu antes, eu nunca me senti assim. Mas quando eu te vejo, eu simplesmente perco o ar e minhas mãos começam a tremer. Eu me sinto um adolescente no colegial cada vez que eu te beijo. É como se fosse o primeiro beijo sempre.
- Sinto lhe dizer que isso é recíproco, meu caro – Eu ri. – Também ando me sentindo assim nos últimos dias.
- Acho que finalmente encontrei minha outra metade – Ele disse, me dando um selinho.
- Eu também. Minha metade idiota, mas minha metade!
rolou os olhos e riu. Deu-me outro selinho e saiu correndo para o mar, me deixando ali, sozinha, observando a minha criança mais linda se divertindo no meu país.
- AH, MEU DEUS, EU NEM ACREDITO QUE ESTOU TE VENDO DE NOVO!
Claro, tinha que ser pra mim esse escândalo. Até porque, quem mais no hotel teria a necessidade de chamar tanto a atenção dos outros se não eu? Vamos recapitular: cheguei há dois dias e já tivemos uma reclamação de chuveiro, uma briga, um cara me arrastando pra praia às 9 da manhã. O que faltava além de uma bicha louca gritando quando me visse entrando no saguão do hotel junto com ?
- Josh! – Eu resmunguei quando ele me agarrou.
- Oi, ! – Ele me deu um beijo na bochecha. – Olá, senhor .
- E aí, Josh? – Cumprimentou , me abraçando.
- Já foram para a praia, é? Nem me esperaram? E eu quero falar com a senhora agora! Cadê a modelo? E o Matt? Aliás, cadê todo mundo?
- Josh, menos. Já conversamos, preciso tomar um banho antes, tirar essa areia do corpo. Depois nos falamos, certo? – Eu disse, quase indo para o meu quarto.
- Tá, tá. Em uma hora lá no deck. E não se atrase, senão eu vou te buscar no seu quarto! – Ele ordenou, brincando.
Saí com , que me deixou na porta do meu quarto, pegou todas as suas tralhas e foi tomar banho em seu quarto. Quando tirei meu biquíni, pude ver a marca bronzeada que havia ficado ao redor do pano. Beleza, eu ia ficar da cor do pecado. Tudo que eu queria!
Tomei meu banho e passei no quarto de , torcendo para que ele não tivesse ficado muito vermelho. Ele, porém, estava dormindo feito uma criança e eu apenas saí de fininho para não acordá-lo. Encontrei com Josh no deck, como havíamos combinado. Eu tinha em mãos o roteiro do clipe e ele estava com um caderno de anotações.
Antes de começar a discutir o trabalho, coloquei-o a par de tudo o que havia acontecido nas últimas horas.
- O Matt e o se envolveram em uma briga por sua causa? – Ele perguntou, espantado.
- Pois é. Na verdade, o se envolveu numa briga e o Matt o ajudou. Já imaginou uma cena dessas?
Bebíamos tranquilamente os drinks que havíamos pedido. Ouvimos algumas vozes ao fundo e pudemos ver Tom, Danny, Harry, Dougie e Matt vindo em nossa direção. tinha suas bochechas ligeiramente vermelhas e eu achei aquilo um charme!
- Estamos indo surfar. Alguém vem junto? – Perguntou , animado.
Eu e Josh negamos, Matt sentou ao nosso lado e eles foram ao quiosque de pranchas. me beijou antes de sair, levando um pedala de Matt.
- Falei pra não abusar enquanto eu estiver por perto! – Resmungou ele. apenas mostrou a língua e saiu correndo atrás dos outros três.
- Muito bem, o que foi que eu perdi mesmo? – Perguntou Josh, encarando Matt. – Pelo que eu sabia, o moço ali estava proibido de encostar na nossa princesa aqui!
Rolei os olhos. De novo esse papo besta?
- Eu sei Josh, mas ele está mesmo se esforçando. E depois que ele apanhou para provar que ama a , eu achei que não custava nada dar uma força. Mas mantenho a idéia de que se ele a magoar, eu quebro o que sobrou da cara dele.
Ambos se calaram imediatamente ao verem correr em nossa direção com a prancha debaixo do braço.
- Amor, segura pra mim? – Pediu ele, estendendo o celular e a carteira para mim. Mandou um beijo no ar e saiu correndo para a água, onde os outros meninos já se encontravam.
- Amor? – Perguntou Josh, me encarando. Apenas balancei os ombros e coloquei as coisas de no meu bolso.
- Não custa dar crédito. Não muito, claro, mas vamos ver do que ele é capaz.
Matt e Josh se encararam, depois olharam juntos para o mar e finalmente para mim.
- Eu acho que eles formam um lindo casal! – Disse o maquiador, nos fazendo rir.
Começamos então a discutir o roteiro de gravações de , que parecia bem empenhado no surf e determinado a não fazer feio em frente às câmeras. O fim do dia chegou rápido. Eu ainda estava estirada nos sofás do deck com Matt de um lado e Josh do outro quando os meninos do McFly apareceram, pingando da cabeça aos pés. Combinamos de nos encontrar com eles em duas horas no restaurante do hotel para o jantar e eles saíram para se arrumar enquanto eu continuava a ser mimada pelos meus dois “irmãos” mais velhos.
Capítulo 13 – Bubbly
- Eu nunca pensei que fosse dizer isso na minha vida, mas o fez uma ótima escolha – ouvi comentar quando me aproximei da mesa no restaurante, horas mais tarde.
Acompanhei os olhares de todos e vi que observavam uma loira peituda, com roupas minúsculas, se servindo no buffet. Homens! Nem notaram minha presença. Reparei que havia dois lugares vagos à mesa: um em uma ponta, ao lado de , e o outro na outra ponta, ao lado de Josh, onde me sentei.
- Fechem as bocas, por favor? – falei irônica e todos eles pularam.
pareceu demorar a processar a informação de que eu estava com eles.
- , eu guardei esse lugar para você – disse ele sem jeito. – Senta aqui, poxa.
- Chama a loira ali para sentar ao seu lado, ! – respondi seca.
O quê? Eu sou mulher, oras! Vai ficar olhando outras enquanto eu não estou perto? No way!
- OUTCH! Ci-ú-me!
- Falou alguma coisa, ? – perguntei irritada.
- Não, . Nadinha.
O jantar foi silencioso, exceto por Matt e Josh, que conversavam sobre as filmagens do dia seguinte. Nem ao menos Matt se pronunciou sobre ter olhado outra garota. Ele sabia que se fizesse qualquer comentário, eu contaria à Jammie que ele também estava olhando.
- Terminei meu jantar, dispenso a sobremesa, boa noite! – eu disse.
Levantei antes que respondessem e saí do restaurante. Não fui ara o quarto, e sim para a praia. Não estava irritada com os meninos e nem com . Aquilo foi puro charme, claro. Estranhei o fato de ele não ter aparecido ainda. Continuei a andar, molhando meus pés na água do mar. Era uma noite quente e muito bonita. As estrelas brilhavam forte no céu e uma brisa fresca fazia meus cabelos balançarem levemente.
- ! – ouvi aquela voz que eu estava aprendendo a amar tanto me chamar.
Olhei para trás e vi correndo em minha direção com os chinelos na mão. Ele parecia receoso ao se aproximar, certamente analisando meu grau de raiva.
- Hey – eu disse sorrindo. Ele relaxou.
- Não faz mais isso – parecia preocupado de verdade comigo. – Eu te procurei no seu quarto, no salão de jogos do hotel. Achei que tivesse acontecido alguma coisa.
- Só vim andar – respondi rindo de sua afobação e ele me abraçou.
- Desculpa, eu não devia ter olhado para aquela menina.
- Nah, Nem fiquei brava, relaxa. Além do mais, olhar não tira pedaço, certo?
Destino, coincidência, milagre, o que você quiser. No exato momento em que eu falei aquela frase clichê, BUM, passou um senhor surfista por nós e eu não pude NÃO olhar.
- ! – disse incomodado. – Não tira pedaço, mas se disfarçado, poupa o coração alheio, sabia?
Eu ri! O coitado não gostou, mas foi bem mais forte do que eu. Ele me soltou e saiu andando. CI-Ú-ME!
- , vem aqui, vai – eu chamei, mas ele me ignorou. Eu é que não ia sair correndo. Sentei na areia e fiquei vendo a lua refletir no mar. O que estava acontecendo comigo? Desde quando eu me permitia ouvir meu coração? Desde quando eu me deixava apaixonar? Depois de tanto tempo eu estava sentindo ir tudo abaixo, tudo o que eu construí. Depois do incidente com meu último namorado e meu pai, eu jurei que nenhum homem me controlaria novamente. fazia isso com tal facilidade que eu me sentia uma marionete em suas mãos. Quando ele me abraçava, beijava minha testa, sorria, dizia meu nome. O fato de ele ter aparecido naquele dia com na minha sala, sem mais nem menos. Tudo o que o envolvia, começava a me sufocar. Não no mau sentido. Só deixava claro o quanto eu precisava dele, como a letra precisa da melodia para se tornar música. Chegava a ser patético.
Perdi a noção do tempo em que fiquei ali pensando. Só reparei que ainda estava na praia quando um ofegante sentou ao meu lado.
- Eu achei que você tinha vindo comigo, então fui andando, andando e quando olhei, você não estava lá... – ele parou quando viu que eu ria. – Não tem graça, !
- Ah, , tem sim! – eu respondi ainda rindo e me inclinei para beijá-lo, mas ele se esquivou. – Nossa, desculpa então!
Acho que o músico simpático que viajou comigo deve ter caído no mar durante as horas de surf. Ficamos alguns minutos em silêncio até que eu me levantei e fui para o meu quarto. Ele era um idiota, como Matt havia dito, e eu não deixaria nenhum idiota estragar tudo. Mesmo que fosse o idiota por quem eu havia acabado de me apaixonar.
Acordei cedo no dia seguinte para as gravações de . Matt, Josh, Maria, a modelo que gravaria com , e toda a equipe que havia chegado na noite anterior já tomavam café-da-manhã quando eu cheguei. Minutos depois, um com cara de sono deu o ar de sua graça e comemos todos juntos.
Quando terminamos, fomos rumo ao lado mais deserto da praia.
- Aconteceu alguma coisa para você estar tão calada? – perguntou ele enquanto eu passava protetor solar em suas costas.
- Eu só estou concentrada, .
- Ah, corta essa . Ta que eu sou gostoso, mas passar protetor em mim nem é assim tão complicado – eu ri da piada infame dele. – O que houve entre você e o ontem?
- O que te faz pensar que aconteceu algo ontem? – retruquei indiferente.
- Talvez o fato de eu ter falado “, descolei umas brasileiras gostosas, bora jogar strip-poker?” e ele ter dito “não dude, to sem ânimo, vou dormir”. Isso não é normal, nem mesmo para o .
- Não aconteceu nada. Isso é o pior! – respondi sem vontade.
não ficaria quieto enquanto eu não falasse o que supostamente aconteceu. Mesmo que não tenha acontecido nada, certifique-se de sempre ter uma história para contar a ele. – Nós apenas ficamos em um silêncio assustador.
- Silence is a scary sound – cantarolou ele. – E por que esse silêncio todo?
- Não sei , simplesmente aconteceu. Depois ele ficou todo bravo porque eu não fui atrás dele quando ele saiu batendo o pé pela praia. Quando voltou, eu tentei dar um beijo nele e ele não deixou!
- Uau! E por que ele estava bravo?
Fechei os olhos antes de responder, tentando relembrar a cara de desgosto de ao ver o surfista sarado que eu havia secado. Guardei o protetor solar na bolsa e espalhei o resto que tinha em minhas mãos no rosto de .
- Porque eu falei que não tinha ficado brava por ele ter olhado a peituda no restaurante – parei ao ver a cara sonhadora dele, certamente lembrando da menina. – Aí passou um belo surfista e eu olhei, claro.
- ! – exclamou ele numa imitação perfeita de . Ô raça! – Agora entendo o motivo do mau humor dele!
- Como assim? Ele pode olhar a loira peituda e eu não?
- Ele é homem, . Dê-se ao respeito, menina!
Ah, fiquei louca da via. Bando de machistas!
- , cala a boca antes que eu mande você enfiar o seu respeito em um lugar que você não vai gostar – ele apenas bufou. – Vamos gravar!
entrou no mar com sua enorme prancha e eu, da areia, me comunicava com ele usando um megafone. Enquanto eu dava instruções para o projeto de surfista à minha frente, Matt cuidava dos closes de Maria. Queríamos todas as imagens com o mesmo horário e a mesma luz. e estavam mais para trás, sentados na areia e rindo de , que caía constantemente da prancha. Nem sinal de .
O sol estava ficando cada vez mais forte e a luz direta começava a fazer sombra. Era a hora de parar.
- Okay, , pode sair do mar agora! – eu disse no megafone e ele caiu de novo. – Senhor, se continuarmos assim, precisaremos de um dublê de corpo para o nosso surfista ali!
Entreguei o aparelho para Matt, dei baixa nas gravações, olhei rapidamente os closes feitos na modelo e dispensei-os até às 15 horas daquele dia. O sol estaria mais fraco e não faria sombras. Perfeito!
- , você viu o por aí? – perguntou quando me aproximei.
- Não. Aliás, não o vejo desde ontem à noite.
Os meninos me encararam ligeiramente espantados. Sério que eles pensavam que eu e o querido fôssemos ficar grudados? Confesso que a cara deles me deixou meio preocupada. Se eles não sabiam de e eu não o via desde a noite anterior, onde diabos ele havia se metido?
Deixei para depois o banho de piscina que eu estava planejando e saí marchando rumo aos quartos. Parei na ponta do corredor ao ver que ele conversava com uma menina na porta de seu quarto. “Eles só estão conversando”, pensei eu com os meus botões. Aproximei-me lentamente e senti o sangue ferver quando deu um beijo demorado na bochecha da tal infeliz. Ao notar minha presença, ele me olhou assustado.
- !
- Boa tarde, ! - dei as costas e entrei no meu quarto, batendo a porta em seguida.
- Legal! Quarta vez! – ouvi dizer do outro lado da porta. – , abre, precisamos conversar.
Não respondi. Fingi que estava dormindo, tomando banho, me afogando na privada, qualquer coisa, menos que estava escutando-o. Ele, porém, continuou.
- Eu não vou agüentar sentir isso pela quinta vez, por favor, fala comigo. Ela era uma fã, eu estava saindo do meu quarto quando a encontrei. Só estávamos conversando, eu tinha acabado de autografar o CD dela. Amor, abre vai.
Amor? Amor? Amor é o rabo dele! Papo de fã. Até parece que eu acredito nisso. Vai ver se eu to na esquina, ! E quem disser que eu to com ciúmes, vai para a esquina com ele antes que eu descubra, entendeu? Humpf.
Ta legal, eu estava realmente e extremamente curiosa para saber que fim levaria aquela conversa toda. Peguei o roteiro que eu tinha guardado no meu quarto e abri a porta, me deparando com sentado no chão e encostado na parede em frente.
- Falou alguma coisa? – perguntei indiferente.
- , me escuta. Ela não era ninguém, era só uma fã – ele respondeu se levantando rapidamente e vindo me abraçar. – Vamos parar com isso, está bem? Eu já senti quatro vezes que te perdi e isso em menos de 24 horas. Não quero continuar nessa guerra toda.
- Me perdeu quatro vezes? , quantas você já bebeu hoje? – perguntei me afastando dele.
- Senti que te perdi quando você me flagrou olhando a menina, senti que te perdi quando você olhou o cara, senti que te perdi quando fui idiota e recusei te beijar e você saiu andando e senti que te perdi quando vi sua cara agora! – ele respondeu contando nos dedos. – Já chega de tortura, né?
Por essa eu definitivamente não esperava! Ele me perdeu todas essas vezes e, no entanto, eu não tinha ido a lugar algum. Pobrezinho, tão novo e delirando tanto.
- , você anda sentindo demais, isso sim. Eu estive aqui esse tempo todo, você que ficou com graça! – eu retruquei e saí andando. Ele me segurou pelo braço e me puxou de volta.
- Eu sei, pequena, desculpa. Eu sou um otário, pode falar. Pode falar que me odeia, que quer me ver longe, que eu não presto.
- Mas não era o contrário que você queria ouvir? – perguntei confusa.
- Sim, mas isso faz parte, não faz? Você briga comigo, eu me desculpo, você passa a me odiar e eu fico te mimando até você ver que eu me arrependi profundamente e me perdoar. Certo?
- Quanta besteira em uma teoria só! – eu disse rindo.
Ele é esperto. Percebeu que eu não estava mais brava e foi me abraçando de vagar pela cintura, me puxando para perto dele e tudo mais.
- Isso significa que eu já estou perdoado? – ele perguntou beijando meu pescoço.
Baita arrepio, falo mesmo! Aquelas mãos enormes apertando minha cintura, esse rapaz bem apessoado fungando no meu cangote. Jesus apaga a luz!
- Está, , está! – respondi com certa dificuldade.
Ele me olhou nos olhos com um sorriso de orelha a orelha e me beijou. Quantos graus faziam lá fora mesmo? Porque naquele corredor devia estar uns 50ºC. Sem brincadeira, na hora que ele me encostou na parede sem desgrudar nossas bocas e foi passando a mão nas minhas costas, eu senti até falta de ar. Ô rapaz que sabe pegar!
Ouvimos vozes se aproximando e nos desgrudamos brevemente. Abri a porta do meu quarto e o puxei para dentro. Assim que ouvimos o baque surdo que indicava que estávamos seguros, voltamos a nos agarrar. Não era o que eu queria. Quero dizer, era, mas assim, tão rápido? ia me puxando daqui, levantando dali, colocando a mão acolá, foi me dando um negócio, uma tontura, uma falta de ar, e antes que algum piadista diga que era fogo, eu simplesmente o empurrei com toda minha força, fazendo-o cair ao meu lado na cama.
- O que foi, ? - perguntou ele visivelmente atordoado por ter sido interrompido.
- Eu não consigo, . Não dá, desculpa - eu respondi e sentei na cama.
Deus sabe o que se passava pela minha cabeça, mas como Deus não é (apesar de eu ter lá minhas dúvidas), ele ficou assustado ao me ver tremendo e segurando o choro.
- Ei, calma. Tudo bem se você não quer, ! - disse ele me colocando sentada entre suas pernas e me abraçando carinhosamente. - Eu não vou te forçar, espero o tempo que você quiser.
Aquelas lembranças horríveis começaram a invadir minha mente. Meu ex-namorado, parede, gritos, meu pai, tudo o que eu lutara tanto para afastar de mim ameaçava voltar com uma força terrível. pegou sua camiseta que estava jogada na cama e me fez vestir, já que minha blusa estava pendurada na porta do banheiro. Não me perguntem, não sei como ela foi parar lá. Ficamos assim, quietos, até que eu ouvi meu celular tocar. Olhei no visor e vi que era Matt. Entreguei-o a e pedi que atendesse.
- Oi Matt. Não, não aconteceu nada. Estávamos só conversando. Gravar? - ele me olhou pedindo ajuda - Na-não, acho que ela não vai. Ela está meio... ahn... doente! Isso, ela estava reclamando de dor de cabeça e eu vim cuidar dela. Não, Matt, não é culpa minha. Tá, eu falo. Sim. Sim. Sim. Sim. Tá legal, Matt, tchau!
- O que ele disse? - perguntei curiosa.
- Que se ele descobrir que foi culpa minha, ele vai cortar o que eu tenho entre as pernas! - respondeu com cara de dor. - Disse também para você descansar que ele cuida das gravações da tarde.
Apenas concordei com a cabeça. Eu estava sem jeito depois de ter acabado com a festa dele. Ele parece ter sentido que eu não queria falar muito, pois apenas se acomodou na minha cama e me puxou, fazendo com que eu deitasse minha cabeça em seu peito. fazia carinho na minha cabeça enquanto eu permanecia encolhida ao seu lado. Ligou a TV, mas não parava em canal algum, apenas procurando algo para se distrair.
- Desculpa? - perguntei tímida.
- Desculpa pelo quê, pequena?
- Por ter estragado tudo. Eu queria, , sério, mas eu não consigo.
Ele me olhou carinhosamente. Coisa fofa da vida da !
- Se você me disser que é a sua primeira vez, eu vou me sentir honrado e vou ficar tranqüilo. Se você me disser que não é, vou ficar preocupado. Mas jamais bravo por não termos transado, pequena. Isso nunca! - ele respondeu e beijou minha testa. - Você vale mais do que umas horas de sexo, acredite.
Nem nos meus maiores sonhos eu imaginaria um cara tão fofo como ele. Pensei bem antes de responder qualquer coisa. Não era a hora ainda, só isso. Ele entenderia.
- Não, não é a minha primeira vez - eu respondi e ele levantou as sobrancelhas. - Mas eu não quero falar sobre isso ainda, tá? É muito... ruim.
Senti novas e grossas lágrimas inundarem meus olhos e ele somente me apertou mais ainda contra seu corpo, murmurando que não se importava e que esperaria o tempo que fosse. Senti meu corpo amolecer conforme acariciava minha cabeça. Eu estava cansada e abalada. Mal lembro do último canal que ele passou na TV, apenas que eu estava nos braços de um anjo e ali mesmo, adormeci.
Capítulo 14 - I hate this part
Ouvi algumas vozes vindo de algum lugar, certamente de outra dimensão da que eu me encontrava. Eu nem ao menos entendia direito o que todo mundo dizia. Sim, todo mundo, porque tinha no mínimo umas quatro pessoas falando ali. Será que começara alguma novela que eu não conhecia e todo mundo falava ao mesmo tempo? Afinal, pelo que eu me lembro, eu havia adormecido sobre o peito de e com a TV ligada. . Fofo até. Ele deve ter colocado a camiseta, porque eu não sentia mais sua pele grudando no meu rosto. Mas a camiseta dele ainda estava comigo. Oh, céus, será que vestiu a minha camiseta? Impossível, ela não caberia naqueles ombros largos e naqueles braços fortes. Mas então o que era aquilo que ele estava usando?
Apalpei a superfície em que meu rosto estava e notei que não era assim tão fofo. Ele não era gordo para afundar quando eu apertasse. Abri um olho só, na esperança de entender o que se passava ali e constatei que aquele não era . Ele nem ao menos estava ali. Era o travesseiro e as vozes vinham da porta do meu quarto.
- Eu não sei o que aconteceu, só sei que ela não estava bem, mas não foi nada que eu tenha feito. Pelo menos é o que eu espero – ouvi dizer daquele jeito carinhoso e preocupado que só ele tinha. – Pensei até que você soubesse o que aconteceu com ela, Matt. Vocês são amigos e tal.
- Não, a nunca falou nada sobre a vida amorosa dela – respondeu Matt.
- E nós também nunca perguntamos – completou Josh.
deu um profundo suspiro e pude ver suas costas tombarem para o lado, até que ele encostou o batente da porta.
- Bom, seja lá o que for ela vai te contar um dia, . E se ela está melhor, é o que conta – ouvi a voz de . Meu adorado . – Não esquece da festa de hoje e vê se ela quer ir.
Festa? Que festa? Ninguém me falou de festa nenhuma. , apresente-se já!
- Falou dudes, vou conversar com ela.
Eles se despediram e eu fechei meus olhos rapidamente. Não queria que ele tivesse percebido que eu ouvi uma parte da conversa. Senti um lado da cama afundar e percebi que ele já se encontrava deitado ao meu lado.
- , acorda pequena. Você dormiu a tarde toda – disse ele baixinho enquanto passava a mão levemente pelo meu rosto.
- Hum.
- Vamos, sem preguiça! – ele disse e começou a me cutucar.
- Ta, já acordei! – respondi fingindo estar mal-humorada.
Fingindo, claro. Acorda com um cara desses te cutucando e vamos ver se você vai estar de mal-humor. Impossível! apenas sorriu e me deu um selinho. Fiz careta e o afastei. Eu tinha acabado de acordar! Levantei, fui rapidinho no banheiro, escovei os dentes e voltei. Ele estava novamente zapeando os canais de TV e eu deitei ao seu lado.
- Vai ter uma festa na boate do hotel hoje à noite – disse ele me abraçando. – Os meninos vieram chamar a gente. Quer ir?
- Por mim tudo bem – respondi olhando-o. – Algum tema específico?
- Não, só uma festa com muita bebida e gente dançando.
- A parte da bebida eu dispenso, mas da dança eu tô dentro! – eu falei levantando minha mão. Ele riu e me beijou.
- Quer conversar sobre o que houve mais cedo? – perguntou mexendo no meu cabelo.
- Ainda não – eu respondi encarando minhas unhas. Os olhos dele seriam fortes demais para que eu os olhasse agora.
- Tudo bem!
E lá estávamos nós naquele silêncio chato de novo. Isso não daria certo, tenho certeza! Mas ainda não era a hora de saber. E se ele não fosse o cara com quem eu passaria o resto da minha vida? Isso não seria certo, eu não posso sair abrindo a minha vida assim, pra todo mundo. Sem chances. teria que esperar até o casamento. Casamento? O que eu to falando? Senhor, hora de tomar um banho!
- Bom, se temos uma festa para ir, melhor o senhor começar a se mexer – eu disse tirando o controle da mão dele e o empurrando para fora da minha cama. – Vamos, hora do banho, criança!
- E o que eu ganho se eu for bonzinho tomar banho? – aquilo era hora de provocar? Bobão!
- Ganha um “hum, você está cheiroso”! – respondi rindo. – Tchau, !
Dei um selinho nele e fechei a porta. Certo, agora era a hora em que eu tentava me matar por não ter levado uma roupa de festa! Alguém me socorre?
Saí do banho ainda pensando no que eu poderia fazer com as roupas que eu havia trazido. Embora muita gente pense que não, em Londres também faz calor. Revirei minha mala e decidi que uma saia jeans, uma blusa roxa e minhas sandálias prata estariam de bom tamanho. Joguei um colar prata, comprido, com um cachorrinho pendurado, presente de minha avó de consideração, por cima da blusa roxa, coloquei brincos de argola e pronto. Aquela maquiagem de leve para esconder minha cara de sono, perfuminho básico e quando eu ia gritar “to gata”, ouvi alguém bater na porta. Algum palpite sobre o autor da batidinha?
- Uau! – disse quando me viu – Tudo isso é para mim?
- Não – respondi dando um selinho nele. – É para a festa que estamos indo!
- Você sabe mesmo como acabar com a minha festa, não é? – ele resmungou me abraçando por trás.
- Ta bom! – eu disse parando bruscamente. Virei de frente para ele e dei um beijo em seu queixo – É tudo para você. Satisfeito?
Ele me olhou com uma expressão maliciosa em seu rosto. Em seguida, me beijou, dando a entender que estava sim satisfeito. Vamos lá, , controle, muito controle.
Continuamos o nosso caminho de mãos dadas até a boate do hotel. Encontramos todos os meninos e alguns membros da minha equipe de filmagens já na mesa reservada para o nosso grupo. me deixou aos cuidados de (grande coisa!) e foi buscar algo para bebermos. Como combinado, teríamos uma rodada de caipirinha para todos e eu pararia por aí mesmo. Não sou de beber muito e quero manter o controle durante toda a noite. Nem a fim de sair carregada e pagar mico. Sou uma moça de família, oras.
- Lugar legal, né? – perguntou parando ao meu lado. estava atrás de mim e me abraçava pela cintura.
- Bem bonito aqui – respondi dando um gole na minha bebida. – Ah meu Deus, adoro essa música. Vamos dançar, ?
Breakin' Dishes (Rihanna) começou a tocar nas enormes caixas de som do lugar e eu já estava impaciente, louca para dançar.
- Ah não, . Não tenho o menor talento para dançar! – ele respondeu.
- ? Vem comigo? – pedi suplicante.
- Ih, , eu danço menos que o , acredite.
- Seus maricas! – eu disse e saí de perto deles. – , é tu mesmo, meu filho. Vem dançar comigo!
Nem deixei responder, peguei-o pela mão e o puxei para o centro da pista. Ele já estava alto pela bebida, então nem se incomodou muito. Nem sabia onde estava indo mesmo! Dançamos colados, indo até o chão e voltando. Engraçado, eu jamais imaginei dançando daquele jeito. Ele tinha ritmo, tinha coordenação e tinha mãos enormes também. Senhor, minha cintura ficou pequena para aquelas mãos!
Ele começou a me girar daqui, puxar dali. Pelo pouco que vi da cara de , ele não estava nadica contente. Bem feito! Me distraí e levei um susto quando me puxou de novo e eu enterrei meu nariz em seu pescoço. Rapaz cheiroso viu? Pólo Black naquele pescoço mata qualquer uma. Incluindo eu, mesmo sabendo que um dos melhores amigos dele estava ali nos olhando e, por acaso, é o mesmo amigo que eu to pegando. Mas isso acontece, certo? Diz que sim, vai?
- Nossa, não sabia que você dançava tanto assim! – eu disse rindo.
- Você pode achar fogo em um homem frio – respondeu ele de forma sedutora e divertida enquanto me girava pela última vez.
Quando a música acabou, me deu um abraço forte, me tirando do chão e me levou até .
- Está entregue – disse ele em tom divertido. – Deixa de ser menininha e dança com ela, . A sabe dançar bem!
- Já temos você para isso, ! – respondeu ele emburrado.
- Ah, sem ciúmes, vai. é teu amigo, poxa! – eu disse beijando o rosto de .
Quando você gosta de um cara, devia vir manual de instruções. Tipo, “ele é super dengoso, mime-o bastante”, entre outras coisas mais. com certeza viria com uma lista enorme de instruções de como agrada-lo. E eu, besta de tudo, seguiria todinhas à risca. Ô merda de paixonite!
- Não estou com ciúmes! – ele disse ainda fazendo bico.
- Se não está, então dá um sorriso!
- Isso é covardia! – respondeu rindo e em seguida me beijou.
- Ô casal maravilha, vamos parando de se agarrar aí e bora dançar, vai! – gritou do meio da pista, totalmente bêbado.
Olhei para , que me devolveu o olhar de forma divertida, e caímos na pista junto com todo mundo. Ao contrário do que ele dizia não era ruim de dança, só era tímido demais para se soltar na frente de todo mundo. Mas nada que uma cantadinha e um beijinho no pescoço dele não tenham ajudado! Josh e eu éramos, sem dúvida, os mais empolgados da turma toda. Dançamos e pulamos ao som de Katy Perry, que soltava a voz com Hot ‘N Cold, fazendo até o mais travado ( ) arriscar uns passinhos.
Saímos de lá mais de quatro e tantas da manhã. e riam até de suas sombras enquanto fazia as piadas mais ridículas do mundo. imitava personagens bobos, tentando atrair a atenção de alguém e eu apenas olhava os quatro meninos que estavam fazendo parte da minha vida há tão pouco tempo, mas que me passavam certa segurança. Agora, definitivamente, eu tinha certeza de que eu jamais voltaria a morar no Brasil. Não com a família que eu mesma montei em Londres. Os meus amigos, os meus amores. A minha vida.
Capítulo 15 – Gotta be somebody
Bom dia sol, bom dia praia, bom dia Fernando de Noronha! Depois de toda a bebedeira da noite anterior, eu achei digno deixar todo mundo dormir e fui para a piscina me torrar um pouquinho. Fazia um dia tão lindo que eu não consegui ficar mais tempo na cama. Pensei em me vingar de , que tinha ido parar no meu quarto sabe Deus como e dormia feito uma criança, e acorda-lo para ir à praia comigo, mas fiquei com dó.
Me arrumei toda e fui para o deck do hotel escolher minha espreguiçadeira. Êta vida boa!
- Eu to falando, vi o do McFly no corredor do hotel ontem – ouvi uma menina dizer à amiga. – Eles estão aqui e ninguém sabe.
- Todos eles estão? Ou só o ? – perguntou a outra enquanto passava bronzeador.
- Acho que todos eles. Parece que estão no Brasil filmando um clipe, então devem estar todos aqui.
- Ótimo, assim vou poder dar uns pegas no !
Dar uns pegas no teu focinho, sua... gorda! Vê se pode, logo cedo cobiçando o homem alheio. Ora, faça-me o favor, essas meninas de hoje em dia não tem mais controle no fogo que emana de baixo de suas saias! Mexi-me na cadeira desconfortavelmente, rezando para que aparecesse ali e me desse aquele beijou que ele sempre dá e que me deixa sem fôlego, só para calar a boca dela.
- Vou tentar descobrir os quartos deles. Não deve ser assim tão difícil – disse a menina que viu no corredor. – Será que não vai rolar nenhum showzinho?
- O que mais me espanta – completou a outra – é que nem no Addiction saiu alguma coisa sobre a estadia deles. A gente sabe que eles estão no Brasil, mas nem eles sabem onde!
- Talvez até saibam, mas não possam divulgar, sei lá. Bom, de qualquer forma, eles estão aqui e nós vamos pega-los!
Ouvi o barulho das mãos se chocando em um hi-five e revirei os olhos. Babacas! Levantei num impulso e me joguei na piscina. Nem reparei que alguém estava parado ao meu lado quando levantei, passando assim sem ao menos olhar. Quando voltei à superfície, pude ver as duas meninas boquiabertas e me encarando confuso por trás dos óculos de sol.
- Bom dia para você também, amor! – disse ele sentando-se na minha cadeira.
- Hey, desculpa. Não vi que você estava aí! – eu respondi parando na beirada da piscina – Pensei que você fosse dormir até tarde hoje, considerando o seu sono pesado.
Ele sorriu e tirou a camiseta. Depois, sentou-se na beirada da piscina e me deu um selinho. As outras duas ainda nos olhavam espantadas.
- Eu ia, mas acordei de repente e não te vi do meu lado. Pelo sol imaginei que você estaria aqui ou na praia, então vim também. Não queria perder o dia dormindo. Não quando estou em um lugar tão lindo e com uma garota tão perfeita.
- Já ganhou alguém com essa cantada barata, ? – perguntei rindo.
- Estou tentando ainda. Por que, te ganhei? – ele retrucou levantando uma sobrancelha.
- Quase! – eu respondi e ele me beijou.
Ouvi as meninas cochicharem atrás de nós e comecei a prestar mais atenção.
- Nossa ainda bem que ela só fala inglês. Imagina se ela entende o que eu falei do namorado dela? – disse a menina que tinha falado de pegar o .
- Mas eu também falo português, viu? – eu disse nos poucos segundos em que descolamos nossas bocas.
me olhou confuso e eu disse que depois explicava. Ele apenas sorriu e voltou a me beijar, resmungando quando eu me afastei e saí da piscina.
- Protetor solar, mocinho!
Ele fez cara de sofrimento, sentou novamente na cadeira e ficou observando o mar enquanto eu espalhava o creme por toda a extensão de suas costas.
- , por favor, tente se manter em cima da prancha por pelo menos um minuto. Não vai doer, eu juro! – eu disse no megafone horas mais tarde.
Estávamos todos na praia novamente. A cena em que caía da prancha foi gravada logo de primeira, já que ele fazia isso com tanta facilidade como respirar. Inacreditável a falta de equilíbrio dele.
- Ah, molenga! – gritou atrás de mim.
- Vai lá amiga, você consegue! – completou fazendo uma voz de gay.
- Meninos – eu disse me virando para eles – se não vão ajudar, não atrapalhem!
Eles se desculparam e prometeram ficar quietos. Alguém aí acreditou?
Maria já tinha sido dispensada e tinha seu vôo marcado para o dia seguinte. Ela ia para o Rio de Janeiro, onde faria o catálogo de uma grife de biquínis. Só precisávamos manter tempo suficiente sobre a prancha para que ele fosse filmado.
- Vamos lá , três, dois, um.
Dei a largada e ele começou tudo de novo.
- Pelo amor de Deus, fica em cima dessa prancha – resmungou Matt ao meu lado.
- Pensei a mesma coisa! – respondi sem tirar os olhos de .
Olhei para o câmera e ele confirmou que tínhamos dois minutos gravados. Aleluia.
- CORTA! – gritei no megafone – Muito bem, !
Joguei o aparelho em cima de Matt e saí correndo. Entrei no mar de roupa e tudo e me joguei em cima de .
- Ai, quer me matar? – ele perguntou rindo enquanto me segurava.
- Eu queria, mas agora não quero mais!
- Ficou bom?
- Tava na hora, né? – respondi rindo.
Saímos do mar e a camareira me entregou uma toalha. Joguei-a sobre meu ombro e me juntei à equipe novamente.
- Muito bem, - começou Josh – meu trabalho terminou?
- Terminou, amor! – respondi abraçando-o. – Aliás, quem quiser pode aproveitar esses dois últimos dias aqui no Brasil. Estão todos dispensados até segunda feira. E quem preferir, pode voltar para casa, sem problemas. Só me avise para eu ter certeza que não perdi ninguém por aqui!
Todos riram e começaram a guardar seus equipamentos. Matt e Josh vinham juntos ao meu encontro.
- , eu vou voltar para Londres. A Jammie precisa de mim.
- Tudo bem, Matt. Eu vou ficar até sábado mesmo. Domingo de manhã eu embarco e nos vemos na segunda, certo?
- Certo! – confirmou ele e me abraçou.
- Eu vou com ele, princesa. Você vai ficar bem aqui? – perguntou Josh arrumando a toalha no meu ombro.
- Claro que vou, Josh. Vão tranqüilos, tenham uma ótima viagem e me liguem assim que chegarem, okay? – eu ordenei em tom maternal.
Ambos bateram continência e saíram para arrumar suas coisas. Olhei para o mar e não vi mais , assim como e também não estavam mais na areia. Senti, porém, um par de olhos me observando e não pude não sorrir ao ver parado a alguns metros de distância. Ele abriu os braços e como num filme bobo de comédia romântica, eu corri e me joguei em cima dele.
- Parabéns! Tenho certeza que esse vai ser o nosso melhor clipe! – ele disse beijando todo o meu rosto.
- Devo agradecer aos meus protagonistas, que agüentaram meus gritos e minhas ordens o tempo todo!
sorriu e me beijou. Assistimos ao pôr-do-sol sentados na areia, abraçados como todo bom casal. Mas espera, nós somos um casal? Tipo, nunca disse nada. E quando as fãs histéricas vierem me perguntar, o que eu digo? “Ah não, só to pegando ele há algumas semanas, mas nada demais, não se preocupa. Logo ele será todo seu novamente”? É, talvez, mas é estranho. De qualquer forma, isso não importa agora. Ou pelo menos eu achava que não importasse. Enquanto estávamos no melhor clima “ele é o genro que mamãe pediu à Deus” e “ela é a nora que mamãe pediu à Virgem Maria”, uma santa infelicidade de um filho de uma boa mãe de um idiota de um fotógrafo estava fazendo a festa às nossas custas. Ou costas, o que você preferir. E nós não percebemos, porque estávamos ocupados demais nos beijando para perceber os movimentos ao nosso redor. Somos dois grandes idiotas!
- Eu não acredito nisso, foi muita irresponsabilidade de vocês. O McFly devia estar anonimamente aqui, como vocês foram dar essa bandeira toda? – ouvi Fletch gritar no quarto de .
- Com licença – eu disse colocando a cabeça dentro do quarto. – Mandaram me chamar?
- Oi , entra – disse vindo me receber.
estava sentado na cama com a pior cara que eu já vi. Um misto de raiva, tristeza e... nada. Sabe quando a pessoa fica com aquela cara de bunda que dá pra saber que ela ta brava, mas não dá pra saber o que ela ta pensando? Então, é o próprio.
- Muito bem, quanto você pagou por isso? – perguntou Fletch vindo pra cima de mim.
- FLETCH! – gritou se colocando entre nós. – Para com isso, a não seria capaz de uma coisa dessas.
Demorei para perceber que estavam os quatro meninos e o empresário deles dentro do quarto de .
- Fiz o que, gente? O que aconteceu? – perguntei confusa.
Fletch soltou uma risada irônica e me guiou até o laptop de , que estava em cima da mesa. Sentei ao ver a imagem e o texto.
- “ curte o pôr-do-sol ao lado de sua namorada no Brasil”? - li chocada.
- Vamos, fala, quanto você pagou para esse fotógrafo flagrar vocês?
- Ei! Eu não paguei nada, Fletch! – respondi indignada. – Além do que, qual o objetivo para isso? Não quero ficar famosa, não tenho uma carreira artística, não preciso disso!
- Ela tem razão, cara – respondeu em minha defesa. – A trabalha por trás das câmeras, não faz sentido isso.
- Aconteceu, Fletch, não é o fim do mundo também – completou Danny. – E o aqui ta sempre de namorada nova, não é nada demais essa matéria.
HEIN?
- Você não vai se pronunciar, ? – perguntou Fletch e todos nós o encaramos.
- Não sei porque essa bagunça toda. Quero dizer, nós nem somos um casal, nem nada do tipo. É só mandar um e-mail desmentindo tudo e pronto! – disse ele sem me olhar.
Então não éramos um casal. Mas disso eu já sabia. ENTÃO POR QUE AQUILO TINHA ME AFETADO? Raios!
- , você tem certeza do que você ta falando? – perguntou ao ver minha expressão de desgosto.
- Claro, dude. A é nossa diretora, a gente ta se pegando, só isso.
- É. Só um caso por conveniência. Quero dizer, eu faço o melhor clipe da vida do McFly segundo o bonitinho ali – respondi irritada e apontando para – e, em troca, além de pagar a empresa que eu trabalho, a gente se pega. Sabe como é, brinde pelo bom desempenho na produção. Acontece o tempo todo, certo?
Virei as costas e comecei a rumar decidida para fora daquele quarto.
- Calma aí, , também não é assim – eu ouvi dizer. Dessa vez ele me olhava e estava em pé.
- E quer saber, ? O clipe acabou! A fase de pós-produção é feita dentro da empresa e não precisaremos mais gravar nada e nem viajar – eu dizia enquanto me aproximava dele. – O seu clipe estará pronto no prazo pedido pelo empresário de vocês.
- Isso eu sei, pequena, nunca duvidei da sua capacidade – ele respondeu sem jeito.
- Ótimo! Espero que meu desempenho no nosso caso também tenha sido satisfatório como foi no clipe. E só para constar, estou indo para casa. A viagem pra mim acabou!
- , espera! – disse me seguindo até a porta.
- E mais uma coisa: o nosso caso acabou com esse clipe – eu disse e me aproximei mais ainda. Parei com os lábios a centímetros do ouvido de . – Eu poderia ter me apaixonado!
Fui para o meu quarto, onde fiquei nas minhas últimas horas no Brasil.
Capítulo 16 – Until U love U
Quando eu era mais nova, eu gostava de brincar de Barbie como todas as garotas. Até os meus 10 anos eu usava outra Barbie para fazer o papel de homem. Quando ganhei o meu primeiro Ken, aquele namorado sarado e bonitão que a Barbie tinha, eu achei estranho que ele fosse um pouquinho mais alto do que ela e parecesse tão mais forte.
Perguntei então à minha mãe o porquê de ele ser maior e ela disse que era porque o homem tinha que proteger a mulher. O “Papai do Céu” fez o homem mais forte para que ele defendesse sua amada dos perigos e pudesse oferecer conforto quando ela precisasse de um abraço. Aquele famoso abraço que nos traz segurança. Sentimos isso dos amigos, do irmão, do pai, do tio, do avô, mas o principal é o do nosso namorado/marido. Ele é o escolhido pelo destino e pelo nosso coração para nos proteger. E é aí que eu me pergunto: se ele devia me proteger, por que ele me machuca tanto, mesmo quando estamos separados por um oceano?
- Esse você manda para a responsável pela produção da equipe do Mike. Não tem nada a ver comigo – eu ia dizendo e passando as correspondências para a senhora que empurrava um carrinho ao meu lado. – Bom dia Josh.
- Bom dia, princesa.
Josh estava sentado na sala de espera que ficava em frente à minha sala junto com o responsável pelas compras do departamento de produção. Deviam estar escolhendo novas maquiagens ou algo do tipo.
Peguei todas as correspondências endereçadas à mim e fui para a minha mesa. Joguei todas de qualquer jeito num canto e fui pendurar meu casaco, repleto de flocos de neve. Diabos, por mais que eu sacodisse, sempre ficava um ou outro floquinho. Que seja. Sentei na minha confortável cadeira e, enquanto meu computador ia ligando, fui separando as cartas que haviam chegado. Alguns exemplares de revistas, anúncios. Nada de interessante.
- Não! – gritou Matt pulando em cima de mim, arrancando uma revista que eu tinha acabado de encostar e jogando pela janela.
- Matthew, o que é isso? – eu perguntei assustada – Até parece que a revista ia me morder ou algo assim.
- Pior, acredite! – disse ele ofegante – Bom dia de segunda feira para você, brasileirinha.
Ele deu seu melhor sorriso, mas não me convenceu. Alguma coisa estava bem errada ali naquela revista para que Matt a arrancasse assim da minha mão.
- Pois não, senhora? – disse a secretária pelo telefone.
- Judith você poderia, por favor, me arranjar outro exemplar da Top Of The Pops? O Matt deixou a minha cair pela janela! – eu disse fuzilando-o com os olhos.
- Claro, senhora, num minuto.
Ta, foram dois, mas logo a secretária miúda e com voz infantil entrou na minha sala com a revista dentro de um envelope. Matt olhava o pacote como se fosse uma bomba prestes a explodir. Será que eu saí tão mal assim na foto?
- Ah, antes que eu esqueça, - eu disse colocando o envelope sobre a mesa – nessa sala agora só me refiro ao como Senhor e, odeio dizer isso, mas é uma ordem que você, como meu estagiário, também o faça. O nome dele aqui está proibido a não ser em circunstâncias profissionais e eu te proíbo mais ainda Matthew de me arrastar para qualquer seleção de clipes do McFly. Estamos entendidos?
- Uau! Posso ao menos saber o motivo? – perguntou ele sem tirar os olhos da revista.
- Pessoal! – respondi abrindo o envelope.
Pude ouvir Matt prender a respiração tamanha a tensão que estava naquela sala. E, bem, nada foi pior do que ler o que aquelas palavras imensas formavam na capa. Elas gritavam, giravam ao meu redor. Eu podia ver letrinhas correndo na minha sala, sem brincadeira.
“Mal posso esperar para ver nosso filho!”
fala sobre a surpresa de descobrir que espera
um filho de seu ex-namorado, .
Se jogassem uma bomba ali do meu lado, eu jamais perceberia. Grávida? Como assim, grávida? Se alguém falar que o colocou a maldita sementinha nela, eu juro que mando à merda! Então todo aquele tempo que ele disse que tinha terminado com ela era mentira? Ele só tinha me usado para passar o tempo? Foi mesmo um caso de conveniência?
Joguei a revista sobre a mesa e minha aparência não devia ser das melhores. Matt já estava ao meu lado me abanando e Josh estava parado na minha frente com um copo de água nas mãos. Como ele entrou ali? Nem vi! Forçaram-me a beber água e pouco a pouco eu pude sentir o sangue voltar a correr por minhas veias. Então era isso. Era o nosso fim definitivo. Abri a revista direto na página e corri os olhos pela matéria. O que mais me chamou a atenção foi a última linha, onde a frase “o que será que a diretora Mariana Pereira acha dessa situação?”. O que eu acho? Pois bem, vou dizer o que eu acho dessa situação. Eu acho que essa vaca devia pegar o filho dela e ir pro raio que os parta e levar o pai do bebê junto. Eu acho que eles deviam dar as mãos e sair andando. Eu acho que... eu não acho mais porra nenhuma!
Joguei a revista em qualquer canto da sala e me levantei. Arrumei minha roupa, bebi o resto da água que se encontrava no copo à minha frente e respirei fundo.
- Vamos lá, quero ver como anda a edição do clipe deles – eu disse saindo da sala.
- , eu não acho que seja uma boa idéia ver isso agora – respondeu Matt tentando me impedir.
- Matthew, eu vou ver essa edição e acabou. Não vai ser o que vai destruir minha vida, acredite!
E não foi até aquele momento. Ou até dois dias depois. O vídeo estava quase pronto, eu apresentaria a obra concluída para o McFly e depois levaria minha vida normalmente. Ou quase, já que por quase dois dias o telefone não parou de tocar. Eram jornalistas sedentos de informações sobre o meu breve relacionamento com e querendo saber a minha opinião sobre a gravidez de . Recusei qualquer entrevista alegando que eu não sabia do que eles estavam falando.
- Certamente era alguém parecida comigo – eu respondia a um repórter que por infelicidade do destino tinha conseguido meu celular. – Nunca tive nada com o Sr. , temos um relacionamento estritamente profissional. Bom, não tivemos nada porque homens como não fazem o meu tipo e é a espécie exata de quem eu quero manter distância.
Entrei em minha sala absorta na conversa e nem sequer me dei ao trabalho de dar a volta. Sairia em cinco minutos, só precisava pegar meu casaco.
- Que pena! – ouvi uma voz conhecida vindo do sofá na minha sala e dei um pulo.
Meu coração acelerou no mínimo uns 500% e eu senti minhas mãos suarem. Não precisei me virar para ver quem era. O timbre de sua voz já denunciava. A doce e rouca voz de .
- Posso ajudar em alguma coisa, Sr. ? – eu disse baixo e sem me virar.
- Pode começar não me chamando de Sr. . Já te pedi isso, – ele respondeu sem emoção.
- Perdoe-me, senhor – eu disse me virando e o encarando pela primeira vez depois de quase uma semana. – Não costumo tratar meus clientes de outra forma. Creio que não posso fazer mais nada pelo senhor, já que o vídeo de sua banda está com a equipe de pós-produção. Sendo assim, o senhor pode gentilmente se retirar da minha sala.
Aqueles olhos foram um enorme desafio para a minha sanidade mental. Respirei fundo e passei por ele, sentando em minha cadeira e mexendo em qualquer coisa que eu visse pela frente.
- Não me trata assim, pequena. Eu... Preciso de você.
Voltei a olhá-lo. Agora ele precisa de mim? Agora que ele vai ser pai? Ah é, me contratar de babá. Aquela babá que tem um caso com o pai da criança. O nariz dele que eu vou ser isso. Não largo minha carreira por nada.
- Você não precisa mais de mim e não precisa mais se preocupar comigo, se é que um dia você fez isso. E quer saber, ? – eu disse levantando e pegando meu casaco – Eu não tenho tempo para as suas conversas idiotas.
Eu ía sair quando o ouvi fungar. Ah não, homem chorando na minha sala não. Parei na porta, com a mão na maçaneta e vi ainda parado, de costas pra mim. Seus ombros balançavam quase imperceptivelmente. Nem a mais cruel das criaturas deixaria isso passar assim. Instintivamente coloquei a mão sobre um de seus ombros e ele se virou de frente para mim. Seus olhos estavam molhados, resultado da inundação de lágrimas e no momento em que ele me viu, se lançou contra mim e me abraçou com força.
- Me perdoa? Eu não sei mais pra quem correr, todo mundo virou a cara pra mim. Eu não sei o que eu faço – ele dizia embolado enquanto chorava.
Conduzi-o até o sofá e lhe entreguei um copo com água. Sorte que Matt havia ido embora, ou ele certamente partiria a cara de . Não falei nada. Sabia que ele começaria mais cedo ou mais tarde a mandar rios e rios de palavras, talvez até incompreensíveis, mas ele precisaria disso. E eu finalmente teria garantido meu lugar no céu ao ouvir o desabafo do cara que me pegou de passatempo!
- Não é meu filho, eu tenho certeza. E eu fiquei sabendo disso da pior forma. Você não imagina o que é acordar com o seu empresário na sua porta, berrando e esfregando uma maldita revista na sua cara. Nem de ouvir seus amigos, sua banda, virar e falar que você estava se tornando uma grande decepção – ele bebeu um gole de água. Segurava minha mão com tanta força que meus dedos estavam ficando adormecidos. – Ela não teve coragem de me ligar ainda e o Fletch me obrigou a falar com ela. Mas não consegui. Ela não atende minhas ligações. , aquele filho não é meu. Não é, não pode ser. Eu nunca transei com a sem camisinha e menos ainda tempo o suficiente para aquele filho ser meu.
- O que você quis dizer com os meninos terem virado a cara pra você e dizerem que você é uma decepção? – perguntei espantada.
- Eles só falam comigo se for assunto da banda. E o não fala comigo nem sobre a banda e você imagina o motivo. Ele gosta muito de você... e eu também.
- Certo, podemos pular essa parte – eu disse me levantando. veio atrás de mim.
- Me perdoa? É sério, eu sou um idiota, eu não funciono sob pressão. Eu fiquei assustado com o que haviam dito, com as fotos, com tudo. Com o que eu estava sentindo.
- , eu não vou falar sobre isso. Nós não éramos um casal, não é problema meu o que você ache ou deixe de achar, não tínhamos nada.
- Não fala assim! Claro que tínhamos você sabe disso. olha pra mim – ele disse e me segurou pelos dois braços. – Eu preciso de você não só por causa da merda que virou minha vida, mas porque você faz parte dela. E ficar sem você é impossível.
Eu o encarei fundo nos olhos. Isso estava começando a doer demais e, como eu havia dito, não seria o cara que estragaria a minha vida. Homem nenhum faria isso. Nunca mais. Afastei-me dele e respirei o mais fundo que eu pude.
- Sinto muito, . Se você quiser conversar sobre qualquer coisa, você ainda poderá me procurar. Não vou te deixar na mão, acredite – ele esboçou um sorriso ao ouvir minhas palavras. – Mas não pense que isso significa que teremos qualquer outra coisa a mais. Porque qualquer sentimento que existia entre a gente, morreu a partir do momento em que eu disse “corta” na última cena do .
- Você está falando isso da boca pra fora, eu sei – ele contestou.
- Não estou! E você devia começar a aprender um pouco com tudo isso. Está na hora de crescer, . Não dá pra ficar brincando de casinha o tempo todo, de ter um filho aqui e um caso ali. Você já tem mais de 20 anos, tem uma carreira consolidada. As pessoas te olham o tempo todo, se espelham em você e nas suas atitudes. Você vai ter um filho agora, vai ter alguém que olhará pra você com orgulho e com vontade de ser como você. Não o decepcione como você fez comigo e com os seus amigos. Seja homem, ao menos uma vez na vida.
Ele não respondeu. Voltou a se sentar no sofá e ficou encarando seus pés. Encostei-me à mesa e respirei. Eu precisava dizer tudo aquilo e me sentia bem melhor depois de ter feito o sentir um quarto do que eu havia sentido quando ele me tratou como um nada.
Longos minutos depois, parei ao seu lado e o abracei. Ele encostou a cabeça em minha barriga e abraçou minhas pernas.
- Está na hora de tirar um tempo e avaliar sua vida, . Crescer é um saco, mas você precisa. Se olhe no espelho, veja quem você é. Olhe pra você, um cara lindo, que tem talento. Não o desperdice assim – eu dizia enquanto mexia em seus cabelos. – Seja motivo de orgulho para os seus amigos e não de decepção. Cuide de você um pouco.
- Não me deixa – ele disse baixinho.
- Está na hora de ver quem você realmente é – continuei, fingindo não ter ouvido o que ele dizia. – Você não pode amar ninguém mais até que você se ame. Nunca se esqueça disso.
Ele me olhou. Seus olhos pareciam vazios, mas eu sabia que tinha feito a coisa certa. Pelo menos eu esperava ter feito. Beijei carinhosamente sua testa e saí da sala, deixando um pensativo sentado no sofá. O vento frio que bateu em meu rosto assim que saí para a rua não cortou mais o meu coração do que vê-lo tão frágil e cansado. Mas há muitos anos eu tinha botado em minha cabeça que nada seria mais importante na minha vida do que eu mesma. E assim continuei a ser. E assim ainda sou.
Capítulo 17 – Estranho jeito de amar
Um mês havia se passado desde a última vez em que eu vira , três dias depois do ocorrido na minha sala, quando apresentei o clipe de Falling in Love. Por todos os lugares que eu olhasse só se falava no tal filho que ele teria. A mãe da criança, por sua vez, havia sumido. se enfiou em sua cidade natal e não apareceu por um tempo. Talvez medo ou somente para ter uma gravidez tranqüila. Qual é, mesmo em choque eu consigo imaginar que as pessoas têm o mínimo de senso ou de amor pelo que carregam. Ou não? Ah, nem me importo também.
Eu cheguei a contar para Matt e Josh o que de fato acontecera horas depois que eles deixaram o Brasil. Jammie estava sendo poupada dos detalhes, mas ela sabia que eu não estava mais tendo nada com . E por falar nela, o quarto mês de gestação havia chegado e todos nós já sabíamos que ela teria uma menina. Sob protestos de Matt, que repetia incansavelmente que o pai era ele, eu que fui cotada para escolher o nome da pequena. Eu e Josh, claro, que apesar das circunstâncias, havia ganhado o posto de padrinho. Jammie ficou satisfeita quando anunciei que minha afilhada se chamaria Lizzie, mas Matt torceu o nariz e disse que queria Tiffany. Considerando que ele quase foi assassinado por sua namorada, acabou aceitando o nome que eu propus.
Me vi diversas vezes passeando por lojas de bebês com Jammie. Nem mesmo as manchetes das revistas baratas de fofoca, que insistiam em dizer que eu estava comprando presentes para a filha ou filho de , conseguiam me fazer ficar longe daquele universo tão pequeno. A barriga de Jammie não aparecia ainda, mas já podíamos ver mudanças em seu corpo.
Apesar de todo o transtorno que eu tinha ganhado por algumas semanas, eu estava conseguindo levar tudo numa boa e sem traumas. Até me divertia com as cantadas que eu recebi de alguns caras do escritório. Viajei mais do que o normal, principalmente auxiliando Matt e Jammie com a mudança para a França. Eles embarcariam em pouco tempo. Ela faria o tal curso e ele ficaria na filial de lá da O2, não como estagiário, mas como diretor. Eu estava extremamente feliz pela pequena família, que começaria uma vida nova e em um lugar novo.
- Você devia vir com a gente – resmungava Matt enquanto andávamos pela rua.
O expediente daquela sexta feira havia terminado e ele me deixaria em casa, como sempre. E, também como sempre, paramos em uma Starbucks para comprar um chocolate quente e alguns muffins, já que eu não tinha a menor vontade de cozinhar.
- Eu não sei Matt. É uma grande mudança e eu estou me dando tão bem em Londres. Deixar o meu cargo aqui não vai ser fácil.
- Sim, concordo, mas você precisa e sabe disso. Não vem com essa de “relaxa, to legal” porque qualquer um pode ver que você não está legal – inferno, lá vamos nós para mais uma noite de terapia! – Você não é mais a nossa . E além do mais, a Jammie vai precisar de ajuda quando a Lizzie nascer. E você é a madrinha, caso não se lembre!
Apenas respirei fundo. Claro que eu me lembrava! Era a minha afilhada, como eu iria esquecer? Mas o fato é que eu não era mais a mesma desde a noite em que Dougie deixou claro que não tínhamos nada. Eu abri um pouquinho o meu coração e ele já saiu machucado. Resolvi que era a hora de fechá-lo novamente e eu passava mais tempo em casa, cuidando dos meus roteiros, do que saindo com os meus amigos. Josh já havia desistido de me tirar da minha toca, mas Matt era persistente. Espírito de brasileiro, não desiste nunca! Eu precisava de um tempo para me recuperar, mas não tinha data de término e eu estava há um mês e cinco dias trancada em casa, sem sair a não ser para ajudar Jammie com o enxoval do bebê.
- Tanto faz. Vou ver o que eu faço! – eu disse parando no portão da minha casa. – Não vou deixar vocês na mão com relação à Lizzie, pode ficar tranqüilo. Qualquer coisa eu tiro umas férias e vou visitar vocês.
- Ainda faço como o Josh e desisto de você! – ele resmungou beijando minha testa e indo embora.
- Duvido! Você me ama demais para isso! – eu falei mais alto, tirando uma risada debochada de Matt.
Fechei o portão e corri para dentro de casa. Estávamos no final do inverno, mas ainda assim fazia muito frio e nevava bastante. Meu casaco roxo já estava ficando cheio de bolinhas brancas. Deixei o pacote com os muffins sobre a mesa da cozinha e fui tomar meu banho quente. Senti cada músculo do meu corpo relaxar conforme a água ia escorrendo por ele. Quando terminei, me olhei no espelho. Eu não tinha aquela aparência tão velha e tão cansada. Mas todo mundo tem ao final do dia, certo? Coloquei meus pijamas, calcei minhas pantufas e desci para a cozinha novamente.
Quando dei a primeira mordida no meu muffin de morango, ouvi a campainha tocar. Não consegui imaginar ninguém ali naquela hora. Nem mesmo Marie, que sempre passava para me dar um oi depois de seus passeios com seu novo cachorrinho, aparecia naquele horário. Espiei pela janela da sala e vi parado ali, se encolhendo dentro de seu casaco verde musgo. Mas será o Benedito?
Peguei a chave do portão, me amaldiçoando por ter esquecido de pedir para arrumarem a trava elétrica, tirei minhas pantufas para que elas não ficassem molhadas por causa da neve e saí correndo, só de pijamas. A baixa temperatura se chocando contra meu corpo quente só não foi mais chocante do que a expressão dele ao me ver correndo daquele jeito.
- Você é maluca? – perguntou ele me abraçando e esfregando suas mãos por meus braços.
- Eu? Por acaso fui eu que apareci na sua casa numa hora dessas?
me arrastou para dentro e me fez vestir seu casaco, mesmo que o aquecedor estivesse ligado. Ignorando as regras de como se receber bem uma visita, simplesmente virei e fui para a cozinha, onde continuei a comer meu delicioso e macio muffin de morango.
- Bela refeição para uma sexta feira à noite – disse ele sentando-se ao meu lado.
- Veio aqui para me criticar ou para algo mais importante? – perguntei seca.
- Para algo mais importante como te convidar para sair comigo hoje.
Não precisei encarar os pequenos olhos de para saber que ele esperava ansioso por uma resposta. Que raios se passa pela cabeça dele afinal? Ele diz que não temos nada, quando eu confirmo, ele fica todo sem jeito, depois corre atrás dizendo que a vida ta uma merda e que ele precisa de mim, eu mando ele ir passear e ele vem me chamar para sair e me interromper durante minha nada saudável refeição. Fiz uma análise completa de enquanto colocava o último pedaço de muffin na minha boca. Encarei seu rosto. Branco, rosado pelo frio, delicado, forte, lindo, perfeito.
- Queria que você não me olhasse como se fosse a primeira vez – disse ele sem jeito.
- Como? – perguntei confusa.
- Eu queria que você não me olhasse como se fosse a primeira vez que você estivesse me vendo.
Levantei e fui lavar minhas mãos na pia, já que toda a calda de morango havia escorrido nos meus dedos.
- Eu só estou tentando encontrar em você alguma parte que eu reconheça – respondi e me assustei quando me virei e vi que ele estava tão próximo. – Alguma parte que explique tudo o que eu fiz de errado e que me diga o que eu fiz.
- Você não fez nada de errado, . Já te disse, eu não funciono sob pressão. Falei da boca pra fora, será que você nunca vai me perdoar por aquilo?
- Não tenho do que te perdoar, – falei baixinho.
Ele segurou minha cintura com uma de suas mãos enquanto a outra acariciava delicadamente meu rosto.
- Eu te amo – ele disse no meu ouvido.
- Já descobriu que se ama então? – perguntei tentando não alterar minha voz, que ficava cada vez mais mole.
- Eu não preciso me amar quando eu tenho você na minha vida.
Saí de perto. Não podia estar acontecendo, ele não me reconquistaria assim. Não teria a minha confiança de volta em troca de meia dúzia de palavras bonitas que ele deve ter ensaiado na frente do espelho.
- , o que quer que eu tenha feito, você não acha que é cedo para dizer isso tudo? – perguntei indo para o outro lado da mesa, fazendo com que o móvel ficasse entre nós.
- , você não fez nada. O que te leva a pensar que a culpa é sua? – ele tava ficando nervoso.
- Porque eu com certeza fiz ou falei alguma coisa pra você ter, sabe, retrucado daquela forma. Não, não tenho que te perdoar – eu disse quando vi que ele ía contestar. – Mas independente do motivo, ainda é muito cedo para dizer uma coisa forte assim.
- Quer parar com isso? Não tente assumir a culpa para não manchar a imagem que você criou de mim! – ele respondeu vindo na minha direção.
- Que imagem, ?
- Não sei. Como você me via? O que eu era pra você? Deve ser algo muito bom pra você não querer manchar ou me ver diferente. Já te pedi pra me xingar se for esse o caso, pra me bater, mas pra não tentar me ver como o herói que eu não sou!
Nossas vozes estavam ficando alteradas e cada vez mais altas. Eu tinha certeza que em poucos minutos estaríamos gritando um com o outro.
- Eu não te vejo como um herói, . Só não consigo acreditar nisso tudo, pronto! Pra mim isso é só um bando de palavras ridículas que você fala na frente do espelho durante dias antes de falar para a garota que você quer comer!
- O que? – ele estava quase gritando. Não falei? – , de onde você tirou essa porra dessa idéia? Tudo bem não me ver como herói, mas não precisa descer tanto o nível. Se fosse isso que eu quisesse, você acha que eu não teria te levado para a cama ainda?
- Claro que não! – eu gritei. – Deve ter sido um choque pra você ver que eu não sou como essas menininhas que você sempre pega, não é? Por isso falou que eu era apenas a sua diretora e te dirigia. Pois bem, te dirigi para fora da minha vida. Feliz agora?
- Não fala besteira e não, não estou feliz. Se eu estivesse, não teria vindo aqui me humilhar e te pedir pra voltar pra mim porque eu não consigo mais dormir, não consigo mais fazer nada por tua causa, porque você ta me tirando todas as forças.
- Sinto muito se eu sou um incômodo na sua vida, Sr. . E perdoe-me se o senhor está se humilhando, não era minha intenção! – eu disse e me aproximei dele. – Me esquece, . Me deixa viver em paz, pelo amor de Deus!
Antes que ele respondesse, eu saí andando. Ia para o meu quarto, onde me trancaria e não sairia até vê-lo pela janela deixando minha casa. Tudo teria dado certo se ele não fosse persistente. Quando pisei no primeiro degrau da escada, senti a mão dele me puxando. Não tive tempo de fazer nada, ele me apertou em seus braços e me beijou. Aquela força, aquela obrigação. Aquela dor. Aquela sensação de pavor novamente se apoderou do meu corpo e, sem ceder ao beijo, comecei a me debater em seus braços, enquanto lágrimas escorriam dos meus olhos. Quando o gosto salgado atingiu nossos lábios, ele abriu os olhos e se afastou.
- Pequena, calma – ele dizia segurando meu rosto entre suas mãos. – Desculpa, eu não queria ter feito isso. Ei, olha pra mim. Para de chorar, , você ta me assustando.
- Vai embora! – eu gritei.
Subi correndo para o meu quarto e tranquei a porta. Ele era um monstro, assim como o outro também fora um dia. Como eu queria, vi da janela do meu quarto deixar minha casa. Ele parou no portão e olhou para onde eu estava. Pude ver lágrimas em seus olhos enquanto ele passava a mão nervosamente pelo cabelo. Seus lábios pronunciaram um silencioso “sorry” e ele se foi.
O sábado amanheceu chuvoso. A neve que havia caído agora formava perigosas camadas de gelo, escorregadias o suficiente para causar uma tragédia. Coloquei meu laptop sobre a mesa da cozinha enquanto tomava meu café da manhã. Conferi meus e-mails e abri um sincero sorriso ao ler um recado de .
No sábado é meu aniversário e, por pior que as coisas estejam entre você e o , eu não vou aceitar que isso interfira na nossa amizade. Você é muito importante pra mim e sabe disso, não sabe? Então, eu preciso de você aqui. A festa jamais estaria completa sem a minha diretora favorita para contar pra todo mundo que eu sou um fracasso no surf. Te espero às 21hrs, okay?
x
Por pior que as coisas estejam. Essa frase andava cada vez mais comum entre e eu. E as coisas pareciam ficar piores cada dia mais. Abri meu Facebook para ver se tinha alguns recados e reparei que há um bom tempo eu não olhava aquela página.
Só porque o clipe acabou você tem que sumir? Vamos correr no parque? lol
xxx
Ouvi Breakin Dishes. Lembrei de você. Saudades.
.
é um gay. E você é uma chata. Se não aparecer no meu aniversário, corto relações para sempre, entendeu? x_x
Love, .
Esses eram apenas alguns dos muitos recados que meus amigos haviam deixado. Tinha um de Josh reclamando da minha roupa na foto do perfil. Ele sempre fazia isso e eu sempre o mandava ir catar coquinho no deserto, o que fazia Josh soltar uma gostosa gargalhada e sair da minha sala. Levantei para pegar minha caneca de leite no microondas e, quando voltei, vi a janelinha de bate papo do Facebook aberta.
says: hey, desculpa por ontem. Você ta bem?
Fiquei alguns minutos encarando a tela do computador, onde a foto de rindo com os amigos estava em destaque na janelinha aberta. Só consegui fechar a página e desligar o computador, indo atrás dos meus roteiros para manter minha cabeça ocupada. E consegui? Claro que não! Alguma coisa na minha vida caminha pelo lado certo? Tudo bem que as ruas de Londres são ao contrário, mas daí a ter a minha vida ao contrário, já é mais do que eu possa suportar. Quando me acomodei no meu sofá macio, o telefone tocou. Se fosse , eu desligaria na cara dele e pronto. Já teria que encará-lo na festa de , da qual eu jamais conseguiria escapar, então que ficasse claro que eu não ía querer qualquer contato com ele naquela comemoração.
- Yep! – atendi entediada.
- Uau, quanta animação para atender ao telefone!
Ah. Meu. Deus! Eu não podia acreditar que eu estava ouvindo aquela voz novamente. Depois que eu me mudei para Londres, não havíamos nos falado mais. Não, pior, desde quando esse inútil ficou famoso e começou a fazer shows por todo o Brasil que não nos falávamos mais como antes.
- Thiago? – perguntei só pra confirmar.
- Fala, ! – ele respondeu rindo.
- AH MEU DEUS EU NÃO ACREDITO! Como você descobriu meu telefone?
- Liguei na sua casa e sua mãe me passou. Estou indo para Londres daqui a dois dias e quero saber quem é que vai me receber no aeroporto, hein ? – ele praticamente me intimou!
- Eu né? – falei rindo.
Continuamos nosso papo por alguns longos minutos. Thiago era da banda Marty e estava bem famoso no Brasil. Eu vi esses meninos começarem e agora eu tinha que pegar fila nos shows pra dar um abraço neles. Sacanagem! Eles haviam conseguido um contrato com uma pequena gravadora e estouraram em todas as rádios. Pouco tempo depois, estavam correndo o país e arrastando as menininhas com eles. E eu acabei ficando em casa, né? Ía a todos os shows na nossa cidade, mas fora isso era complicado.
De qualquer forma, ele estava chegando e me faria companhia. Éramos como unha e carne, mais até do que eu e Matt ou eu e Josh. Thiago me conhecia desde a sexta série, o que nos dava aí uns bons 10 anos de amizade fiel e inabalável. Tivemos que encarar a distância por diversas vezes, mas ele sempre aparecia quando eu menos esperava. Meu amigão? Tremendo gato, falo mesmo. Se não fosse como meu gêmeo, eu pegava fácil. Já podia até imaginar as inglesas vendo aquele brasileirão todo andando comigo pelas ruas de Londres. Primeiro me matariam, depois tentariam algo com ele. Em vão, claro. Thiago não se deixava abalar por qualquer menina e era extremamente seletivo. Até demais. Chegava a ser cansativo fazer média com as milhões de meninas do colégio que tentavam chamar a atenção dele e ele só falava “, enrola elas e fala que eu não quero”. Simples assim! E eu tinha que enrolar, senão ele me enchia de cócegas até eu chorar e implorar perdão. Babaca!
Tentei deixar minha casa apresentável para aquele projeto de cantor que iria invadir meu espaço. Projeto completo, diga-se de passagem. Saí correndo do trabalho na quinta e fui buscá-lo no aeroporto. Ele surgiu pela sala de embarque tão lindo quanto da primeira vez que nos vimos, quando ele passou pela porta de madeira da nossa sala de aula e sorriu para a nova menina da sala. Eu!
- Que saudades de você, seu infeliz! – eu disse quando nos abraçamos.
- Oi minha malinha. Também estava morrendo de saudades de você, sabia? – ele respondeu sorrindo. Malinha. Sempre me chamou assim. Tanto amor, né?
Levei o meu ilustre visitante para a minha casa, onde o hospedei confortavelmente na sala. Sou mal educada mesmo, não dou meu quarto nem para o cara que eu mais confio nesse mundo. Sentamos no chão, perto da lareira, onde ficamos conversando por horas e horas e esquecemos do mundo. Ele me contou que estava em Londres porque a gravadora queria que eles assinassem contrato com alguma empresa para fazer um videoclipe. A O2 foi indicada e ele topou na hora, pois sabia que eu trabalhava lá. Como desculpa para me ver, ele disse que queria um clipe diferente e que o local escolhido era a Terra da Rainha, onde ele desembarcou e ficaria por duas semanas.
- Você se deu bem aqui no trabalho, né ?
- Graças a Deus. Imagina se eu tivesse que voltar para o Brasil? Eu morreria!
- Case antes que algo aconteça – ele disse rindo. – Você me prometeu que nunca casaria com um brasileiro, não se esqueça disso.
Eu não esqueci. Uma das nossas últimas conversas antes de nos separarmos por completo. Ele me fez prometer que eu iria atrás dos meus sonhos e que nunca casaria com um brasileiro. Ele sempre disse que o Brasil era pequeno pra mim e que eu devia procurar algo a mais em outro canto. Ironia ou não, encontrei esse tal algo a mais e não consigo nem olhar na cara dele. Êta vida boa!
- E você, ta com aquela menina ainda? – perguntei bebendo meu chá.
- Nada. Terminei com ela há algumas semanas. Não valia a pena! – ele respondeu sorrindo. – E você, como anda de namorados ingleses?
Meu sorriso foi se desfazendo e cheguei na parte que eu não queria. Mas era o Thiago e ele sempre foi tudo na minha vida e mais um pouco. Todos os meus problemas, meus dilemas, minhas dores, tudo era ele quem me ouvia, aconselhava, abraçava e colocava para dormir depois. E hoje não seria diferente. Contei tudo, desde como conheci por acaso, até a noite anterior, quando ele me beijara a força.
- Você chegou a conversar claramente com ele, ? – ele perguntou encarando o fogo da lareira. – Ele deve ter uma boa explicação, cara nenhum faria o que ele fez. Se meter numa briga e tudo mais.
- Não tentei e por enquanto não quero. Você sabe o que aconteceu uma vez e eu só quero reorganizar minha vida. Ele não vai me fazer botar tudo a perder, Thi. Não posso deixar isso acontecer de novo.
Ele me abraçou e ficamos assim por um bom tempo até eu anunciar que estava com sono. Thiago então me acompanhou até meu quarto, onde me cobriu e beijou minha testa carinhosamente. Fez uma piada idiota antes de sair do quarto e me deixou ali, perdida em meus pensamentos. Era bom demais ter um brasileiro em minha casa, com toda sua energia e seu carinho.
Capítulo 18 – Private show
Santa sexta feira que chegou e me deixou num clima festivo além do normal. Mesmo que a festa que se aproximava me trouxesse alguns pequenos inconvenientes, eu tinha certeza que com Thiago ao meu lado eu poderia superar tudo. Levei-o comigo para a produtora e, como era de se esperar, as mulheres me olharam torto.
- Bom dia, princesa! Tenho algumas coisas pra te pas... – disse Matt entrando na minha sala sem bater. – To interrompendo alguma coisa?
Ele entrou no exato momento em que eu mostrava as fotos das gravações do McFly no Brasil e Thiago estava parado atrás de mim, com um braço de cada lado do meu corpo, apoiando suas mãos em minha mesa.
- Bom dia, Matt! – eu respondi sorrindo. – Deixa eu te apresentar o meu grande amigo do Brasil, Thiago. Thi, esse é o meu fiel escudeiro e estagiário, Matthew.
- Prefiro que me chamem de Matt – ele disse mais amigável e apertando a mão de Thiago.
- Tudo bem, Matt. Só não vou dizer que prefiro que me chamem de Thi porque só a que pode!
Os dois riram e me olharam com carinho. Ah meu Deus, assim eu gamo nos dois. Um inglês com um sotaque forte e um brasileiro com um sotaque levemente carregado. Calor, calor, calor!
- O que você tinha pra me passar, Matt? – perguntei mexendo em alguns papéis em minha mesa.
- Ah sim, vim te mostrar a indicação para Melhor Clipe do Ano da MTV Awards. Saca só! – disse ele me passando um papel.
Thiago se posicionou atrás de mim novamente e acompanhou a leitura dos candidatos.
- Falling in Love, do McFly? – ele parecia tão chocado quanto eu.
- Parece que o povo do Brasil está votando bastante nesse clipe e a turma da Europa toda está apoiando também – Matt comentou animado. – Acho que você leva essa, .
- Não vamos nos precipitar – eu disse devolvendo-lhe o papel. – Melhor esperar pelo resultado.
- Como quiser! Bem vindo Thiago!
- Valeu.
Matt saiu da sala me deixando incomodada com toda aquela atenção para o meu clipe. Eu sentia que com ele viria alguma coisa ruim e tinha medo de saber o que seria. Eu tinha o dia razoavelmente livre e fiquei por horas sentada no sofá com Thiago, quase deitada no colo dele, enquanto conversávamos sobre coisas bobas até dar o horário do meu expediente. Fomos para a minha casa e, mais tarde, para um pub com Matt, Josh e Jammie, que quase esqueceu o namorado quando me viu entrando com aquele belo moreno.
Sábado, ressaca, sono, preguiça, Thiago me sacudindo. Cacete, não tem como dormir nessa casa!
- Mari, tem gente tocando a campainha. Eu não vou atender! – disse ele me sacudindo ainda mais.
Fui acordando lentamente e pude ouvir a campainha tocar mais uma vez.
- Fuck! – foi tudo o que eu consegui dizer. Thiago se acomodou em minha cama assim que eu saí.
Arrumei-me rapidamente e desci correndo, sem nem ao menos ver pela janela quem era. Abri a porta bruscamente e meu fã número um me esperava no portão. . Começamos o final de semana bem.
- Bom dia – eu disse parando no portão sem abri-lo.
- Vai me deixar aqui parado? – perguntou ele fazendo bico. Eu vou agarrá-lo. Não, não vou!
- Acho que não é uma boa idéia você entrar – respondi abrindo o portão e ficando no caminho. – Aconteceu alguma coisa?
- Só posso te ver em caso de tragédia?
- Opa, ironia mode on, né? – brinquei.
- Só um pouquinho – ele disse rindo. Deu-me um demorado beijo na bochecha. – Eu queria conversar com alguém e, bem, você sabe que eu ainda tenho a esperança de te ter de volta, então pensei que eu podia unir o útil ao agradável, sabe?
- ? – ouvimos a doce voz de Marie e olhamos juntos para a calçada.
- Oi pequena! – ele disse sorrindo e a abraçou. – Tudo bem com você?
- Tudo! Você veio ver a ? – ela perguntou inocente.
- Vim sim. Você não se importa, não é? – leva jeito com crianças, já falei isso né?
- Não, vocês são lindos juntos. Queria que vocês namorassem! – Marie, querida, eu te mato.
- Eu também, mas ela não quer, acredita? – ele se abaixou e ficou na altura dela. Isso não estava acontecendo.
- Sério ? – ela perguntou chocada.
- Não é bem assim, meu amor. Coisa de adulto, um dia você vai entender.
Marie não teve tempo de responder, pois sua mãe já chamava por ela. Estavam indo fazer um lindo passeio em família no primeiro sábado sem neve em meses.
- Não é bem assim? – estava se aproximando.
- Não enche ! – eu disse e bati em seu braço.
Ele apenas riu e pegou minha mão. Ficou beliscando-a delicadamente.
- A gente não pode mesmo conversar agora? – ele perguntou baixinho.
- , acredite, agora não é a melhor hora – eu disse passando a mão entre seus cabelos e bagunçando-os. – Podemos conversar depois, ta?
- Me dê apenas um bom motivo! – ele pediu suplicante.
- , ta tudo bem por aí?
Thiago apareceu na porta da minha casa, vestindo apenas calça de moletom e falando em português. arqueou as sobrancelhas e olhou espantado para o belo rapaz que saía de dentro da minha casa, voltando seu olhar para mim depois.
- Já entendi tudo! – ele disse saindo furioso.
Isso ía dar merda, fato. Veríamos-nos em algumas horas na casa de , então nem me preocupei em ir atrás dele. Apenas entrei, Apenas entrei, terminei de me arrumar e saí para almoçar com Thiago.
“No matter what I do, I can’t say no. Girl you know you’re the star, don’t wanna know who you are. So beautiful. So just come here and enjoy your show, show, show. You're private show”.
A música rolava solta na casa de Harold, onde encontrei o McFly todo. Alguns acompanhados por meninas que eu nunca tinha visto na minha vida. Como eu esperava, Thiago foi bastante assediado, mas ele não desgrudou de mim por nada, e foi bem recebido pelos meninos. Nem sinal de até o presente momento, então eu relaxei. Quem se importava, não é?
- Hiya – ouvi a voz dele cumprimentando todos os presentes.
, Thiago, e me olharam com expressões um pouco preocupantes. Sabe por quê? Sabe, sabe, sabe? Porque aquele filho da mãe não estava sozinho! A mãe do filho dele tinha finalmente aparecido e fazia questão de exibir a barriga que nem aparecia ainda. Eu não acredito, sério mesmo?
- Hello! – disse ela naquela voz esganiçada e irritante.
O olhar de parou diretamente em Thiago, que se sentiu incomodado com a forma que ela o secava. Pobre rapaz, pobre corno. Ela pareceu ter notado minha presença (droga!) e ficou me encarando como se me desafiasse a falar com o pai do filho dela. E o que eu fiz?
- Hey ! – eu disse animada. – Preciso falar contigo, meu bem – completei baixinho em seu ouvido enquanto fingia que ia abraçá-lo. Ele tentou resistir, eu senti, mas logo envolveu seus braços ao redor da minha cintura e eu podia senti todos os olhares em cima de nós, talvez esperando por uma briga fenomenal que botasse um ponto em qualquer sentimento entre nós.
- Acho que não é uma boa idéia. Estou acompanhado hoje, gatinha! – ele respondeu um pouco alto.
Afastei-me no mesmo instante em que era abraçada por ele. Não podia ser. Ele estava se vingando assim, na cara dura? lançou um olhar raivoso para o casalzinho e me puxou para dançar. Thiago veio logo atrás, seguido pelos outros meninos.
- Como ela é exibida – ouvi dizer e parei de andar. Aquele lugar estava bom, eu podia dançar e ouvir o papo ao mesmo tempo. – Trata os meninos como se fossem seus escravos e ela a rainha!
- , morde a língua quando falar dela, ta? Você não tem a menor moral! – ouvi responder e sair andando, sumindo escada a cima.
- Vai lá, é a tua chance! – disse Thiago no meu ouvido.
Despistei os meninos e subi atrás de . Eu só queria dizer que o Thiago é meu amigo e que a namorada dele era uma vaca. Depois eu voltaria lá para baixo e continuaria dançando. A casa de era meio grandinha e demorei a encontrar o adorável ser por quem eu procurava. Claro que ele tinha que estar no último quarto em que eu olhei.
- Bebendo escondido? – perguntei fechando a porta atrás de mim.
estava sentado na cama com uma garrafa de vodca em suas mãos e não me parecia bem.
- Veio me humilhar, dizer que eu não sirvo mais, que você encontrou alguém melhor? – ele perguntou já meio alterado pela bebida. Sentei ao seu lado e tirei a garrafa de suas mãos.
- Na verdade, - eu expliquei – só vim para dizer que o Thiago é apenas meu amigo e que eu não sou o que você deve estar pensando.
Ele deu uma risada irônica e olhou em meus olhos.
- Não mente. Ele estava na sua casa, eu vi. Vocês dois, sozinhos, eu não sou cego, .
- , ele é do Brasil, veio pra Londres porque a banda dele vai assinar contrato com a O2. Só isso. – eu respondi e ele me encarou.
- Diz que você não me ama. Que não sente a minha falta. Diz? – ele tava realmente alterado pela bebida.
- Não começa com esse papo, sua namorada ta lá embaixo – eu falei relutante.
O fato é que eu sentia sim falta dele, mas estava tentando mascarar tudo para não sofrer de novo. Eu tinha esse direito, tanto quanto tinha o direito de não dizer a ele o que eu sentia. Mas eu me sentia sufocada e sabia do que eu precisava. Thiago sabia mais do que eu e me incentivou a ir buscar, tenho certeza.
- Diz, por favor. Diz e eu te deixo pra sempre, eu juro! – ele implorou.
- , você ta bêbado. Não é uma boa conversarmos agora – eu disse me levantando.
- Não, fica – ele pediu me segurando pela mão e eu me sentei novamente. – Não estou bêbado, estou derrotado. É diferente.
Aquilo me acertou em cheio. Derrotado. Senti a dor sair de sua boca junto com essa palavra. Eu queria esquecer tudo, queria deixar meu passado para trás, mas não dava. Ele tinha me forçado a beijá-lo, era mais do que eu conseguia suportar. No entanto, ver correr da minha casa ao encontrar Thiago na porta me fez ver que, cedo ou tarde, ele vai me deixar. Vê-lo abraçando me deu a certeza de que ele ía me deixar. E ele me garantiu. Era só eu pedir. E então por que eu não conseguia?
Ah, é, talvez porque eu o amasse mais do que eu imaginava. Claro, como não?
- Você não está derrotado – eu disse encostando minha cabeça no ombro dele. – Eu estou!
passou seu braço ao redor do meu corpo e me abraçou. Me senti tão protegida ali que nem me mexi.
- Volta pra mim, . Volta pequena, por favor? – ele pediu passando o nariz levemente na minha bochecha.
- Eu me odeio por te amar, sabia? – eu disse sorrindo e ele me olhou espantado.
- Se odeia por quê?
- Ah, nem vem. Não vou repetir! – ele fez bico. Golpe baixo! – Me odeio por te amar, pronto, se ouviu, ouviu, se não ouviu, problema se...
Como eu estava dizendo, o problema era dele, mas não consegui terminar minha ilustre frase porque me interrompeu. Com um beijo. E eu não me debati e nem tentei jogar o garoto pela janela. Apenas sentei no colo dele e fiquei bagunçando seu cabelo, enquanto ele passava uma mão pela minha coxa e a outra me segurava firme pela cintura. Beijamos-nos sem pressa, sem afobação, apenas sentindo o gosto um do outro, lembrando dos momentos de risada que passamos juntos.
- Vamos esquecer tudo? – eu perguntei interrompendo o beijo.
- Quase tudo! – ele respondeu sorrindo e me dando vários selinhos.
Voltamos a nos beijar até que a porta foi aberta bruscamente.
- Muito bem! Eu achando que vocês estão derrubando todo o meu quarto, se estapeando e o casalzinho ta se comendo na minha cama? – perguntou tentando parecer bravo, sem sucesso, claro.
- Olha o respeito, dude. A não é dessas – Dougie disse sorrindo carinhosamente pra mim.
- Todo mundo pra dentro, vamos! – eu ordenei levantando do colo de .
, Thiago, e entraram e foram se acomodando nas poltronas, na cama e no tapete.
- Pequena, não é por nada não, mas eu nem curto suruba!
- ! – eu resmunguei e todos riram. – Eu só quero pedir que a gente mantenha isso tudo em segredo por enquanto!
- O quê? – ele nem gostou da minha idéia!
- Talvez a tenha razão, mate – disse pensativo. – A grávida e você se pegando com outra não é legal.
- Me pegando uma ova! Isso não é só pegação! – disse levantando e me abraçando por trás. – Isso é ridículo, mas eu amo essa menina! E aquele filho não é meu!
Ele deu um beijo na minha nuca e eu me arrepiei toda. Thiago sorria discretamente. Ele sabia que aquilo tinha sido obra dele.
- Bom isso você só vai saber se você fizer o exame de DNA, né? – disse .
- Dude, eu sei quem eu comi há meses atrás e não foi ela, pode ter certeza! – disse com firmeza e eu bati em seu braço – Ai, amor!
- Não preciso saber o que você andou fazendo ou não! – risada geral de novo – Até esse exame sair e dar negativo, eu prefiro manter isso entre a gente. É pegar ou largar!
- Que oferta besta! – ele disse e me beijou novamente.
- Ah, vocês são bonitinhos e tal, mas nem to a fim de ver a sendo engolida, então parou aí! – disse Thiago jogando uma almofada em nós. Ele já estava totalmente a vontade na presença dos meus amigos malucos e até falavam sobre música como se fossem da mesma banda.
Ia ser realmente triste manter meio afastado, mas eu sabia que era só uma fase e que ía passar. De certa forma, eu acreditava nele naquela história da gravidez da e sabia que aquele filho não era dele.
- Bom, nosso segredo ta valendo desde já! – eu disse me soltando de . – Vou descer. Nem chegue perto de mim, hein?
me puxou e me beijou. A turma entendeu o recado e saiu, deixando-nos a sós.
- Eu não vou conseguir ficar longe de você por muito tempo, então trate de ficar nos lugares mais escondidos dessa casa, entendeu? – ele disse sem separar nossas bocas.
- Vai conseguir sim! – eu respondi rindo.
- Você tem idéia de como eu estou feliz? Mesmo que seja em segredo, eu estou me sentindo o cara mais sortudo do mundo, sério.
- Sem exageros, !
Ele sorriu e olhou nos meus olhos.
- Eu te amo, minha pequena.
Eu sorri mais ainda, beijei-o pela última vez e saí do quarto, deixando com cara de bobo sentado na cama. Ai, ai, posso ver coraçõezinhos flutuando por aí!
Capítulo 19 - When you need somebody
“O verdadeiro amor não é aquele que se alimenta de carinho e beijos, mas sim aquele que suporta a renúncia e consegue viver na saudade”
(autor desconhecido)
Vai sonhando mané! O infeliz que escreveu que o amor consegue viver na saudade só fala isso porque nunca esteve na minha situação. Não que eu não visse o uma vez por semana no mínimo, mas não era nada, nada mesmo, fácil encontrar com ele nos corredores da O2 e não poder nem falar com ele. Com aquela tal indicação para o MTV Awards, ele e os meninos passaram a freqüentar mais o escritório.
- Sim senhor, assim que eu tiver uma resposta, eu retorno! – eu disse pela enésima vez. O cara devia ser surdo.
Fiquei girando em minha cadeira naquela quarta-feira entediante. Já se passavam das quatro horas da tarde e aquele empresário burro não entendia que eu precisava dos cálculos da tesouraria para depois passar o valor das filmagens. Que seja, eu estava de costas, portanto não ouvi a porta abrindo e tão pouco vi.
- Não se preocupa, vou pedir para que o orçamento do senhor seja passado na frente. Ta certo. Até mais, tchau! – eu disse e desliguei. – Vai se catar, velho besta!
E foi quando por uma ironia do destino (nem tanto!) eu virei minha cadeira de volta e dei um pulo de três metros de altura. Havia um enorme buquê de rosas vermelhas com pernas na minha frente. Na verdade, alguém estava segurando aquele jardim todo e eu pude sentir meu coração doer de tão forte que ele batia (também pelo susto!) ao constatar quem era o dono daquelas pernas. E foi quando ele espiou por cima das flores, certamente para ver a minha reação. E era a mais idiota possível. Eu estava parada e de boca aberta.
- Espero não ter chegado em má hora – disse abaixando as flores e sorrindo.
- Não, claro que não – respondi totalmente abobada.
- Se bem que eu posso voltar outra hora – ele ía saindo e levando minhas rosas junto.
- Ei – me olhou com um sorrisinho nos lábios. – Deixa as flores pelo menos!
Dei uma gostosa risada quando vi sua cara de desapontado e bravo ao mesmo tempo.
- E quem disse que são para você?
- Ah, ninguém, mas eu sei que você, como o bom moço que é, não vai deixar uma pobre dama com vontade de receber flores! – eu disse piscando rápido, com cara de desenho animado.
- Covarde! – me entregou as flores e me de um selinho.
Olhei aquelas enormes rosas e senti minhas bochechas doerem de tanto que eu sorria. E só então me dei conta de onde estávamos.
- A gente não devia ter feito isso. Alguém pode ter visto – eu disse colocando as flores sobre a minha mesa.
- Ah pequena – ele se aproximou me abraçando por trás. – Eu não acho justo a gente ter que esconder. Todo mundo já sabe mesmo!
- Eu sei . Mas se a gente não confirmar, não é oficial e não tem como dizerem que estamos juntos sem provas!
Senti seus braços soltarem minha cintura e o olhei. Ele andava de um lado ao outro, visivelmente irritado.
- Até quando? Porque eu sinceramente não agüento mais não poder sair com você, não poder te beijar a hora que eu quiser, não poder te ver durante o dia, não poder sequer te telefonar, .
- Você sabe que vai ser assim até o seu fi... o filho da nascer – eu respondi sentando em minha cadeira.
- Deixa de besteira – ele disse sério. Encarou a porta e me olhou. – Você sabe que a qualquer hora eu posso ir, não sabe?
É eu sabia, é eu tinha medo e é esse papo me irritava. Ao extremo!
- Vai ! Não estou te segurando, a porta ta aberta. Não pense que vai usar isso como chantagem sempre que quiser!
Ele me observou por mais alguns segundos e saiu batendo a porta. De repente, aquelas flores já não tinham mais o mesmo brilho e o mesmo perfume de antes. Elas me enjoavam e incomodavam. Apenas coloquei-as no vaso e voltei ao meu trabalho. Odiava discutir com ele, e nas três semanas em que estávamos juntos, era quase impossível não resmungarmos por alguma coisa. Seremos dois velhos chatos, certeza.
- Se você quiser que isso dê certo, , você vai ter que aprender a ceder um pouco também – disse Matt sentando na cadeira em frente à minha mesa. – Não basta só ele fazer suas vontades, você tem que ajudar.
- Mas eu ajudo, Matt! Será que é pedir muito para não termos nada oficialmente escancarado e não gritarmos no meio da rua que estamos juntos? – perguntei girando minha cadeira.
- Você sabe que vai perder o se continuar assim, ele já te disse e você acabou de mandar o cara embora. , para e pensa um pouco, vai.
- A paternidade ta te deixando muito frouxo, Matthew. Isso porque seu filho ainda nem nasceu! – ele rolou os olhos e bufou – E desde quando você faz parte da sociedade protetora de ?
Matt me fuzilou com os olhos, mas eu não estava falando nenhuma mentira. Ele nunca foi com a cara do meu... sei lá o que somos, afinal. Agora, sem mais nem menos, ele o protege, como se fosse um pai protegendo um filho. Ah, tenha a santa paciência!
- Desde quando eu percebi que sim, ele gosta de você. Sem contar no fato que você fica um saco sem ele!
- Matt, eu...
- , você sabe que eu te amo e que eu não seria nada sem você aqui. Sabe também que se eu to falando tudo isso, é porque eu to vendo o erro de fora – quando me dei conta, Matt estava abaixado ao lado da minha cadeira. – Eu quero que você seja muito feliz, mesmo que sua felicidade dependa dele. Se esse é o teu destino, apesar de eu achar que isso seria um carma, que seja então. Mas faça as coisas direito.
Ele me deu um beijo na testa e saiu. Voltei ao meu trabalho, ainda na esperança de receber qualquer ligação, chamada ou qualquer coisa de , mas isso não aconteceu. Talvez Matt estivesse certo no fim das contas. Eu tinha medo, mas ninguém entendia porque eu não encontrei ninguém além de Thiago capaz de entender minha situação. Ele presenciou tudo, ele me salvou de tudo. E por falar nele, por onde será que andava aquele infeliz?
- Alô? – respondeu Thiago.
- Posso ao menos saber por onde o meu hóspede anda? – perguntei irônica.
- Se você olhar para frente, na direção da sua porta, vai saber.
E quando eu olhei, ele estava parado, rindo. Sorri e mandei que ele entrasse.
- Custa avisar quando vai sair?
- Sentiu saudades? – ele perguntou rindo.
- Babaca.
Contei toda a situação e a conversa com Matt. Thiago saberia mais cedo ou mais tarde, quando eu chegasse em casa e falasse que não estava nem para a minha mãe.
- Eu concordo com o teu estagiário. Ta na hora mesmo de você resolver de vez esse problema, .
- Você sabe o que aconteceu, sabe o que eu sinto, dá pra ficar do meu lado?
Thiago pegou minha mão e me arrastou até o sofá.
- Presta atenção, . Eu sei de tudo, mas ta na hora de você se livrar desse fantasma todo. Odeio te ver assim, remoendo tudo o que aconteceu. Bola pra frente! – ele disse enquanto mexia na ponta do meu cabelo.
Mudamos de assunto e ficamos por algum tempo falando de coisas inúteis e sem sentido. Depois ele saiu para uma reunião com outra equipe da O2, já que não nos deixaram trabalhar juntos por eu conhece-lo há muito tempo e outras frescuras da empresa, e eu comecei a me arrumar para ir embora.
- Eu acho que seria uma boa ou você deixar essas flores aqui, ou sair pela porta dos fundos. Na verdade eu acho que seria uma boa você deixar as flores E sair pela porta dos fundos! – disse Matt olhando pela janela da minha sala.
- Credo, parece que eu to fugindo de alguém – eu respondi rindo.
- Basicamente isso! – ele disse estendeu a mão para que eu fosse até a janela.
Um grupo de jornalistas se aglomerava na porta do enorme edifício, provavelmente à espera de uma grande estrela.
- O que eu tenho a ver com isso, Matt? – perguntei temendo a resposta.
- Bem, alguns deles acompanharam a entrada de – respondeu ele me mostrando uma matéria que ele havia imprimido de um site de fofocas. O enorme buquê com pernas entrando no prédio. – E agora querem saber quem é a bonitinha que vai sair com todas essas flores. Quando você sair...
- Serei atacada por um bando cheio de perguntas, máquinas fotográficas, microfones, entre outros apetrechos – completei desanimada.
Parei e pensei. Se Matt e Thiago estivessem certos, se eu decidisse assumir o que eu tinha com e se isso facilitasse as coisas entre nós, por que não? Peguei meu buquê de rosas, acomodei-o em meus braços junto com minha bolsa e meu casaco e saí pisando firme.
- Vai onde, sua maluca? – Matt perguntou me seguindo.
- Resolver minha vida!
Desci sozinha para o hall do prédio, coloquei todas as minhas tralhas no sofá preto que havia ali e pude ver através da porta de vidro que uma movimentação maior do que aparentava da minha janela estava acontecendo. Alguns policiais ajudavam as pessoas que entravam e saíam do prédio e tentavam conter os jornalistas que queriam fuçar por todos os cantos atrás da misteriosa garota de .
Abri um sorriso satisfeito com minha decisão e peguei meu celular.
- Yep! – disse do outro lado da linha.
- Eu estive pensando – comecei manhosa – não quero que você saia da minha vida. De verdade, quero te ter comigo por anos e anos, mesmo que você seja meio cabeça dura e completamente nojento às vezes.
- Ahn, ? – ele perguntou incerto.
- Shiu, me deixa terminar. E decidi que sim, a gente pode assumir o que quer que exista entre nós, mesmo que você nunca tenha pedido nada e a gente se pegue, e muito, quando nos encontramos.
- Bom, fico muito feliz com isso, pequena. Eu não ia mesmo sair da sua vida, mas fico mais aliviado.
- É eu também. Então será que dá para começarmos essa nova fase com você me explicando qual a melhor maneira de se passar por um bando de jornalistas que estão só esperando eu botar meu nariz pra fora com esse monte de rosas?
ficou em silêncio por um tempo e depois se entregou a uma gostosa gargalhada.
- Eles estão aí te esperando, é? – perguntou enquanto ria. Muito por sinal!
- Não ria, seu besta. O que eu faço? É impossível passar por aqui. Eu vou te matar, , pode apostar!
- Não sai daí, eu vou te buscar.
Desligamos o telefone e eu fiquei ali, sentada, feito uma criança, esperando o bonitinho chegar. Palhaçada viu?
A agitação do lado de fora ficou mais intensa e eu pude ver passando pelo apertado corredor que os policiais fizeram. Ele sorria e parecia realmente feliz. O meu sorriso. Eu já havia escutado e falarem que ele só abria aquele sorrisão quando me via. Fiquei orgulhosa de mim mesma!
- Pequena! – ele me chamou quando me viu.
Levantei e cruzei os braços, fingindo estar muito brava. Ele se aproximou cauteloso e eu me joguei em cima dele. me abraçou e começamos a rir como duas crianças.
- Eu jamais planejei essa vida e estou ficando assustada! – eu disse passando meus braços por seu pescoço.
- Eu vou te proteger deles, não se preocupe!
Sorrimos cúmplices um para o outro e nos beijamos. estava realmente feliz e eu estava sendo contagiada por toda aquela felicidade. Depois ele me entregou minha bolsa e as flores e levou meu casaco. Abraçou-me pela cintura e saímos juntos do prédio, sendo ovacionados por milhões de perguntas, flashes e pessoas que tentavam nos ver.
me abraçou mais forte e me levou até o carro. Quando eu já me encontrava devidamente protegida, ele correu para o outro lado, entrou e acelerou, saindo do meio daquela confusão toda.
- Meu Deus, é sempre assim? – perguntei ainda em choque.
- Viu só o que os teus colegas de trabalho fazem? – ele retrucou rindo – Não podemos nem sair de casa, você devia se envergonhar disso, mocinha!
Dei um tapa na coxa de e ele riu mais ainda. Depois pegou minha mão, beijou-a carinhosamente e colocou-a sobre sua perna.
- Posso ao menos saber o que houve para que você mudasse de idéia tão rápido?
- Ah, sei lá – respondi indiferente. – Talvez já fosse a hora, né?
Ele me olhou em dúvida.
- Se você não quiser, não precisa, apesar de que agora é meio tarde para voltarmos atrás.
- Não me importo, sério. Melhor assim mesmo! – eu respondi. Devolvi o olhar e sorri.
me deu um rápido beijo e continuou a dirigir.
- Não vai entrar? – perguntei.
Estávamos parados em frente à minha casa, ainda dentro do carro.
- Tenho algumas coisas para fazer ainda, não posso demorar. Se eu entrar, não saio cedo! – ele disse e deu um sorriso maroto. – Vai fazer o que hoje?
- Bom, como uma boa menina vou dormir cedo porque trabalho amanhã. E você?
acariciou meu rosto com delicadeza e sorriu.
- Como um bom menino, vou para a minha casa dormir cedo porque a minha garota trabalha amanhã e não pode sair hoje!
Sorri toda boba com a resposta dele. Mulher é bicho besta mesmo! O celular de tocou e eu pude ouvir a voz exaltada de Fletch ordenando que ele aparecesse na Super Records em cinco minutos.
- Mas já está tarde para você ir até lá – eu resmunguei.– É perigoso, liga pra ele, fala que você passa lá amanhã!
- Se eu falar isso, ele corta minhas bolas! – respondeu rindo. – Eu tomo cuidado, prometo!
Fiz bico, resmunguei mais ainda, mas nada fez mudar de idéia. Parecia importante o que Fletch tinha a dizer.
- Tá, então me liga quando você chegar em casa, okay?
- Pode deixar! – ele disse.
Saí do carro e fui acompanhada por ele até a porta. Nos beijamos mais um pouco até que um flash disparou do meio da árvore que tinha do outro lado da rua. Rolamos os olhos e eu entrei. Nosso sossego acabara no exato momento em que ele entrou na O2 com todas aquelas flores, que agora eu equilibrava junto com meu casaco e minha bolsa. Mas mesmo assim ele estava feliz, eu estava feliz, estávamos felizes e felicidade de graça, é sinônimo de desgraça. Continue lendo, você vai entender o que eu quero dizer!
Capítulo 20 - Fall to pieces
Versão de
É, então, oi! Eu sou o , faço parte da banda McFly. Mas isso vocês já sabem. Eu tô saindo com a ! Isso vocês também já sabem, né? Bom, na verdade ela anda meio brava comigo, então eu vim aqui explicar pelo menos para vocês o que aconteceu, porque alguém teria que fazer isso.
Saí da casa da e fui direto e reto para a Super Records. Nosso adorável escritório no meio do nada. Uma pequena porta preta, perdida em um bairro nada amigável. Culpa do , que errou de telefone na hora de alugar o escritório. Nós falamos para ele ligar para o cara que tinha um lugar no centro de Londres, mas o besta trocou os anúncios e ligou para um da periferia. Não que eu tenha algo contra ao povo da periferia, nem é isso. Mas eu não curto levar o Bob até lá. Ah, Bob é meu carro!
Pois bem, eu fui até lá. Bob e eu, eu e Bob. Quando cheguei, vi o carro de Fletch parado em frente ao escritório. Parei atrás e entrei. Alguma coisa tinha acontecido e eu estranhei os outros três patetas não terem chegado ainda. Quando abri a porta, o empresário tão fofo que nós contratamos (Fletch!) veio voando para cima de mim.
- Ela vai fazer o primeiro exame oficial, amanhã! – disse ele sacudindo o pedaço de papel na minha frente. Se ele parasse, eu até tentaria ler!
- Ela quem? Que exame? – perguntei entediado.
- , ! Ela vai fazer a primeira ultra-sonografia, amanhã! Teu filho, lembra? – ele perguntou nervoso.
- Não lembro porque não é meu, se fosse eu lembraria. Mas enfim – eu respondi colocando meus pés sobre a mesa, o que me rendeu um tapa na perna – o que eu tenho a ver com isso?
Fletch respirou bem fundo, com certeza controlando o impulso de me estrangular.
- Você vai com ela, . E sem a sua namoradinha!
Recordando: o termo "namoradinha" estava sendo usado, no caso, se referindo à e isso não me deixou nada, nada, nadinha feliz.
- Ela não é minha namoradinha! – eu disse revoltado.
- Tão pouco sua namorada – ele retrucou. – Você nem ao menos pediu a menina em namoro, . Pela última vez, faça algo certo na sua vida, assuma esse filho, case com a e deixe a fora disso.
- Fletch, pela última vez eu vou dizer: eu não quero você se metendo em assuntos além do contrato. Não vou terminar com a e se o problema for pedir em namoro eu... ah, ela sabe que eu gosto dela, po!
- Se ela soubesse, teria te deixado já. Foca na tua carreira, . Faça o que é certo!
Eu levantei furioso e fechei minhas mãos. Se preciso fosse, eu bateria no Fletch.
- Fletch, eu não vou me casar com a , eu não vou assumir um filho que não é meu e não vou terminar com a . E não se fala mais nisso!
Saí andando e quando eu estava na porta, ouvi a voz de Fletch.
- Amanhã, às 9 horas, no hospital do centro. Não falte, !
Saí batendo a porta e fui para casa, acelerando o pobre Bob mais do que o limite. Nem quero ver as multas.
Eu estava me preparando para dormir quando meu celular tocou. É, sou eu, de novo! Achei estranho, ninguém me ligava tão tarde, a não ser que fosse para falar que aquela tia que eu não via há milênios, e que, sempre achava que eu tinha crescido um pouco mais, havia morrido.
- Alô?
- , sou eu – logo reconheci a voz de . – Posso passar na sua casa agora? Prometo que não vou demorar.
- Claro – respondi preocupada. – Aconteceu alguma coisa?
- Quando eu chegar, nós conversamos.
Desligamos o telefone e eu fui acabar de me arrumar. Prendi o cabelo e calcei minhas meias. Eu adoro andar de meias pela casa, é muito relaxante, sabem? Desci as escadas e me deparei com o casaco de sobre o sofá. Aquele que ele me fez vestir quando eu saí correndo na neve. Eu precisava devolver. Ou não. Que seja.
Pouco tempo depois, ouvi a campainha tocar e saí de pijama e tudo para atender. Meus vizinhos estavam acostumados já, então que se dane. Dessa vez não levei bronca por não estar vestindo um pesado casaco. O inverno tinha acabado e já era fácil sobreviver só com roupas normais. passou por mim, pegou minha mão e foi me puxando para dentro da minha própria casa.
- Eu estava de boa, mas agora estou realmente ficando preocupada – eu disse fechando a porta. – O que aconteceu?
Ele andava de um lado para o outro enquanto eu me empoleirava na poltrona da sala.
- Ela vai fazer uma droga de um exame amanhã e eu vou ter que ir junto! – ele esbravejou.
Nem precisei de explicação. Era óbvio que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Eles evitavam falar no assunto gravidez, mas se de fato a estivesse grávida, ela teria que ir ao médico. Bom, isso não era problema, certo?
- E qual a coisa ruim nisso, ? – perguntei com voz calma – É normal que ela tenha que fazer exames. Vai com ela e pronto, não tem nada de incrível.
- Você não entende, pequena? – ele respondeu ajoelhando na minha frente. – Ir com ela é assumir algo que não é meu.
- Não fale assim da criança, !
- Até você agora? – levantou e sentou na poltrona mais distante.
- Olha – eu disse me aproximando e sentando no braço da poltrona, enquanto mexia em seu cabelo. – Vai lá com ela, faz esse exame, eu vou contigo, te espero e depois a gente sai para passear, combinado?
me olhou receoso. Achou o que? Que eu fosse morder? Quase, mas não mordi!
- Esse é o problema. Eu não posso te levar.
Agora eu vou morder mesmo!
- Por que não? – perguntei irritada.
Ele deu um longo suspiro e pegou minha mão.
- Fletch disse que eu não posso te levar. Entendeu agora o motivo de eu não querer ir?
Fiquei alguns segundos olhando para um ponto fixo na sala. Certo, eram só algumas horas e logo ele estaria de volta. Mas que droga, eu nem devia me preocupar com isso afinal. Era só um exame! Então por que eu sentia que alguma coisa mudaria depois disso?
- Eu te espero aqui amanhã à noite – eu disse e beijei o topo da cabeça de .
Ele apenas sorriu, me puxou e me beijou. Aninhei-me em seu colo e acabei adormecendo. Sei disso porque no dia seguinte eu estava na minha cama e nem sinal de na minha casa.
Era sexta-feira! Thiago ia voltar para o Brasil no domingo, portanto estávamos mais grudados do que nos dias anteriores. Eu sentiria uma falta tremenda dele, não tinha a menor dúvida e a menor vergonha de dizer. Ele virou minha sombra naqueles últimos dias e foi comigo para todos os lugares.
- Bom dia Matt! – eu disse passando pela sala dele.
- Bom dia, – ouvi-o gritar de volta.
Acomodei-me na minha sala, que agora tinha alguns itens de decoração trazidos por Thiago, do Brasil, por Josh, de alguma feirinha livre de Londres, e por , que vivia deixando seus cacarecos na minha sala ou na minha casa. É por isso que eu sempre falo: dar liberdade para homem é um problema. Eles já saem dominando tudo.
Organizei minhas coisas sobre a mesa e, enquanto meu computador ligava, ouvi meu celular apitar. Uma mensagem de .
Bom dia, dorminhoca. Estou aqui no consultório para a droga de exame. Nos vemos à noite! .
Então tá, né? Mas ainda assim, mesmo com as nossas conversinhas ridículas ao pé do ouvido e nossos momentos casalzinho meloso, eu ainda me sentia extremamente incomodada com a tal consulta e tudo mais. Deixei isso meio de lado e resolvi trabalhar. Vários e-mails de atualizações do MTV Awards estavam chegando e eu estava me sentindo tão boba e com tanto medo que evitava abrir.
- Toc, toc. Posso entrar? – perguntou Jammie colocando a cabeça dentro da minha sala.
- Cunhada! – eu gritei animada e corri para abraçá-la. – Como você tá? E a Lizzie?
Passei a mão por sua pequena barriga que agora aparecia ligeiramente, mas que era escondida por uma blusa mais larga.
- Me matando com os enjôos, mas tudo certo – ela respondeu rindo. – Vim fazer uma visita rápida, tenho que passar no correio para enviar a minha matrícula para a França ainda.
- Ah que invejinha de você – eu disse. – Vai tirar fotos e mais fotos na torre Eiffel e vai me mandar, né?
- Claro! E você vai estar lá quando a sua afilhada nascer, certo? – ela me perguntou de forma meio ameaçadora.
- Sem dúvida alguma!
Botamos as fofocas em dia. Atualizei-a sobre o meu relacionamento com o , apesar de que o linguarudo do Matt já havia contado quase tudo. Enquanto conversávamos, fui visitando alguns sites de música e, como era de se esperar, saiu uma matéria sobre a consulta da infeliz.
: paizão presente!
- Manchete ridícula – eu resmunguei.
Jammie se esticou para ler e bufou.
- Eles não vão largar do pé de vocês dois enquanto isso não se resolver – ela disse irritada.
- Eu sei, mas nem me importo!
Mentira, eu me importava e muito. Fechei aquela página e desci para a cafeteria para tomar um lanche com Jammie. Falávamos sobre coisas bobas e sobre minha linda afilhada, que chegaria em cinco meses. Matt e Jammie ainda tinham esperança de me levar para Paris por alguns meses, até mesmo para ajudar com a menina. Por maior que fosse a minha vontade e por mais oportunidades que eu tivesse, não seria fácil sair dali e deixar tudo o que eu havia conseguido, em pouco tempo, para trás. Não até que eu tivesse um bom motivo para isso.
Capítulo 21 – I am
Quando eu era mais nova, umas das coisas que eu mais queria era que a minha avó me esperasse depois da escola, como ela fazia com a minha prima. Eu ficava com ela todo fim de tarde, olhando para a mesma direção, para o momento em que minha prima surgiria com seu uniforme branco e azul e com sua mochila sobre os ombros após uma tarde na escola.
Essa talvez seja a minha lembrança mais antiga. Eu tinha quatro anos, no máximo. Minha avó sempre foi minha grande força. Com ela eu aprendi que as pequenas coisas têm mais valor do que aquelas maiores e mais caras, porque geralmente vem do coração. E levei isso por muitos anos na minha vida. Um simples abraço vale mais do que um presente.
Pequenas coisas podem mudar nossas vidas de forma drástica, mesmo que não nos pertençam. E foi o que aconteceu naquela sexta feira. Enquanto eu tomava meu café e Jammie devorava ferozmente um pedaço de bolo de chocolate, vi entrando sorridente. Quando me viu, veio quase saltitando na minha direção.
- Oi Jammie – cumprimentou ele beijando-a no rosto. – Oi .
me deu um rápido beijo e sentou ao meu lado.
- Bom, eu vou indo – disse a gulosa que estava na minha frente. – Vou passar para dar um oi pro Matt antes. Juízo, hein?
Jammie mandou um beijo no ar e saiu, levando consigo o resto de seu bolo.
- Como foi lá? – perguntei ansiosa.
- , é incrível! Eu demorei a achar o bebê na tela sabe? Ele é muito pequenininho, você não tem idéia – ele ia contando e sua animação aumentando. – Depois quando eu encontrei, fiquei em choque. Eu já fui daquele tamanho!
- Eu vi a foto na internet – eu disse mexendo meu café. – Ela parece estar bem.
- Está! Nem enjoando nem nada, está ótima. O bebê também.
- Que bom, – respondi sentindo um vazio no peito.
Ele estava tão feliz que, por um momento, parecia ter se esquecido que aquele filho não era dele como ele mesmo fazia questão de dizer aos quatro ventos.
Os dias foram passando, o MTV Awards se aproximando. Jammie já havia embarcado para Paris, Thiago já havia voltado para o Brasil. Eu me dividia entre ajudar Matt a se organizar antes de viajar, cuidar dos meus projetos, encontrar uma boa desculpa para recusar a oferta de morar na França, por um ano, feita por meu chefe. Além de manter minha sanidade mental por conta das muitas fotos que saíam de e indo ao médico. Fletch estava marcando em cima e eu sabia que era uma questão de tempo para que o tal exame de DNA saísse e tudo fosse resolvido. O que eu não tinha mais tanta certeza era que queria mesmo que aquilo desse negativo.
Por causa dessas correrias todas, nós mal nos víamos e sempre conversávamos por telefone ou mensagens pelo celular. Nas poucas vezes que nos encontrávamos, ele falava por horas sobre o tal bebê e, quando não, nos beijávamos ferozmente até eu cortar o clima e não ceder. Tivemos um briga séria por conta disso, mas se eu não queria transar com ele antes por causa do meu passado tenebroso, agora com essa animação dele por causa do bebê, menos ainda!
- Hoje à tarde vamos fazer o exame de DNA – disse sem emoção.
Estávamos no sofá da minha sala na O2, ele sentado e eu com a cabeça deitada em seu colo.
- Está com medo do resultado? – perguntei olhando em seus olhos.
- Um pouco – ele respondeu sem jeito. – Depois desse clima todo de bebê para cá, filho para lá, eu acho que me envolvi demais.
- É normal – eu disse e ele abriu um pequeno sorriso. – Mas você vai ter os seus filhos, pode ter certeza.
- Vou? Quantos filhos você vai me dar?
Sentei no sofá e ri. Não sei se ter filhos estava nos meus planos. Se estiver, com certeza não está nos próximos cinco anos.
- Eu? Não sei nem se terei filhos, !
Ele não pareceu gostar muito do que ouviu e isso foi o que faltou para a nossa bomba explodir de vez.
- Sabe, talvez seja por isso que eu tenha me envolvido tanto com esse assunto da e do filho dela – ele se levantou e me encarou. – Parece que pelo menos dali sai uma família. Entre a gente, nem sexo rola.
- Eu já te falei que tenho os meus motivos, você disse que esperaria.
- E eu estou esperando, . Muito por sinal!
Senti minha cabeça girar e meu estômago se retrair. Cedo ou tarde aquilo aconteceria e eu devia ter me preparado para a grande explosão.
- Se isso é um problema para você, por que você não fica com ela de uma vez? Vamos combinar que a gente não tem mais nada, né? Quando conseguimos nos ver, você passa horas falando do teu filho ou tentando me arrastar para a cama. Eu nem sei mais nada sobre você.
- Nem eu sobre você, . Que droga de motivo é esse que te impede de transar comigo?
Levantei e fiquei de frente para . Se ele achava que me intimidava, ele saberia que estava totalmente errado.
- Um motivo que só cabe a mim e a quem mais eu quiser que saiba, na hora que eu quiser e quando eu quiser. Se você não está satisfeito com isso, , não posso fazer nada.
Sentei em minha cadeira e ele ficou me olhando. Suspiramos juntos. Estava tudo tão cansativo, tudo tão ruim. Eu sentia a cada dia que passava que aquele seria o último, e esse último se prolongava me matando por dentro.
- Você não entende – ele disse em voz baixa.
- eu... – minha voz falhou e eu senti grossas lágrimas molharem meu rosto. – Eu não agüento mais. Você não vê? Eu estou carregando tudo sozinha! Eu prometi que estaria ao seu lado esse tempo todo e estive. Não estou cobrando nada, mas eu estou cheia! Meu melhor amigo foi embora, minha melhor amiga mudou para Paris, o Matt vai nessa noite. Eu tô perdendo tudo e não tenho ninguém para me ajudar!
Parece que uma luz se acendeu diante dos olhos dele e ele me abraçou forte. Permiti-me chorar ali, sem dó nem piedade de mim mesma, molhando a camisa de enquanto suas mãos acariciavam minha cabeça. Eu estava no meu limite.
- When you think that no one's there to hold your hand... I am (quando você pensa que ninguem está lá para segurar sua mão... eu estou) – cantou ele baixinho nos meus ouvidos. – Eu preciso ir. Vou me atrasar para o exame!
- Tudo bem – eu disse desencostando meu rosto de seu peito. – Nos vemos à noite na premiação.
- Na premiação que a minha pequena vai sair vencedora! – me deu um beijo carinhoso e saiu.
Versão de
Eu de novo! Não me matem, eu sei que fui um péssimo namorado esse tempo todo. Eu não pedi a em namoro, mas era como eu me sentia. Saí do escritório e fui direto fazer o exame. me encontrou lá.
- E aí, dude?
- Que cara de enterro é essa? – perguntou ele.
- Discuti com a de novo. Ela disse que está cansada, que não agüenta mais, que todo mundo tá indo embora, que ela tá sozinha.
- Eu achei até que ela demorou a ter essa crise toda – disse . – Vamos combinar que de coisa ruim na vida dela tem de sobra, né?
- Como assim? – perguntei ainda confuso.
- Bom, três amigos indo embora, ser abandonada pelo namorado por causa da ex dele e do filho que ele renegou até algumas semanas atrás não é a coisa mais fácil do mundo.
- Ei, eu não abandonei a !
- Ah, , cai na real. Você mal fala dela agora, é só sobre essa criança. Eu acho bom esse resultado dar mesmo negativo, senão eu vou te quebrar!
Não tive tempo de responder, fui chamado para fazer a coleta de sangue. O resultado sairia no dia seguinte e seria a espera mais longa da minha vida. Talvez o estivesse certo. Talvez eu tivesse abandonado a . Mas eu a compensaria e já até imaginava como. Eu sei que ela ficaria feliz.
Contei meu plano para o meu amigo babaca e ele gostou. Fiz o exame e fui para a minha casa, me arrumar para a premiação do MTV Awards.
Eu não estava no menor clima para festas e não queria mesmo ir. Josh chegaria em alguns minutos para fazer a minha maquiagem e eu só queria dormir.
- Vamos lá, muda essa carinha! Esse resultado sai amanhã e vai ficar tudo bem! – ele disse enquanto limpava minha pele.
- Não sei Josh, acho que nunca mais vai ficar tudo certo depois do que ele falou sobre família e tudo mais.
- Besteira! Agora fica quieta senão vou te deixar toda colorida.
Eu seria acompanhada por Matt e Josh até a premiação e encontraria com o McFly no local. Teríamos uma fileira de cadeiras só para nós e eu ficava mais nervosa a cada minuto. A limusine que levava os candidatos aos prêmios chegou por volta das 20 horas na minha casa. Matt entrou primeiro, depois eu e depois Josh. O plano de entrada triunfal dos dois era fazer com que eu fosse sempre ladeada por eles, mostrando o quão importante eu sou. Amo esses meninos.
Chegamos ao teatro onde seria realizado o evento e meu maquiador desceu primeiro. Sua cara não foi das melhores quando ele estendeu a mão para mim e olhava em algum canto do imenso tapete. Peguei sua mão e saí do carro, seguida por Matt, e tenho certeza que fizemos todos a mesma cara de espanto ao ver tirando uma foto com . Suas mãos pousavam sobre a barriga dela, fazendo o desenho de um coração.
- Vamos entrar de uma vez – disse Matt me puxando pela mão.
Passamos pelos meninos do McFly, que vieram alegremente me dar oi, exceto , que parecia ocupado demais para ao menos se lembrar que eu estaria ali. Atravessamos a porta do teatro e fomos guiados para a fileira que nos foi reservada. Sentei entre Matt e Josh, para não ter que sentar ao lado de .
O McFly entrou em cima da hora, quase ao mesmo tempo em que a premiação começou. Minhas mãos suavam frio e eu ignorava qualquer tentativa de conversa com , apesar de ele ter tentado várias vezes.
- Se você não calar a boca agora, eu juro que te arrebento aqui mesmo – ouvi Matt dizer ente os dentes e constatei que ele estava mandando ficar quieto.
Os minutos pareciam horas e eu não agüentava mais esperar pelo glorioso momento em que eu sairia daquele lugar e iria embora.
- Vamos anunciar agora o vencedor do Melhor Clipe – disse a apresentadora em uma voz enjoada. – E o prêmio vai para...
Odeio esses suspenses idiotas!
- McFly, com Falling in Love! – gritou o outro apresentador.
Os meninos levantaram, pularam, se agarraram. Matt e Josh me abraçaram juntos.
- Eu sabia que você era capaz, eu te disse!
- Minha princesa ganhou! – disse Josh me dando um beijo melado na bochecha. Senti o peso
sobre mim aumentar e vi , e me esmagando enquanto riam descontroladamente. Depois, saíram correndo em direção ao palco. me abraçou e eu deixei que ele me beijasse ali, na frente de todos. A essa altura do campeonato, eu não me importava com mais nada.
- Bom – começou – queremos agradecer por terem votado no nosso clipe. Agradecer a toda a equipe da O2, que foi sensacional.
- Sem esquecer é claro de agradecer a pessoa mais importante e que merece esse prêmio mais do que nós! – continuou.
- , sobe aqui! – gritou me chamando para subir ao palco com eles.
Matt e Josh praticamente me empurraram. O clipe passava no telão ao fundo do palco e as pessoas pareciam se divertir com as cenas dos meninos caindo. Fui para perto dos meninos, que me abraçaram ao mesmo tempo em que me entregava o troféuzinho que representava a nossa vitória.
- Eu – eles não me deixavam falar de tanto que me agarravam. – quero agradecer também a todos que votaram. Meu primeiro clipe com esses quatro e já me rendeu um prêmio tão importante. E é claro dedicar ao , ao , ao e ao , que me aturaram por alguns meses até que as gravações fossem terminadas. Muito obrigada!
Fomos ovacionados com aplausos, assovios e gritos. Eu estava em uma felicidade única, era o meu primeiro prêmio. Descemos correndo para voltar aos nossos lugares e minha alegria toda se foi quando vi abraçando . Ele lhe deu um demorado beijo na testa, acariciou sua barriga e sentou-se ao lado dela.
- ? – Matt me chamou.
- Pra mim chega! Vamos embora! – eu disse e me levantei, saindo dali sem que ninguém percebesse.
- O que você vai fazer? – disse Matt quando entramos na minha casa e eu corri pegar uma mala.
- Liga para o nosso chefe, ele está no Brasil. Lá ainda não anoiteceu, diz para ele que eu aceito sim a oferta dele!
- Princesa, pensa bem! Isso vai mudar muita coisa na sua vida! – Josh me seguia do meu quarto ao banheiro.
- Chega, Josh, eu não agüento mais. Já doeu o suficiente, eu jurei que ele nunca acabaria com a minha vida.
Matt falava com o dono da O2, eu arrumava minhas malas e Josh ligava para o aeroporto. Tinha que ter alguma passagem para o dia seguinte, no mesmo vôo que o de Matt.
- Tudo certo! – disseram os dois juntos.
- Agora tenta descansar. Amanhã eu passo aqui bem cedo! – disse Matt beijando minha testa. – Estou feliz que você tenha tomado essa decisão, apesar de não estar tanto pela circunstância que ela foi tomada.
Josh me abraçou e em poucos segundos pude perceber que ele chorava.
- Josh, não – eu dizia enquanto acariciava seus cabelos. – Não chora, por favor!
- Eu vou sentir saudades, princesa – disse ele secando o rosto. – Mas vai ser bom para você. E eu sei que o Matt e a Jammie vão te fazer esquecer tudo isso!
- E a Lizzie! – disse Matt animado.
Nós três nos abraçamos e, depois de uma sessão tripla de choro, os meninos me deixaram sozinha para que eu descansasse. Ou era o que eu deveria ter feito.
Capítulo 22 - You should know by now
Eu levantei mais cedo, disposto a fazer o que tinha dito a . Eu tinha percebido, depois do desabafo da , que ela estava certa e que sim, eu a amava. Por mais que eu errasse, por mais que eu nunca tenha dito nada sobre namoro, eu a amava. Ela era a mulher da minha vida e eu não ligava mais se teríamos filhos ou não. Eu esperaria o tempo que ela quisesse, porque o mais importante era tê-la ali, comigo, cuidando de mim. Saí correndo para o primeiro pet shop que eu encontrei. Eles deveriam ter ali o que eu procurava. Não tinham. Segundo, terceiro, quarto... estavam acabando as opções. Até que uma senhora salvou a minha vida.
- Rapazinho, eu sei de alguém que tem o que você procura – disse ela sorrindo simpática.
No mesmo instante fui ao local que ela indicou e ali estava, pequeno, branco, fofo. Mentalizei a carinha de felicidade que a faria quando o recebesse e, sem nem ao menos perguntar o preço, eu decidi.
- Vou levar esse!
Não preguei os olhos a noite toda. Não foi fácil pensar em tudo o que eu estava deixando para trás, mesmo que só por um ano. Minha casa ficaria fechada, aos cuidados de Josh, para quando eu voltasse. Jammie e Matt também retornariam em breve, então não teria por que nos desfazermos de tudo o que tínhamos em Londres. Terminei de arrumar minhas coisas, peguei todos os meus documentos. Sentei-me à frente do computador, sem coragem de ligá-lo. Naquele dia sairia o resultado do exame feito por e eu morria de medo que isso intereferisse na minha decisão. Não podia, de qualquer forma. Eu iria embora e pronto. Eu precisava daquilo, eu tinha que ir. Por mais drama que Josh fizesse, por mais que doesse, por mais que pudesse me odiar depois e me abominar por ter ido embora ser me despedir, isso seria bom. Estava mesmo na hora de reconstruir a minha vida e dessa vez ninguém iria atrapalhar.
Passei na casa de para lhe mostrar minha façanha. Ele riu e disse que ficaria tão apaixonada pelo presente que nem sequer lembraria de mim.
- Não que você não mereça – disse ele em tom raivoso. – Ela foi embora da premiação e você nem se tocou, seu idiota!
- Eu sei , isso não vai mais acontecer.
Conversamos por mais um tempo e eu fui para o hospital, onde me encontraria com Fletch e pegaríamos o resultado do exame. Qual não foi minha surpresa quando vi correndo na minha direção. Mas que diabos ele estava fazendo ali?
- Vai embora, vai – ele corria, ria, acenava. Tudo ao mesmo tempo. Incrível para um ser como !
- O que houve, animal? – perguntei desconfiado.
- Deu negativo! Não é seu! – ele disse se jogando em cima de mim – Eu sempre soube que você era gay demais para isso! Agora vai falar logo com a !
Eu apenas ria, mas me sentia meio estranho por dentro. Por um lado eu estava radiante. Finalmente eu poderia ficar com a sem ninguém me atrapalhar. Mas confesso que um filho aqueceu um pouquinho meu coração. Ah, dane-se, eu teria um time de futebol com a mulher que eu amava e isso me deixava feliz. Abracei e entrei no carro, indo até a minha maior felicidade: .
Eram 10 horas da manhã quando Matt apareceu. Teríamos tempo apenas de fazer o check-in, embarcar e Jammie estaria nos esperando no aeroporto de Paris. Eu estava animada... ê!
- Tá que ir embora não é legal, mas essa tua cara de enterro tá me matando de verdade agora – disse Matt colocando minhas malas no táxi.
Me despedi rapidamente de Josh. Não queria chorar de novo, não podia chorar de novo por uma coisa que seria boa para todos.
- Logo eu vou visitar vocês, me mantenham informado sobre a minha afilhada...
- JOSH! – gritou Matt – A gente realmente tem que ir, dude!
Abracei-o mais uma vez. Seria apenas por um ano, não tinha como ser tão ruim assim. Matt ligou para Jammie para avisar que estávamos indo para o aeroporto. Entreguei as chaves da minha casa para Josh e fui para o carro.
- Boa viagem – disse Josh.
Apenas sorri e acenei. Quando o carro começou a se afastar da minha casa, abracei Matt e fechei meus olhos com força, tentando apagar tudo o que eu tinha vivido até então.
Eu dirigia tranquilo, sorrindo feito bobo. Quando estava me aproximando da casa de , senti meu coração bater mais forte. Estava tudo fechado, ela com certeza estaria dormindo. Seria a maior surpresa quando ela acordasse com a campainha tocando e visse o que eu tinha comprado para ela e a notícia que eu estava levando. Eu só torcia para que ela não estivesse com o laptop na cama, senão ela teria visto. Levei cerca de meia hora para chegar até lá. O trânsito em Londres estava cada vez pior! Quando estacionei, Josh saía da casa dela e trancava a porta. Ele tem a chave e eu não. Legal!
- Bom dia Josh – eu disse animado e ele pareceu surpreso.
- ? Tá fazendo o que aqui?
Não era óbvio?
- Vim falar com a . Ela está dormindo ainda, não está? – eu parecia uma criança de tão animado. - Deu negativo, Josh! Eu preciso contar para a ... Josh, o que houve?
Sério, o cara ficou branco, parecia uma folha de papel. Ouvi um resmungo baixo vindo do carro e olhei a tempo de ver o pequeno ser aparecer na janela.
- O que é aquilo, ? – Josh perguntou se dirigindo até meu carro. – O que esse filhote de bichon frise está fazendo no seu carro?
Ele me olhava espantado e eu confesso que fiquei com medo.
- Ah – eu disse abrindo a porta e pegando o pequeno filhote. – A me disse uma vez que ela tinha um desses no Brasil e que sentia muita saudades dele. Você acha que ela vai se importar se for fêmea? Não tinha machos nessa ninhada e eu queria muito dar um Bichon Frise de presente para ela.
A pequena cachorrinha se aninhava no meu colo cada vez mais. Ela era bem dengosa, igual à . Fariam uma dupla perfeita! Mas algo estava errado e eu podia sentir. Josh ainda tinha o horror espantado em sua cara e não podia ser por causa de uma pequena bola de pêlos.
- Ela foi embora, – ele disse de uma vez.
- Como?
- A foi embora para Paris com o Matt! Acabaram de sair, ela embarca em apenas algumas horas, vai passar um ano lá.
Eu devia estar apertando a pobre cachorrinha, porque ela resmungou e novamente se ajeitou no meu colo. Ela tinha ido embora?
- Josh, não tem graça! Odeio essas brincadeiras, cara. Abre a porta e me deixa acordar a , vai!
- Eu não estou brincando . Ela deixou a chave comigo para que eu cuidasse da casa dela. Mas ela não está mais aqui. Talvez se você correr... você consiga trazer a de volta.
Eu senti que era o que ele queria. Josh não parecia muito feliz com a idéia de sua princesinha ir embora com o estagiário dela. Coloquei a cachorrinha de volta no carro e entrei pelo lado do motorista. Tinha que dar tempo, eu não podia simplesmente perder a assim. Paris nem era tão legal e as pessoas não tomam banho no inverno lá. A não ía ser feliz. Eu não ía.
- Vamos perder o vôo, Matt, corre! – Eu gritava por cima dos meus ombros enquanto tentava apressá-lo.
- Ah, claro, vem você empurrar esse mundo de malas que você está levando! É só um ano, não uma vida, sabia?
Sim, eu sabia, mas sabem como são as mulheres né? Chegamos ofegantes até o guichê da nossa companhia aérea e fizemos o check-in com uma mulher com cara de mal amada. Ela nos aconselhou a correr e Matt riu irônico.
- Certo, como se eu tivesse feito outra coisa hoje além de correr.
Cutuquei sua cintura e ele me olhou feio. Quando a mal amada me entregou minha passagem e pegou minhas malas, um filme começou a passar pela minha cabeça. Quando cheguei, tudo era diferente. Era novo. Eu estava sozinha e um cara estranho me encontraria. Agora eu estava indo viajar com esse mesmo cara estranho, para um lugar totalmente diferente, onde as pessoas falavam fazendo bico e eu só sabia dar bom dia, boa tarde, boa noite e agradecer. Seria legal, claro. Tá, não seria nada, eu estava fugindo de um pequeno problema e que se dane os bicos! Eu só precisava sair de Londres por um período, mesmo que fugir não nos livre de porcaria nenhuma.
Não tivemos que esperar pelo embarque, pois nosso avião já estava sendo anunciado. Corremos mais um pouco e apresentamos nossa passagem. Sem entender o motivo, um aperto enorme tomou conta do meu coração e, enquanto o comissário conferia os horários nos bilhetes, grossas lágrimas brotaram dos meus olhos, molhando minha blusa e, quem sabe, aliviando um pouco do que eu estava sentindo. Eu só não sabia explicar o motivo daquela dor...
Corri, corri muito. Mais uma coleção completa de multas, mas isso não importa. Estacionei de qualquer jeito no aeroporto e corri, dessa vez a pé, com a pequena cachorrinha em meus braços. Eu precisava entregá-la à e, pela primeira vez, me senti como um fã que necessita entregar um presente importante ao seu ídolo. Mas eu era isso, eu era fã da por sua coragem, força de vontade, por tudo. Eu precisava entregar não só a cachorrinha, mas o meu coração pra ela. Isso é gay de tudo, mas é o amor, cara. Eu precisava mostrar o quanto a amava.
- Desculpe, mas essa área é apenas para passageiros. O senhor tem um bilhete? – perguntou o segurança da sala de embarque.
Bilhete, que mané bilhete?
- Moço, eu só preciso impedir a mulher da minha vida de ir embora...
- Ah, claro, e a minha mãe vai pilotar o avião – ele respondeu sarcástico. – É melhor o senhor se retirar, por favor.
Não ía adiantar eu discutir com ele. Tentei ligar no celular da , mas estava desligado. Quase soltei a cachorrinha e pedi para ela trazer a , mas o máximo que ela faria era deitar de barriga para cima para receber carinho. Ouvi então um vôo ser anunciado como autorizado...
Entrei no avião, procurei por minha poltrona e me acomodei. Por que eu sempre sentava perto do banheiro? Eu nem passava mal, poxa! Matt se acomodou ao meu lado e, como da última vez em que viajamos juntos, eu fui na janela. Percebi o quão mal eu estava quando vi lá longe alguém pulando com alguma coisa branca nas mãos. Por um momento achei que a pessoa estivesse falando comigo. Mas com certeza não era. A única pessoa que eu ainda esperava que aparecesse devia estar ocupado demais para se lembrar que eu existia. E então, o avião começou a se movimentar...
Eu pulava feito um louco, gritava e, acreditem, chorava. Eu a achei. Na última janela. Ela estava me olhando. Ou eu estava apenas sonhando? O avião começou a sair do pátio, indo para a pista. Não podia ser, ela não podia me deixar assim. Abracei a pequena cachorrinha, que parecia sentir a minha dor e apenas olhava o avião. Depois de várias manobras, vi o enorme e branco veículo ganhar velocidade e altura... demorou para eu entender... que ela se foi.
...that I can't forgive you!
FIM
Comentários da autora: (9/7/2009) Acabou! Você fez o que tinha que fazer. Pena que a cachorrinha ficou, né?
Bom, eu queria agradecer a todos que leram a fic, comentaram, deram dicas, criticaram. Tudo isso ajudou na construção de cada capítulo. Se quiserem votar nela para fic do mês ou do ano, fiquem à vontade! ;)
Quando eu falei da filhote de Bichon Frise na verdade foi uma homenagem ao meu cachorro, Igor, que é um Bichon Frise. E eu queria de alguma forma colocar o meu pequeno na história. Porque ele simplesmente merece, já que é um cachorro sem igual.
Obrigada também para a Carolis, que pegou os últimos capítulos da fic e cuidou dela com tanto carinho. Bruna Jones, que divulgou no twitter alguns pedaços da fic, deixando o povo curioso para ler. Juliane, que sempre resmunga quando eu falo na Izzy. Lucas, Thiago, que sem saber, entraram para a história, seja com a banda ou como o irmão que eu de fato consegui.
E agora que você se foi, como fica? Você quer voltar? Pense nisso... ;)
Mariana
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